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“Os Spurs vencem o mundo!”

“Os Spurs vencem o mundo!”. Foi com estas palavras que, na manhã de 11 de Julho de 1978, o periódico Daily Express chocou todo o universo do futebol inglês. Não porque o Tottenham Hotspur acabava de contratar dois jogadores que, recentemente, se haviam sagrado campeões do mundo, mas antes porque os argentinos Ricky Villa e Osvaldo Ardiles se tornavam os dois primeiros atletas estrangeiros a ingressarem na principal competição do futebol inglês depois de um interregno de quase 50 anos – de 1931 a 1978 – em que os clubes ingleses estiveram proibidos, pela Federação Inglesa (FA), de contratar jogadores que não tivessem nascido em solo britânico (abrir-se-ia, no entanto, uma exceção caso o jogador tivesse vivido no país pelo menos durante dois anos). A legitimidade da regra imposta pela FA cessou quando, em Fevereiro de 1978, a Comunidade Europeia estipulou que as federações/associações de futebol dos estados membros da comunidade não poderiam inviabilizar o ingresso de atletas nos seus campeonatos com base na nacionalidade dos mesmos, acabando assim com uma medida discriminatória e de cariz xenófobo.
Mais do que atletas de elite, Ricky Villa, Osvaldo Ardiles, Alberto Tarantini e Alejandro Sabella (todos eles ingressaram na Football League First Divison no verão de 1978) foram pioneiros ao realizarem o trajeto transcontinental da América do Sul para Inglaterra (na altura um país que futebolisticamente era pouco atrativo para os sul-americanos) e marcaram o início de um novo capítulo na história do futebol inglês.
Mais de 30 anos volvidos, e depois de jogadores de mais de 100 nacionalidades diferentes terem pisado os relvados britânicos, imaginarmos o futebol inglês sem a presença de jogadores estrangeiros é algo de impensável e até mesmo utópico. De resto, foram estes jogadores que contribuíram para a modernização e ascensão do futebol inglês e que fizeram da Inglaterra o palco de futebol mais atrativo de todo o planeta.
Albergando jogadores de 61 nacionalidades e de todos os cantos do mundo, a verdade é que os atletas oriundos da região da América do Sul têm vindo a destacar-se dos seus homólogos nas recentes edições da Premier League, sendo o seu impacto na competição bastante significativo (e estatisticamente comprovável) e de contínua ascensão desde o início do século XXI. Este destaque é de particular interesse atendendo às diferenças culturais do futebol praticado na região sul-americana e àquele praticado em Terras de Sua Majestade, que aliado aos entraves burocráticos impostos pela FA, dificultou, durante muitos anos, o ingresso dos seus ancestrais na principal competição inglesa. Ainda que tenhamos, nos anos 90, contemplado a qualidade de jogadores como Faustino Asprilla, Nolberto Solano (ambos ao serviço do Newcastle United), Gus Poyet (Chelsea FC e Tottenham Hotspur), Hamilton Ricard e Juninho Paulista (ambos representaram o Middlesbrough), a verdade, é que nada fazia prever a invasão levada a cabo pelo contingente sul-americano em solo inglês com a viragem do século.
Para o sucesso da armada sul-americana, em muito contribuíram jogadores como Gilberto Silva (Arsenal), Juan Pablo Ángel (Aston Villa), Edu (Arsenal), Juan Sebastián Véron (Manchester United e Chelsea FC) e Gabriel Heinze (Manchester United) que conferiram um novo estatuto e mudaram mentalidades em relação ao “jogador das américas”, trilhando o percurso para que jogadores como Roque Santa Cruz (Blackburn Rovers e Manchester City), Carlos Tévez (West Ham United e Manchester United), Javier Mascherano (West Ham United e Liverpool), Lucas Leiva (Liverpool) ou Antonio Valencia (Manchester United) tivessem oportunidade de provar o seu valor na competição mais apaixonante do globo. Obviamente, nem todas as apostas atingiram o sucesso dos casos supramencionados, não sendo raros os exemplos de jogadores de qualidade inquestionável que defraudaram as expectativas durante o seu período em Inglaterra: Hernán Crespo, Júlio Baptista, Diego Forlán, Kléberson, Robinho, Elano, Jô…
A verdade é que nem a Inglaterra conseguiu ficar imune ao fenómeno da globalização e, hoje, vemos cada vez mais jogadores de ascendência sul-americana a assumir as rédeas das principais equipas da Premier League. Aliás, estes jogadores integram o núcleo duro de grande parte das principais equipas da competição e se no passado a América do Sul se assumia como um bom mercado para a importação de atletas de características ofensivas, a verdade é que, no presente, também os jogadores que atuam no primeiro terço do terreno começam a construir o seu legado em Inglaterra. O mercado de transferências deste verão foi particularmente animado no que respeita ao ingresso de sul-americanos na prova mãe de Inglaterra. Ainda que a família sul-americana adotada pela Inglaterra tenha sofrido duas baixas de peso na janela de transferências de verão, com a partida de Luis Suárez e David Luiz para Espanha e França, respetivamente, a verdade é que as novas caras que ingressaram na Premier League garantiram que a competição continuasse a catapultar-se qualitativamente. A revolução operada pelo “general” Van Gaal em Manchester fez jus ao epíteto de Old Trafford e promoveu a contratação de Ángel Di María, ao fim da época mais brilhante da sua carreira, e de Radamel Falcao, que, em forma, é, provavelmente, o animal de área mais temível do planeta. Em Stamford Bridge o natal chegou com alguns meses de antecedência e Roman Abramovich presenteou José Mourinho com a contratação de Diego Costa, que, após uma época extasiante no Vicente Calderón, está a assumir-se como uma das principais figuras da sua equipa e da competição, providenciando aos Blues os ingredientes dos quais careciam na época transata. Já na região norte de Londres, o Arsenal acolheu Alexis Sánchez que, até ao momento, tem ridicularizado os seus colegas de profissão que precisam de meses para se adaptar ao futebol e à cultura inglesa, assumindo-se como o principal ganha-pão dos Gunners. 
Se antigamente a escassez de jogadores sul-americanos na Premier League era apontada como um dos grandes entraves à adaptação dos jogadores ao estilo de vida e de jogo inglês, nos dias que correm, são aproximadamente 50 os “compatriotas” que compõem a comitiva sul-americana por Terras de Sua Majestade.
Pese embora o facto da “invasão” sul-americana se estender a todas as zonas do terreno de jogo, a verdade, é que é na arte de marcar golos que estes se têm destacado com maior particularidade. Na época 2013/2014, vimos Luis Suárez sagrar-se melhor marcador da Premier League, com 31 tentos (seria, concomitantemente, o segundo jogador com mais assistências para golo da competição). No top 5, figurou ainda um outro jogador oriundo da América do Sul, Sergio Agüero, com 17 golos apontados.
Se na temporada transata, a América do Sul cedeu dois jogadores ao top 5 de melhores marcadores da Premier League, este ano, o seu impacto tem sido ainda mais significativo e, de certo modo, avassalador, visto que nessa lista figuram, até ao momento, três jogadores oriundos da região sul do continente americano: Sergio Agüero, Diego Costa (ambos líderes da tabela com 14 golos) e Alexis Sánchez (4.º classificado com 10 golos).
A estatística não engana, e se os golos são a moeda em circulação no mundo do futebol, então, a América do Sul é a região do planeta que conta com os ativos mais valiosos na “economia” inglesa. Estes dados surgem, um tanto ou nada, como irónicos, atendendo que a Inglaterra sempre foi um país com uma grande tradição patriótica no que respeita ao seu futebol. Ainda assim, revelam que a Premier League começa, agora, a seguir a tendência dos campeonatos vizinhos, abrindo as suas portas, não só à Europa, mas ao Mundo.
Hoje, verificamos que o futebol é uma das áreas laborais que mais recursos humanos movimenta e que está, intimamente, associada aos movimentos migratórios intercontinentais, tendo estes como principal área de destino o velho continente, a Europa, o habitat de excelência para a prática deste nobre desporto. Assim, os clubes ingleses, apesar da sua cultura e tradição, viram-se obrigados a adaptar-se às correntes que vigoram na contemporaneidade de modo a não verem a sua liga qualitativamente suplantada pelas suas homólogas.
Curiosamente, a Inglaterra tem sido capaz de realizar este processo transitório com uma apurada mestria, visto que a incursão a mercados estrangeiros não tem, por enquanto, inviabilizado a afirmação do talento dos seus nativos. Aliás, recentemente tem despontado uma das melhores gerações de talentos de toda a história do futebol inglês e que vaticina um futuro de bonança para a seleção dos três leões. No entanto este fenómeno de globalização da principal competição inglesa é recente e, portanto, as suas repercussões só serão sentidas a longo prazo.
Não obstante os riscos que corre, o futebol inglês sempre se mostrou capaz de enfrentar e resolver as adversidades com que se deparou e tem, nos últimos anos, dado provas de estar um passo à frente dos seus vizinhos, logo, não deverão haver motivos para alarme. Por enquanto, deixemo-nos deleitar com o espetáculo, com as emoções e com o ambiente frenético que estes génios do futebol nos proporcionam semana após semana!

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Pedro Pateira

0 Comentários

  • Tomas Ferra de Sousa
    Posted Janeiro 13, 2015 at 1:58 am

    Este artigo poderia incluir a queda do campeonato italiano. Depois do Ac Milan ter ganho a Champions com o Kaka a ser figura de cartaz e por ultimo o Mourinho com Diego Milito como matador, nunca mais se viu nenhum clube capaz de disputar o que quer que fosse a nivel internacional devido a falta de adaptacao da nova realidade futebolistica. Mas mesmo aí é um sul americano ( Carlos Tevez) a comandar a lista de melhores marcadores

  • Kacal I
    Posted Janeiro 3, 2015 at 4:33 pm

    Concordo com o texto mas também há jogadores ingleses a brilharem nas suas equipas na Premier League, exemplos de Sturridge (pena a lesão), Sterling, Berahino, Charlie Austin, Lallana, John Terry, etc, e europeus como Hazard, Fàbregas, Silva, entre outros, portanto não é só sul-americanos, é verdade que os três jogadores em maior foco esta época tem sido sul-americanos mas se fizermos uma lista em geral os europeus continuam em vantagem e continua a haver muitos ingleses a destacar-se.

    • Kacal I
      Posted Janeiro 3, 2015 at 8:22 pm

      Sim, sim, eu entendi, apenas quis realçar esta parte mas subscrevo o post e o teu comentário de agora, tens razão, bom trabalho.

    • Anónimo
      Posted Janeiro 3, 2015 at 4:55 pm

      Estou completamente de acordo contigo. O objetivo do post passou, apenas, por realçar os recentes feitos alcançados pelos sul-americanos, visto que os jogadores daquela região do mundo não têm grande tradição em Inglaterra e nos últimos anos esse paradigma tem vindo a mudar, muito porque os clubes começam agora a apostar no mercado sul-americano. Por exemplo, a argentina é o 3.º país (não britânico) mais representado em Inglaterra.
      E como refiro no post, a Inglaterra tem sido capaz de fazer essa transição sem retirar espaço aos seus jogadores nativos. O mesmo se pode dizer de jogadores de outras nacionalidades, até porque a Premier League é uma competição onde os estrangeiros abundam.

      Pedro Pateira

  • Nuno R
    Posted Janeiro 3, 2015 at 12:40 pm

    Discordo num ponto
    A seleção tem sofrido com a invasão estrangeira, pois as equipas que competem num patamar superior têm poucos ingleses.
    Para uma selecção ser forte é preciso que os seus jogadores actuem em equipas de topo e nas provas europeias.
    Este foi um factor decisivo na subida da selecção nacional nos anos 90.

  • Nuno R
    Posted Janeiro 3, 2015 at 12:37 pm

    A Inglaterra sempre foi poiso do africano e do escandinavo, devido à componente física do seu jogo. Mesmo durante a invasão sul-americana, o brasileiro (com excepção de homens como Gilberto) sempre foi considerado como não sendo raçudo o suficiente para jogar na ilha.
    Com a crescente influencia continental, o cenário vai-se alterando.
    No século passado, os jogadores eram contratados em função da matriz de jogo britânica, algo que hoje não acontece.

  • LuisRafaelSCP
    Posted Janeiro 3, 2015 at 12:29 pm

    Muito bom! Explica a evolução do processo da globalização no futebol inglês. A minha opinião é que esta mudança foi benéfica, a mentalidade (cultura dos adeptos e dos próprios jogadores) inglesa é excelente, mas com os "artistas" sul americanos ganhou outra paixão e intensidade dentro de campo!
    O maior mérito até ao momento, e aquele que eu espero que se mantenha, é que os jogadores sul americanos contratados são os que são consideráveis mais valias claras (não se entrando em contratações disparatadas e só para tapar espaço a ingleses), no presente, ou no futuro, como está no post, há obviamente os que não vingam, mas isso faz parte!

    • Anónimo
      Posted Janeiro 3, 2015 at 2:34 pm

      De momento é necessário a aprovação de uma licença para se jogar na PL para jogadores não comunitarios. Implica quase sempre ser internacional. Essa medida tem que se manter. Se bem que em Portugal, como vamos buscar projectos de jogadores esta medida seria desajustada.
      TC

  • Anónimo
    Posted Janeiro 3, 2015 at 12:20 pm

    Não deixa de ser curioso que apesar dos jogadores estrangeiros terem transformado a EPL na melhor liga do mundo, continuam a ser olhados de soslaio e muito mais criticados que o típico jogador britânico que na maioria das vezes é um jogador medíocre.

    Basta ver/ouvir um qualquer programa desportivo britânico para ouvirmos criticas ao jogador estrangeiro e o endeusamento do jogador britânico. Neste momento estão a fazê-lo com o Harry Kane e o Charlie Austin. Quando o Burnley empatou com o City ouvi algo como "Team GB draws with Rest of the World".

    Ricardo

    • Anónimo
      Posted Janeiro 4, 2015 at 2:07 am

      Kacal e Luís atenção que não tenho nada contra se defender o produto nacional, tenho sim contra a defesa excessiva que os britânicos fazem de um produto que na sua maioria é inferior ao estrangeiro.

      Quanto ao hype com o Kane e o Austin já vi inúmeros jogadores a serem colocados num pedestal, custam valores exorbitantes comparados com os tais estrangeiros que são melhores e desvalorizados. Exemplos disso são o Downing, Carroll, Bento, Adam Johnson…

      Ricardo

    • Kacal I
      Posted Janeiro 3, 2015 at 8:25 pm

      E acho que fazem bem e valorizar o que é deles e menosprezar um pouco (sem excessos) o que é estrangeiro, subscrevo o que o LuísRafaelSCP disse.

      PS: e Kane e Charlie Austin merecem os elogios pois têm sido revelações da Premier League com boas exibições, golos e importância nas suas respectivas equipas, assim como o Berahino (embora mais apagado neste último mês/mês e meio, hoje na Taça fez um póquer)

    • Kafka I
      Posted Janeiro 3, 2015 at 2:21 pm

      Ricardo

      Subscrevo

    • LuisRafaelSCP
      Posted Janeiro 3, 2015 at 12:34 pm

      E é mau tentar valorizar-se o produto nacional em vez do estrangeiro? Em Espanha fazem o mesmo… não é assim tão estranho!

      Por cá é que é totalmente ao contrário, queremos fazer sempre do estrangeiro melhor que o nacional, isso sim, devia ser motivo de estranheza!

  • Awesome_Mark
    Posted Janeiro 3, 2015 at 11:55 am

    Artigo muito interessante !

    Para mim um campeonato multi-nacional traz claramente vantagens pois é a melhor forma para juntares o máximo de estilos de jogo possíveis e assim garantir outra atratividade.Mas atenção,esses estrangeiros só deverão ser escolha se forem melhores do que os nacionais,o que em Portugal por exemplo acontece exatamente ao contrário.

    Poderias também extender-te a outras nacionalidades que também estão a ganhar importância nos respetivos clubes,em especial da armada belga que vê os seus melhores jogadores atuarem no mais mediático dos campeonatos mundiais com Hazard a aparecer à cabeça.

    P.S:O Diego Costa já não é espanhol?ahah

    • Anónimo
      Posted Janeiro 3, 2015 at 5:00 pm

      O Diego Costa nasceu no Brasil e por lá ficou até aos 17 anos.
      Quanto ao post, considerei que seria mais pertinente forcar-me nos sul-americanos, pois não têm grande tradição na Premier League, além de que o seu estilo de futebol foi considerado, durante muitos anos, paradoxal com o que é praticado em Inglaterra. No entanto, quem sabe num próximo post…

      Cumprimentos,
      Pedro Pateira

    • Anónimo
      Posted Janeiro 3, 2015 at 12:06 pm

      O Diego Costa nasceu no Brasil, penso eu :)

      – Micael

  • Kronos
    Posted Janeiro 3, 2015 at 11:44 am

    Realmente é estranho ver 3 sul-americanos como principais figuras da Premier League no momento.

  • Pedro
    Posted Janeiro 3, 2015 at 11:41 am

    Não vai demorar muito até que a Premier League tenha, à semelhança das outras ligas, uma maioria de jogadores sul-americanos. É a ordem natural das coisas no futebol e nem os mais conservadores, como já se está a notar agora, vão impedir isso. A menos que sejam impostas algumas regras que valorizem o jogador britânico.

    • Anónimo
      Posted Janeiro 3, 2015 at 4:57 pm

      O jogador britânico é indiscutivelmente o mais valorizado do mundo. O dinheiro movimentado é gritante. Exemplo: Carroll custou 6 Jackson Martinez's.

      Zé Maria

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