Se no Euro-2004 foi evidente a presença e a influência do Porto na selecção – já antes, principalmente desde 1986 que os azuis e brancos colocavam (do próprio clube ou da sua formação) quase sempre 5/6 jogadores no 11 titular da equipa das quinas, como Baía, Jorge Costa, Couto, Paulinho Santos, Sérgio Conceição, Carvalho entre tantos outros. Hoje é evidente, principalmente desde a nomeação de Paulo Bento para o cargo de seleccionador que o Sporting é o grande “fornecedor” da nossa selecção (além da quantidade igualmente pela qualidade, pois sem Ronaldo e Nani, Portugal era um conjunto mediano). Do 11 titular de Bento no Euro 2012, 5 jogadores foram formados em Alvalade: Ronaldo, Nani, Moutinho, Veloso e Patrício. Quase 50%. Os restantes, Postiga e Bruno Alves foram formados no Porto (o central só fez um ano nos juniores, mas o nosso critério é onde acabam a formação), Meireles no Boavista, João Pereira no Benfica, Coentrão no Rio Ave e Pepe no Marítimo (já depois de estar no clube madeirense, chegou a fazer testes em Alvalade, na altura Boloni queria ficar com o defesa, mas o Marítimo exigiu 2 milhões de euros, e os leões consideraram exagerado e não assinou contrato pelo emblema leonino). Aliás esta ideia em relação ao peso do Sporting na selecção, está a ser fortemente publicitada nos jornais e sites internacionais. Que aproveitam estes dados (a que juntam a formação de elementos como Figo, Futre, etc) para (de maneira justa) enaltecer o excelente trabalho da Academia Leonina (uma das 3 melhores do Mundo, aliás a única que forneceu ao futebol 2 “melhores do Mundo” diferentes: Figo e Ronaldo). Ora, se a dependência da nossa selecção em relação ao Sporting (ou ao que clube leonino formou) é uma realidade (se os leões em 2006 tivessem adoptado a política de aposta quase nula nos jogadores portugueses como fizeram Benfica e Porto, neste momento poderíamos estar assistir às principais competições pela TV), importa nesta fase olhar para o futuro e tentar perceber qual será a tendência. A verdade é que nos próximos anos o futuro de Portugal (pelo menos como selecção que ambiciona vencer uma grande competição) pode estar seriamente comprometido. O Benfica acabou de completar uma época onde praticamente não utilizou nenhum português (Nélson Oliveira foi a excepção e fazemos votos que tenha espaço para evoluir), Porto (que muitas vezes não formando os jogadores, como aconteceu com Moutinho, Rolando, Jorge Andrade, Varela, Pepe funcionou como uma etapa essencial na carreira dos mesmos) e Sporting utilizaram 2/3 mas a tendência é que baixem ainda mais estes números, e o Braga acabou por ser a única boa excepção a “esta regra”. Ou seja, um cenário que a curto-prazo irá ter uma influência directa (em termos negativos) na selecção nacional (sem potenciarmos jogadores, nas nossas principais equipas, não podemos querer que Portugal tenha sucesso em Europeus e Mundiais). Aliás nesta fase, os clubes internacionais é que acabam por ser o principal suporte da nossa selecção: 9 actuam no estrangeiro e a perspectiva é que os nossos jogadores acabem por fazer quase toda a carreira em clubes internacionais (praticamente saltando dos juniores directamente para essas equipas, pois percebem que dificilmente vão ter uma oportunidade ao mais alto nível no nosso País). Dependência do Sporting? Se os leões tivessem adoptado a politica do Benfica e Porto logo desde 2006, teria Portugal conseguido a qualificação para o último Mundial e para este Europeu? E depois do Euro 2016, quando à excepção de Patricio e Coentrão os outros 9 titulares entrarem na casa dos 30, como será o futuro da selecção? Esta aposta zero dos “grandes” no futebolista português irá começar a ter influência na selecção a partir de que competição?
PS – Para os optimistas que pensam que os “grandes” vão apostar nos jovens de 16/17/18 anos, observem o contexto actual e a necessidade de se ganhar títulos. Cada vez há menos espaço para erros e como tal menos espaço para experiências. O VM sabe do enorme potencial (já o mencionamos dezenas de vezes) de jogadores como o Tiago Ferreira, Cafu, João Mário, Bruma, Esgaio, David Simão, To-Zé, Iuri Medeiros, e muitos muitos outros, mas observem por exemplo o que se está a passar com a nossa selecção sub-20 e os seus jogadores. Da equipa que ficou em 2º no Mundial apenas Nuno Reis, Cedric e Roderick tem minutos, e mesmo assim em equipas muito inferiores. O Porto nos últimos 2 anos não tem 1 único jogador da sua afirmação nos 18 convocados, o Benfica não tem nenhum português no 11 titular, o Sporting entrou na onda e só actua com 2/3 portugueses. Apesar da qualidade que há na formação, os leitores acreditam que o cenário vai mudar? Sem regras fortes (como estas, ler aqui) que protejam o jogador português, mentalizem-se que o cenário será igual (pior é impossível) nos próximos anos.

