Antes de mais, para que este texto faça um pouco mais de sentido, acho que é adequado começar por dar algum contexto sobre as circunstâncias em que escrevo. Tenho 23 anos, tanto de vida como de sócio do Sporting Clube de Portugal, clube pelo qual sou doido, e acabo de regressar da Final da Taça da Liga em Leiria. Contudo, mais do que a derrota nós 90 minutos, o que mais me assombrou e atormentou foi ver o que mais uma vez aconteceu nas bancadas, onde umas centenas de bandidos que se acham acima do clube, fizeram chover tochas e cuspidelas sobre crianças e famílias, porque não gostam do primeiro Presidente a ser campeão nacional em quase 20 anos. Isto dito, este texto talvez não faça tanto sentido para pessoas de outros clubes, ou que não costumam ir ao estádio, mas sinto que é preciso que algo aconteça em Portugal.
O tema das claques tem estado bastante presente na opinião pública futebolística, especialmente depois do que aconteceu em Alcochete ou do Cartão de Adepto que, embora mal implementado, foi uma ideia interessante para lutar contra a violência trazida pelas claques para os recintos desportivos. Contudo, fica a ideia de que muito se fala, pouco se faz. As claques, pelo menos as do meu clube, continuam a fazer com que seja difícil para as pessoas civilizadas irem ver o seu clube. Nas últimas semanas, estive no Estádio da Luz e no Municipal de Leiria. Em Leiria já descrevi como foi, na Luz foram 10 minutos de agressões entre claques na bancada do Sporting, com cadeiras a voar contra pessoas que nada tinham a ver com aquilo, e que obrigou a uma carga policial indiscriminada.
Esta situação é, então, intolerável. Parece que nos são dadas três opções: ou os as claques (atenção, quando digo “claques” estou ciente de que nem todos se comportam da forma acima descrita) deixam de poder ir; ou são controlados; ou os adeptos que querem só ver o seu clube a jogar deixam de poder ir. A questão é que a abordagem do controlo já foi tentada, e não tem funcionado. Rodrigo Roquette sugere a adoção de uma espécie de um contrato entre claques e direção, com um sistema progressivo de pontos, que se vão perdendo cada vez que as claques saem da linha. Ora, esta ideia, na teoria, parece ser interessante e equilibrada. Mas veja-se o que a Juventude Leonina faz, há umas semanas, num momento em que se encontrava a negociar um protocolo com a Direção: arremesso de pirotecnia, obrigando, mais uma vez, a uma carga policial.
Vai ser muito difícil encontrar uma solução, mas este problema não pode continuar a ser posto debaixo do tapete. Não podemos generalizar, é verdade, mas não tomar medidas seria assumir que todos se sabem comportar, ou seja, generalizar ao contrário. E a generalizar para um lado, que seja para o lado que não atira tochas a crianças. Não nos podemos esquecer que a pirotecnia já causou mortes em Portugal, e nesse sentido, embora a decisão de a criminalizar possa parecer exagerada, considero-a acertada. Mais importante do que ver uma luzes engraçadas na bancada é garantir a segurança de quem quer ir ver e apoiar o seu clube.
Agora, esta não pode ser uma luta apenas do Sporting e de Frederico Varandas. O facto de, no seguimento de Alcochete, os presidentes dos nossos rivais não se terem juntado a Varandas neste combate à violência (especialmente o Futebol Clube do Porto, que continua a utilizar as claques como seu braço armado) demonstra uma enorme cobardia. Tenho a certeza que os problemas não acontecem só em Alvalade, e os clubes não são das claques. As claques não servem para fazer reivindicações políticas ou para viver do clube, servem para apoiar. E se não servirem para apoiar, não servem!
Enfim, acabo por dizer que falo da perspetiva de alguém que esteve dos dois lados, visto que fui, na minha adolescência, parte de uma claque, numa altura em que estas e a direção estavam (demasiado) em sintonia. Esse fortalecimento das claques, na altura do anterior presidente, levou a uma situação absolutamente descontrolada. E é preciso resolvê-la, rápido, e com dureza. Para isso, é preciso Varandas, é preciso Sporting, é preciso Benfica, Porto, Liga, Governo!
Visão do Leitor: Abk


1 Comentário
jcosousa
Estimado, isto é como os carros mal estacionados continuamente no mesmo local a dificultar o transito…com as multas, não vão lá, mas se colocarem um reboque todos os dias a levar carros mal estacionados, vai ver que ao fim de uma semana, já ninguém estaciona lá…Percebe a analogia?…Isto só vai lá com desmantelamentos de claques, prisão efetiva para quem anda a negociar substancias ilicitas dentro dos estádios…Não gostam do Varandas? Pois não…Sabe porquê? Porque cortou-lhes o seu Portuguese Way of Life… Vou-lhe contar como é que uma vez entrei num Sporting – bayern…bilhetes esgotadissimos, um amigo meu mandou-me estar 30 minutos antes do jogo à porta da sede de umas das claques do SCP…Até 30 minutos antes do jogo, os membros da claque que queriam ir ao jogo, podiam levantar os cartões, a partir daí, chegam à porta, perguntam quantos são…somos 10…resposta…20€ por pessoa…ok… agarram em 10 cartões, vao 2 membros a escoltar o grupo, 1 à frente com os cartões e outro atrás a fechar o grupo…à porta, dá-se os cartões a cada um dos 10 do grupo…entra o membro da claque, a seguir entram 10 pessoas, cada um com o seu cartão, cartão esse que é devolvido ao membro da claque que entrou em 1º lugar, até que todos entram e finalmente entra o º membro da claque…200 euros entraram para essa claque e assim se financiam, sem contar com outras formas menos legais…Está a perceber porque é que não gostam do Varandas, tudo lhes foi cortado e muitos deles deixaram de ser parasitas do Sporting…possivelmente, devem de continuar a serem, parasitas de todos nós.