Após o desaire da jornada anterior frente ao Newcastle, o Chelsea, de José Mourinho, voltou às vitórias frente ao 18.º classificado da Premier League, Hull City. Não obstante o domínio dos londrinos, foram três pontos vendidos a um preço inflacionado. Somente à passagem do minuto 68 (e já com a equipa do Hull City reduzida a 10 elementos, após a expulsão de Huddlestone aos 60 minutos), o Chelsea foi capaz de tranquilizar os adeptos da casa (que começavam já a assobiar a própria equipa) com um segundo golo que sentenciou a partida contra um conjunto do Hull que passou grande parte do jogo para lá do seu meio-campo e se debateu por cada bola como se da última se tratasse.
Na semana passada, na antevisão da visita do Chelsea a St James Park, Mourinho acusou algumas equipas da Premier League de realizarem o jogo das suas vidas nas partidas frente aos londrinos (quase que prevendo o que iria decorrer na partida frente aos Magpies) e de, no entanto, carecerem de tamanha tenacidade nos embates frente aos adversários diretos, na corrida pelo título, dos atuais líderes da competição.
Será difícil e falacioso comprovar a veracidade das palavras proferidas pelo Special One, no entanto, estaríamos a ser ingénuos ao não reconhecer que o português acrescenta um ingrediente desconcertantemente delicioso aos confrontos nos quais está envolvido.
Carismático, provocador e manipulador…São estas as principais características da “personagem” que José Mourinho criou para lidar com a comunicação social, retirar a pressão dos seus jogadores – fazendo de si a cara do clube – e intimidar os seus oponentes, e que fazem dele o mestre dos mind games, título do qual é, indubitavelmente, dono e senhor nos tempos que correm.
No entanto, e como se verificou contra o Newcastle, o feitiço pode virar-se contra o feiticeiro e, por vezes, palavras que pretendem semear tempestades no balneário alheio, podem, porventura, surgir como um potencial catalisador motivacional para os seus adversários. Aliás, o discurso de José Mourinho pode assentar que nem uma luva ao treinador adversário, que poderá fazer uso das suas palavras ou, até mesmo, reproduzi-las na íntegra, com o intuito de motivar os seus jogadores e garantir que estes entram em campo com a determinação e a crença de verdadeiros deuses do futebol! Como se não bastasse, por si só, o facto do Chelsea seguir como líder, isolado, da principal competição inglesa, a verdade é que todo e qualquer jogador encontra, frente aos londrinos, um apetite insaciável para surpreender. Contra a equipa comandada pelo português, os adversários enfrentam, não só, onze jogadores, mas também o fantasma de José Mourinho, a figura omnipresente do Special One, que assombra todos os estádios por onde os Blues passam, e contra o qual todos os atletas pretendem insurgir-se. Contra José Mourinho, durante os 90 minutos não estão em disputa somente 3 pontos. O relvado é palco de uma luta titânica de egos e honra, elementos que, outrora, mudaram o destino de exércitos, civilizações e, até mesmo, de Impérios e que transformam homens e os impelem a superar-se a si mesmos e às suas limitações humanas!
Mourinho poderá, portanto, estar a pagar o preço de uma personalidade que vem a cultivar e que, além de deleitar os adeptos do desporto rei, tem desafiado todos os seus semelhantes em Terras de Sua Majestade. Ninguém pode esperar causar tamanho impacto num universo, como o do futebol, e colher indiferença da parte das restantes personagens que coabitam no seu ecossistema.
Se na primeira passagem por Inglaterra o seu carácter foi subestimado pelos seus oponentes, a verdade é que, atualmente, Mourinho é uma figura tão, ou mais, importante que os jogadores-chave a atuar na Premier League. Hoje, a mais simples palavra proferida pelo português é interpretada ao mais ínfimo detalhe e dá azo a largos debates, como se de uma escritura religiosa se tratasse e os seus adversários, mais do que ninguém, comprometeram-se a não cometer os mesmos erros do passado.
Como seria de esperar, vaticina-se uma longa e árdua campanha até ao final do campeonato e José Mourinho tem, este ano, a oportunidade (e dispõe de todas as condições para) de provar ao mundo que está, mais uma vez, um passo à frente dos seus homólogos!
Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Pedro Pateira



0 Comentários
João Lains
Texto bastante pertinente. Ainda hoje quando acompanhava o Arsenal – Newcastle me debati sobre ela, porque os magpies estavam a ser presa fácil para os gunners, comparativamente com a resistência que tinham oferecido no fim de semana anterior ao Chelsea. Questionei-me e lembrei-me imediatamente do efeito que as declarações de Mourinho podem ter na motivação dos jogadores adversários. E é mesmo caso para dizer "que o feitiço virou-se contra o feiticeiro"
Katia Aveiro
Concordo, a equipa do newcastle de hoje parecia uma equipa com muito menos ambição e completamente diferente, da equipa que jogou contra o chelsea na semana passada
João Santos
E o mesmo se passou com o Sunderland, que empata com o Chelsea e poucos dias depois leva uma mão cheia do City.
Salsa
Ainda me lembro quando o Mourinho usava as declarações dos treinadores adversários para motivar os seus jogadores…
Velhos tempos
Anónimo
Concordo. De destacar que, quem viu o jogo dos magpies contra os blues, não acredita que a equipa era a mesma que jogou ontem contra os gunners. Os jogadores pareciam que não tinham vontade, o Cissé se tocou 3 vezes na bola foi muito, o Arsenal fez o que quis do Newcastle. A motivação que tiveram na semana passada, hoje só usaram 5% dela.
David Fernandes
Kafka I
Antes demais o Mourinho é um dos melhores treinadores do Mundo da actualidade e caminha para ser senão o melhor, pelo menos um dos melhores de sempre, isso é na minha opinião inquestionável…
No entanto as suas qualidade ficam-se por aí, e portanto não concordo nada com este post, pois não acho nada que o Mourinho tenha o dom da palavra, muito pelo contrário, o Mourinho actualmente cada vez que se fala só se enterra num poço sem fundo de contradições e incoerências, pelo que qualquer treinador que seja provocado por ele, basta ter 2 neurónios que seja, que nem sequer precisa de lhe responder à letra, basta apenas fazer uma simples pesquisa e arranjar a respectiva incoerência face ao que Mourinho disse, e fazendo assim Mourinho cair no ridículo, portanto não percebo de todo como podem dizer que ele é muito bom nos mind games…
mas ok, são opiniões e cada um tem a sua
Rui Cardoso
Acho que esse não é o objectivo deste post.. A questão que o Pedro levantou é até que ponto é que as declarações de Mourinho têm um impacto motivacional positivo nos seus adversários, ao ponto de "comerem a relva"..
MT
O objectivo das declaraçoes tambem é esse, os jornais em vez de irem fazer capas com o central, por exemplo, que fez um erro grave que deu golo do adversario, com o avançado que nao marca à 10 jogos vao fazer capas com as declaraçoes ridiculas do Mourinho. Imagina no jogo com o Chelsea em vez de se falar, Chelsea perde com erro de Ivanovic, dizem Mourinho disse que Chelsea perdeu por culpa dos apanha-bolas e depois vao encher paginas a dizer no ano 2007 Mourinho usou essa tatica dos apanha-bolas para ganhar por isso as declaraçoes nao tem sentido. Isto é um mind game. E tu incoscientemente provas que os mind games existem porque varios jogos que o ChelseaReal perdeperdia tu nao vens falar mal dos jogadores que jogaram mal mas sim das declaraçoes do Mourinho.
Este post está a dizer que antes estes mind games funcionavam a 100%, mas agora já nao porque os treinadores adversarios tem aproveitado estas declaraçoes ridiculas para motivarem os seus jogadores.
cmoreira.ft
Exatamente Rui. E Kafka, achas que Mourinho não sabe se o que diz é ou não incoerente? Eu não estou a dizer que é Deus no Céu e Mourinho na Terra, mas ele sabe bem as repercussões do que diz. É o king dos mind games. Nem tudo é preto e branco.
Anónimo
Caro Kafka, sem querer faltar ao respeito, penso que as qualidades do Mourinho se estendem muito além do terreno de jogo e do balneário. O protagonismo que Mourinho assume nas conferências de imprensa não é algo que ocorre por acaso, mas sim porque ele acaba por encenar uma espécie de ato teatral. As diversas (e por vezes ridículas) disputas pessoais em que Mourinho entra não são um fenómeno do acaso . Mourinho cria cisões com os seus semelhantes com o objetivo de provocar tensão tanto nos treinadores, como nos jogadores, adversários, apelando sempre a uma vertente emocional, transformando a disputa pelos 3 pontos numa questão de honra e de egos, tal como refiro no post, de modo a desconcentrar os seus adversários ou levá-los a mudar os seus planos para que ganhem essa batalha que decorre fora das quatro linhas, provocando nestes um desejo imenso de se superiorizarem ao português, que, em última instância, pode levar ao desleixo de certas componentes táticas. Daí, Mourinho se superiorizar aos demais no campo dos mind games, porque é dos poucos treinadores que consegue instalar o pânico no balneário alheio, ainda, que essas artimanhas possam, por vezes, virar-se contra ele:
Quanto às declarações incoerentes (e neste ponto estamos de acordo), obviamente que o Mourinho numa semana critica a postura de uma equipa adversária e, se calhar, na semana seguinte adota, ele mesmo, essa postura. Por exemplo, acusou o West Ham de praticar um futebol digno do século XIX, na época passada, e, há uma semana atrás, acusou o apanha-bolas de desaparecer em St James Park, isto, quando Mourinho não se importa de adotar um papel defensivo e mais pragmático quando reconhece que este lhe garantirá uma maior probabilidade de sucesso. Mais uma vez, não se trata de um caso de insanidade, mas sim de mestria, pois o que Mourinho pretende é, exatamente, isso, criar controvérsia, pois se estiveres atento, quando Mourinho perde pontos, nunca vemos capas de jornais a criticar a equipa ou um jogador, mas, antes, as declarações polémicas de Mourinho. É uma constante ver Mourinho a ser expulso ou a "disparatar" nas conferências de imprensa que se seguem às partidas em que não sai como vencedor, pois, desse modo, a imprensa vai falar dele e não da exibição aquém das expectativas da sua equipa e, consequentemente, alivia a pressão da equipa e acarreta com todos os golpes que são desferidos. Se te recordares, em Inglaterra, jogadores como Yaya Touré, Ozil, Van Persie, já foram alvos de ataque por parte da comunicação social pelas suas performances menos conseguidas. No entanto, "nunca" viste um tratamento semelhante para com qualquer jogador do Chelsea (por exemplo Hazard), do mesmo modo que raramente vês exaltados os seus êxitos (que também podem trazer pressão, na medida em que começa a ser exigido que um determinado jogador se exiba sempre ao mesmo nível qualitativo). Mourinho é, como referi, a cara do clube e quando se fala no Chelsea é em Mourinho que se fala e que se pensa. Mourinho, além de não estar senil, é um mestre pela capacidade que tem em conferir credibilidade e tamanho protagonismo a uma personagem que ele criou, somente, com o propósito de desviar as atenções dos seus jogadores. E penso que podemos concordar que, apesar, de não se tratar de um mestre da oratória (como referes e bem), é uma figura capaz de monopolizar e manipular todo o discurso futebolístico de um país em seu proveito.
No entanto, e como referes, cada um tem direito à sua opinião e todas têm a sua validade. O presente comentário pretende, apenas, elaborar ou fundamentar a minha linha de pensamento.
Cumprimentos,
Pedro Pateira
Kafka I
Lendo com atenção a vossa argumentação, e no sentido de ele usar as suas próprias incoerências como forma de escudar os seus jogadores, tenho de concordar com vocês e aceitar a vossa argumentação…admito o meu erro ao não interpretar desse prisma de tentar escudar a equipa e os seus jogadores…
LuisRafaelSCP
Não acredito muito nestas coisas. Já por cá, os adeptos do Benfica costumam dizer que por ser contra o Benfica as equipas dão mais de si, há muitos sportinguistas que acham que também contra o Sporting as equipas jogam mais destemidas e criam mais dificuldades… enfim, eu acho que as equipas pequenas, contra as principais equipas do país, entram sempre com os índices de motivação no máximo, simplesmente por circunstâncias de jogo, há uns que correm melhor que outros criando mais dificuldades a determinados adversários do que a outros. Neste caso específico, por ser um treinador carismático, polémico, até posso aceitar que alguns jogadores/equipas entrem mais "picados" e com mais "ganas", mas acho que não é muito por aí que conseguem melhores ou piores resultados!
Kafka I
Inteiramente de acordo contigo, e acho que só mesmo quem nunca jogou futebol a sério acredita um pouco nisto, porque a partir do momento em que o árbitro apita para o jogo os jogadores esquecem tudo e não ficam a pensar "ah espera vou dar tudo para ir a esta bola porque o adversário é o Mourinho", isso como é óbvio jamais acontece
Rui Cardoso
Não se trata de pensar que é o Mourinho, trata-se da motivação que se tem para esse jogo, a intensidade que se coloca em campo. O Newcastle, motivado pelo facto de jogar em casa, deixou a pele em campo diante do Chelsea. Ontem, foi presa fácil para o Arsenal, apesar de uma ou outra ocasião mais perigosa..
Anónimo
LuisRafael, creio que, neste caso, estás a descurar o impacto que a componente emocional tem num jogo de futebol. Um balneário deve funcionar como uma família e, ao contrário do que acontece com o Benfica ou o Sporting, em Mourinho encontras uma personagem que está constantemente a desferir ataques a essa "família" e promover a instabilidade. É normal que os jogadores, quando atacados, se sintam impelidos a responder em campo contra as críticas de que foram alvo e, isso, pode, como referes, surtir resultados positivos ou negativos. Embora seja um caso diferente, quando Ronaldo regressou a Old Trafford, sentiu a pressão de ter de provar a sua qualidade aos seus antigos e adeptos e, tal como o próprio admitiu, nesse jogo não foi capaz de dominar a sua componente emocional e a sua performance acabou por ficar um pouco aquém daquilo que havia habituado os adeptos.
Mourinho foi, provavelmente, o primeiro a reconhecer e a explorar a componente emocional do jogo ao seu máximo expoente e creio que seria ingénuo da nossa parte considerar que os jogadores se sentem completamente alheios a tudo que é dito durante a semana fora das quatro linhas.
Por exemplo, na NBA a componente emocional é bastante debatida e considerada pelos comentadores, treinadores, etc., porque, tem um impacto significativo nas performances dos jogadores e é determinante no nível qualitativo que os jogadores vão apresentando ao longo de toda a época. No futebol, ainda que não seja alvo de tanto debate, a componente emocional é, também, um atributo de peso na carreira dos jogadores e, muitas vezes, define o sucesso ou insucesso de uma época em termos pessoais. Não é por acaso que uma das mais-valias do trabalho de Mourinho passa por manter os seus jogadores contentes. Essa é a pedra basilar do seu trabalho e que, consequentemente, lhe permite retirar o máximo de cada jogador.
Pedro Pateira
diogoribeiro
Kafka, basta ver o jogo Sunderland – Chelsea e três dias depois o Sunderland – M.City para se perceber o que este post está a falar.
LuisRafaelSCP
Sei que o lado emocional é importante, mas a verdade é que estou de acordo com o Kafka. Assim que o árbitro apita, os jogadores estão motivados para defrontar uma grande equipa como o Chelsea, como o City, etc., não estão a pensar se é o Mourinho ou se é o Avram Grant.
Mas como disse, pode haver uma excepção ou outra, em jogadores que se picam mais com os jogos psicológicos de Mou!
cmoreira.ft
Um bom texto, embora com algumas comparações exageradas. Mas o caso do Newcastle é um bom exemplo de facto.