Antes desta semana, não seriam muitos os portugueses que já tivessem ouvido falar num tal clube de Sintra com nome estrangeiro que joga no Campeonato de Portugal. Normal, nem os mais apaixonados adeptos conhecem as centenas de equipas que vão jogando o desporto rei por Portugal fora.
Mas esta semana, o Sintra Football destacou-se e chamou à atenção após a façanha incrível que foi eliminar o Vitória de Guimarães da Taça de Portugal. Afinal, apesar de o Alverca ter mostrado o caminho e o Beira Mar ter-se-lhes juntado dias depois, não é qualquer equipa do 3º escalão que se bate de frente com uma da 1ª e, ainda por cima, vence. Mas ainda assim, há algo de ainda mais especial neste feito da equipa de Sintra.
O Club Sintra Football foi fundado em 2007 e em 12 anos de vida já soma 5 subidas de divisão e 0 descidas. Tem a sua sede localizada debaixo (literalmente) da bancada de um dos campos do Real Massamá e até esta época jogava também num dos recintos do Real SC. Esta época, devido a irem defrontar o Real SC no Campeonato de Portugal, acharam por bem procurar outro espaço e encontraram esse espaço no Estádio Municipal de Oeiras, apesar de já terem um acordo para 2020/21 ter finalmente campo próprio.
O homem forte do clube chama-se Dinis Delgado e foi ele o fundador deste projeto. Acumula as funções de Presidente, delegado de jogo, diretor de comunicação, secretário, diretor criativo, gestor do bar, cozinheiro e até chefe de claque. Aliás, o próprio Dinis foi jogador do clube e fez ele mesmo o primeiro golo da história do Club Sintra Football, na Taça de Lisboa em 2007.
A história deste clube, olhe por onde se olhe, passa sempre por Dinis Delgado. Relata o próprio que o segredo do sucesso tem sido o “colinho” que o clube dá às pessoas. Na maioria dos estádios, um adepto entra, passa o torniquete e senta-se no seu lugar na bancada. No Sintra, entra, dão-lhe as boas-vindas, entregam-lhe uma almofada para melhorar o conforto, dão uma manta, se estiver frio, e convidam-no para um lanchinho, ao intervalo. À borla. E isto é agora, pois quando os meios eram ainda mais escassos, andava o próprio Dinis pelas bancadas a distribuir chá de limão e bolachas Maria. Oferece cachecóis às pessoas, disponibilizou 2 sofás para formar uma espécie de “zona VIP” na bancada, fez bandeiras através de lençóis e cortinas de casa de banho e vai à feira de Sintra vender coisas para fazer 300 ou 400 euros. Até se desfez de um BMW próprio quando a necessidade apertou.
Também a viver um sonho após ter apontado o golo da vitória e ter sido o herói da eliminatória neste clube sem património, camadas jovens ou até um autocarro, Élvis, conta o sacríficio que é para si ir aos treinos enquanto mantém o seu trabalho num armazém “a carregar caixas e puxar paletes” durante 8 horas. Os treinos do Sintra são das 22h à meia-noite e às 7:30 está a entrar no trabalho. Tudo isto para juntar algum e dar um futuro melhor para o seu filho.
Mas há até quem durma na tal sede debaixo da bancada. Um espaço de 50m quadrados que se divide em cozinha, sala de refeições (onde jantam todos depois de cada treino), sala de convívio onde se faz as análises aos adversários, sala da reuniões da direção e dormitório para 2 jovens e para o roupeiro que vivia… debaixo da ponte.
Um clube diferente, que junta o sonho desportivo de ser conhecido mundialmente (foi a pensar nisso e nos patrocinadores que Dinis optou pelo nome British) com a parte social de acolher e ajudar quem mais necessita.
A Taça de Portugal aos olhos do faz-tudo do Sintra era apenas uma fonte de receita e, por isso, todos anseavam que lhes saísse na fava um dos grandes. Saiu o Vitória, mas contra todas as expectativas a história não acabou aqui. Que venha agora o Benfica.
PS – Este artigo tem como base a reportagem de Diogo Cardoso Oliveira, publicada no jornal O Público a 22 de Julho
Visão do Leitor: Afonso Ascensão


7 Comentários
Hamukau
Adoro estas histórias que só o futebol sabe, adoro quando uma equipa pequena faz estes pequenos milagres. Por um lado era bonito continuar a caminhada mas por outro gostava que jogassem com um grande e que as receitas fossem para o Sintra Football para ajudar este projeto.
Paulo_Leixonense
Dos melhores textos/artigos que li no Vm, mesmo sendo uma reportagem de um jornal, que não li.
Este sonho do Dinis merece ser ajudado, seja por patrocionadores ou até pessoas que não sabiam desta história.
Boa sorte ao Sintra Football!
Biscaia
Parece que o treinador acaba de ser despedido…
Olivenza_FP
Parabéns pelo artigo e parabéns ao Presidente Dinis!
Independentemente de todos os louvores, ficamos hoje a saber que o Sintra Football é de facto um clube diferente, que após o maior feito da sua pequena história, acaba por despedir o treinador principal!!
Boa sorte para quem vier a seguir.
Saudações Desportivas
#mygameisfairplay
Santander
Muito bom! Isto sim é um clube que se procura diferenciar e em cativar adeptos… Os clubes estão tão preocupados com dinheiro e mais dinheiro e muitas das vezes pouco fazem para que isso aconteça por mérito seu.. Não há diferenciação nenhuma, não há projetos mas depois tudo berra a pedir a ver se cai alguma coisa… Assim de repente (exceptuando os três grandes, vitória e braga) apenas me lembro do Boavista (em ações nas escolas e os bilhetes a preços low cost) e do Famalicão (campanhas muito fortes na vila junto das populações) com iniciativas dignas de registo de forma a aumentar a massa adepta… Qualquer Benfiquista, Portista ou Sportinguista de Famalicão tem mais facilidade em ir ao estádio do clube da terra do que à luz e os clubes muitas vezes parece que se esquecem que é no estádio (contra outros adversários que não o “seu clube” e pela fraternização que a ida ao estádio propicia) que muitas das vezes se criam e convertem adeptos… Não deixa de ser algo irónico que vejamos neste momento na 1ª liga muitos clubes que estão naquele que considero o seu potencial máximo (Aves, Tondela, Moreirense pertencem a pequenas vilas que dificilmente terão uma maior expressão)….. Ainda há pouco tempo fiz umas contas por alto e existem muitas capitais de distritos e concelhos onde seria possível ter clubes com dimensões totalmente distintas, a saber:
Cidade – Clube – Adeptos no estádio aprox.
Coimbra – Académica – 25 000
Aveiro – Beira-Mar – 25 000
Leiria – U. Leiria – 24 500
Faro – Farense – 22 500
Viseu – Ac. Viseu – 17 000
Funchal – Marítimo – 22 000
Sintra – Sintra Football Club – 28 000
Matosinhos – Leixões – 18 000
Maia (que tanto se orgulha de se chamar capital do desporto)- Maia Lidador – 17 000
Gaia – Candal – 22 000
Porto – Boavista – 19 000
Setúbal – Vitória – 13 500
Mas agora confronta-se com a realidade e vemos clubes sem expressão nenhuma e que se meterem 1000 pessoas num jogo de 1ª liga é uma festa… É preciso os clubes organizarem-se, terem estratégia e
mexerem-se, porque muito berram por dinheiro mas pouco fazem… E se houvesse mais dinheiro redistribuído a única coisa de que ia servir era para se ter dirigentes um bocadinho mais ricos… Ah e a propósito de dirigentes era preciso haver dirigentes que fossem verdadeiros representantes dos clubes que representam, porque ter um dirigente de um clube adepto de outro é meio caminho andado para dar em asneira… O Sintra Football Club não tem mais dinheiro que muitos e em condições deve estar no fundo da tabela, mas é a prova provada de que quando existe um projeto e vontade de o fazer crescer com seriedade as coisas acabam por acontecer… Aponto já agora outro clube interessante que tem subido de divisão de forma consistente o Berço SC..
Paulo_Leixonense
Santander,
Ora nem mais! O problema é que essas cidades que referes, por vezes têm mais que um clube com essa capacidade, e os investidores por vezes não querem este tipo de projeto.
E sem capital é muito difícil chegares à 1ª Liga.
Dou-te o exemplo do meu clube, o Leixões, que este ano apostou na subida e a Direção investiu nesse sentido e conseguiu alguns patrocínios importantes, mas da Câmara de Matosinhos, do que se sabe, pouco ou nada se conseguiu, mas aposto contigo que nas utlimas jornadas se o Leixões estiver nos lugares de subida, não vão faltar elementos da Câmara a aparecer para a “foto”.
Santander
Paulo_Leixonense por exemplo no caso do leixões considerei a população do município de Matosinhos e apenas atribuí uma percentagem de adeptos dentro desse total da população precisamente por ter noção que nenhum clube no mundo consegue ter 100% dos adeptos de uma certa localidade…
Relativamente ao que diz da câmara percebo o que diz mas por um lado até concordo que o mundo da política se envolva o menos possível no mundo do futebol… Acho é que compete aos clubes terem uma estratégia e aplicarem-na na prática.. Por exemplo baixar preço dos bilhetes, outdoors ao pé das escolas dos municipios, algumas regalias por irem ao estádio (pode ir desde de medidas simples como faz o sintra até ao sorteio do carro como faz de momento o Almeria), apresentação da equipa na festa do senhor de matosinhos, idas às escolas por parte dos jogadores para dar autógrafos, ofercer x camisolas do clube nas escolas, dar testemunhos nas escolas, lares ou outras instituições… Tanta coisa que podia ficar aqui o resto do dia… É preciso é as pessoas do clube sentarem-se definirem um público alvo e atacarem com medidas concertadas e mentalizarem-se que este não é um trabalho de 1, 2, 3 ou 4 anos mas sim um trabalho que apenas dará os seus frutos talvez em 10/15 anos.. O problema é que os clubes hoje querem dinheiro rápido e provavelmente a única estratégia caso esse dinheiro chegasse seria comprar uma equipa de craques para tentar lutar pelo campeonato, não digo que não fosse uma forma de atrair adeptos mas está longe de ser a única…