Corria o ano de 2003, quando António Salvador chega ao leme do S.C. Braga. O clube vivia uma crise financeira que ameaçava a sua existência e a classificação no campeonato era aflitiva. O clube bracarense viria a terminar apenas 2 pontos acima da linha de água nesse ano.
Passaram mais de 20 anos e, ao dia de hoje, é impensável, para qualquer adepto que acompanhe minimamente a realidade do futebol nacional, ver um S.C. Braga lutar pela permanência.
Fruto de uma gestão competente e séria, o clube foi crescendo sustentadamente e cimentando o seu lugar entre a elite nacional. Parece-me pacífico, e praticamente unânime, afirmar que o clube está, ao dia hoje, mais próximo do patamar dos 3 grandes, do que dos restantes participantes da 1ª liga nacional. Se é certo que ainda há caminho para crescer para os guerreiros do Minho, também é certo que estão mais próximos hoje, do que alguma vez estiveram na sua história, de atingir o seu potencial máximo.
Ora se nestes 20 vimos este crescimento do S.C. Braga, por outro lado, temos assistido ao desaparecimento de vários clubes históricos do futebol português. Vimos cair o U.D. de Leiria, o Vitória de Setúbal, a Académica de Coimbra, o Belenenses, o Beira-Mar, mais recentemente perdeu-se outro histórico para a segunda liga, o Marítimo, e este ano o Boavista enfrenta o maior desafio pela sua sobrevivência, depois do primeiro ano de regresso à 1ª liga. O campeonato nacional nunca teve uma cobertura tão baixa do território nacional.
Quando olhamos para a tabela classificativa e nos perguntamos quantos clubes podem aspirar a ser o próximo “Braga”, obviamente ressalta de imediato o Vitória SC. Contudo, dos restantes bons projetos há algo que me ressalta automaticamente: a maior parte dos projetos que temos na 1ª liga terão sempre um teto mais baixo que outros clubes. Seja por investimento externo, seja por uma região industrial forte, vemos muitos emblemas conseguirem atingir uma pujança económica e desportiva interessante para as suas realidades, mas atendamos ao seguinte dado sobre alguns destes projetos:
| Cidade | Clube | População Cidade |
| Vila Nova de Famalicão | F.C. Famalicão | 36 699 |
| Moreira de Cónegos | Moreirense F.C. | 4651 |
| Vila das Aves | Aves Sad | 7946 |
| Arouca | Arouca F.C. | 21 146 |
| Vila do Conde | Rio Ave F.C. | 80 921 |
Assim pergunto-me como é que um clube como Famalicão, por muito investimento que tenha, poderá almejar um crescimento muito maior, do que aquele que já possui. Se há algo que confere dimensão e potencial de crescimento de um clube de futebol é a massa que move. E se não existe massa será sempre algo limitado na sua dimensão. Comparemos agora com algumas capitais de distrito que estão, ou órfãs de representantes na nata do futebol luso, ou ainda com uma representação algo irrisória:
| Cidade | Clube | População Cidade | População Distrito |
| Coimbra | Académica de Coimbra | 140 796 | 408 631 |
| Leiria | UD Leiria | 128 616 | 458 679 |
| Aveiro | Beira-Mar | 80 978 | 700 964 |
| Viseu | Académico de Viseu | 99 274 | 394 927 |
| Faro | Farense | 67 859 | 467 495 |
| Setúbal | Vitória F.C. | 123 684 | 887 928 |
Nesta pequena lista, estão apenas alguns exemplos de clubes que poderiam, na minha opinião, ter um crescimento idêntico ao S.C. Braga. Existe potencial humano e, com exceção do Vitória F. C. e do Académico de Viseu, os restantes possuem um estádio com capacidades, comodidades e dimensões bem superiores à grande generalidade dos clubes em Portugal. Aos clubes citados poderíamos incluir ainda dois casos excepcionais: Boavista F.C. e Belenenses. São os únicos campeões nacionais além dos 3 grandes, possuem estádios com dimensão para tal e apesar de terem de dividir a massa adepta com os três, são também cidades com um nível populacional que permitiria tal crescimento (o Boavista conseguiu há poucas épocas atrás, médias de mais de 10 000 espectadores no estádio). Pela 2ª tabela temos 6 clubes, mais as 2 exceções, juntando Braga e Vitória e os casos particulares das ilhas estaríamos a falar em cerca de 12 clubes com potencial para alcançar o que o S.C. Braga alcançou.
Sei que muito possivelmente será utópico pensar num campeonato português com 12 clubes da dimensão do Braga. Porém, só espero que alguns dirigentes que queiram servir o clube e não se servir do clube, possam “copiar” um modelo que tanto sucesso tem dado. E que bom seria para Portugal e o seu futebol.
Visão do Leitor: Santander


4 Comentários
Nedved.5
Ponto prévio: Não sofro por clube nenhum. Infelizmente, ou felizmente, não consigo ter essa paixão desmedida por algum clube.
Dito isto, apoio clubes em que gosto imenso dos projecto desportivos, e que prezam outros aspectos…
Clubes como Brighton, Brentford, Braga ou Tottenham, que tiveram um crescimento sustentado ao longo dos anos, são clubes pelo qual tenho alguma estima.
Certo que o Salvador já se tornou um gestor actual em que vendeu a sua alma aos agentes, mas não deixa de fazer mais bem que mal ao clube… Uma pena que não tenham conseguido alcançar o título com o Paciência (btw, horror de treinador).
A sua gestão nos primeiros anos na presidência, de aproveitar os restos dos grandes e contratar quem se destacava nos clubes mais baixos, é um modelo a seguir. Principalmente se, e como referes, estiveres naquela ilha em que mordes os calcanhares aos 3 grandes e já estás muito acima dos demais.
O Braga tornou-se uma espécie de paragem obrigatória para quem se destacava em clubes de menor dimensão, e tinha como destino os 3 grandes, treinadores incluídos.
Uma pena que a minha Académica seja um antro de otários… Tendo em conta que foram os últimos a cair (Naval, Leiria e Beira-Mar foram primeiro), podiam ter perfeitamente secado todo o talento jovem na região centro… Não é seguir o modelo Clismo/Jasomp a régua e esquadro, mas com certeza que daria para fazer mais pelos jovens jogadores… Enfim, agora andam perdidos sabe-se lá por onde.
Não falta muito para pararem nos distritais.
Neville Longbottom
O Moreirense é o exemplo máximo do que é falado sobre a primeira tabela. Uma freguesia do conselho de Guimarães com 4K habitantes tem um clube consolidado na primeira liga com várias épocas de alto nível.
Jasomp
Isto reconduz-se muito aquilo que eu tenho dito: os projetos em Portugal são intrinsecamente frágeis. Não há visão a longo prazo e isso faz com que os projetos sejam quase todos fugazes.
Clubes de capitais de distrito como Aveiro e Coimbra não terem clubes em divisões profissionais diz bem da forma como não conseguem captar a simpatia das suas cidades, face à importância que têm.
lipe
Bom texto, é sempre um tema interessante.
Só um pequeno reparo em relação a Famalicão: a cidade tem 36 mil habitantes, mas o concelho tem 133 mil. Clubes como o Famalicão, Braga, Vitória ou Gil Vicente têm uma grande base a explorar se se contar a população dos respectivos concelhos.