Não há pergunta que me irrite mais no mundo do futebol.
Cresci a pensar que o futebol é um jogo de 11 contra 11, onde as duas equipas têm 90 minutos para chegar à vitória. Todos nos abstraímos do que nos rodeia quando a bola começa a rolar e, se a nossa equipa estiver a jogar bem, nada é mais saboroso nessa semana. Não queremos que aquele espectáculo termine e ao mesmo tempo queremos ouvir o apito para gritar vitória!
Assim, não devia ser uma preocupação quem será o responsável pelo apito neste ou naquele jogo. Devia ser irrelevante e a menor das preocupações quando estudamos as hipóteses da nossa equipa vencer. Mas é fácil demais. A nossa paixão e irritação com a incapacidade da nossa equipa superar as adversidades torna-nos cegos (mais até do que quando acusamos o árbitro de o ser) e procuramos um culpado para o insucesso, uma distracção para o verdadeiro problema. Porém, e correndo o risco de ser contraditório, consigo perceber que no estádio, com a emoção e intensidade que se vive cada lance, exista contestação das decisões do “juiz”. Isto porque não estamos a ser racionais! Estamos demasiado dominados pelo espectáculo e pelo êxtase que apenas ver a bola a balancear as redes da equipa adversária nos vai fazer sentir mais vivos. Não acontecendo, por haver uma irregularidade que corte o desenrolar da jogada, avança a contestação ao “juiz”, mesmo que tenha ajuizado o lance corretamente. Mas estes protestos são passageiros, perdendo o interesse quando o jogo volta a chamar a nossa atenção.
O pior acontece quando somos manipulados a preservar e usar a nossa ira contra os árbitros. Os treinadores usam as conferências de imprensa para “mandar bocas” às nomeações e questionam as decisões durante o jogo nas flash-interviews, os dirigentes pedem publicamente para este ou aquele não arbitrar mais nenhum jogo da sua equipa (aparentemente para as restantes equipas já está apto…), a comunicação social dá mais destaque à análise dos lances duvidosos do que a análises a dinâmicas do jogo, os “comentadores desportivos” (um verdadeiro tumor no futebol atual) fazem de video-árbitro, revendo os lances (polémicos e não polémicos) vezes e vezes sem nunca chegarem a um consenso sobre qual a decisão correta, porque o objetivo não é esse, mas sim convencer o espetador de que o seu clube foi prejudicado.
Portanto, não podemos negar a existência de uma terceira equipa cujo objetivo é passar despercebida em campo, mas sem a qual não poderia haver competição – a equipa de arbitragem. Vão ter influência no resultado inevitavelmente, para o bem e para o mal, e por isso também devem ser protegidos para que possam desempenhar o seu trabalho sem condicionalismos ou receios. Ao fim e ao cabo, são atletas que merecem o respeito de todos os jogadores e adeptos de ambos os clubes em campo. Vão continuar a errar, mas vão errar muito mais se estivermos à espera que o façam.
Visão do leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui): João Costa


15 Comentários
Mineiro
A resposta a este problema é simples, façam tudo da maneira mais transparente possível. Assim deixa de haver razão para suspeitas que levem a insultos. Aprendam com o Rugby, um desporto a anos-luz no que toca a arbitragem e respeito pelo árbitro.
pjmatos
Artigo muito pertinente. Concordo com tudo, mas apenas parcialmente que “objetivo [da terceira equipa] é passar despercebida em campo”. Por um lado, é verdade que um jogo fluído e justo pode fazer a arbitragem passar despercebida, mas isso é para quem não torce pelos árbitros. Quem estiver genuinamente preocupado com o desempenho dos árbitros, vai desejar que o jogo corra tão bem a estes como às restantes equipas. Isto pode fazer-nos pensar quando vemos muito elogios nos media a um determinado jogador ou equipa, mas raramente em relação a um árbitro. O mesmo se passa entre amigos, quando perguntamos como jogou determinada equipa, mas nunca estamos preocupados como correu a exibição do árbitro para o próprio. Será que os árbitros também não podem ganhar então? Devíamos dar mais valor ao seu trabalho, sobretudo quando um jogo acaba e o árbitro acaba despercebido, pegando nas palavras do artigo. E o trabalho bom que passa por despercebido nunca devia passar despercebido.
coach407
Eu pergunto sempre quem é o árbitro. Tal como pergunto qual é o 11 das duas equipas. Fui árbitro pelo que conheço todos e as suas caraterísticas. Aprecio arbitragem. Claro que nunca insulto ninguém e muito menos vejo a arbitragem pelo olho que me dá mais jeito. Exemplo: sou benfiquista e acho que contra o Porto ficou um penalty por assinalar sobre o Corona e ficou um vermelho por mostrar ao Seferovic. De qualquer forma é muito importante separar as decisões erradas do insulto. E pior é que até com decisões perfeitamente aceitáveis se faz cenas estúpidas (ex.: Abel e Salvador depois do jogo com o Sporting e benfiquistas no geral por causa de um fora de jogo de milímetros contra o FC Porto que é simplesmente impossível ter a certeza absoluta sem manipulação da imagem. Só parar a imagem no momento certo já é muito difícil quanto mais…)
Aprecio arbitragem, acho fascinante como os árbitros têm de decidir e controlar as suas próprias emoções e todos que os rodeiam, incluido adeptos. Da mesma forma que quando vais ao estádio também podes gostar de apreciar as coreografias e as reações dos adeptos, por exemplo. Não são só as duas equipas que interessam. Isto é entretenimento, cada pessoa tem a sua forma de viver futebol e entreter-se como quiser. Uma vez vi um jogo da equipa de onde sou natural contra o Benfica e festejei todos os golos das duas equipas, por exemplo. Isso não é futebol porquê? Futebol é o que me apetecer, paguei o bilhete. Se for para apreciar a arquitetura do estádio que seja.
R1906
Patrocinado a grande pelos jornais que fazem notícias apenas sobre os árbitros do encontro , quando isso nem devia ser notícia. Logo do início e algo que nasce torto.
Salah
Faz-me imensa confusão ver pessoas que sabem os nomes de todos os árbitros, dos fiscais de linha, em que distrito nasceram, em que ano subiram de categoria… Desde quando é que isso é futebol?
A mentalidade em Portugal é simplesmente doentia, os media têm uma postura inqualificável que forma um loop com a paranóia da camada de adeptos mais irracional.
Num jogo amador irrelevante, que nos primeiros minutos estava mais que resolvido, um homem passou os 90 minutos a insultar o árbitro. Nos pavilhões, igual, desde que juntem mais de 10 pessoas é garantido que pelo menos uma vai passar o tempo inteiro a gritar para o árbitro como se fosse o fim do mundo. No futebol de topo, com milhares de pessoas, durante os 90 minutos, dá para compreender, mas onde fica bem visível o terceiro mundismo mental dos adeptos é nesses jogos a feijões, onde o comportamento nada tem a ver com a pressão do resultado, é só doentio.
Era possível “normalizar” o futebol português mas, claro, os dirigentes tinham de dar o exemplo, quando são eles os primeiros a promover o facciosismo e a guerrilha constante contra tudo e todos, ao ponto de parecer mais uma procissão de zombies que um desporto, um espectáculo, uma forma de entretenimento.
Berto
As pessoas deviam lembrar-se de algumas coisas importantes:
1ª os arbitros seja qual for a modalidade e aqui até me refiro mais às de pavilhao onde o publico esta mais perto deles, os insultos ouvem-se facilmente e é onde estão mais vulneraveis a serem agredidos. Eles sabem que se erram vao ser insultados, portanto, acham que eles sao masoquistas e vao errar nas decisoes, quando a consequencia é o publico ficar incendiado?
2ª quem esta sentado na bancada tem uma visao do jogo completamente diferentedo lance, do que se estiver no campo ao mesmo nivel que os jogadores. Ha coisas que se veem completamente de um ponto de vista elevado que ao nivel do solo ja nao é tao facil observar. Nao é por acaso que os analistas de jogo filmam sempre de pontos altos onde tem uma panoramica ampla sobre o que se passa no terreno de jogo.
3ª metam o publico que tanto critica a apitar um jogo, se calhar eles mudam logo de opiniam. Alias muita gente critica mas ressalvam sempre que o trabalho do arbitro é complicado e que NUNCA na vida pegariam num apito.
4ª a polemica da arbitragem nas tv´s nunca vai terminar porque os comentadores em vez de discutirem futebol, nao sabem, entao so podem falar de tudo que sao polemicas de arbitragem, emails, 1001 teorias da conspiraçao, vasculhar a vida passada e privada de tudo e todos. Vao a Inglaterra e vejam como se passa. Para começa os regulamentos penalizam duramente qualquer interveniente do jogo que tente criticar os arbitros, depois os programas desportivos tem ex-jogadores e treinadores e limitam-se a analisar o jogo, perceber como é que as equipas jogaram, performances dos atletas. Eles protegem e promovem o jogo, nos damos enfase as peixeiradas e polemicas que envolvem o jogo e nao falamos de taticas, jogadores, treinadores.
Estigarribia
Berto,
Concordo com os quatro pontos que aí apontaste, mas reforço o quarto ponto no teu comentário. Em Portugal tens poucos programas de desporto com ex-jogadores como comentadores. As raridades são o Mais Futebol (Nuno Gomes e Pedro Barbosa), o Titulares (Ricardo, Simão Sabrosa e Chaínho) e, salvo erro, o Grande Área acho que também tem ex-jogadores; Mas, no nosso país, com disseste, e bem, típico adepto tuga prefere ouvir as bacoradas de um Manuel Serrão, de um Pedro Guerra ou de um Pedro Proença, em vez verem programas verdadeiramente desportivos.
Enquanto esta mentalidade tacanha que vive no futebol português não passaremos de um futebol de terceiro mundo, onde se fala de tudo e mais alguma coisa, menos de futebol.
Saudações Leoninas
Berto
E esqueci-me de referir outra coisa. A entidade reguladora da televisao devia ter mão neste tipo de programas e limitar o seu conteudo editorial e por-lhes um travao, pois são programas que num extremo incitam a violencia, ao odio, incendeiam os adeptos e um dia destes vamos assistir a uma tragedia e vai tudo assobiar para o lado e sacudir a sua quota parte de responsabilidades.
Estigarribia
A eventual tragédia que aí referes já aconteceu. No dia 15 de Maio de 2018, a Academia de Alcochete foi invadida por 50 camelos e um plantel inteiro da equipa principal do Sporting foi agredido barbaramente. E nos dias que se seguiram falou o Presidente da República, o Primeiro-Ministro e o Presidente da Assembleia da República, os três maiores representantes do país, e o que é que se fez? Nada. Bola. Nickles. Continuou a assobiar-se para o lado e o futebol português continua metido no lodo onde sempre esteve.
Eu já deixei de ver a grande maioria dos jogos da 1ª Liga e só não deixo de ver totalmente os jogos da Liga NOS porque a minha paixão pelo Sporting é maior do que isso.
Saudações Leoninas
Berto
Eu já deixei de ver Liga NOS e programas de polemicas em Portugal. Porque se todos deixarmos de ver, nao ha audiencia
Berto
O problema disto que disseste Estigarribia é que o Serrao , o Guerra e o Proença defendem cegamente os seus clubes, incendeiam as massas adeptas desses clubes que se deixam levar pelas “verdades” que eles apresentam. E tens o barril de polvora pronto a explodir graças ao contributo destas personagens.
Somos campeões da Europa mas em vez de ajudar em alguma coisa, vivemos o pior periodo da historia em termos de polemicas envolvendo os 3 grandes.
É necessária uma intervençao de Liga e FPF para de uma vez por todas regulamentarem o futebol como deve ser: celeridade nos castigos aplicados, multas elevadas a quem falar negativamente sobre arbitragem, questões de assistencias publico nos estádios, horarios e dias dos jogos, calendarizaçao de provas nacionais, tudo para defender o produto futebol, os seus intervenientes, os adeptos.
Mais uma vez, em Inglaterra, os castigos são pesados, lembro-me de ha 1-3 anos um jogo do city com chelsea, acho que jogado sabado e acabou em polemica com o david luiz e nao sei mais quem e domingo o castigo do atleta estava ca fora, bastou 1 dia. Cá andam a adiar, depois despenalizam, mas entretanto a pessoa ja cumpriu o castigo, não se entende como é que se joga uma meia final da taça e a 2ª mao é jogada passado 2 meses, qual a necessidade e logica da 1ª mao ser colocada nesta fase critica de pouco descanso, no meio de eliminatorias da champions league?
Filipe Correia
Errar é humano, por isso foi imposta a tecnologia no futebol para auxiliar os árbitros, mas quando estes nem assim conseguem demonstrar qualidade ou bom senso, é claro que vão ser enxovalhados, e com toda razão, pois estão a tentar ser figura de um jogo que não é deles. O problema está em quem decidiu que X tinha qualidade para arbitrar (decidiu ou dava jeito), o Sr Hélder Malheiro, o Sr Fábio Veríssimo parecem-me dois que tem má vontade e querem só ser figuras do jogo, já por exemplo o Sr. João Capela é “apenas” mau, é muito mau, a qualidade dos arbitros em Portugal está ao nível do nosso futebol, a verdade é essa
André Dias
Bom post. Infelizmente a cultura de falar sobre arbitragens e atribuir responsabilidade pela derrota ao homem do apito está demasiado enraizada em Portugal.
Devia-se proibir qualquer declaração sobre arbitragens e multar os respectivos infractores. E quando falo em multas que sejam na ordem das dezenas ou centenas de milhares de euros, não é uma multa de 500€ a um treinador de SLB/FCP/SCP que faria alguma comichão. É uma medida extremamente simples de aplicar e traria várias vantagens: árbitros mais protegidos e menos condicionados, menos polémicas sobre arbitragens e mais espaço para se falar de futebol e os próprios treinadores arranjariam menos desculpas quando perdessem, sendo obrigados analisar as derrotas de uma forma mais construtiva e benéfica para as equipas. Claro que para isto funcionar devidamente também é necessário que haja transparência total profissionalizando a arbitragem e criando um organismo que analise e avalie o desempenho dos árbitros.
É fácil criticarmos os comentadores de programas desportivos de qualidade questionável, as perguntas dos jornalistas à caça de polémicas ou o adepto que só fala de arbitragens mas os maiores responsáveis por algo que se arrasta há décadas são a FPF e a Liga de Clubes. São os órgãos que gerem o futebol em Portugal que têm que fazer alterações e tudo o resto seguirá o exemplo. Já o deviam ter feito há imenso tempo mas, enquanto em Inglaterra até conseguiram acabar com hooligans dentro dos estádios, algo que há 20 anos parecia impossível, em Portugal estamos em 2019 a falar dos mesmos assuntos que já eram tema na década de 90.
Joaomi
Não há dúvida de que não partirá das estações das televisão ou da comunicação social em geral a redução destas polémicas… Concordo com as multas pesadas e formas de impedir qualquer tipo de condicionalismo aos árbitros.
Rodrigo Ferreira
Acho que a arbitragem se deve discutir como qualquer outro interveniente do jogo. É claro que monopolizar o debate em torno dos árbitros é excessivo, mas não se pode ser sempre politicamente correcto e fingir que os erros não têm peso. Há competições e muito dinheiro em jogo e os árbitros são claramente o agente de jogo mais fraco em Portugal, com tendência a piorar com esta nova geração de árbitros. Não se pode ignorar o desempenho do Sr Hélder Malheiro nas últimas três actuações por exemplo ou o de Fábio Veríssimo na meia final da Taça da Liga. É demasiado mau, mas ainda bem que há VAR senão estou certo que os erros ainda seriam mais ainda.