Critico-lhe a postura, o amuo e a forma como forçou a mão aos turcos, num número de teatro que hoje em dia qualquer vedeta ensaia quando o vento sopra de feição. É a prova de que o caráter, às vezes, não acompanha a velocidade das pernas, e que um contrato, para esta gente, tem a validade de um iogurte fora do frigorífico. Mas, se a atitude me azeda o estômago, o talento obriga-me a baixar a guarda. O Benfica não é uma instituição de caridade, mas é uma casa que sabe quando um negócio, por mais que nos belisque o orgulho, faz um sentido desportivo inatacável. Por sete milhões totais, ir buscar um jogador que fura defesas como quem corta manteiga quente e que não precisa de um mapa para saber onde fica a baliza sul, é pragmatismo puro.
O Rafa é aquele gajo que nos irrita profundamente, com a cara de quem está a contar os minutos para ir ver uma série na Netflix, mas que, enquanto boceja, deixa três centrais sentados no chão a pedir a reforma antecipada. É aquele acelerador de partículas que o futebol português não consegue travar: o drible curto que deixa os centrais a falar sozinhos, a explosão que transforma uma transição num pânico generalizado e uma polivalência que permite ao treinador inventar o que quiser. Querem-no a rasgar na ala? Ele vai. Querem-no solto atrás do ponta de lança a servir de veneno? Ele resolve.
O Benfica nunca lhe fechou a porta, e percebe-se porquê. Num plantel que agora recupera o fôlego com as voltas de Lukebakio e Bruma, o Rafa não é um luxo de exposição; é o motor que faltava para garantir que a equipa não entra em ponto morto. Enquanto os comentadores de serviço se babam a tentar queimar o clube, o Benfica ignora o ruído e resgata quem entra direto no onze sem precisar de manuais de instrução ou de três meses para aprender a dizer “bom dia” em português. É a vantagem de contratar quem já conhece cada tufo de relva da Luz pelo nome e que, mesmo com aquele ar de quem está a fazer um frete à humanidade, continua a ser mais decisivo que metade da liga junta.
Que venha, então, o tal “menino da velocidade da luz”, mas que venha com a consciência de que o Benfica é maior que qualquer capricho de Istambul. Se o regresso significa golos, transições de vertigem e o fim do tédio ofensivo, que se aceite o negócio, mas que não se peça ao adepto para esquecer a forma rasteira como a mala foi feita. O futebol é pragmático e o Benfica precisa de ganhar ontem. Se o Rafa decidir usar o génio para servir a causa em vez de servir o próprio amuo, ganhamos todos.
Que marque, que parta os rins a quem aparecer à frente e que trate a camisola com o respeito que o talento dele exige.


3 Comentários
_Mushy_
Valter, depois destes dois últimos post..
Diria que pareces um advogado de defesa da direção.
Há alguma coisa que está a ser mal feito no clube? Parece que está tudo uma maravilha e esses textos bonitos mais parece uma campanha eleitoral.
JJ Okocho
É um texto assertivo e factual, quiçá com algum embelezamento poético… pode sempre usar o Visao do Leitor para a refutação.
Rafa é um excelente reforço, top 3 nacional na posição, conhece a casa e é sinónimo de rendimento desportivo. O modo como geriu a saída será eticamente condenável, mas o clube está fora dessa situação e o adepto é adepto, e não júri, juiz ou carrasco.
_Mushy_
Já tinha falado do jogador, do qual aprecio e até disse que mereceu mais na seleção do apenas aquecer o banco..
Mas este post e o anterior parece uma campanha eleitoral à direção do Rui Costa.
Tudo perfeito e belo.