Fazer o actual retrato do futebol para cá do estreito do Bósforo era, até agora, tarefa muito simplificada. Os tempos mudaram, o futebol na Turquia alargou horizontes, galgando a fronteira que divide a cidade de Instambul em duas: lado europeu (Trácia), e o lado asiático, mais conhecido como Anatólia (para lá do Bósforo). Depois de uma caminhada no deserto, o lado asiático do futebol turco cria um recém microcosmos de talento e história à mistura: falo do Bursaspor, apenas o 5º clube a proclamar-se campeão turco, o primeiro a desviar-se do poderoso e rico futebol que alberga a cidade de Istambul. A vitória quase milenar, levou o seu selo a 16 de Maio de 2010, e o clube tornou-se apenas no 2º clube fora de Istambul a vencer a competição, abrindo caminho a novas equipas para lá do Bósforo. O inesperado título do Bursaspor, ou Crocodilos, como são apelidados pelos adeptos turcos, teve a coragem de profanar a regra sagrada de que “nenhuma equipa fora de Istambul” pode vencer o campeonato local, abrindo caminho a que clubes como Kayserispor, Gaziantepspor, Ankaragücü and Gençlerbirliği possam aspirar ao lugar cimeiro do futebol turco.
Desde que o futebol na Turquia adoptou um nível mais profissional, foi dominado por 3 clubes de Istambul: Fenerbahce, Galatasaray e Besiktas, clubes que se tornaram autênticos estaleiros de mercenários, atraindo velhas estrelas da Europa, como o caso mais recente da ida de Quaresma para o Besiktas, clube que “copiou” o modelo do Galatasaray e Fenerbahce, que já anteriormente tinham chamado aos seus plantéis jogadores da qualidade de Elano ou Anelka. Esse domínio foi interrompido na época de 83-84 pelo Trabzonspor. O clube amealhou outros títulos entre a década de 70 e 80, mas foi numa altura em que todos os clubes, e os seus jogadores, eram demasiado “ingénuos”, bastando para se sentirem felizes terem noção da sorte que era pisarem um terreno de jogo, jogando ao som de gritos de guerra e assim se sentindo motivados para vencer. Porém, a realidade foi, gradualmente, sendo transformada neste país euro-asiático. Desde que o dinheiro se tornou cada vez mais parte integrante do seu futebol ao longo da última década, o “ Big Three” de Istambul aproveitou para gozar dos benefícios de serem os 3 clubes mais ricos do país. O vasto número de adeptos combinado com o imenso suporte que recebem por todo o país, ajudou-os a partilhar a luta pelo título nos últimos 25 anos. O orçamento do Bursaspor na temporada que culminou com o seu título, era um terço do dos gigantes da antiga Constantinopla, mas no entanto, foi o suficiente para atrair jogadores com a qualidade suficiente para trazerem o sucesso para o clube. Jogadores como Tandoğan, um ex-Besiktas, e Hüseyin Çimsir, que chegou do Trabzonspor, aliados à prata da casa (que se revelou talentosa, com jogadores como Sercan Yildrim, o nº9 mais promissor a actuar no futebol local). O espírito da equipa e os heróis da passada campanha tentarão transportar o sucesso para este ano, em que a defesa do título é conjugada com a participação na Liga dos Campeões, ou seja, haverá a entrada de dinheiro extra, o que possibilitará que os despojos da liga turca sejam batalhadas por 5 equipas, incluindo o Trabzonspor.
Porém , o trabalho do Bursaspor está longe de estar terminado. É próprio presidente do clube a afirmá-lo: “ Aceitamos esta honra. Agora, temos um peso ainda maior em cima dos ombros: representar o país na Liga do Campeões. Tentaremos não deixar ficar mal quem nos ajudou até aqui”. Todos os entusiastas de futebol na Turquia sabem que eles não deixarão.
PS – A Liga Turca é em tudo semelhante à portuguesa, ou seja, até ao momento teve apenas 5 clubes campeões, tal como em Portugal. Existe um claro domínio dos clubes de Istambul em relação aos restantes, quer a nível económico, como em numero de adeptos, o mesmo acontece no nosso País com a bipolarização (Lisboa e Porto) instalada no futebol e não só em detrimento dos demais. Três clubes centram em si todas as atenções mediáticas: o Besiktas, Fenerbahçe e Galatasaray na Turquia; o Porto, Sporting e Benfica em Portugal. Contudo, há duas questões que nos separam da realidade turca. Por um lado, o facto de a nível internacional os nossos clubes já terem conquistado Liga dos Campeões, algo que nenhum clube turco alguma vez esteve perto de conseguir. E a nível financeiro, o facto da Turquia ter capacidade para atrair estrelas como Guti, Quaresma, Elano, Niang, Alex, André Santos, Baros, entre muitas outras e os nossos clubes não só não dispõe da mesma capacidade financeira como muitas vezes olham para o mercado turco como uma boa possibilidade para vender alguns dos activos, devido a essencialmente (mesmo os 3 grandes) serem clubes vendedores.
Conseguirá o Braga ou até mesmo o Vit. Guimarães imitar em Portugal o feito do Bursaspor na Turquia? Porque razão as grandes equipas turcas nos últimos anos a nível europeu, mesmo adquirindo vários jogadores por números superiores a 15 milhões de euros, (algo que nunca aconteceu em Portugal) não apresentam resultados consideráveis? Aliás, no ranking da UEFA estão claramente atrás de Portugal. Podemos concluir que apesar das nossas limitações financeiras os nossos clubes fazem milagres? Recordo que o actual treinador do Besiktas já venceu uma Liga Espanhola pelo Real Madrid, e o actual treinador do Galatasary já venceu uma Liga dos Campeões pelo Barcelona.
A.Borges


