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Repensar, Mudar e Estabilizar: os trunfos para voltar a triunfar

Serve o presente texto para fazer uma retrospetiva daquele que foi um Europeu bem abaixo das expetativas de qualquer adepto da seleção de todos nós, retrospetiva essa que pretende servir de força motriz para que este novo (e curto) ciclo de 15 meses até ao Mundial do Qatar tenha um desfecho bem mais feliz e concordante com a atual qualidade da nossa equipa.

Antes de mais, gostaria de recordar que Portugal partiu para o Europeu como a seleção que, na minha opinião, possuía nas suas fileiras, em termos quantitativos, o conjunto de jogadores em melhor momento de forma: começando na defesa, Rúben Dias e Cancelo figuraram no 11 do ano da Premier League, tendo o primeiro, inclusive, sido também nomeado o melhor jogador da competição; Nuno Mendes, Pepe (Liga NOS) e Fonte (Ligue 1) também figuraram no onze ideal das respetivas ligas; do meio campo para a frente, destaque para Palhinha e Sérgio Oliveira, nomeados também para o melhor 11 da Liga NOS; e por fim, atentem bem nestes dados: Portugal tinha nas suas fileiras Bruno Fernandes, nomeado igualmente para o 11 do ano da Premier League, 3º melhor marcador e 2º melhor assistente da liga (contabilizando no total 40 contribuições para golo!); Cristiano Ronaldo, melhor marcador (29 golos) e melhor avançado da Serie A; André Silva, 2º melhor marcador da Bundesliga (28 golos), e ainda Pedro Gonçalves, melhor marcador (23 golos) e melhor jogador da liga NOS. Desta feita, considerando todos estes dados, parece-me que eram mais que legítimas todas as expetativas que foram criadas, não só a nível nacional, mas também internacional, em relação às efetivas possibilidades que Portugal tinha de revalidar o título europeu.

No entanto, quando se tratou de colocar em campo aquilo que no papel parecia uma certeza, a seleção montada pelo engenheiro Fernando Santos mostrou-se uns bons furos abaixo do esperado, quer no que diz respeito aos aspetos táticos nos vários momentos de jogo, quer no aproveitamento individual dos vários jogadores em grande forma supracitados. Assim sendo, começaria a minha análise pela organização defensiva sólida aliada ao pragmatismo no momento de finalização, que são as pedras basilares do reinado de Fernando Santos nestes 7 anos à frente da nossa seleção. Para isso, gostaria de fazer um ponto prévio: no futebol, todos nós temos estilos de jogo ou tipos de jogadores que nos agradam mais, porém, há algo que ninguém pode negar: desde o futebol rendilhado e taticamente complexo de Guardiola, ao gegenpressing de Klopp ou ao futebol mais pragmático e sólido defensivamente de Mourinho, Simeone ou Santos, no fim de contas, o que importa é se os jogadores à nossa disposição são adequados ao sistema e , acima de tudo, se esse sistema nos conduz a vitórias e títulos. E é precisamente aqui que a seleção de FS começou a mostrar sinais de debilidade: aquilo que nos fez ganhar o épico Euro 2016, não só já não se adequa aos jogadores da atual convocatória, como esta forma de abordar o jogo não mais se mostrou eficaz, de que são prova os 7 golos sofridos em 4 jogos (ainda para mais se atentarmos ao facto de que 4 destes foram encaixados nas 1ª partes dos jogos, o que obrigou Portugal a correr várias vezes atrás do prejuízo, à custa de uma atitude demasiado expectante e conservadora nos primeiros minutos de jogo). A isto se junta um ato de pura teimosia do engenheiro, ao insistir em entrar no europeu com o ultra-conservador duplo pivot William-Danilo, que já ficara negativamente ligado a um empate e uma derrota com a Ucrânia no apuramento para este europeu (e que nos custou a presença no grupo mais difícil da história dos europeus, só amenizado pela passagem de 3 equipas à fase seguinte).

Ora, se já no passado esta opção técnica se revelara infrutífera, no contexto do europeu mostrou-se ainda mais precária, tendo em conta o péssimo momento de forma de William (que, para além de ter sido relegado para segundo plano no Bétis, tinha a concorrência de outros jogadores em grande plano nas suas equipas, como Palhinha, Renato ou mesmo Sérgio Oliveira), a pouca intensidade defensiva da dupla (permitindo bastante espaço entrelinhas para os atacantes adversários, sobretudo no jogo com a Alemanha) e as dificuldades claras na transição ofensiva que criaram constantemente um fosso no jogo interior português, que se tornou praticamente inexistente. Se juntarmos o que acabei de referir à pouca projeção dos laterais portugueses no jogo ofensivo, sobretudo em profundidade, com consequente falta de apoio aos extremos Jota e Bernardo, criou-se um paradoxo no jogo ofensivo nacional, em que se tornou difícil criar desequilíbrios, quer por dentro, quer por fora.

Para além disso, é inevitável não abordar a prestação de Bruno Fernandes neste europeu, ou mesmo ao longo de todo o seu percurso ao serviço da seleção: enquanto que no United, ou mesmo no Sporting, este nos habituou a ser um jogador ativo quer no momento de recuperação, quer no momento da construção, procurando ligar o jogo em zonas mais recuadas para, depois, aparecer de forma decisiva nos momentos de finalização, neste Europeu, sempre que foi titular, este apareceu demasiado estático na frente de ataque, ocupando em demasia o espaço entre os centrais adversários. Ora, se a intenção fosse fixar marcações para permitir que os extremos explorassem o espaço nas costas da defesa até se perceberia, porém, quer Bernardo, quer Jota, permaneciam quase sempre junto á linha, o que facilitou a tarefa dos adversários, ao mesmo tempo que anulava as ações do médio do United, que pouco contribuiu para o jogo ofensivo nacional. Adicionalmente, o próprio posicionamento de Ronaldo, que deveria ser a referência de área na ausência de André Silva no 11 titular, fora das zonas de finalização retirou ainda mais capacidade de criar perigo efetivo e constante na grande área adversária.

Eis que perante o insucesso demonstrado pelo trio do meio-campo, a solução encontrada foi relegar Bruno Fernandes e William para o banco de suplentes, dando oportunidade a Renato Sanches e João Moutinho. Foram precisos dois jogos, um deles um verdadeiro banho tático da Alemanha, para que o engenheiro se relembrasse que tinha nos convocados o único jogador capaz de trazer verticalidade e rapidez na transição ofensiva, aliadas a uma grande intensidade defensiva, ou seja, um “box-to-box”: Renato Sanches. No entanto, quando fez essa alteração, já Bruno Fernandes tinha sido colocado de parte nas opções, o que deixa um amargo na boca, por não termos tido a oportunidade de ver em ação um meio campo onde Bruno teria à sua disposição um verdadeiro médio de ligação (o “seu Pogba” no contexto de seleção). Com isto não quero dizer que João Moutinho tenha sido uma má opção, até porque este trouxe maior assertividade com bola e a sua tão característica intensidade sem ela… a questão passa mais por se ter perpetuado a pouca capacidade de desequilibrar no último terço, sobretudo ao nível do jogo interior, não obstante de ter havido uma clara melhoria na consistência defensiva e manutenção de posse, logo visível no empate com os gauleses (sendo que isto já deveria ter sido preparado e analisado a priori, nas 3 semanas de estágio e nunca no decorrer da competição).

Por fim, e para concluir a minha análise ao Europeu, gostaria de me referir especificamente ao fatídico jogo com a Alemanha, que foi, na minha opinião, um dos piores jogos, em termos táticos, que vi a nossa seleção fazer em largos anos. Para este jogo, FS tinha como ideia inicial tentar juntar as linhas e aproveitar o duplo pivot para recuperar bola no setor médio, lançando rapidamente bola na frente, de maneira a aproveitar a capacidade de desequilíbrio do quarteto da frente, tal como acabou por ocorrer no 1º golo. No entanto, desde cedo, com o golo alemão anulado pelo VAR nos primeiros minutos de jogo, se percebeu que a linha defensiva de 4 portuguesa era insuficiente perante os movimentos entre linhas e por dentro de Havertz, Muller e Gnabry (a que se junta a ineficácia já referida do duplo pivot neste aspeto), o que criava espaço e superioridade numérica na largura, repetidamente aproveitados por Gosens e Kimmich. Este desencaixe tático manteve-se durante 70 minutos, custou-nos 4 golos sofridos quase idênticos na sua origem, isto sem que FS nada tivesse feito para o corrigir. Perante isto, bastava que FS tivesse optado por 1 dos seguintes 2 cenários: criar uma linha de 5, recuando Danilo para junto dos centrais, no momento defensivo, ou obrigar Bernardo e Jota a fechar junto dos laterais, consoante a variação de jogo alemã. Logicamente, que, com isto, não estou a afirmar que Portugal teria ganho o jogo, mas certamente não teríamos feito uma exibição tão sofrível do ponto de vista tático.

Em suma, foi mais uma grande competição em que Portugal saiu prematuramente de prova, sem conseguir mostrar todos os predicados que fazem dela uma das melhores seleções do mundo e sem que alguns dos seus melhores jogadores consigam demonstrar ao serviço do seu país toda a qualidade demonstrada durante a época nos seus clubes. Prossegue também o registo nada positivo de FS, se tivermos em conta o estatuto de favorito de Portugal, em termos de resultados absolutos nestas grandes competições (Europeus e Mundial): apenas 3 vitórias no tempo regulamentar (contra as claramente inferiores Gales, Marrocos e Hungria), 9 empates e 3 derrotas em 15 jogos.

Assim, a prioridade nos próximos 15 meses deveria passar por REPENSAR tudo o que tem corrido menos bem: continuará a fazer sentido insistir num modelo exageradamente conservador, assente num princípio de consistência defensiva que é, na atualidade, muito menos efetivo do que há 5 anos atrás (e que nos levou à maior conquista da história do futebol português)? Como tirar o melhor rendimento, isto é, conseguir criar dinâmicas, quer em termos de ocupação dos espaços, entrelinhas ou na profundidade, quer em termos de chegar com maior facilidade e quantidade a zonas de finalização, de jogadores como Bruno Fernandes, Bernardo Silva, Jota, André Silva, João Félix, entre outros, que em tantas ocasiões ficam aquém daquilo que os torna dos melhores do mundo nas suas posições? Fará sentido continuar a dar um excesso de liberdade posicional a Ronaldo (ainda maior do que a que tem a nível de clube), quando este é mais necessário dentro de área (relembremos os golos de CR7 no jogo com a Irlanda, precisamente quando este se limitou a atacar a sua zona de conforto) e tendo em conta que temos, nas nossas fileiras, jogadores com maior capacidade de jogar em espaços curtos que o GOAT insiste em ocupar?

Feita esta reflexão, segue-se o momento de tomar uma decisão no sentido de MUDAR e ESTABILIZAR processos: Portugal não beneficia em nada com as constantes mudanças a meio campo, devendo pensar-se, com vista ao próximo mundial, em tentar fixar um meio-campo (e isto torna-se ainda mais importante num contexto de seleções, onde as oportunidades para consolidar processos são reduzidas), que na minha ótica, deveria assentar em Palhinha, Renato e Bruno (se mantiverem o nível exibicional, claro), sem nunca esquecer o contributo de João Mário, Moutinho, Otávio ou Ruben Neves em momentos de jogo em que seja necessário segurar bola e acrescentar critério; encontrar a melhor forma de integrar os novos jogadores que têm batido à porta da seleção, desde a eficácia de Pote, à irreverência de Pedro Neto e Trincão, à profundidade e acutilância ofensiva dada por Nuno Mendes (em contraste com a tendência de ocupar espaços interiores de Guerreiro), à remodelação do centro da defesa (com Gonçalo Inácio à cabeça), à possibilidade de ter em Matheus Nunes um jogador com caraterísticas semelhantes às de Renato (que atualmente não temos), sem nunca perder de vista a evolução dos maravilhosos tecnicistas Fábio Vieira e Vitinha ou mesmo o completo Gonçalo Ramos (o novo grande candidato a número 9 nacional).

Para concluir esta minha análise, gostaria de ressalvar que esta é, apenas, uma análise construtiva e pessoal sobre a seleção que é, talvez, a melhor de sempre em termos da qualidade, quantidade e variedade de opções e que pode e deve jogar bem melhor do que o que temos visto, sobretudo, nos últimos dois anos. Quer gostemos ou não das ideias de FS, devemos sempre reconhecer-lhe mérito pelas grandes conquistas que nos trouxe, mas é altura de exigir mais e melhor, para que esta nova geração dourada nos possa trazer ainda mais alegrias e conquistas!

Visão do Leitor: Afonso Couto

VM-Desporto
Author: VM-Desporto

6 Comentários

  • WIPFotsa
    Posted Setembro 3, 2021 at 9:11 pm

    Com a matéria prima que a seleção tem, só um nome me vem a mente. Arsène Wenger. O que seria a seleção com ele ao leme. Poderíamos levar 2 ou 3 por jogo, mas acredito que marcariamos 3 ou 4. Uma nova geração de ouro, poderia não ganhar, mas de certeza que ninguém a iria esquecer

  • Nedved.5
    Posted Setembro 3, 2021 at 9:28 pm

    Eu sinceramente acho que todos vemos e pensamos nisso. Mas não estando nos bastidores fica difícil debater sobre isso.

    Todos nós batemos na tecla que o Ronaldo só estorva. No entanto se fica na área (ele não gosta e amua) e parece que não faz nada. Se o encostas á esquerda, parece que não faz nada, passa a vida no centro do terreno. Ou seja, é como os putos e quer o que não pode ter. Se o colocam na linha quer estar na mama. Se o colocam na mama foge para a linha ou sai de lá porque nunca toca na bola.

    Enquanto o tiveres no onze vais ter que jogar sempre da maneira que ele quer (infelizmente). Aliado ao super conservadorismo e mesmo amadorismo da parte do F. Santos estamos bem tramados… Uma pena, porque individualmente estamos com uma boa seleção embora com algumas lacunas como os centrais…

    Pode ser que com o aparecimento do Inácio, Ramos, Matheus Nunes e com o Nuno Mendes, Pedro Neto, Pote a coisa vá lá…

    • ricardojrdg
      Posted Setembro 4, 2021 at 8:32 am

      Concordo.
      Mas espero que o retorno a Manchester e a proximidade com Alex Ferguson lhe volte a dar alguma humildade, porque essa humildade que lhe falta está a impedi-lo de melhorar e de aceitar algumas decisões do banco.

  • Amigos e bola
    Posted Setembro 3, 2021 at 9:57 pm

    Tudo dito. Acima de tudo, roça o gritante a tremenda incompetência do Fernando Santos.
    Ninguém o questiona, ninguém lhe põe em cheque, nada. Parece que os jornalistas e comentadores têm receio de o criticar.

    É um fim de ciclo que ninguém quer admitir. E acho que isso vai nos vai custar mais uma prestação paupérrima numa fase final. O que é pena. Esta geração é claramente das melhores que já tivemos.

  • Tiago Silva
    Posted Setembro 4, 2021 at 7:52 am

    Excelente texto e penso que referiste uma coisa muito importante que é a estabilização do meio-campo. Precisamos de estabilizar uma ideia e o Fernando Santos no Europeu mexeu várias vezes no meio-campo, o que dá ideia de alguma confusão por parte dele (que já todos sabemos). O facto de Portugal ter soluções para todos os gostos pode vir a ser um “problema” para um selecionador fraco como o FS. Portugal neste momento pode jogar com um 6 mais recuperador (Palhinha) ou um mais construtor (Neves). Pode jogar com um 8 que faça a ligação mais através do transporte de bola (Renato e veremos Matheus Nunes), ou que faça uma maior gestão com bola (João Mário, Moutinho ou mesmo Rúben Neves), 10 para dar e para vender com Bruno Fernandes à cabeça e inclusivamente muitos que podem jogar na ala (Bernardo, Pote, Otávio), temos extremos com golo (Jota), outros fortes no 1×1 (Pedro Neto), outros extremos mais de contra-ataque e agitadores (Rafa e Guedes), um bom 9 que se farta de trabalhar para a equipa (André Silva) e ainda o Ronaldo. Temos ainda laterais do melhor que há e super ofensivos como o Cancelo, Ricardo, Guerreiro e Nuno Mendes, uma das melhores duplas de centrais do Mundo Pepe e Rúben Dias e 2 guarda-redes de qualidade como Patrício e Lopes.

    Sei que temos que ter uma ideia de jogo assente para servir como base, mas conhecendo as possibilidades infinitas que temos, teríamos que ter um selecionador com mãos para isto, que conhecesse os adversários e soubesse o que quer para o jogo. E não falo em processos complexos, ao nível de seleções todos trabalham com processos simples mas sólidos. E não é só colocar os jogadores no campo e distribuir coletes como faz o nosso.

  • Mantorras
    Posted Setembro 4, 2021 at 3:53 pm

    Dificilmente poderia concordar mais.

    A questao seria, para mim, comecar por mudar de seleccionador, e depois sim, podemos pensar em algo mais. Ate la, com a historia do “jogam os da minha confianca”, vai-se deixando de lado o merito ou merecimento.

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