Jogador de raça, intensidade e pulmão, dizem. Um Uribe com esteroides, um box-to-box moderno, um gladiador de meia distância. Mas no relvado, o que se vê é um homem a tentar correr mais depressa do que o peso que carrega. Porque no Benfica, quem custa mais tem de render mais. E quem não rende, é empurrado para a bancada com um comunicado em letra pequena.
Ríos não tem culpa do valor. Mas tem a responsabilidade. E isso, no futebol português, é como jogar com um piano às costas e esperar que saia música. Cada passe é escrutinado, cada perda é amplificada, cada gesto é interpretado como sinal de fraqueza ou arrogância. O colombiano está a aprender que no Benfica não há tempo para adaptação – há urgência para justificar.
A pressão não vem só dos adeptos. Vem do balneário, da direção, dos comentadores que nunca jogaram, dos cronistas que nunca correram. Vem do silêncio institucional que exige sem dizer. Vem da sombra de Kökçü, que custou menos e, por enquanto, rendeu mais. Vem da promessa de títulos, da fome de glória, da necessidade de mostrar que o dinheiro não foi mal gasto.
E no meio disto tudo, Ríos tenta jogar. Tenta ligar setores, recuperar bolas, rematar de longe. Tenta ser o que disseram que ele era. Mas a Luz não perdoa. E quando o estádio se impacienta, o jogador sente-se pequeno. Porque aqui, o aplauso é curto e a cobrança é longa.
Ríos pode ser tudo o que prometeram. Mas precisa de tempo, espaço e confiança. Coisas que o Benfica raramente oferece. Porque no Seixal, o relógio anda mais depressa. E quem não acompanha, é deixado para trás com um sorriso e um adeus.
Ríos pode vir a ser tudo o que prometeram – mas por enquanto, é só o que custou. E no Benfica, isso não chega. Aqui não há tempo para adaptação nem paciência para promessas. Há exigência, cobrança e um estádio que não perdoa hesitações. O colombiano corre, luta, tenta – mas parece sempre um segundo atrasado e um milhão adiantado. Porque quem chega com etiqueta de luxo tem de desfilar como craque. E Ríos, por agora, ainda está a tropeçar na passadeira.
Visão do Leitor: Valter Batista


32 Comentários
Manel-Abecasis
Acho este argumento da “pressão do preço” uma saída fácil para os jogadores. Se és craque, na grande maioria das vezes chegas e rendes, indepentemente do preço. Gyokeres, Hjulmand, Enzo, Froholdt, Danilo, Hulk. Um jogador caro hoje em dia quando não rende é sempre “vítima do preço que foi pago por ele”. E se simplesmente não tiver a qualidade que pensavam ter? O Ríos fez uma carreira inteira no Brasil, onde pelo que leio (não vejo o Palmeiras) nem era esse craque monstruoso que ganhava jogos sozinho. Já pensaram que, se calhar, simplesmente não é assim tão bom? Como não era o Kokcu ou o RdT? Acontece, as vezes o Scouting falha. Com isto nao quero dizer que o Ríos já não vá dar nada, mas não pode ser imune a critica porque coitadinho pensa muito no que custou.
Petrol
Penso que seja uma mistura de duas coisas. O jogador sabe mais do que tem sido capaz de exibir, como aconteceu com Kokçu inicialmente. No entanto, nunca vai ser um super craque que justifique o preço que o Benfica pagou por ele. Super craques são jogadores como esses que deste como exemplo, que independentemente do preço, chegaram e fizeram a difereça e de que maneira.
Mantorras
O ponto é mesmo que, enquanto Gyokeres, Hjulmand, Enzo ou Froholdt, custaram o que valiam, seja o preco alto ou baixo para o nosso futebol (neste caso alto), o Rios custou o que nao valia. O Benfica habitou-se a pagar bem, e parece que é demasiado facil acabar por dar uns milhoes a mais do que aquilo que o jogador vale. O Rios devia valer uns 15M, mas fez um bom mundial e passou para 20M+, ao negociar com um clube que nao precisa de vender, exigem mais, e depois, como é o Benfica, mete-se a Roma como interessada, e justifica-se pagar-se quase o dobro do real valor do jogador. É certo que o Benfica precisava de um medio, é certo que o perfil era mais ou menos o do Rios, e é certo que tambem queriam fechar a contratacao para contar com o jogador sem arrastar a coisa no tempo, era mais ou menos urgente… mas depois, quando o jogador sai para o campo, leva uma tag de 30M em vez de 15M, e é ai que “a culpa nao é dele” e a “pressao parece uma mochila as costas”.
Manel-Abecasis
Exato, é esse o meu ponto.
Antonio Clismo II
Ainda bem que o mercado estava fechado quando precisaram de substituir o Enzo Fernandez e apareceu um miúdo chamado João Neves a carregar a equipa às costas até ao último campeonato ganho pelo benfica.
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Caso o mercado estivesse aberto e houvesse dinheiro para estoirar, tinham ido buscar outro “craque” qualquer pago a peso de ouro, mas com rendimento muito abaixo do normal para o que custou.
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Para aquilo que o Ríos está a fazer no benfica, o Rafael Luís fa-lo-ia na mesma, e não teriam sido necessários gastar os 27 milhões de euros que poderiam ser gastos em coisas que o clube mais precisa, ou se não tivessem nada para os gastar, que os metessem no banco a render juros, pelo menos…
Petrol
Mais uma vez o teu argumento é incorreto. Quem assumiu a posição de Enzo foi Chiquinho. João Neves ganhou a titularidade apenas na jornada 29 e entrou para assumir e rejuvenescer o meio-campo.
Antonio Clismo II
O mercado fechou a 1 de Fevereiro e inicialmente entrou o Chiquinho no 11 mas a equipa já vinha em perda dos índices físicos e de qualidade de jogo… mas as coisas até correram minamente bem até Abril altura em que se dá 3 derrotas consecutivas (FC Porto, Inter e Chaves) e colocam o título em risco.
Então aí entra o João Neves no 11 e nunca mais sai, marcando até o golo que garantiu o empate contra o Sporting e levando a equipa às costas na maioria dos jogos. Valeu por 2 naquela altura.
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Mas alguém te dúvidas que o Benfica não teria ido ao mercado comprar jogadores sobrevalorizados para compor o meio campo nessa altura? Digamos, se o mercado de transferência não tivesse fechado a 1 de Fevereiro e tivesse fechado apenas a 1 de Março, o João Neves hoje ainda estaria a jogar na equipa B do Benfica ou emprestado a um Tondela…
Petrol
João Neves teve uma utilização residual até à 29 jornada. A partir daí entrou e esteve muito bem, inclusive marcando ao Sporting. Até à 29 jornada João Neves praticamente não jogou, portanto apesar de todo o impacto que teve, não se pode dizer que carregou a equipa.
Antonio Clismo II
Bem.. eu vi os jogos e lembro-me bem e posso dizer que carregou a equipa nesses últimos jogos do campeonato onde a equipa já se arrastava em campo nos últimos meses. Era quase um jogador que cobrava os cantos e estava logo a seguir na área para cabecear. Estava em todo o lado, foi impressionante.
Petrol
Não discordo. A questão é que continuam a ser apenas 5 jogos. Portanto, não vejo como um jogador com 5 titularidades pode ter levado uma equipa às costas para um campeonato…
Meu nome é Toni Sylva
Ora bem, ceder o passe do João Neves por 70 é saldo, mas dar 27 pelo do Rios é caro. Não é que eu discorde, mas continuo sem entender como é que depois se quer que um seja tão craque como o outro.
Antonio Clismo II
Analisando os dados estatísticos dos 531 minutos do Ríos pelo benfica com os 201 minutos do Rafael Luís pelo Estrasburgo, vemos que são parecidos em tudo, menos em 2 aspetos, Ríos é muito melhor em recuperar a posse de bola e o Rafael Luís está muito superior em vencer duelos. Em tudo o resto está muito parecido.
ManuelFAlbuquerque_
Cristiano Ronaldo é o monstro competitivo que se sabe mas quando não corre bem depois até chora e tem comportamentos estranhos para um tipo já nos 40.
Todas as pessoas são diferentes e achar que todos os craques rendem sempre é conversa.
Até temos casos de tipos que estão zero motivados e jogam balão apesar de serem muito bons.
Como estamos a falar do Borderline jogadores como o central Luisão também tiveram um início horroroso e depois consolidaram o seu lugar.
O contrário passou por exemplo com Roger Schimdt que teve um início bastante bom mas depois até criticaram o Rui Costa por ter dado um contrato elevado ao treinador da moda.
As pessoas têm dois pesos e duas medidas são de uma irracionalidade tamanha e depois até acham hey se eu mandasse é que isto funcionava. São delírios.
O Rios era muito elogiado neste blogue quando estava no Palmeiras e eu até pela expressão facial do atleta acho que está sem grande confiança.
Disse o mesmo depois do primeiro jogo do Amorim connosco. Teve uma primeira conferência interessante e confiante, mas depois no final do jogo estava muito muito abalado.
Na altura brincaram comigo e disseram que também era vidente e eu disse que a linguagem não corporal diz muito.
Hey têm de estar mais atentos.
Rios pode até não ser um craque absoluto mas está claramente sem confiança. Isso é óbvio e acontece a muito boa gente.
Mister Mourinho é um treinador de topo, continuo a achar que é um treinador de topo e vai fazer de tudo para ajudar o atleta.
Força mister.
ManuelFAlbuquerque_
Linguagem não verbal.
henry14
Bom texto.
Flavio Trindade
Este argumento é falacioso porque o price tag não ajuda a explicar nada.
Em Liverpool vive a contratação mais cara desta época, uma das mais caras de sempre e já há muita gente a questionar, se a contratação de Wirtz não foi um erro tremendo porque a equipa não rende com ele…
E Wirtz passou a ser mau? É um jogador sem qualidade? Um flop?
Não. Não é vítima do price tag, mas sim do contexto.
O caso de Rios é exactamente igual.
Estamos a falar de um dos melhores jogadores das últimas edições do Brasileirão, titular da sua Seleção que é uma das melhores da América do Sul.
O problema aqui é o contexto.
Rios é bom para jogar no Benfica? É.
Rios é o jogador que o Benfica precisava? Não
A culpa, tal como no caso de Wirtz é de quem o contratou.
E o Benfica tem aido pródigo em tiros ao lado, ou a flopar bons jogadores porque tem zero critério nas suas compras.
Compra por estatuto, e compra porque pode esbanjar. Só isso.
Não há a preocupação de tee um modelo técnico e um perfil psicológico para futuras contratações.
Não há uma preocupação de contratar com função no modelo do treinador, e no que a sua ideia pede.
No Benfica é como comprar médios centros porque sim, quando a equipa quer jogar com extremos e não os tem…
O mesmo se passa com Ivanovic que mais cedo ou mais tarde vai ser rotulado de flop porque se gastaram mais uns milhões valentes num avançado que não marca golos, quando na realidade tem jogado em todo lado menos a avançado.
Em suma, é claro que Rios não é mau jogador, veio para a equipa errada no momento errado.
Mas também não é menos verdade que aquilo que ele pode dar não é aquilo que o Benfica (agora) precisa.
E provavelmente estas apreciações negativas vão continuar, muitas delas com justiça, embora quem devia ter o rótulo de flop fosse Rui Costa que insistiu na sua contratação quando não era este o médio que seria necessário.
Pablo2
Lage disse que a escolha do Rios foi do Rui Costa e que depois foram ver e analisar os jogos do jogador, tá tudo explicado. Rui Costa acertou no Aimar naquela vez e continuou nessa…
Petrol
Pois mas Lage também tinha dito antes que tinha sido um dos mentores da construção do plantel. Depois disse isso. Portanto, o que Lage diz vale o que vale…
Mantorras
“As escolhas de Rui Costa” dava um belo livro.
Colocaria o Meite na capa.
Mantorras
Concordo com o texto e acrescento que o contexto em que entra no Benfica nao é favoravel, a equipa tinha problemas, e se no inicio pensei que “ok, quase sem pre epoca, com catrafada de jogos a doer, posso entender exibicoes menos conseguidas e a meio gas” a expectativa era de que a equipa crescesse. E era uma expectativa normal. Tal nao aconteceu, e com isso veio mais instabilidade, que faz subir o tom da critica (estadio incluido), que coloca mais holofotes sobre os jogadores, e que intranquliza a equipa e… aumenta a pressao.
No caso do Rios, essa pressao ja existia, pelo valor da compra, mas intensifica-se por tudo o que mencionei acima, e pelo facto de ter sido comprado acima do seu real valor. Ele tem obrigatoriamente que melhorar, ja mostrou ser melhor do que tem mostrado aqui, e a equipa estabilizando pode mostrar outra capacidade, nao sera nenhuma surpresa para mim, no entanto, creio que sera sempre visto como “tendo sido demasiado caro”.
pogagnolo
Basta lembrar a quantidade de escrutínio que o Pavlidis levou no ano passado. E o Trubin no ao anterior. Ambos com inegável qualidade e, mesmo assim, ao menor deslize, lá estão os benfiquistas com a tag de flop. Não acho que o Benfica tenha adeptos mais tasqueiros que os demais clubes – há uma gritante falta de cultura desportiva em Portugal, no geral. Porém, os adeptos do Benfica são atualmente os mais desesperados – não têm o sucesso desportivo do Sporting, ao mesmo tempo que se permitem “luxos” inalcançáveis para o Porto, que até à data era incapaz de praticar valores tão altos por jogadores. Portanto, temos gastos elevados e pouco retorno desportivo. É normal que leve os adeptos a exigir mais dos jogadores. Falta perceber que boa parte dos mesmos chega com preços inflacionados, dada a incompetência negocial da estrutura de Rui Costa. Um Cabral nunca pode custar 24M, um Jurasek não pode custar 14M, etc. Se repetirmos o mesmo ciclo durante anos, chegamos a um ponto em que o valor do plantel aos olhos dos adeptos está longe de corresponder ao valor real dos atletas. Veja-se nos posts do transfermarkt para a liga portuguesa e lá vemos os adeptos do Benfica em negação quando deparados com a evidência de que têm um plantel menos valioso que o Sporting e o Porto! É inenarrável, quando o Benfica gasta sistemáticamente mais em jogadores todos os anos. Portanto, a menos que o paradigma mude no Benfica, qualquer jogador que chegar vai estar cada vez mais suscetível a este tipo de escrutínio; o que vai condicionar o jogador, e perpetuar o ciclo negativo.
Mantorras
Vai mudar. Ja faltou muito mais!
Kacal
Para mim Richard Rios não vale 30 milhões e o problema reside aí. Depois quando tens Florentino e Manu Silva (quando voltar) até podes ir buscar o Richard Rios e vender o Florentino, mas para quê ir buscar Enzo também? Para mim Rios é jogador de posição #6 e nunca um #8. Se ele tivesse custado 16-18 milhões e viesse para #6 saindo Florentino até achava uma ótima contratação. Agora a custar 30 milhões e vir jogar para #8 acho que não foi bem pensado. Se fosse para um clube médio de uma Premier onde há dinheiro e a exigência de clube (objectivos) é mais baixa, até podia valer esse valor. Para um Benfica por esse valor tem que ser outra fruta! Acho que a nível técnico e do passe falta bastante para valer 30 milhões num dos três grandes. Basta ver que Froholdt custou menos 10 milhões quase e tem menos 6 anos mas acrescenta muito mais ofensivamente. E não acho que seja apenas do contexto colectivo, acho que Rios não tem essa capacidade. Ofensivamente dele só vi capacidade de progredir com bola e galgar metros, isso é positivo e pode perfeitamente servir na posição #6 mas para um #8 pede-se mais! Mas isso não faz dele mau jogador, longe disso. E acho que ainda poderá ser uma mais-valia para o Benfica e justificar a compra, mas para mim é como #6!
Tiago Silva
Percebo o facto de o veres como 6, mas acho que ele é melhor como 8. Depende também do papel que faz em campo mais do que propriamente a sua posição. Acho que o Rios é um jogador que precisa de correr muitos metros em campo, um jogador todo o terreno que é forte no desarme e na condução de bola. Prendê-lo como 6 iria retirar a sua capacidade de chegada à área e metê-lo como 8 acaba por pecar em momentos com bola onde tenha que jogar em espaços mais apertados. Acho que casa bem em termos de características com o Enzo, mas o Benfica ainda não soube aproveitar as qualidades de ambos para conseguir retirar o melhor do seu meio-campo.
Kacal
Não discordo do que dizes, mas não acho que o #6 numa equipa como o Benfica em 80% dos jogos tenha que estar tão estático assim, pode ser permitido galgar terreno e conduzir sendo que o #8 pode compensar nesses momentos. Apenas acho que para #8 falta outra qualidade de passe e mesmo técnica. O ideal seria ter um perfil mais Enzo Fernández a #8 e ele a #6 acho que iriam complementar-se bem. Acho que ter Enzo Barrenechea e ele fica curto a nivel ofensivo, mas é apenas a minha opinião e preferência claro. O Renato Sanches também sempre pecou no passe e podia ter dado certo na mesma não fossem as lesões. Talvez ele possa ser formatado como um #8 desse tipo mas sem as lesões, admito que possa dar certo e funcionar. Mas neste momento vejo mais como #6.
Red Scorpius
Ríos está a passar por um período de falta de confiança, expressa em demasiadas perdas de bola e ineficácia nos remates.
Parece que só se liberta quando o ritmo do jogo sobe e aparecem os espaços onde consegue impor a sua capacidade de progressão com bola.
Teve um monento de grande infelicidade no autogolo em Londres, quando estava a fazer um bom jogo.
Provavelmente nunca justificará o estatuto de jogador com maior custo de aquisição do clube, mas acredito que irá fazer uma boa época e será muito importante neste Benfica de Mourinho.
O jogo no Dragão poderá ser muito importante para a afirmação do jogador.
Miguel Jack
Acho o Rios um excelente jogador, mas pelo preço tem uma cobrança superior aos outros.
Acho que dói mais os 20M por cebolinhas, pedrinhos, cabral, weigl, waldschmidt, raul de tomas, yeremchuk, etc
Acho que ainda vai calar toda a gente porque é um excelente jogador
Angelo GJ
Se as pessoas aplicassem na vida pessoal o mesmo rigor com que julgam jogadores e treinadores de futebol, provavelmente teriam vidas muito melhores.
Quanto ao Richard Ríos: em que momento ele foi realmente um “craque”? Sempre foi e continua a ser um bom médio, capaz de ter atuações acima da média quando inserido num contexto favorável. Mas daí a ser considerado craque vai uma grande diferença. O pessoal vê pouco futebol esse é que é o problema.
BP
Como já escrevi aqui, de Rios até agora só vi que tem (muita) força – parece faltar-lhe tudo o resto. Acima de tudo, acho que o que lhe falta mais é inteligência e compreensão do jogo. Como pontua baixo em ambas as coisas, tem má tomada de decisão.
E a tomada de decisão é muito subvalorizada pela maioria dos adeptos, mas é, só, a competência mais importante de qualquer jogador. Porque está a montante de tudo o resto, está a montante da força, velocidade, criatividade, técnica: não te serve de nada teres muita força ou muita velocidade, se decidires mal não vais ter oportunidade de aplicar a tua força ou velocidade em favor da equipa. Muito pelo contrário, vais emperrar e prejudicar o jogo da tua equipa, com as tuas más decisões…
Imho, acho que uma das razões para tantos adeptos subvalorizarem a importância da tomada de decisão, no jogador e no jogo, é esta confusão que agora se faz, em que se restringe o conceito de “tomada de decisão” à definição final dos lances, ao último passe e finalização! Ainda por cima, mesmo no último passe e na finalização, confunde-se muito tomada de decisão com a execução técnica dessa decisão, as pessoas usam ambas interchangeably como se fossem a mesma coisa, mas não são.
Portanto: o que agora se chama “definição”, na assistência e na finalização, não é sinónimo de tomada de decisão! A tomada de decisão está sempre a acontecer no jogo, nos quatro momentos do jogo, não só no sub-momento finalização. Há tanta tomada de decisão em organização e transição defensivas como na fase de finalização da organização ou transição ofensivas. E mesmo em organização ou transição ofensivas, não é só na “definição” final dos lances que há tomada de decisão: há tanta tomada de decisão no início da organização ofensiva como há no fim…
Mais: além de se aplicar igualmente aos quatro momentos do jogo, a tomada de decisão também se aplica igualmente a todas as zonas do campo. Não há mais tomada de decisão no último terço do que no primeiro terço…O jogador tanto tem que decidir junto da sua baliza como tem de decidir junto da baliza adversária.
Qualquer jogador, quando por exemplo recebe a bola, tem logo que tomar uma decisão: passo a bola ou levo em progressão? Depois, se decidir passar, tem que decidir se passa a este, àquele ou ao outro colega; se decidir levar a bola no pé, em progressão, tem que decidir se a leva para dentro ou para fora, para cima ou para baixo!…
Pronto, isto tudo para dizer que eu acho que Rios tem realmente muita força e a sacrossanta “intensidade”, mas tem cérebro de ervilha e por isso tem dificuldades na leitura de jogo e na tomada de decisão. E esses defeitos não devem melhorar com o tempo porque…é o cérebro. Ou se tem ou não se tem.
Não obstante tudo isto, reconheço que ele é um médio de grande dimensão atlética, que se impõe com uma presença forte no meio-campo e que usa bem o corpo para recuperar bolas e para manter a posse, em condução. Se se quiser, é o que no século passado se chamava um “carregador de piano”, quando um onze se dividia em artistas e carregadores de piano…
O problema é que já não estamos no século passado há muito tempo e o futebol mudou imenso entretanto…pode ser um razoável segundo médio, de transporte, que entregue no terceiro médio, mais criativo, que decide melhor, com mais qualidade técnica na execução da decisão (Kokçu se ainda cá estivesse, agora Sudakov que também está muito bem).
E o outro problema é que este tipo de médio, que eu acabei de descrever no último parágrafo, nunca pode ser jogador de mais de 10, 15 milhões no máximo…é fazer as contas, como dizia em tempos o actual Secretário Geral da ONU…
Mantorras
O Rios tem mais do que apenas forca. Tem um bom remate, tem boa tecnica (era internacional de futsal pela Colombia aos 19), e tem capacidade de transporte, ate com a cabeca levantada e tudo. O problema dele, para mim, é que taticamente nao é muito disciplinado, por isso chega muitas vezes tarde ou “corre mal”, e isto tambem tem a ver com inteligencia/leitura de jogo, mas ele ja tinha este problema no Brasil, por isso imagina agora na transicao para a Europa… Depois, é um jogador que desliga algumas vezes, perde a concentracao, e comete erros parvos porque parece que acabou de acordar, e por ultimo nao pensa rapido, o que tambem pode ter a ver com a transicao do Brasil para aqui, mas duvido, acho que ja é dele, nao antecipa o posicionamento para a pressao pos perda e para estar em cima de onde acha que a bola vai cair, nao olha a volta quando a bola esta na esquerda com tendencia para “rodar para a direita por ele”, para saber onde jogar mal receba e faze-lo rapidamente, etc.
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Ha muito por onde pode melhorar, mas ele tem mais qualidade do que o que mostrou. É um jogador que nao tem medo, nao se assusta com os adversarios, nao se encolhe. Tem estofo, a falta de melhor palavra, e compete a serio sem se intimidar. É um jogador de rasgos, de intensidade e forca, e meio anarquico, o tal “selvagem” que o RV chamava ao Renato, com o qual ele tem algumas semelhancas. É tecnicamente forte, nao no passe, mas nao entendo, por exemplo, como o acusam de “nao saber jogar em espacos curtos”, quando ele quando recebe apertado raramente perde a bola, sabe usar o corpo, e as vezes com 2 e 3 a volta dele, sai ou ganha a falta, porque é alguem confortavel a fazer isso, a calcar a bola e proteger a mesma, escola futsal… acho que confundem isso com “ter saida de bola limpa”, porque ele nao antecipa as jogadas, e primeiro recebe, calca a bola, olha a volta, e so depois decide, e entao isso faz com que “mesmo saindo”, sai aos trambolhoes e nao da fluidez ao jogo, muitas vezes.
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É um jogador que tem que ser “libertado” primeiro, quer da pressao quer da falta de confianca, e nao tentar melhorar tudo de uma vez, deixa-lo ser meio anarquico, mostrar toda a vontade, intensidade e coragem, e depois, melhorando a cabeca, ir trabalhando aspectos taticos, de antecipacao da tomada de decisao e trabalhar muito a tecnica de passe.
BP
Não me tinha ocorrido, mas a tua comparação com o Renato Sanches de 2016 faz mesmo todo o sentido.
E eu era dos poucos benfiquistas que não gostava do Renato Sanches nessa altura…irritava-me imenso que aparentemente ninguém visse o quanto ele era burro a jogar, quão má era a sua tomada de decisão e quão aleatório era tacticamente…os anos passaram, mas o Renato não ficou mais inteligente a jogar, não melhorou a tomada de decisão…
Porque se tens cérebro de ervilha, não vai ser o passar dos anos que vai transformar o teu cérebro num melão…
É profundamente verdade o que dizes dele tacticamente, já toda a gente viu isso. A questão é que os problemas tácticos dele, que tu tão bem descreves, também são consequência da baixa inteligência e compreensão do jogo, não surgem do nada. Todos os defeitos dele provêm da mesma fonte: tem cérebro de ervilha.
E, helas, vai continuar a ter cérebro de ervilha, pelo que não vejo que possa melhorar assim muito. Pode adquirir mais auto confiança e melhorar a concentração, mas os problemas tácticos e de decisão vão se manter…
Kacal
Também não acho que tenha grande qualidade no passe. Falha imensos.