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Rivellino, a bola parece que é amiga dele e diz: “Quero ficar com você”

A caderneta.de.cromos estreia-se em campo com a camisola da Visão de Mercado com um cromo que trata a bola como a caderneta aprecia. Escrever sobre Rivellino é relembrar um Brasil de ataque demolidor, um Corinthians com poucos títulos mas muito encanto, um Fluminense com o melhor Rivellino de sempre. É reviver um dos melhores jogadores brasileiros de sempre. Sempre de caderneta aberta.

Fixem bem esta fotografia tirada a Rivellino quando ele tinha 3 anos. Reparem no equilíbrio que o menino tem, inclinando o corpo levemente para a direita, a ponto de deixar o peito do pé pronto para acertar no centro da bola. Esta fotografia constata algo que só anos mais tarde se comprovaria: para Rivellino, a bola é extensão do seu corpo. É tão natural para ele que o seu corpo se ajuste ao movimento e posicionamento da bola, como para uma outra criança feche os olhos quando espirra ou ampare as quedas com a palma das suas mãos. A cumplicidade entre Rivellino e a bola era imensa. O destino estava traçado e ao final do dia, a bola não lhe saía dos pés. Feita íman no seu pé magnético, serpenteava todo e qualquer rapaz e rapariga que se atrevesse a tirar-lhe a bola, até finalmente chegar a meia distância da baliza e, sem piedade das redes, lançar a bomba atómica, como os Mexicanos viriam a apelidar o seu principal poder em 1970. De forma breve e simplista, acabo de descrever as duas grandes armas de jogo de Rivellino, não querendo dizer que não houvessem mais. Afinal, ele era um jogador completo

Rivellino é de família com origens italianas. Foi em São Paulo que viveu a sua infância, na Rua Joaquim Guarani. Como a maioria dos brasileiros, cresceu nos campos de várzea e nos campinhos improvisados das ruas paulistas. Foram esses campos que deram as primeiras provas ao menino Rivellino que a sua essência vivia de futebol. Num certo dia, ao tentar rematar em direcção à baliza, fez com que a bola viajasse a uma velocidade tal que acabou por partir o braço ao pobre rapaz. Desde pequeno que aquele remate valia ouro. Não para partir braços, claro. Mas sim, para balançar as redes com remates potentissimos. Os vizinhos, atentos às jogadas da rua, rapidamente avisaram o Sr. Nicola Rivellino, pai do cromo raro, que ele tinha mais que condições para jogar futebol de salão. O controlo total sobre a bola, o pensar rápido, a intensidade, a necessidade de decidir em curtos espaços, tudo isso se aprende no futsal.

Roberto Rivellino não via muitos jogos de futebol na televisão. O contacto com os jogos profissionais eram através do rádio. Talvez por não poder ver as jogadas com os seus próprios olhos, Rivellino diga que na sua infância não tenha tido ídolos no futebol. Felizmente, ao longo da sua carreira profissional o acesso aos jogos de futebol já era maioritariamente por televisão, o que permitiu a muitas crianças inspirarem-se naquele canhoto mágico. Crianças como Diego Armando Maradona que viram naquela zurda uma alma gémea. Diego via, revia, sonhava e resonhava com a magia de Rivellino. Ainda hoje, Dieguito diz que o craque brasileiro foi a sua maior inspiração.

A experiência no futebol federado, começou no clube de futsal do Banespa. Mais tarde, experimentou o futebol 11 no Indiano. Ele era jogador de clube grande, estava visto. Palmeiras, o clube com origens italianas, foi o primeiro grande teste do pequeno Rivellino. A verdade é que não correu da melhor forma a experiência no Palmeiras. O Palmeiras não aceitou aquele rapaz e pouco o utilizava nos jogos de treino onde era suposto os pequenos talentos mostrarem os seus dotes. Não reconhecido, seguiu para outro grande clube paulista, o Corinthians, o Timão da democracia. Estreou-se aos 19 anos na equipa principal do Corinthians. Na seleção estreia-se com o João Saldanha, aquele Sem Medos, mas rapidamente salta para o comando de Zagallo. 1970 foi o seu primeiro de três Mundiais, jogando num ataque tão básico como isto: Pelé, Rivellino, Jairzinho, Gérson e Tostão. Um ataque fantástico. O suficiente para dar o título de tricampeão mundial para o Brasil, com exibições de deixar qualquer nação de queixo caído.

No Corinthians, as exibições de Riva pintavam o Parque São Jorge com cores únicas. Jogo a jogo, o menino tornava-se homem, o remate ficava mais poderoso, a confiança explodia e o bigode crescia cada vez mais. Só faltavam os títulos.

Mas não era tarefa fácil. Encantou cada alma corinthiana mas os títulos demoravam a chegar. Esteve perto em 1974 com o título Paulista. Numa final frente ao Palmeiras, o Corinthians não conseguiu quebrar um longo jejum de títulos, perdendo por 1-0. De coração partido por não ter conseguido dar alegria aos seus adeptos e a si mesmo, acabou o jogo, saiu do Morumbi e, sob forte chuva, foi até casa a pé (“Muita gente ficava a olhar para mim na rua e não acreditava que era eu”, conta Riva). Desgostoso e com o empurrão de dirigentes corinthianos oportunistas, Rivellino sai pela porta traseira do Timão e assina pelo Fluminense ainda nesse ano.

Na estreia pelo Flu, com 40 mil torcedores no Maracanã, o Fluminense atropelou o Corinthians, a antiga equipa de Rivellino, por 4 a 1, com três gols do rapaz que tempos atrás era dispensável. Aos 28 anos, o jogador liderou a Máquina Tricolor e tornou-se o Príncipe das Laranjeiras.

Rivellino tem fobia de alturas e de espaços fechados. Digo eu que, dentro de um rectângulo de jogo fechado durante 90 minutos, a única forma que ele tinha equilibrar as suas fobias era jogar o máximo de tempo com a bola pelo chão. Vivia dentro de campo com a elegância de um actor de cinema pronto para passar a passadeira vermelha de peito feito e sem pedir licença. Fora de campo também espalhou o seu charme. Na década de 70, a Globo adapta o romance de Jorge Amado sobre “Gabriela, Cravo e Canela” para a televisão. A novela eternizava assim uma das figuras mais bonitas da televisão brasileira: Sónia Braga. Todo o homem brasileiro suspirava por aquela mulher. Rivellino e ela viveram um tórrido romance durante algum tempo.

Nada disto lhe tirou o foco dentro de campo. Perfumou o gramado do Corinthians de tal forma permanente e viciante que após se aposentar, o clube fez uma estátua do seu busto nas portas de entrada do Estádio Parque de São Jorge, lugar que, segundo ele, nunca deveria ter saído.

Mais permanente que qualquer estátua, são os milhares de cromos colados por milhares de crianças em milhares de cadernetas por esse mundo fora. Com essas colagens, garantimos que nos lembremos do rapaz de bigode farfalhudo que tinha um pé esquerdo mágico, único, simples, capaz de tornar o futebol num samba de uma nota só.

Texto escrito por Pedro Arcanjo, criador e autor do projecto caderneta.de.cromos.
Um autêntico cromo que tem como hobby relembrar e vasculhar as histórias e as carreiras dos cromos que se eternizaram nas cadernetas do futebol.

VM
Author: VM

18 Comentários

  • Estigarribia
    Posted Julho 13, 2019 at 11:32 am

    Excelente rubrica. É por textos como este que o Visão de Mercado é um dos melhores blogs/sites de desporto em Portugal.

    Rivellino foi um jogador que eu não tive o privilégio de ver jogar, visto que eu ainda não era nascido. Mas quero deixar aqui uma questão: ele chegou a fazer parte da Selecção do Brasil do Mundial de 1982, que muitos dizem ser a melhor de sempre?

    Saudações Leoninas

    • Zimbo
      Posted Julho 13, 2019 at 12:05 pm

      Não amigo, reformou-se 1 ano antes com 35 anos de idade.

      SL

    • NCM
      Posted Julho 13, 2019 at 12:30 pm

      Já ouvi dizer que a melhor seleção brasileira era a de 1970. E esta equipa ganhou ao contrário da equipa e 1982, o que pode servir de desempate na avaliação que fazemos entre as 2 equipas. Gosto também da única grande seleção brasileira que vi jogar; a seleção de 2002. Cumprimentos.

      • Natan Fox
        Posted Julho 13, 2019 at 12:36 pm

        A seleção de 1970 venceu e isso pesa. Mas a seleção de 82 era magia pura! Um meio de campo que tinha Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico! Era coisa de outro mundo! Tecnicamente a seleção de 70, a de 82 e a de 2006, foram as que mais reuniram talentos.

        • Estigarribia
          Posted Julho 13, 2019 at 1:19 pm

          Natan Fox,

          Eu só comecei a acompanhar a Selecção do Brasil a partir de 2002 e aquela selecção que foi pentacampeã mundial no Coreia do Sul e Japão também era extraordinária. Ronaldinho, Ronaldo Nazário, Rivaldo, Roberto Carlos, Cafú, Vampeta, Kleberson (que viria ser apresentado em Old Trafford e onde foi um flop), fizeram parte dessa grande selecção brasileira.

          Saudações Leoninas

          • Made in Recife
            Posted Julho 13, 2019 at 7:41 pm

            Vampeta e Kleberson eram bons jogadores, mas não craques.

            A Seleção de 2002 jogava um futebol eficiente, e foi a primeira pentacampeã mundial, mas em termos de magia no Brasil não se vê essa seleção como superior às outras mencionadas. Claro que tinha outros vários talentos como mencionados por si (Ronaldo, Ronaldinho, Rivaldo, etc) mas não se comparava à 70 e 82

        • TheGolden
          Posted Julho 13, 2019 at 2:34 pm

          A de 2002 não?

          • Made in Recife
            Posted Julho 13, 2019 at 7:42 pm

            No Brasil é comum a noção de que a seleção de 2002 era uma das menos espetaculares que tivemos.

            Inclusive do que li, era até descartada como favorita antes do mundial

  • Zimbo
    Posted Julho 13, 2019 at 11:35 am

    Já sigo a página há algum tempo e posso dizer-vos, sem dúvida alguma, que é um upgrade fantástico ao blog.

    Conteúdo sempre interessante e o Pedro tem uma maneira de contar essas histórias como poucos profissionais conseguem.

    Muito bem!!

  • Visão de Mercado
    Posted Julho 13, 2019 at 12:17 pm

    Link para alterarem foto de perfil – https://blogvisaodemercado.pt/wp-admin/profile.php

  • Natan Fox
    Posted Julho 13, 2019 at 12:37 pm

    Riva era um gênio que infelizmente quase não ganhou títulos por clubes. O inventor do elástico e dono de um chute incrível!

  • Antonio Clismo
    Posted Julho 13, 2019 at 2:39 pm

    Já não se fazem talentos assim.

    Por exemplo hoje os miúdos de 10 anos treinam em campos de séniores, onde raramente tocam na bola.

    O futebol de rua desapareceu completamente.

    • Namitoo
      Posted Julho 14, 2019 at 5:58 am

      O futebol de rua continua vivo. E sao esses miudos do futebol de rua que vao continuar a alimentar o nosso amado futebol por mais uns tempos

  • Flavio Trindade
    Posted Julho 13, 2019 at 5:38 pm

    Magnífico texto em mais um acrescento de qualidade para o VM.

    Rivelino, um dos jogadores preferidos do meu pai, e um craque que perfumou os relvados brasileiros naquela que foi a sua década dourada (Aquela Selecção dos anos 70 no Brasil foi dos melhores exemplos de qualidade futebolística vistos até hoje).

  • Joga_Bonito
    Posted Julho 13, 2019 at 6:18 pm

    São jogadores destes que o futebol precisa de recriar. Para isso é preciso recriar o futebol de rua, que é a base técnico-táctica de qualquer jogador e perceber que as academias devem servir para recrutar talentos, não para formatar jogadores a parecerem robots, com zero magia.
    As academias não produziram nenhum jogador como este nem produzirão, enquanto não se retornar ao paradigma de futebol de rua como base do futebol, que vigorou até cerca de 2000.
    Penso que o Benfica está a dar passos no sentido de um futebol mais bonito na sua formação, não excluindo miúdos por serem baixos ou franzinos, mas é preciso mais. É preciso recriar o futebol de rua. Quem o conseguir fazer e tiver várias escolas de formação estará um passo à frente dos outros e criará génios.
    Há também factores sociais para este declínio do futebol de rua, que radicam na sociedade actual ocidental, paranóica em deixar as crianças livres e a jogar. Preferem putos obesos em frente a um PC 20 horas por dia.
    Sendo assim, defendo que o meu Benfica crie escolas em vários países de África, Ásia e América Latina. Aí não há ainda tanta protecção excessiva às crianças nem estes vícios dos últimos 20 anos que prejudicaram o futebol no Ocidente.
    Nessas escolas devemos dar mais liberdade ás crianças e criar pisos irregulares e exercícios lúdicos com a bola, sem regras, como o futebol de rua. Penso que isso estimularia os miúdos, até porque muitos miúdos das academias hoje não gostam de futebol.
    Vêem o futebol apenas e só como uma profissão, cujos pais os pressionam para jogar. Sim, porque este futebol robótico das academias não cria paixão, paixão cria um puto como D10s tentar imitar a magia de Rivelino, isso é que é crucial para os jogadores criarem a paixão pelo jogo, a intimidade com a bola, a individualidade do seu jogo, três aspectos sem os quais não se cria um génio. Sem isso, o que se criam são vedetas que detestam futebol, apenas fazem um frete quando jogam, fazendo o q.b. e preferem jogar jogos de PC ou outros desportos que lhes tragam paixão. Isto porque a sua relação com o jogo nasceu torta. E o que torto nasce, nunca se endireita.

    • Estigarribia
      Posted Julho 13, 2019 at 9:57 pm

      Joga_Bonito,

      Excelente comentário. Na mouche.

      Já disse uma vez num debate que tivemos aqui à pouco e tempo a volto a dizer: os clubes devia construir um campo pelado para que os jogadores mais novos possam recriar o fantástico futebol de rua. Não há nada melhor para recriar o futebol de rua que um maravilhoso campo pelado (e para esfolar os joelhos também).

      A questão das academias também pertinente, não só pelo constante ‘robotizar’ os jogadores, mas também em ter técnicos que passam 90 minutos a berrar, literalmente, aos ouvidos dos jogadores e nem os deixam errar, quando é fundamental errar para se aprender e crescer desportivamente. O futebol em Portugal, ao nível da formação, tem que evoluir muito, mas mesmo muito, para conseguirmos produzir Maradonas, Rivelinos, Cerezos e Sócrates.

      É fundamental para uma criança jogar futebol de rua e imitar tudo o que os seus ídolos fazem, visto que isso vai ajudá-lo no seu crescimento desportivo. Mas, hoje em dia, os miúdos treinam em pavilhões, vestem equipamentos todos XPTO e nem os podem sujar e não podem esfolar os joelhos (tanta vez que esfolei os joelhos a jogar futebol na rua e até já cheguei a deslocar o polegar da mão esquerda).

      Em suma é urgente que os clubes portugueses não deixem morrer o futebol de rua e que o recriem nas suas academias ‘baratuchas’ para voltarmos a ter mais génios do futebol e menos ‘jogadores de plástico’.

      Saudações Leoninas

      • Estigarribia
        Posted Julho 13, 2019 at 9:58 pm

        *aqui à pouco tempo

        • Joga_Bonito
          Posted Julho 14, 2019 at 12:46 am

          Isso dos pelados é uma óptima ideia Estigarribia ;-)

          Isso seria um óptimo passo, mas há que mudar a mentalidade dos treinadores. Uma coisa do futebol de rua é que não há técnicos, os miúdos não têm pressão. Correm, lutam, driblam, sem pressão. E numa academia, com um treinador há uma tendência para se enquadrar desde cedo os miúdos. A solução é mudar a mentalidade. De nada interessa ganhar jogos (admito que nem sei o histórico do Benfica na formação) o que importa é criar talentos. Os treinadores têm de lá estar apenas e só para isso. Não podem querer fazer das formações trampolins para as carreiras. Quantos jogadores falam que muitos técnicos afastam talentos em prol de tijolos, porque querem ganhar a todo o custo. Na formação, tratando-se de crianças ou adolescentes, há pouco poder físico e discernimento táctico. Uma equipa de troncos que só encosta o autocarro pode bater equipas muito talentosas. Como esses técnicos querem é subir às equipas principais, sacrificam os talentos pelas suas carreiras como treinadores.
          A solução é afastar estes treinadores da formação e trazer gente que perceba o que é a essência do futebol.
          Quanto às condições físicas das academias, é curioso isso, porque na Alemanha, um ex-adjunto do Klopp disse que a actual geração é muito mimada, nem suja os calções, treina com ar condicionado no ginásio. Falta carisma neste futebol.
          Quando muito se falou na renovação de Alcochete e se disse que a academia tem fracas condições materiais, discordo um pouco.
          Nessas condições e até bem menores criaram-se CR, Figo e tantos…Estes nem na academia propriamente dita jogavam. Acho que o principal problema do Sporting foi ter perdido qualidade no scouting, muito por fruto de BdC ter mandado recados de apostar em resultados ao invés de qualidade. Passou-se de um Sporting de Nanis a um Sporting de Jovanes…Quando tanto ouço falar do facto de Alcochete ter beliches como camas e o CFC ter quartos individuais tipo hotel acho que se está a atirar ao lado. Com condições bem piores geraram-se Rivelinos, Maradonas, que decerto não cresceram em quartos com Ar condicionado.

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