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Rui Borges e a Crónica de uma Saída Adiada

Schmidt, Lage, Borges. Não satisfeito por ver a incompetência de Rui Costa do outro lado da segunda circular, Frederico Varandas decide tirar uma página do manual do seu homólogo encarnado. Pela terceira época consecutiva, um grande decide manter um treinador fragilizado pelo término da anterior e o mesmo sai ainda numa fase embrionária.

Antes de esmiuçar a saída de Rui Borges devo dizer que, contra as minhas previsões, Varandas acertou ao escolher o natural de Mirandela depois da pavorosa nomeação e reinado de João Pereira.

Borges foi o treinador certo na altura certa. Agrupou as tropas, serenou os ânimos e levou o barco a bom porto. E ao contrário do que se possa achar agora, a travessia não era de todo simples e Rui Borges entra no meio da tempestade e por lá passa praticamente toda a época 24/25 até dobrar as tormentas com Liga e Taça. O Sporting vinha em queda livre, ia somando lesões, tinha perdido a liderança e estreava-se frente ao Benfica podendo ficar a 4 pontos. Venceu, mostrou mais futebol nos primeiros 45 minutos que João Pereira em 8 jogos e voltou ao primeiro lugar. Entre lesões (se somarmos os jogos perdidos em 24/25 por Nuno Santos, Pote, Bragança, St. Juste, Morita, Quaresma, Simões, Inácio, Reis, Geny, Diomandé, Hjulmand, Gyokeres e Israel chegamos ao absurdo número 206 jogos), um desesperante mercado de inverno (Biel?) e meio campos de dia das bruxas (Debast, Brito ou Felicíssimo), Rui Borges operou um pequeno milagre para que 24/25 fosse uma época de sucesso. E isso tem que ser valorizado, porque os astros claramente não estavam alinhados para que a época acabasse assim, mesmo tendo em conta a presença de Gyökeres e a supremacia que tinha sobre a liga. Falta ainda mencionar as campanhas na Champions, que não é algo irrelevante dado o histórico europeu do Sporting.

Dito isto, Varandas acertou quando o escolheu para ser solução, mas errou quando não percebeu o timing em que passou a ser problema. E as 4 vitórias nos últimos 11 jogos de 25/26, culminando na final da Taça com o Torreense eram o sinal óbvio de que Rui Borges iria sair. E se não fosse depois dessa tarde no Jamor, tal como aconteceu com Lage ou Schmidt seria mais cedo do que tarde. A final da Taça, por si só, teria que ser a gota de água, mas vale a pena relembrar que o mau final de época não se resume a isso. O Sporting entrega o lugar de Champions ao Benfica em Alvalade e só se salva por pura incompetência encarnada que deslizou por duas vezes logo a seguir. E se a figura de Rui Borges talvez não fosse dramática contra Lage ou Anselmi, contra Farioli ou Marco Silva, a noção de que os rivais tem treinadores que estão alguns degraus acima acentua-se.

A culpa da época titubeante do Sporting até agora, no entanto, não morre com Rui Borges. Primeiramente, porque a decisão de continuar com ele depois do episódio Torreense é inexplicável, sendo que a destruição de um plantel vencedor e virtuoso num único ano é aberrante. Do plantel que é coroado com a dobradinha no verão de 2025 até ao plantel que começa a época no verão de 2026 saíram St. Juste, Diomandé, Matheus Reis, Hjulmand, Morita, Bragança, Quenda, Pedro Gonçalves, Trincão, Harder e Gyökeres (mais Nuno Santos que efetivamente deixou de contar).
A transição do ciclo Amorim para qualquer que fosse o ciclo que viesse a seguir teria que ser feita, mas nada justifica esta escala de mudança num espaço tão curto de tempo. E Varandas aqui fraqueja essencialmente nas saídas de Diomandé, Trincão e Bragança. Seriam 3, a juntar a Inácio, Quaresma, Maxi, Fresneda, Suarez e Geny que garantiam uma base mais invulnerável.

Chegámos então a um treinador desacreditado pelo fim de uma época que terminou em desastre com um plantel desequilibrado, novo, em construção, carente de familiaridade e liderança. As casas não se constroem num dia e uma equipa (especialmente uma que vem de um ciclo vitorioso e rompe isso), também não. Mesmo que o Sporting tivesse acertado em todas as contratações, coisa que raramente acontece nos mercados, dificilmente se esperaria uma época pacífica. E nem digo que o Sporting tem um plantel sem qualidade. Tem lacunas (perfil dos centrais que têm estado disponíveis), tem falta de liderança (Inácio é voltar a Patrício, Adrien ou William), tem demasiada juventude, tem (teve?) um problema na baliza e por aí fora.

A sensação que tenho é que o Sporting comprou talento em bruto, sem que pensasse especialmente a fundo de como isso se traduziria num 11 e no tipo de equipa que queriam montar. Ba, Altimira, Doumbia, Zalazar, Irankunda, Zekri ou Derry parecem-me todos, num vácuo,  jogadores talentosos, sendo que Andersen e Pedro Lima parecem-me negócios de baixo custo que facilmente valorizam e entregam profundidade ao plantel.
Porém, como já disse, as equipas (e até os grupos, vide a quantidade de nacionalidades nas contratações…) não se fazem num dia.

Um plantel novo, com as vicissitudes que isso carrega, um treinador fragilizado e abaixo de Marco Silva e Farioli oprimem um Sporting ao início de época que teve, bem como a um previsível e justo terceiro posto.

Quanto a Paulo Fonseca, haverá tempo para detalhar uma opinião mais minuciosa, mas acredito que será um upgrade. Se o upgrade suficiente, isso será mais debatível, mas tem estaleca de já ter treinado um grande e de ter no seu histórico quase 450 jogos entre Liga Portuguesa, Serie A, Ligue 1, Champions e Liga Europa. É um treinador com mundo, que valorizou jogadores em todo o lado e que apresenta uma proposta ofensiva. Não preencherá todos os critérios, mas também não sei se seria concebível ir buscar um treinador agora que preenchesse tantos.

Visão do Leitor: Veridis Quo

12 Comentários

  • Antonio Clismo II
    Posted Novembro 2, 2026 at 1:26 pm

    Continuam a desbaratar milhões numa gestão feita em cima do joelho…

  • Adepto Imparcial
    Posted Novembro 2, 2026 at 1:41 pm

    Excelente texto, Veridis. Ou sou eu que tenho andado distraído (o mais provável), ou não te tenho visto comentar recentemente. De qualquer maneira, acho que os nossos textos são um bom complemento um ao outro. Pessoalmente, defendi a continuidade de Rui Borges após a derrota da Taça, pois tinha a confiança (ou esperança, vá) de que a fase final foi apenas isso, uma fase… mas sem saber que vinha aí o mercado que veio. Se soubesse que a base do plantel ia toda sair, teria igualmente defendido a saída, não por incompetência, mas por achar que, se é para fechar um ciclo e começar um novo, que tal seja feito em todos os departamentos.
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    Agora, estamos onde estamos. Apesar de eu saber que o Borges não ia aguentar até ao fim da época, não contava que fosse já despedido, muito menos desta maneira tão aparentemente abrupta. Em relação a Paulo Fonseca, já que não quis falar nele para o meu texto, estou a tentar focar-me nos aspetos positivos da sua carreira, não só em termos de conquistas, mas também de estilo de jogo e postura. Não acredito que chegue e faça do Doumbia um Ozil, mas acredito que possa trazer novas dinâmicas que façam com que a maioria do plantel evolua para melhor.
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    Obrigado novamente pelo artigo!

  • henry14
    Posted Novembro 2, 2026 at 1:42 pm

    Saudades de ler comentários do Veridis Quo.

  • voz_da_luz
    Posted Novembro 2, 2026 at 1:54 pm

    Sempre achei que o sucesso de Rui Borges se deveu mais ao demérito dos adversários, em particular do Benfica, do que propriamente ao seu mérito. Um pouco à semelhança do que aconteceu com Rui Vitória no Benfica mesmo quando ganhava, já se percebiam as limitações e que, mais cedo ou mais tarde, acabariam por ficar expostas.

    Nos dois troféus que Rui Borges conquistou, o Benfica teve o pássaro na mão e deixou-o fugir. O mesmo se aplica ao segundo lugar da época passada. Assim que o nível competitivo dos rivais subiu, Rui Borges deixou de conseguir ganhar.

    Quanto à sua passagem pelo Sporting, fica a sensação de que herdou um plantel moldado por Amorim, que o aceitou bem e se sentia confortável com a sua liderança. Essa continuidade foi suficiente para manter a equipa competitiva, sobretudo porque os rivais estavam longe do seu melhor nível. Quando o contexto se tornou mais exigente, as limitações de Rui Borges começaram a ficar evidentes e a sua saída acaba por ser natural.

  • MuchoG
    Posted Novembro 2, 2026 at 2:05 pm

    A última vez que vi um treinador numa posição tão fragilizada a dar a volta por cima foi Jorge Jesus em 2014 depois do ano terrível do Kelvin, de perder a Liga Europa no último minuto e a Taça para o Vitória SC. Mas essa foi a exceção à regra, o Benfica jogava um excelente futebol, era a melhor equipa em Portugal e provou-o no ano a seguir.

    Como diz o texto, o caso de Borges é mais semelhante e Schmidt e Lage. Eu sinceramente acho que RB sempre foi um treinador mediano que Varandas foi “obrigado” a escolher depois de perder Amorim numa fase complicada da época e do tiro ao lado com João Pereira. Fez a dobradinha nas costas de Gyokeres, Amorim e da arbitragem escandalosa na final da Taça. A prestação na Champions passada é de louvar mas só não ficou em 3º na liga porque não calhou e a derrota para o Torreense vai ficar para a história. Este ano não mostrava melhorias, apesar de não ser o único culpado depois de ver o seu plantel virado do avesso.

    É um teste importante para Varandas que agora finalmente tem a oportunidade de fazer uma escolha mais inspirada para o pós Amorim e uma que eu acredito seja mais consistente com a que faria caso tivesse perdido RA no fim da época como seria de esperar, em vez de em Novembro.

    Veremos se o presidente do Sporting consegue outra vez construir um candidato ao título ou se apenas ganhou a lotaria com Amorim e Gyokeres.

  • Mike-UK
    Posted Novembro 2, 2026 at 3:49 pm

    Borges, com dois ETs (para a realidade portuguesa) no plantel, Gyokeres e Diomande, só foi bicampeão e vencedor de dobradinha por incompetência de Lage na liga e paragem cerebral de Sanches na final da taça.
    Faz uma champions magnífica no ano passado, sobretudo em jogos em casa contra o PSG e Bodo e fora contra o Athletic. Esse mérito foi dele, e do plantel que tinha.
    No verão decidiu-se destruir o plantel a favor de um treinador cujos predicados de 24/25 se devem, em partes iguais, ao mérito que teve no pos-JP, e ao demérito do que se passava do lado de lá da segunda circular.
    Não o acho mais culpado do que a direção – os erros da direção são sobejamente mais severos: abdicou de Diomande, Trincao, Pote e Bragança a preço de saldo. Derreteu milhões, quase na mesma proporção, em Doumbia, Irankunda e Ba. É gestão danosa aqui e em qualquer lugar.
    Pelo caminho, Pote e Bragança tinham 3 títulos de campeão, Trincao e Diomande tinham 2. Não perceber que esse legado entra em campo é não perceber o básico. É falhar no mais elementar e não aprender com o que Pinto da Costa e Luís Filipe Vieira fizeram no seu tempo, em que havia sempre no plantel elementos que garantiam legado, que sabiam o que era ganhar pelo clube.
    Com três títulos sobram Nuno Santos e Inácio, com dois sobram Fresneda, Geny e Quaresma.
    Um legado destruído por quem se convenceu que já tinha aprendido tudo.

  • Rocha Mexicano
    Posted Novembro 2, 2026 at 3:52 pm

    Não necessariamente concordando com todo o texto, fico feliz por, passado algum tempo, ler algo escrito pelo Veridis Quo que sempre foi dos users cujas opiniões gostei de ler por aqui

  • Mantorras
    Posted Novembro 2, 2026 at 4:14 pm

    Foi mesmo uma copia do que fez RC com Schmidt.

    – Treinador com contrato renovado antes de terminar a epoca, e ainda a tempo de perder tudo. Se o treinador ainda tem contrato para alem da epoca em questao, estas renovacoes nao fazem sentido do ponto de vista do clube, nunca.
    – Treinador acaba a epoca de forma sofrivel e basicamente comeca a proxima ja com a corda no pescoco e com toda a gente a antecipar a sua saida “antes do Natal”.
    – Treinador acaba na rua, comprometendo o planeamento o todo o resto da epoca.

    Era nao ter renovado e no final do ano e no final do ano, provavelmente, a leitura seria diferente, tendo RB perdido tudo. Saia em epoca de contratacoes, sem impacto a meio do ano, e o planeamente seria ja feito com o novo treinador.

  • É dia de jogo
    Posted Novembro 2, 2026 at 4:20 pm

    Nada disso, quem vê o Sporting sabe perfeitamente que esteve sempre pendurado no sueco para ser campeão, quando o Gyo não aparecia o Sporting não ganhava, prova disso foi os jogos com o Benfica em que Antonio Silva impunha mais dificuldades e o Sporting sofria imenso ( foi muito inferior na taça de Portugal, mais uma vez o sueco é que vira o jogo sozinho), o Rui Borges o ano passado tinha uma super equipa, perdeu o sueco mas deram lhe um ponta de lança que fez quase 50 golos, ganhou 0, bola, não ganhou um único jogo a uma equipa grande em Portugal incluindo Braga, perdeu a final com o Torrense, e está época mais do mesmo, e não digam que tem uma equipa inexperiente, o Sporting em 3 jogos de Champions tem 2 vitórias, portanto tem mais que equipa para ganhar ao Estrela de Amadora, Arouca, e por aí em diante. Esta saída só perca por tardia, não tem calibre de grande é notório, é um treinador de equipa pequena, e a comunicação dele é simplesmente terrível. O Sporting foi o auge dele e os próximos anos comprovarão isso. Varandas teve mal em não o despedir mais cedo, isso é obvio para a maioria do universo Sporting.

  • O Comendador
    Posted Novembro 2, 2026 at 6:03 pm

    Mais um grande teto. Obrigado Rui Borges.

    Venha Paulo Fonseca e comece o novo ciclo.

    SL

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