Poucos países no mundo possuem tanta tradição futebolística como Inglaterra. Em terras de Sua Majestade foram unificadas as regras do jogo e criadas competições futebolísticas pioneiras, ainda em pleno Século XIX, e durante as décadas seguintes foi-se conservando, com grande fulgor, uma forte e enraizada cultura e amor pelo jogo, visíveis desde as grandes Londres, Liverpool ou Manchester ou a pequenas comunidades orgulhosas no seu conjunto local. Nos tempos mais recentes, joga-se em Inglaterra o mais milionário e mediático campeonato do mundo, a Premier League, que concentra clubes, treinadores e jogadores de dimensão planetária. Apesar disto, a selecção nacional tem andado longe dos êxitos, numa tendência que se vem agravando: se no final do Século passado e no começo deste Inglaterra “bateu várias vezes no poste”, com diversas eliminações por penáltis (Mundiais de 1990, 1998 e 2006 e Europeus de 1996, 2004 e 2012), as últimas fases finais levaram a desaires mais precoces e dolorosos. Assim, no Brasil’2014 a equipa dos 3 leões foi eliminada na fase de grupos, saindo do certame com apenas um ponto conquistado, e no França’2016 foi vergada por uma Islândia com um potencial futebolístico incomparavelmente inferior ao inglês. Estas prestações levaram Roy Hodgson a abandonar o cargo que ocupou entre 2012 e 2016 e a ser substituído por Sam Allardyce, o qual durou apenas 67 dias devido a um escândalo relacionado com um esquema que visava contornar as normas da Federação Inglesa relativas a passes partilhados de jogadores. A opção para assumir os destinos dos campeões do mundo de 1966 passou por Gareth Southgate, o qual orientava os sub-21 e que, após uma fase inicial na qual foi uma solução interina, acabou por ser escolhido para selecionador a tempo inteiro. O antigo defesa guiou Inglaterra a uma qualificação serena, vencendo o grupo F da zona europeia com autoridade (mais 8 pontos que o 2.º classificado) e apostando por uma vaga de jogadores com pouca experiência de selecção nacional. Aliás, esse é o maior destaque da formação dos 3 leões para este mundial, dado que a convocatória é dominada por atletas que representam uma injecção de “sangue fresco”, sendo isso facilmente atestado por vários dados: à data do anúncio dos 23, só um jogador (Cahill) tem mais de 38 internacionalizações, apenas três elementos têm mais de 28 anos (Cahill, Young e Vardy), 9 jogadores têm 24 anos ou menos e apenas Cahill, Welbeck, Henderson, Jones e Sterling sabem o que é estar num Mundial. Num elenco muito marcada pelo trabalho que Pochettino e Guardiola fizeram com boa parte dos seus jogadores (Trippier, Rose, Stones, Walker, Delph, Dier, Alli, Sterling e Kane têm sido “pulidos” pelo técnico argentino ou pelo espanhol), a expectativa é menos elevada do que em anos anteriores pela mistura entre os fracassos recentes e a consciência de que se trata de um grupo jovem, que poderá atingir a sua maturidade competitiva em certames futuros (e Inglaterra olha com esperança para os nomes que deram tantas conquistas às suas selecções jovens no passado recente). Ainda assim, estamos perante uma das nações com maior peso no futebol e os fervorosos adeptos ingleses sonharão, certamente, com uma prestação que lhes devolva o orgulho na sua selecção
Estrela: Harry Kane (Avançado, 24 anos, Tottenham) – O artilheiro dos spurs é, há várias temporadas, um dos principais goleadores do futebol europeu, levando 135 golos nas últimas 4 épocas no Tottenham. Com uma tremenda capacidade de finalização (é um rematador de excelência de todas as maneiras e feitios), o estilo de jogo de Pochettino leva-o a estar habituado a contribuir noutros aspectos que não apenas o último toque. Na selecção, leva 12 golos em 23 jogos mas desiludiu no Euro’2016 (não apontou qualquer tento) pelo que este Mundial é a oportunidade perfeita para se afirmar como líder da selecção e provar que não deve nada aos melhores na sua posição.
Jogadores em destaque: Kyle Walker (Lateral, 27 anos, Manchester City) – Após vários anos de afirmação no futebol inglês ao serviço do Tottenham, o Manchester City pagou cerca de 52 milhões de euros para garantir os seus serviços, e o primeiro ano de Walker com Guardiola revelou-se um sucesso, com o lateral a ser indiscutível no fantástico campeão da Premier League. Com capacidades físicas invulgares, Walker tem vivido um processo de amadurecimento ao qual não será alheia a contribuição do técnico catalão, e nesta selecção deverá ser primeira opção tanto num sistema de 3 centrais como num sistema com 4 homens na linha defensiva. Dele Alli (Médio-ofensivo, 22 anos, Tottenham) – Mais um jogador deste elenco “made in Pochettino”, Alli é um médio que se destaca pela facilidade em ler os espaços de penetração e, partindo desde uma segunda linha, invadir zonas de golo e finalizar com muita qualidade (tem 46 golos em 3 épocas de Tottenham). Tal como Kane, foi titular no Euro’2016 mas desiludiu e tem neste Mundial a hipótese de apagar essa imagem. Raheem Sterling (Extremo, 23 anos, Manchester City) – Apesar da juventude, trata-se de um dos elementos destes 23 com mais experiência em grandes competições, visto que foi titular quer no Mundial’2014 quer no Euro’2016. Jogador super-ágil e explosivo, dribla com muita facilidade e, com Guardiola, tem crescido bastante, vindo de uma temporada excelente ao nível goleador (23 golos apontados) e Southgate espera que desequilibre as partidas a favor de Inglaterra (o desgaste fê-lo baixar o nível na parte final da época no City).
XI base: Pickford; Walker, John Stones, Gary Cahill, Trippier, Rose; Dier, Jordan Henderson, Dele Alli, Sterling; Harry Kane.
Jovem a seguir: Marcus Rashford (Avançado, 20 anos, Manchester United) – O menino bonito de Old Trafford ainda não conseguiu fixar-se como titular indiscutível no Manchester United mas restam poucas dúvidas acerca do seu valor. Com uma mistura explosiva de velocidade, potência, drible e remate, Rashford tem tudo para marcar uma era no futebol inglês. Após ter já estado no Euro’2016, neste Mundial deverá começar no banco mas pode ser uma arma poderosa para Southgate lançar ao longo da competição, sendo que uma prestação convincente poderia também catapultar o pupilo de Mourinho para a consolidação como figura dos red devils.
Principal ausência: Joe Hart (Guarda-redes, 31 anos, West Ham) – Dono das redes da selecção em 75 partidas e titular nos Europeus de 2012 e 2016 e no Mundial’2014, foi um dos “vilões” da eliminação em França contra a Islândia com uma actuação comprometedora. Pouco depois dessa noite de má memória, Guardiola retirou a Hart a titularidade do City e a vida começou a complicar para o guardião, que após ter estado no Torino em 2016-2017 alinhou na presente temporada no West Ham mas esteve longe de estar a um bom nível, tendo mesmo perdido a titularidade em vários encontros. Esta “via sacra” que Hart tem sofrido nos últimos dois anos culmina, agora, com a ausência da lista de convocados para o Mundial.
Convocatória: Guarda-redes: Butland (Stoke City), Pickford (Everton) e Pope (Burnley); Defesas: Alexander-Arnold (Liverpool), Trippier (Tottenham), A. Young (Man Utd), Rose (Tottenham), Cahill (Chelsea), Jones (Man Utd), Maguire (Leicester), Stones (Man City) e Walker (Man City); Médios: Delph (Man City), Dier (Tottenham), Henderson (Liverpool), Lingard (Man Utd), Dele Alli (Tottenham), Loftus-Cheek (Crystal Palace/Chelsea); Avançados: Sterling (Man City), Kane (Tottenham), Rashford (Man Utd), Vardy (Leicester) e Welbeck (Arsenal).
Prognóstico VM: 2.º no grupo e quartos-de-final
Pedro Barata


20 Comentários
Tiago Peixoto
Selecção jovem e com muito potencial, mas, na minha opinião, se os ingleses não venceram nada na geração em que estava no auge David Beckham, Paul Scholes, Frank Lampard, Steve Gerrard, John Terry, Rio Ferdinand, Gary Neville, Michael Owen e um jovem Wayne Rooney (a partir de 2004), duvido que consigam agora.
Rui Miguel Ribeiro
Essa lógica é destruída por Portugal que teve grande s selecções com grandes jogadores no seu apogeu e que praticava bom futebol em 2000 e 2004 e ganhou o Europeu em 2016 com uma equipa mediana e um jogo sofrível.
Joao D
Equipa mediana em 2016?
A de 2004 era um elenco de luxo mas daí a dizer que ganhamos com uma equipa mediana…
Il Codino Divino
Se a selecção portuguesa não ganhou nada com Figo, Ronaldo, Deco, Rui Costa, Ricardo Carvalho, Maniche… Também duvido que consigam alguma coisa! No entanto…
Essas análises não podem ser feitas assim. A Dinamarca já estava de férias quando ganhou um europeu, Portugal foi de empate em empate. Também não acredito nesta selecção inglesa, a comparação que fases é que me parece errada.
JOSCP1992
Diziam o mesmo de Portugal devido à derrota no Euro 2004 em que supostamente era a melhor selecção que Portugal tinha tido e passado 12 anos levanta a taça.
O facto de terem tido melhores jogadores antes não invalida poderem ganhar agora…
AndreChaves9
A de 2000 era melhor mas sim é isso
Rui Miguel Ribeiro
Exactamente. A melhor que já vi jogar.
dabide23
Concordo… A de 2000, para mim, fica à frente da de 2004!
Nuno Silva
Não seria possível criar um separador só com estas análises ?
Nem sempre há tempo para ler no momento e seria positivo ter tudo organizado
Visão de Mercado
Já temos em cima o separador ‘Mundial 2018’
Nuno Silva
Perfeito!
Não tinha visto
Bom trabalho
Joao D
Eu gosto desta seleção inglesa. Não entendo como é que em Portugal esta seleção é tão desvalorizada.
Não sendo eles uma favoritíssima, são uma favorita. Um pouco à imagem da Bélgica, de Portugal e da Argentina.
Quem dera a muitos ter um Sterling e um Harry Kane no ataque. Talvez o maior problema seja o facto do banco não ter a mesma qualidade do 11 inicial.
Rui Miguel Ribeiro
Tenho esperança (tenho sempre, em boa verdade) que a Inglaterra faça um bom Mundial. A equipa é boa, tem elementos de topo, sangue na guelra, o que dá sustento a essa esperança. A previsão do VM (quartos de final) é realista dado que aí o adversárioi, pela lógica, será a Alemanha ou o Brasil. Ganhar o Grupo G é 50/50 com a Bélgica.
RodolfoTrindade
A Inglaterra é sempre aquele handicap em fases finais, mas desta vez sou da opinião do Barata e também acredito nos quartos.
Gravensilla
Eu gosto da Inglaterra. Criam sempre a ideia que é desta. Mas parece sempre que basta um resultado menos bom para aquilo descambar. Espero que nao.
Pedritxo
A Inglaterra tem sempre qualidade para ganhar um Mundial, mas claudica nos momentos decisivos, veremos o que irao fazer.
Um aparte, Delle Ali streama Fortnite e joga muitas vezes com Kane e Trippier.
Rodrigo Ferreira
Como está referenciado no post, parece-me cedo para a Inglaterra, isto é, muitos destes jogadores têm pouca ou nenhuma experiência destes momentos. É claro que têm bons jogadores, mas contra os favoritos desta competição irão cair e mesmo perante uma surpresa como a Islândia em 2016 podem ser surpreendidos. Não seria novo.
Dizer que esta convocatória de Southgate é algo estranho, com a presença de 3 laterais de cada lado, 4 avançados e poucos médios. Também não entendo a ausência de Smalling, enquanto Wilshere é, para mim, a principal ausência. É o médio que podia transformar este miolo inglês em algo mais do que choque e transporte. Talvez Delph apareça pelo miolo a disfarçar, mas Wilshere tinha de estar aqui. Por outro lado, caso coloque Walker a central irá limitá-lo em 50% e tirar-lhe a sua principal valência, isto é, a potência e facilidade com que faz o corredor. Seria absurdo no meu entender. Acho também que o Maguire pode ser titular.
manelmadeira
Na minha opinião a principal ausência é de longe, o Wilshere, fez uma época muito bom e estando em forma (é o caso) apresenta um nível elevadíssimo
Luis ES
As ausências de Wilshere e de Smalling notar-se-ão mais do que a de Hart. Os próximos anos rechearão a seleção inglesa com gerações de ouro das camadas jovens, sendo atualmente muito prematuro considerar a Inglaterra como uma seleção sequer candidata a uma meia-final. Ainda assim, perspectivo uma boa campanha para Kane e na baliza espero que a escolha recaía em Pickford e não em Butland para a titularidade. Estou também curioso para perceber se Loftus-Cheek poderá ter minutos, fez uma boa segunda parte de época no Palace, sendo a segunda melhor unidade do elenco de Hodgson na Premier League.
Tiago Silva
Tem um elenco interessante mas acho que vão desilidir novamente. É pouco experiente, a equipa não tem muitas rotinas e o selecionador é fraco.
Mas quem tem jogadores como o Kane, Sterling ou Alli e sempre perigoso.