
Em 2019 passam-se três anos desde que o Lanús surpreendeu o futebol argentino e confundiu o adepto de ocasião no que à hierarquia do futebol do país das Pampas diz respeito. Afinal, o campeão, não era um dos cinco gigantes. Não era Boca. Não era River. Não era San Lorenzo, Racing ou Independiente. Não era, sequer, Vélez Sarsfield, Estudiantes ou Newell’s, os três que ousam chamar-se grandes e, por vezes, mais do que quaisquer outros, intrometer-se entre o sucesso que é previsível tornando-o ilógico. O choque Granate, porém, foi relativo. O do Halcón, é definitivo.
Em 2016, haviam passado nove anos desde que o Lanús se sagrara campeão argentino pela primeira vez e, desde esse título, em 2007, por ocasião do Apertura de 2007, que o conjunto Granate ficara perto de repetir o feito. Em 2013, já Torneo Inicial, o conjunto então orientado por Barros Schelotto foi segundo classificado a apenas dois pontos do campeão San Lorenzo e, no ano seguinte, por ocasião do Torneio de Transição, só Racing e River ficaram por cima da equipa do antigo treinador do Boca que para sempre ficará ligado ao dia mais negro da história do Boca Juniors.
A surpresa não deve ser contestada, mas ao Lanús nunca faltou matéria prima para exponenciar. No vice campeonato, em 2013, havia Marchesín, Izquierdoz, Goltz, Lautaro Acosta… Havia El Pulpo González, omnipresente, cumprindo o desígnio para o qual nasceu, percorrendo toda a distância do campo, ao qual os seus tentáculos chegavam. Mais tarde, em 2014, ainda por lá andava Marchesín, Lautaro Acosta, Silvio Romero, e o polvo Diego González ainda antes deste encantar o México ao serviço do Santos Laguna e ser aquilo que é hoje Guido Rodríguez. O melhor médio e o melhor jogador da Liga MX.
Hoje, em 2019, a surpresa é outra. Tem as cores da companhia de transporte rodoviário Halcón, então pertence do presidente do clube na altura, e o nome ninguém sabe de onde nasceu. O Defensa y Justicia é um clube especial. Sem qualquer direito em estar onde está, a fazer o que vai fazendo, mas conseguindo-o. Pela mão de Sebastián Beccacece e sob a batuta do maestro Lolo Miranda, o Defensa y Justicia não pára de fazer história: com dezasseis jogos disputados, El Halcón é líder da Superliga Argentina e único clube invicto na competição. O sempre peculiar calendário argentino até jogava contra si, mas nesta história não parecem haver limites.
São tantas as vezes que o Defensa y Justicia já colocou de pernas para o ar a lógica e a sacudiu sem piedade, que nem a paragem de dezembro e janeiro quebrou o ritmo amarelo e verde. Pelo contrário. Se dúvidas existiam acerca da capacidade da equipa de Beccacece em surgir na segunda metade da temporada ao nível do que fizera até então, as mesmas foram desfeitas em poucos dias: mais do que enferrujado, El Halcón ressurgiu revigorado, grato, venceu o River no Monumental e derrotou pela primeira vez na sua história o San Lorenzo para alcançar o topo do futebol argentino. Não importa o que mais aconteça. Este é um conto de fadas como poucos.
Em Florencio Varela, na zona sul de Buenos Aires, como em qualquer outro canto do país abençoado pelo futebol de Beccacece, o Defensa y Justicia é feroz. Mourinho pediu cães raivosos a poucos dias de abandonar Old Trafford e ainda que não conste que tivesse em mente replicar o modelo de Beccacece, são poucas as equipas no Mundo as que conseguem ser tão sufocantes quanto El Halcón. O River que o diga. Enzo Pérez, Palacios e Quintero que o digam que durante vinte, trinta minutos, os que bastaram ao Defensa y Justicia para construir um resultado histórico, mal respiraram. Ferozes. Como que possuídos por uma capacidade sobre humana oriunda da deliberação de um qualquer consílio de Deuses, daqueles que tantas vezes Luís de Camões descreveu como estando na génese do fado lusitano.
Deuses rendidos ao louco Beccacece e enfadados com o rumo aborrecido do futebol cada vez menos parco em surpresas e belas histórias. Deuses que o trouxeram ao Mundo como que se de uma segunda encarnação de El Loco Bielsa se tratasse, com cabelo mais claro, mais comprido, e cujo carisma promete não passar ao lado da história do futebol nos próximos anos. Beccacece nunca escondeu a admiração por Marcelo Bielsa e é também ele um dos discípulos de El Loco num país onde a religião parece poder ser, somente, Bielsista ou Bilardista.
Louco, badboy, rockstar. Sebastian Beccacece tem um carisma que não cabe no Mundo e o futebol argentino pode muito bem não mais ser o mesmo a partir desta temporada. Com uma equipa construída por renegados, o Defensa y Justicia vai mostrando que é possível fazer muito com pouco e jogar o melhor futebol das américas com um plantel construído com jogadores de baixo ou nenhum custo, dispensados de clubes maiores e emprestados sem espaço neles, como é caso o impressionante Alexander Barboza ou o entusiasmante Matías Rojas. Lolo Miranda que o diga, também, ele que chegou a Florencio Varela a custo zero depois de uma passagem pela MLS por empréstimo do Independiente e que é hoje um dos mais distintivos jogadores a atuar na Argentina. Com uma classe que extravasa as quatro linhas. Com a classe que qualquer bom número dez é obrigado a ter. Dos jogadores com mais de mil minutos esta temporada pelo DyJ, três deles estão emprestados, um deles, Nicolás Fernández, foi formado no clube, e tanto Unsain como Lisandro Martínez pouco custaram aos cofres do Halcón.
No caótico futebol argentino, o Defensa y Justicia é um caso à parte. Ascendidos à primeira divisão argentina há quatro anos, um modelo de recrutamento bem definido, estratégico e pensado, e a aposta em treinadores de identidade vincada como Almirón, Cocca, Holán e, agora, Beccacece permitiram uma ascensão meteórica ao Halcón dentro do futebol argentino ao ponto do mesmo ter conseguido o apuramento sucessivo para três Copas Sudamericanas. É, porém, pela mão de Sebastian Beccacece que o Defensa y Justicia, qual Ícaro, vai voando junto ao Sol como em nenhum outro momento anteriormente. Querem a Libertadores, dizem, mas podem muito bem conseguir mais do que isso.
Beccacece nunca refutou as influências de Marcelo Bielsa – é também ele um hincha louco de La Lepra -, mas a sua capacidade para levar para campo o romantismo do ídolo, sabendo adaptá-lo às circunstâncias do jogo, fazem do jovem técnico argentino uma espécie de renascimento bielsista. Como se Marcelo tivesse nascido vários anos mais tarde, de novo, também em Rosario, mais há 38 anos. Os padrões bielsistas estão lá todos, bem vincados, na equipa do Defensa y Justicia, mas há um pragmatismo estratégico inerente ao futebol romântico do Halcón que adverte para que o aluno possa muito bem, um dia, a curto prazo, ultrapassar o mestre. Como Pochettino ou Guardiola, por exemplo, também o fizeram.
Mesmo num Defensa y Justicia de baixo custo, o modelo vincado e a adaptação constante aos momentos do jogo fazem da equipa de Beccacece a mais astuta das equipas do atual futebol argentino e, acredite, americano. O River que o diga, que primeiro foi devastado para ficar depois encurralado na teia estratégica e labiríntica de Beccacece antes da estocada final do Defensa y Justicia que, injustamente, acabou por nunca chegar. Frente ao River o Defensa y Justicia venceu apenas por um a zero, mas a exibição, taticamente, foi de antologia.
Tal como o Liverpool de Klopp esta temporada, por exemplo. Nem tudo tem de ser heavy-metal, quando por vezes o jogo pede um pouco de Richard Wagner. Aí, entra o maestro. Lolo Miranda. Pisando a bola. Contemporizando. Colocando cérebro na pressão desenfreada que Rojas, Blanco e o trio da frente, Togni, Cuqui Fernández e Rius colocam no jogo e castram qualquer capacidade ofensiva adversária, devorando o portador da bola em constantes situações de superioridade numérica que fazem parecer que o Defensa y Justicia tem mais jogadores em campo do que o adversário. Não é por acaso que o Defensa y Justicia só sofreu menos golos na Liga Argentina do que o Racing e só três equipas marcaram mais golos. Nenhuma delas, com tantas ações defensivas realizadas em meio campo adversário. Se a recuperação não é feita imediatamente, não há crise e muito menos pânico. A transição é feita de forma perfeita, harmoniosa, a ocupação de espaços rumo à organização defensiva é exemplar e tal como o River foi vítima, torna-se titânico entrar no bloco defensivo do Defensa y Justicia. Não é por acaso que o conjunto de Beccacece é a terceira equipa da Superliga Argentina que menos remates permite aos adversários por jogo, uma das poucas que não sofreu qualquer golo em situações de contra ataque – lá está, transição defensiva de excelência – e só o River sofreu menos golos em organização defensiva, ou bola corrida, do que o Defensa y Justicia. Por esta altura, o Defensa y Justicia é uma equipa que se impõe e adapta a qualquer contexto que lhe surja pela frente. Como diz a menina Beltrán: É ambicioso, é dinâmico, é frontal, é possessivo, é desequilibrante.
Beccacece ergueu a cabeça após a passagem desastrosa e tempestuosa pelo Chile e colocou-se em bicos de pés para olhar nos olhos os melhores dos melhores. Típico do clube de génios ao qual, Beccacece, parece começar a habilitar-se vir a pertencer. Trabalhando sob os ensinamentos de Bielsa – com o qual um dia rejeitou trabalhar por lealdade a Jorge Sampaoli, de quem foi braço direito durante anos até ao desastre russo -, mas revestindo-os de sensatez. A mesma que faltou, quase sempre, ao icónico e influente técnico em toda a carreira e que, por isso, parece fazer de Beccacece uma versão aprimorada de El Loco. Como se Marcelo tivesse renascido. Ninguém me convence do contrário. Agradecemos aos Deuses.
João Pedro Cordeiro


7 Comentários
Flavio Trindade
Um prazer voltar a ler algo do João Pedro!
A este texto chamo prazer pelo futebol em estado puro. Venham mais destes!
Estigarribia
Excelente texto, João Pedro Cordeiro. Para ser sincero não conhecia muito bem este Defensa y Justicia, mas do que vi no jogo com River Plate (confesso que só vi parte da primeira parte) pareceu-me uma equipa com uma maneira de jogar muito peculiar. E este texto ajudou-me a perceber melhor esta mesma equipa e vou tentar acompanhá-la mais vezes no campeonato argentino.
Em relação a este treinador, Sebastián Beccacece tem tudo para fazer ainda mais história no Defensa y Justicia e, quem sabe, ter uma carreira ainda melhor que Marcelo Bielsa – sou um confesso admirador do trabalho de El Loco e estou a gostar do excelente trabalho realizado no Leeds United. Os Peacocks vão regressar á Barclays Premier League.
Fernando neves _36
Fantástico.
Grande texto!
Tenho de começar a ver os jogos desta equipa, fiquei fascinado pela discrição da mesma.
Parabéns ao autor do texto!
Chomate
Dos melhores textos que já li neste blog.
Não acompanho o futebol sul- americano, e por isso, desconhecia por completo está equipa do Defensa y Justicia. Agora, talvez vá para cama mais tarde para ver esta equipa.
Parabéns ao autor pelo texto!
JoaoMiguel96
Não via um texto do João Pedro Cordeiro aqui há uns bons tempos. Ainda me lembro quando fazias análises semanais ao campeonato mexicano.
Já não é a primeira vez que ouvia falar do Defensa y Justicia e, muito menos, do excelente trabalho de Beccacece e sempre fiquei intrigado com aquilo que tem sido feito no clube de Buenos Aires. Impressionante como estão a fazer frente a um Racing muito reforçado, ainda que para isso também beneficiem da má forma de River Plate e dos 3 (?) jogos em atraso do Boca. Mesmo assim, ficam isolados no segundo lugar e à frente de outra das sensações do campeonato (penso eu), o Atlético Tucuman.
Isto leva me a duas questões. Primeira, é muito interessante como muitos clubes argentinos cada vez mais apostam nos miúdos sem espaço nos grandes. Sabem que têm qualidade e que, num espaço menos exigente, podem conquistar a titularidade, crescer e lucrar tanto desportivamente como financeiramente.
Segundo, o número crescente de treinadores argentinos a destacarem-se no país das Pampas pela qualidade de jogo, pela riqueza táctica e, acima de tudo, pela descendência Bielsista (este que tem feito um trabalho excepcional no Leeds). Cada vez mais me parece que a Argentina está a tomar um passo em frente no que toca à qualidade do seu campeonato, muito pela via do treinador. Um futebol que era outrora completamente louco, sem riqueza táctica, tem dado lugar a um futebol mais cerebral e com menos desequilíbrios. Aliás, a final da Libertadores foi assim. Apesar dos vários golos, os jogos foram relativamente equilibrados e não houve aquela típica loucura sul americana.
Voltando ao tópico, acho que é muito por aqui que se pode dar o crescimento financeiro de várias equipas argentinas. A aposta nos bons e jovens treinadores e nos miúdos sem espaço nos grandes, mas que em clubes menores podem brilhar muito.
Quanto a Beccacece, não deve faltar muito para saltar para a um dos grandes. Vamos ver o que faz esta época.
Deixar só um último apontamento, saudar a continuação no ativo de Jonas Gutierrez. Que médio que esse senhor era no Newcastle e a maneira quase criminosa como foi dispensado depois de ter o cancro foi do pior que já vi.
Estigarribia
João,
Sobre o Leeds United, Marcelo Bielsa está a realizar um trabalho fantástico e, como simpatizante dos Peacocks, espero mesmo que vençam o Championship e que regresse á Premier League.
E o Leeds United tem jogadores muito interessantes como Bailey Peacock-Farrell, Patrick Bamford, Ezgjan Alioski ou Kemar Roofe, por exemplo.
Tiago Silva
Belo texto, os meus parabéns! Um texto de um completo apaixonado pelo futebol.
O Defensa y Justicia é sem dúvida a sensação do futebol Mundial! Um exemplo para todos os clubes pequenos, um exemplo de superação e paixão, um exemplo de gestão.