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Será a leveza do ser sustentável?

O corpo pouco musculado aponta logo para uma espécie que vive por virtudes que não meramente físicas. Por isso a sobrevivência  é feita graças à magia, à fantasia e à técnica. Não raras vezes pede-se que seja mais regular, mais constante no seu contributo para o coletivo. Mas já dizia Guti (eterno génio incompreendido) que o trabalho do artista era muito mais difícil que o dos carregadores de piano, pois estes “apenas” tinham de correr e transpirar, ao passo que aqueles se viam obrigados a apelar ao gesto distinto, ao toque de qualidade e à inspiração que nem sempre chega.

Ora, sempre vimos estes virtuosos a florir com mais qualidade e quantidade na América do Sul do que em qualquer parte. Como se a terra dos “potreros” (campos pelados) de Buenos Aires ou as areias da Praia de Copacabana incentivassem à estética. Mas este sentido de beleza tem-se desvanecido, ao ponto de nas bancadas do Continente ter-se deixado de cantar “Olé, Olé, Olé”, num elogio da arte, para cantar “Huevos, Huevos, Huevos”, num incentivo à agressividade e virilidade dos intérpretes.  No entanto, nesta Copa América, apesar de continuarem a haver dignos sucessores de Dunga (cujo futebol apresentado na Seleção do Brasil é por si só um sinal da mudança dos tempos), emanaram duas luzes de esperança para aqueles que desejam ver o talento e a qualidade levada para dentro do campo: Jorge Valdívia e Javier Pastore.
Ver qualquer um deles é recuar no passado. Com imaginação, técnica refinada, visão de jogo ímpar, facilidade de colocar colegas na cara do golo e finta curta, é possível estabelecer várias semelhanças entre ambos os jogadores, apesar do Argentino, sendo mais novo, ter atingido já um patamar competitivo que o Chileno (que rumará agora ao Médio Oriente) nunca alcançou. Com a sua pouca agressividade na ocupação de espaços e agressividade, bem como a sua irregularidade, será que este tipo de elementos cabe no futebol de hoje? A verdade é que, se no caso de Valdívia, com 32 anos a serem cumpridos em Outubro e um chorudo contrato nos Emirados Árabes Unidos à sua espera, já pouco poderá ser esperado de El Mago ao mais alto nível, o caso de Pastore é distinto.
El Flaco sempre foi visto como um super talentoso jogador, mas a verdade é que a sua estadia em Paris vinha sendo uma desilusão, com pouco brilho e com muitos minutos passados no banco, algo que lhe valeu até a ausência do Mundial 2014. Mas esta época foi diferente, com o argentino a terminar a época como titular do conjunto da Capital Francesa e com uma enorme influência na manobra da equipa, algo que lhe valeu a titularidade na selecção na Copa América. Restam poucas dúvidas que há poucos no Mundo com a subtileza e classe de Pastore, um jogador diferente e que acende as luzes do bom futebol, encontrando sempre o espaço inexistente e o passe impossível. Aproveitar a embalagem destes últimos meses para assumir, definitivamente, um papel condizente com o seu talento, acrescentando-lhe continuidade e uma maior capacidade de lutar contra ventos desfavoráveis é o desafio que agora se lhe coloca, com a certeza que, se for ultrapassado, Pastore é capaz de tudo, sendo certo que elementos como o Argentino, bem como Valdívia, são um oásis no futebol de hoje, no qual se muitas dúvidas se colocam acerca da contribuição que as suas características podem dar a um nível top. No fundo, questiona-se se a sua leveza é sustentável. 

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Pedro Barata

0 Comentários

  • Rodrigo
    Posted Julho 7, 2015 at 10:11 pm

    Bom texto, Pedro Barata. Como sempre de resto. Quanto aos genios de Valdivia e de Pastore, diria que ambos parecem, de facto, jogadores de outro tempo, onde nao existia uma noçao tao abrangente de processo defensivo, isto e, quando os criativos estavam livres de amarras tacticas e de preocupaçao com o momento defensivo (ou tanta, pelo menos). Valdivia e um caso perdido para o futebol de alta competiçao, mas tem um talento enorme. Elementos como Valdivia, Ortega, Aimar ou Riquelme transportam o futebol para outro tempo.
    Em relaçao a Pastore, e um caso diferente porque ainda vai a tempo de uma carreira brilhante e parece que e desta que pega. E provavelmente o melhor medio ofensivo do momento, tem uma qualidade tecnica e uma elegancia fantasticas, talento para dar e vender. Blanc soube recupera-lo e nesta Copa foi visivel aquilo que pode dar as suas equipas. Espero que na proxima epoca seja Pastore e +10 em Paris.

  • diogoribeiro
    Posted Julho 7, 2015 at 9:33 pm

    São jogadores fantásticos que não têm a consistência suficiente para chegarem ao topo. Se trabalham pouco para a equipa e os momentos de magia só aparecem 1 vez em três jogos, nos outros dois jogos a equipa passa a jogar com um jogador a menos.

    A diferença entre Messi, Ronaldinho e Zidane para o Valdivia e o Pastore é a consistência. Os três primeiros raramente desapareciam dos jogos, enquanto o Valdivia e o Pastore com a qualidade que têm deviam decidir mais jogos do que fazem. Por cada jogo onde são fantásticos têm um onde não acrescentam nada. É preciso ter a capacidade mental para estar concentrado e no máximo das suas abilidades em todos os jogos, o que é muito difícil e é o que separa os talentosos dos fantásticos.

    • João Guerreiro
      Posted Julho 7, 2015 at 11:33 pm

      Pena o Ronaldinho so ter tido um curto periodo onde esteve no auge, nunca o poria na mesma frase de messi ou zidane quando se fala em consistencia.

  • António Vilares
    Posted Julho 7, 2015 at 9:12 pm

    São de factos dois génios, com grande perfume e com toques de vedeta, é verdade que vejo, por jogo, grandes momentos de craque, como recepções de bola "impossíveis", assistências descobertas do nada, etc. Eu gosto deste tipo de jogador, claro, mas por vezes prendem-se em demasia ao talento que os destaca dos restantes. Isto pode resultar numa fraca tomada de decisão que acaba por condicionar o jogo colectivo da equipa. Mas cada caso é um caso, a mudança de paradigma acerca dos criativos no modelo de jogo das equipas tem-se alterado um bocado, com os jogadores a tenderem a ser requisitados para vários momentos do jogo, quer na transição defensiva como ofensiva. O que acaba por "moldar" alguns criativos em jogadores mais físicos, chamemos-lhe assim…

    Parabéns Pedro Barata! Aqui o génio foste tu ;)

  • Guinha10
    Posted Julho 7, 2015 at 9:10 pm

    Quem gosta de futebol gosta deste tipo de jogadores!
    Já os treinadores muitas vezes prescindem deles pelo simples facto de a grande parte deles, (a carreira de Valdivia é um excelente exemplo) não serem consistentes e sem bola apresentarem pouca agressividade tanto na recuperação da mesma como na ocupação dos espaços…
    Quando juntam toda a sua qualidade à capacidade de trabalho e conseguem alguma consistência (como os dois demonstraram nesta Copa América), mostram que estão ao nível dos melhores e são aqueles jogadores que toda a gente se fascina a ver jogar.
    O Valdivia já não fará uma grande carreira, já é tarde, mas espero que o Pastore faça exactamente o oposto e que vingue de uma vez por todas! O futebol agradecia…

  • Sir Pereira
    Posted Julho 7, 2015 at 8:40 pm

    bom texto. Exímios talentos. Livro sublime.

  • Kafka I
    Posted Julho 7, 2015 at 8:34 pm

    Ups enganei-me e apaguei o comentário sem querer, mas sim Filipe, o que eu escrevi era relativo à falta de consistência destes jogadores, e dai serem postos em causa, pois tanto fazem 1 jogo bom, como estão 4 ou 5 que ninguém dá por eles, pois não se entregam ao jogo, não pressionam, etc..e como tal subscrevo Filipe

  • Diogo Palma
    Posted Julho 7, 2015 at 8:31 pm

    A verdadeira generalidade é composta por "10% de inspiração e 90% de transpiração", tanto o trabalho criativo como o físico exigem muita dedicação e espírito de sacrifico pelo que nenhum deve ser descurado ou desvalorizado.

    É complicado conciliar ambas as coisas? É, por isso é que só alguns vingam.

  • Filipe Ribeiro
    Posted Julho 7, 2015 at 8:28 pm

    Subscrevo por completo Kafka.
    No caso do Pastore ainda tem um defeito muito grande é a capacidade de decisão que é o que faz a diferença nos grandes n10 ele maior parte das vezes decide mal e a qualidade de passe não é assim tão boa como muita gente diz falha muito nesse capitulo.

  • Kostadinov
    Posted Julho 7, 2015 at 8:16 pm

    Fiquei fascinado com o futebol do Valdivia, talvez seja por desconhecimento, por não acompanhar o Brasileirão, mas nunca o tinha visto neste nível.

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