1. Segundo entendo, contabilisticamente, a venda de um jogador da formação gera apenas mais-valias — não sendo amortizado qualquer valor de aquisição —.
2. Poucos são os clubes que consigam vender um suplente por € 50.000.000,00.
3. Rodrigo Mora desempenha as funções que Farioli destina a Gabri Veiga de forma pior — menos intensa, menos incisiva, com menor preponderância para o modelo de jogo — que o espanhol.
Posto isto. A venda de Rodrigo Mora é absolutamente censurável. A censura dirijo-a à direção do Futebol Clube do Porto e, essencialmente, ao treinador. Começando por André Villas-Boas, se me recordo, declarou há tempos que dificilmente um clube português ganharia novamente a Liga dos Campeões. Cai mal, mas está correcto. Nenhum adepto quererá promessas vãs de conquistas europeias improváveis no estado de coisas actual (em que jogadores profissionais acham mais apelativo, a todos os níveis, estar no Ipswich ou no Coventry, em detrimento de Porto, Benfica, Sporting, Ajax, PSV — não critico, constato —). Todavia, não me chocaria (ou melhor, exigiria eu do meu clube) que houvesse uma visão a 5, 10 anos com vista a colmatar a diferença abissal entre o Porto e os tubarões das Big 5, ainda que esse plano não seja uma bandeira pública e seja executado calma e paulatinamente, a portas fechadas. Um plano pelo qual o Porto se batesse olhos nos olhos com os demais gigantes — com um elenco de fraca expressão esteve perto de eliminar um Chelsea que viria a ser campeão europeu nos quartos de final da Liga dos Campeões — e que fosse construindo uma cultura de vitórias europeias (como houve num passado não tão distante) em crescendo e de forma sustentada.
E é aí que entra Rodrigo Mora, é aí que entra Vitinha, é aí que entra Rúben Neves. São valores superlativos do Futebol Clube do Porto, sendo que a azáfama contabilística ditou um fim precoce à ligação destes ao clube.
Não falo de sentimentalismo bacoco: Fábio Silva poderá ter uma carreira bonita, mas não é o valor superlativo que a sua carreira nos juniores faria pensar (como tantos outros). Nem tão-pouco deverá o Porto manter os jogadores a qualquer custo. Os jogadores têm carreiras muito lucrativas durante cerca de quinze anos e qualquer adepto compreende que busquem e consigam melhores situações financeiras para si e para os seus. Trata-se de (1) dar a compensação adequada e justa aos valores superlativos do clube (veja-se que, se Diogo Costa fizer a sua carreira no clube, certamente passará, de forma conservadora, 10 anos a receber o tecto salarial), de (2) estabelecer metas e ciclos por forma a compatibilizar as ambições dos jogadores e do clube (como foi feito com Deco em 2003, e mais recentemente com Fernando Reges e Bruno Alves — que terá perdido o comboio de uma transferência para o Barcelona, que à data se virou para Chyhrynskyi —).
Falando em comboios, para jogadores com um valor superlativo eles passam tendencialmente mais do que uma vez. Salvo uma lesão catastrófica, que pode acontecer em qualquer lugar ou estádio da carreira, haverá sempre procura por jogadores deste calibre, caso saibam gerir pacientemente o seu futuro (Froholdt teria lugar o ano passado num clube bom de uma liga das Big 5, mas escolheu um passo intermédio, a titularidade num clube respeitável europeu, com tradição, de uma liga inferior mas que significou ainda assim um avanço na sua carreira).
Então como poderia a direcção fortalecer as finanças do clube (o Cabo das Tormentas apenas vem sendo ultrapassado) e permitir o fortalecimento do plantel? (1) Recalibrando as expectativas de retorno de certos activos que claramente terminaram já o seu ciclo no Porto (como Varela — cuja carreira se estagna, sem ganhos para o jogador ou para o clube — ou Pepê). Convém lembrar que as vendas de jogadores como Guarín, Alex Telles ou Álvaro Pereira se fizeram por valores inferiores à valoração subjectiva do clube; (2) apontando para alvos sem custos directos de maior (como Diogo Leite que, segundo entendo, estará sem contrato e seria uma sombra de Kiwior melhor que Prpic, que necessita de jogar, emprestado sob os moldes que sejam compatíveis com a expectativa que a SAD tem para o jogador) para as posições deficitárias — à cabeça e evidentemente, a lateral esquerda —; e(3) colmatando ausências temporárias de jogadores como Samu com empréstimos estratégicos, inclusivamente sem opção de compra, para promover a competitividade interna até ao activo principal estar de volta: veja-se, exemplificativamente, a lista infindável de jogadores excedentários que o Chelsea (como outros) precisará de colocar a curto trecho.
Por fim, tem que se falar da recuperação dos activos do clube como uma via a tomar. Concretamente, Francisco Moura terminou a época transacta animicamente destruído. Sem querer entrar em considerações sobre modelos de jogo e das características individuais dos jogadores, Francisco Moura é um jogador com qualidades e que está no meio do seu ciclo no Porto; em vez de se tornar num jogador mais polido e com dimensão para embates duros (os demais grandes e jogos europeus), caiu num fosso a que o Tribunal do Dragão (eu incluído) o sentenciou. Ainda assim, Francisco Moura tem qualidades e a sua longa ausência (estando atrás, na hierarquia, de Zaidu, Martim Fernandes, Kiwior e ainda Pablo Rosário) significa que (1) não está a ser feito o trabalho de recuperação devido a um dos nossos — se tem contrato é um dos nossos —, ou (2) o jogador não responde a tais tentativas de melhorar a sua condição anímica (a confiança) e, consequentemente, de rendimento.
Por fim, retomando o tema de Rodrigo Mora, quanto ao treinador. É treinador do campeão nacional, que retomou os títulos graças ao seu entendimento do jogo, à sua gestão do grupo e dos seus recursos humanos e graças a qualidades que redundam em chavões, mas que elenco: profissionalismo, dedicação, abnegação e firmeza de carácter.
Não posso, contudo, deixar de frisar algo que, para mim, é evidente: a rigidez das ideias táticas dos treinadores não devem pôr em causa a sustentabilidade e a visão dos clubes para o futuro.
Apesar de apelidar Mora de um valor superlativo, sei também (como todos os adeptos) que o jogador não desempenha a função que Francesco Farioli lhe pede adequadamente. Pode ter evoluído na ocupação de espaços e na tenacidade, mas essas não são as suas características. Bem assim, Samu não é o avançado associativo que Farioli pretende ter no seu sistema (ainda que tenha melhorado certos aspectos, não é simplesmente o avançado de Farioli), mas este acarretou a maior operação financeira do clube — se não estou em erro, € 32.000.000,00 —, o que lhe garante uma titularidade perpétua. A isto acresce a pressa de Rodrigo Mora (incutida involuntariamente pelo treinador) em ser decisivo: na sua cabeça está permanentemente presente que tem 30’ ou 60’ para mostrar ao treinador por que deve ser titular, o que conforma negativamente a sua decisão no último terço. O jogador não tem a liberdade de se galvanizar a si próprio no decurso do jogo, nem a tranquilidade para decidir sem pressão, porque sabe que o cronómetro, para ele, está a contar. A história e o seu desfecho estavam à vista. Pouca visão teve Farioli (cujo futebol poucas ou nenhumas nuances tem, por defeito), já que Mora poderia facilmente fazer a diferença partindo da esquerda para o meio — como com Anselmi, mesmo que aí tivesse à sua rectaguarda um lateral e o central do lado esquerdo —, podendo dar-se ao jovem a confiança de saber que não tinha uma substituição programada para o minuto 60. E quem diga que Borja Sainz e até William são aguerridos esquece-se que defender na linha é incomensuravelmente mais fácil que defender ao meio, e que um que outro carrinho sobre o lateral opositor é vistoso e garante aplausos, mas saber pressionar em bloco e inteligentemente tem muito mais valor.
Posto isto, Borja Sainz — que tem qualidades — não passa da mediania, como Pepê. Compreendendo que se preze a estabilidade, sabendo também que Borja apenas chegou na época transacta (terá ainda mercado pelo Championship que fez); entendo, pois, que um dos dois deveria ter sido vendido. Entendo também que seja confortável para Farioli, num jogo de pressão, ter um jogador com 28 anos numa ala, e um jovem irreverente noutra (confesso que não sei quantos minutos juntos têm o William e o Oskar, ou melhor, quantas titularidades em simultâneo). Mas entendo sobretudo que, em prol da mera mediania e da falta de ambição, a rigidez tática excessiva e o planeamento deficitário do plantel nos fizeram perder um valor superlativo do clube capaz de, com passos seguros e outros incrementos de qualidade no plantel, catapultar o clube para níveis superiores.
Fica o Porto mais pobre. Assim, não dá gosto. Sou um mero adepto e associado, não tenho formação de contabilidade e o que conheço do mercado é o que mais de 30 anos de observação me fazem intuir.
Visão do Leitor: VESL MMA
