Tudo ou nada. Para a Argentina, cada competição em que a sua selecção entra é isto. Semanas de paixão nos limites em que tudo o que não seja a vitória final levará à depressão nacional. Não há volta a dar, e poucos períodos ilustram melhor isto do que os últimos anos. A albiceleste conseguiu o raro feito de atingir três finais de grandes competições em três anos seguidos, chegando ao duelo decisivo no Mundial’2014 e nas edições da Copa América de 2015 e 2016. No entanto, pequenos detalhes (oportunidades claras desperdiçadas ou derrotas no desempate por penáltis) separaram a Argentina do sucesso e levaram a que a esmagadora maioria do país não olhasse para o que foi alcançado com orgulho mas sim como um fracasso. Também será assim na Rússia’2018, e ainda por cima com um conjunto de contornos especiais. Mas já lá vamos. Olhando à história, estamos perante uma potência do futebol. Viveiro de inúmeros talentos, a Argentina venceu a Copa América por 14 vezes e o mundial em duas ocasiões (1978 e 1986). No entanto, a albiceleste atravessa um jejum de títulos que dura desde a Copa América’1993, sendo que só entre 2004 e 2016 foram perdidas 6 finais consecutivas (4 da Copa América a juntar ao Mundial’2014 e à Taça das Confederações’2005). Após a derrota frente à Alemanha, na final do último mundial, a Argentina entregou o comando da selecção a Tata Martino, que não só conduziu a equipa às já referidas duas finais da Copa América como teve um começo de qualificação para a Rússia razoável, com 3 vitórias, 2 empates e uma derrota que deixavam a equipa num 3.º lugar que dava acesso directo ao torneio. No entanto, após a final perdida nos EUA, em 2016, Tata foi despedido e uma enorme instabilidade instalou-se na AFA (Associação do Futebol Argentino), com escândalos internos e dois treinadores nos 12 meses seguintes: primeiro foi Edgardo Bauza a sentar-se no banco, com 3 vitórias, 2 empates e 3 derrotas em 8 jogos que fizeram a equipa cair para o 5.º lugar da tabela, e depois foi Jorge Sampaoli a assumir o cargo. O técnico argentino que levou o Chile ao primeiro título da sua história (na final de 2015 contra o seu país natal) e que fez um bom trabalho em Sevilla não encantou nas 3 primeiras partidas, somando 3 empates, dois deles em casa contra Venezuela e Perú, prestações que levaram a Argentina para a última jornada da qualificação num 6.º lugar que colocava os bicampeões do mundo fora da Rússia. No entanto, na derradeira partida, um baixinho fez 3 golos no Equador e deu à turma das Pampas o bilhete para o seu 17.º campeonato do mundo, o 12.º consecutivo. Esse baixinho chama-se Lionel Messi e por ele passam muitas (quase todas) das esperanças dos apaixonados argentinos.
No cocktail de contornos especiais que envolve a participação na Argentina neste mundial, encontra-se, claro o acidentado percurso de qualificação, o qual deu razão aos muitos críticos de uma selecção que vive numa montanha-russa de emoções únicas e profundamente irracionais. Por outro lado, as 3 finais perdidas tiveram um impacto emocional fortíssimo num grupo de jogadores que teve de lidar com a crítica de um país que desespera por um título que escapa desde 1993, tendo essa “ferida” sido a principal responsável pelo bloqueio mental a que se assistiu na maior parte da fase de qualificação. Mas, acima de tudo, este é o mundial do “tudo ou nada” para Messi e para a geração que o tem acompanhado há, sensivelmente, uma década. O astro cumprirá 31 anos durante o torneio e para ele esta é, provavelmente, a última oportunidade de erguer o ceptro planetário. O jogador do Barcelona terá a difícil missão de liderar um grupo de jogadores talentosos mas que oscila entre a veterania que parece já não permitir render na elite (Mascherano), o peso das desilusões e críticas recentes (Aguero, Di Maria, Higuaín, Biglia, Banega), a nula experiência em competições deste tipo (Caballero, Armani, Ansaldi, Fazio, Tagliafico, Salvio, Acuña, Meza, todos com 25 ou mais – os quarto primeiros já superam mesmo os 30 anos – mas nenhum com mais de 10 partidas na selecção) ou a juventude (Lo Celso e Pavón). Ainda assim, este cenário não nos deve fazer esquecer que estamos na presença de um grupo com muitos integrantes de uma geração de ouro formada maioritariamente por jogadores que nasceram em 1987 e 1988 (Otamendi, Di María, Messi, Aguero, Higuaín), os quais, juntamente com Rojo, Mascherano ou Biglia, possuem uma tremenda experiência em torneios deste tipo e, juntos, sabem o que é chegar a finais (para além das 3 já referidas, Biglia, Messi e Aguero venceram o Mundial sub-20 em 2005, Mercado, Banega, Di María e Aguero venceram o Mundial sub-20 em 2007, Mascherano e Messi foram vice-campeões da Copa América’2007 e Banega, Di María, Aguero, Mascherano e Messi conquistaram o Ouro em Pequim’2008). As últimas frases podem parecer contraditórias entre si mas a verdade é que é nesta bipolaridade que vive a Argentina: a consciência de que há talento, e ainda para mais talento com muitas batalhas e boas prestações realizadas em conjunto, mas que muito desse talento carrega o peso dos “furacões emocionais” dos últimos 4 anos e teve de lidar, entre outras coisas, com 3 técnicos nos últimos 2 anos. E no meio disto – ou no topo – há Messi. Inserida no difícil grupo D com Croácia, Islândia e Nigéria, Sampaoli chamou muitos jogadores e testou vários modelos diferentes antes do campeonato do mundo, mas terá de tirar o máximo partido das semanas antes do certame para apresentar na Rússia uma equipa com uma identidade definida. Tudo o que não seja trazer o título será uma tristeza nacional, mas com Messi não há impossíveis.
Estrela: Lionel Messi (Avançado, Barcelona, 30 anos) – O melhor jogador desta Era tem vivido um percurso atribulado na selecção, com um carrossel de emoções bem típico dos argentinos. As lágrimas e o desespero após nova final perdida na Copa América’2016 levaram a uma breve renúncia à selecção, tendo regressado para assumir papel decisivo na caminhada para o mundial. Para além da sua qualidade estratosférica ser fundamental para as aspirações da Argentina no torneio, Messi terá de “inspirar” os colegas, de liderá-los e fazê-los acreditar que “desta é que vai ser”, atirando para trás das costas o peso mental e as feridas deixadas pelos últimos anos da selecção. Messi sabe melhor do que ninguém a importância das próximas semanas para a sua carreira.
Jogadores em destaque: Nicolás Otamendi (Central, Manchester City, 30 anos) – O jogador do City (que esteve presente no Mundial’2010 como lateral-direito) vem de uma temporada fantástica, na qual foi um dos melhores defesas da Europa. Agressivo, forte na antecipação e nos duelos, o ex-FC Porto cresceu muito com Guardiola, sobretudo no que à saída de bola diz respeito, e Sampaoli deverá tirar o máximo proveito do momento do jogador, o qual deve liderar o sector mais recuado da equipa. ; Ángel Di María (Extremo, PSG, 30 anos) – Um dos “clássicos” da Argentina na última década, Di María tem tido uma relação atribulada com a selecção. Em 2014 estava a brilhar no Brasil mas saiu lesionado nos quartos, tendo também saído da final da Copa América’2015 por problemas físicos. Extremo muito vertical, é um dos principais alvos das críticas dos adeptos mas tem sido indiscutível para os diferentes técnicos desde Maradona. Chega ao Mundial após uma época com 21 golos e 15 assistências.; Gonzalo Higuaín (Avançado, Juventus, 30 anos) – O símbolo do bloqueio mental da selecção. Avançado de elite com 121 golos apontados no Real Madrid, 91 no Nápoles e 55 na Juventus, a sua carreira pela Argentina está marcada pelos falhanços em momentos decisivos (falhou isolado nas finais de 2014 e 2016 e desperdiçou um penálti no desempate de 2015), os quais geraram uma onda de críticas e insultos que levaram mesmo os companheiros a defenderem-no publicamente várias vezes. Na Rússia terá a oportunidade de deixar as críticas para trás… Ou afundar-se mais nelas.
XI Base: Caballero; Mercado, Fazio, Otamendi, Tagliafico; Biglia, Lo Celso, Lanzini, Di María; Messi, Higuaín.
Jovem a seguir: Giovani Lo Celso (Médio, PSG, 22 anos) – Médio muito elegante, canhoto, de grande qualidade técnica e capacidade de se integrar na circulação de bola da equipa, Lo Celso despontou no Rosario Central e depressa atraiu a atenção do PSG. Esta temporada, foi muito utilizado por Emery (48 jogos), muitas vezes como médio mais defensivo, ele que de origem é um n.º10. Na Argentina, deverá jogar à frente do n.º6 (que deverá ser Biglia ou Mascherano) e pode ser um excelente “sócio” para Messi, fazendo com que o craque do Barça não esteja tão só na criação de jogo. Em termos de jovens, será necessário ter também em atenção Cristian Pavón, extremo do Boca Juniors que chega ao mundial numa super-forma e que pode ser um “abre-latas” decisivo.
Principal ausência: Sergio Romero (Guarda-redes, Manchester United, 31 anos) – Apesar das muitas épocas como suplente nos clubes (quer no Mónaco, quer na Sampdoria, quer no Manchester United), Romero é, há muito, o dono das redes da Argentina, somando 94 internacionalizações e dois mundiais e três Copa América como titular (para além de um mundial sub-20 e uns Jogos Olímpicos, isto para se ter noção do percurso internacional do pupilo de Mourinho). Guardião muito seguro, esteve a um grande nível em todas estas competições. Uma lesão de última hora retirou Romero na Rússia e abriu um debate na baliza: Caballero parece partir à frente mas Armani, com um grande rendimento recente no River Plate mas sem qualquer partida pela selecção, é o preferido dos adeptos.
Convocatória: Guarda-redes: Nahuel Guzmán, Wilfredo Caballero, Franco Armani; Defesas: Gabriel Mercado, Cristian Ansaldi, Nicolás Otamendi, Federico Fazio, Marcos Rojo, Nicolás Tagliafico, Marcos Acuña;Médios: Javier Mascherano, Eduardo Salvio, Lucas Biglia, Giovani Lo Celso, Ever Banega, Manuel Lanzini, Maximiliano Meza, Ángel Di María, Cristian Pavón;Avançados: Lionel Messi, Paulo Dybala, Gonzalo Higuaín, Sergio Agüero.
Selecionador: Jorge Sampaoli
Prognóstico VM: 2.º lugar no grupo D e finalista vencido
Pedro Barata
Outras selecções já abordadas no nosso guia:
Grupo B: Marrocos
Grupo C: Perú, França
Grupo D: Islândia
Grupo E: Costa Rica, Brasil
Grupo F: Suécia
Grupo G: Inglaterra
Grupo H: Senegal


13 Comentários
Mastodon
Não concordo com o prognostico da VM. A seleção esta demasiado dependente de Messi e pelo que se têm visto nos ultimos 3/4 anos, quanto mais importante, menos ele aparece.
Rivelino
Eu vi-o conduzir a equipa a 3 finais. 1 perdida no prolongamento e 2 nos penalties.
Ainda recentemente marcou 3 golos no jogo decisivo de apuramento para o Mundia.
Visão de Mercado
Link para quem pretende participar no Fantasy do Mundial https://blogvisaodemercado.pt/2018/05/fantasy-do-mundial2018/
mcthespecialone
Argentina em segundo e Nigéria em primeiro. Os africanos vão ser uma boa surpresa nesta competição. Aquele elenco é velocidade por todo o lado…Iwobi, Etebo, Ighalo, Iheanacho, Musa, Moses, etc.
Guinha10
É provavelmente a maior incógnita deste torneio. Não acredito que cheguem à final, mas ter Messi dá sempre para sonhar.
Sampaoli tem pouco tempo para preparar a equipa, tem muitas dúvidas na cabeça certamente e, creio,não irá apresentar uma equipa com todas as suas ideias (seria demasiado arriscado na minha opinião). Gostava de ver uma albiceleste bem preparada tacticamente, com referências de pressão bem definidas e capacidade para circular a bola, mas, tenho algumas dúvidas em relação a isso, principalmente nos primeiros jogos. A forma como irão aparecem Higuaín, Aguero, Di Maria, Banega e Ota será essencial para poderem atingir o sucesso. Para já, será até curioso saber que esquema irão apresentar e que 11.
Rodrigo Ferreira
Romero é uma ausência de muito peso. Já apostava na Argentina como fracasso, acho que caem nos oitavos ou mesmo na fase de grupos, mas com Caballero na baliza ainda é pior.
Guinha10
Ontem jogou o Caballero mas acredito que a aposta recairá em Armani. Das opções presentes na convocatória, é de longe o melhor. Caballero nem deveria ter sido convocado…
TheHunter
A ultima oportunidade para Messi com esta geração pois não duvide que ainda jogue mais um mundial. A Argentina deveria pensar bastante e entender que as bases são tudo ou seja começar a apostar na formação ao nível de campos de treino, staff etc. Só assim ou pelo é o caminho mais rápido para o sucesso.
Joao X
Falta o Icardi no lugar de Higuaín no XI.
Espero ver a Argentina chegar longe, de preferência na final com Portugal :)
T. Pinto13
Posso me enganar muito bem mas acho que se ficam pela FG.
Tiago Silva
Esta época a nível internacional provou-nos que é necessário ter um grande guarda-redes para se chegar longe. A Argentina não o tem se apostarem no Caballero que provavelmente é o que irá acontecer. Só um super-Messi pode levar a Argentina longe.
MiguelF
Não me parece que está seleção Argentina chegue muito longe. Tem uma frente de ataque muito poderosa, o meio campo está bom e na defesa faltam outro tipo de laterais. Para além disso ficaram sem o melhor guarda-redes e a verdade é que um bom guarda-redes faz a diferença.
Acho que passam a fase de grupos mas que caem antes da final.
CarMoVal
Com Messi tudo é possível, mas num torneio destes e com mais equipas, tudo dependerá muito dos adversários. Se a Fase de grupos se afigura complicada, a fase a eliminar será ainda mais exigente. Espero que esta seleção se exceda e que não seja “passar a bola ao Messi e fé naquele pé esquerdo dos deuses”. Quanto mais tempo virmos Messi em prova, melhor para o futebol. É aproveitar enquanto ele estiver no ativo. Jogador único e incomparável.