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Um clube que respira saúde

O Club Atlético Osasuna é uma das instituições mais tradicionais no desporto rei espanhol. Apesar de estar longe da luta pelo primeiro lugar (exclusiva a duas/três equipas, na atualidade), o seu crescimento tem sido exímio, tendo por base a sustentabilidade e a saúde do clube (Osasuna que significa saúde, na língua basca). 

Se olharmos ao percurso dos navarros nas últimas três temporadas, verificamos uma estabilidade/tranquilidade que raramente encontramos em um clube que acabara de subir de divisão (primeiro lugar na La Liga 1|2|3 em 2018/2019). Jagoba Arrasate levou os “rojillos” à 10ª posição em 2019/2020 e 2021/2022, com um 11º lugar em 2020/2021, sempre longe da luta pela manutenção. Ao verificarmos os resultados desta época assistimos quatro vitórias em cinco jogos, com um percalço no Benito Villamarín.

Um dos pontos mais surpreendentes é a “preservação” que o plantel tem. Se estamos habituados a constantes revoluções nos plantéis após a subida de divisão (especialmente na Premier League, com o Nottingham Forest como maior exemplo de 2022/2023), o mesmo não acontece pelo El Sadar. De facto, da equipa que alcançou a promoção, são mantidos 10 nomes, muitos deles fundamentais para a tática de Arrasate. Entre eles Sergio Herrera, David Garcia ou Moncayola, elementos que podiam estar em equipas com objetivos hipoteticamente maiores. Esta manutenção de jogadores é justificada pela política interna de transferência e de contratos. São apenas realizadas transferências absolutamente necessárias e não existe nenhum receio de oferecer contratos de longa duração, mesmo para elementos com alguma idade (isto acompanhado com uma aposta na formação, quando há qualidade para a realizar). Olhemos primeiro às datas de fim de contrato de certos elementos. Moncayola tem um contrato absurdo para os dias que correm, finalizando apenas em 2031, quando tenha 34 anos. Lanço ao leitor a questão: conhece um contrato mais longo que este, na atualidade? Porém existem outros casos como Lucas Torró e Moi Gómez com contratos até 2027, por exemplo, não sendo ativos com o objetivo de vender mais tarde. O jovem Aimar Oroz tem um vínculo até 2026 e é a nova coqueluche, podendo o mesmo ser estendido, com o principal objetivo de aumentar a cláusula de rescisão (28 milhões de euros, assinado em Junho deste ano). É habitual oferecer contratos de 4 ou 5 anos a jogadores jovens e em equipas “poderosas” dentro dos seus países. Vimos recentemente os casos de Henrique Araújo e António Silva no SL Benfica. No caso de Torró, estamos a falar de um atleta com 28 anos. Com este compromisso com os jogadores, ocorre a consequência de que certos elementos permaneçam em Pamplona toda a sua carreira (ou grande parte dela), como Oier Sanjurjo, que somente saiu o ano passado. 

Há um “grupo forte” oriundo da formação: David Garcia, Unai Garcia, Roberto Torres, Kike Barja e Aimar, com jovens a surgir na sombra como Jorge Herrando ou Iker Benito, que podem completar toda a sua carreira no El Sadar, dando enfâse aos mais experientes neste aspeto (Aimar principalmente tem tudo para chegar a altos voos, caso o seu desenvolvimento continue a corresponder, podendo não cumprir esta expectativa de ficar “para toda a vida”). O Osasuna está geograficamente falando, situado em uma zona com muitas equipas “especialistas” ao nível formativo, podendo perder alguns elementos para outras instituições, quando os mesmos ainda estão a iniciar o seu percurso, nomeadamente pela política que o Athletic realiza, por exemplo.

Com as poucas contratações realizadas de ano a ano, há uma facilidade de entrosamento incrível, associada a uma certa paciência para que o atleta se encaixe e adapte. O verão de 2022/2023 trouxe cinco nomes para o Tajonar, havendo um regresso por empréstimo (num total de 2 milhões de euros gastos, entre transferências e taxas de empréstimo): Aitor Fernández, Manu Sanchéz, Rúben Peña, Moi Gómez e Abde. Todos os atletas têm experiência de La Liga e em equipas respeitáveis o que exibe o bom planeamento de Braulio Vázquez (Diretor Desportivo) e Luís Sabalza Iriarte (Presidente desde 2014). Não há dúvidas que o plantel do Osasuna tem qualidade para todas as posições, permitindo a aplicação de diversas disposições táticas, já que muitos jogadores têm a capacidade de atuar em várias posições: Chimy Ávila em qualquer lugar do ataque, Nacho Vidal e Rúben Peña na banda direita, Roberto Torres a médio centro (ofensivo) e a extremo, etc..

Isto leva-nos ao treinador, que é uma das pedras basilares do projeto, um pouco à figura de Rúben Amorim no Sporting CP. Jagoba Arrasate é um nome não tão divulgado do futebol espanhol, em comparação com Pellegrini, Alguacil, Marcelino, Lopetegui, Valverde, entre outros. Oriundo do Numancia na temporada do ascenso, o basco cresceu e fez crescer este projeto, não abdicando da sua maneira de jogar. 

A sua tática base é o 4-4-2, que facilmente pode ser transformado num 4-2-3-1 ou num 4-1-4-1, dependendo do momento e do adversário. Beneficia obviamente de ter jogador “multifunções” para poder concretizar o seu plano. No momento sem bola aposta numa pressão rápida e constante, desde que a bola está na área adversária. Como o faz? Pressiona alto os dois centrais (com os dois avançados) e no caso de o oponente descer um dos seus centrocampistas para ajudar na construção, não hesita em que um dos seus médios centro o acompanhe (geralmente Moncayola), obrigando a equipa opositora a jogar para os laterais que são imediatamente pressionados pelos extremos (que se transformam em médios mais interiores no início do movimento, impedindo a construção pelo meio). O adversário muitas vezes é obrigado a bater longo, oferecendo (provavelmente) a bola à defensiva do Osasuna. A primeira e segunda fase de pressão são extremamente agressivas, o que carateriza Arrasate desde sempre que leva o clube a ser constantemente uma das equipas com mais recuperações de bola na La Liga. A grande debilidade neste aspeto é obviamente o fator de o adversário não sair a jogar desde trás, preferindo bater longo, anulando todo este sistema explicado de maneira breve e ligeira, de fácil compreensão.

 Já no movimento ofensivo, o mesmo é realizado pelas alas e com base pelos cruzamentos. Os defesas laterais são geralmente bastante ofensivos, acompanhados pelos extremos. Ávila tem sido colocado constantemente nas bandas, apesar de ser um avançado de origem. Com Budimir a “pinheiro”, faz sentido este estilo (21 golos em dois anos). Assim sendo, a equipa não necessita de ter muita bola, optando pelo contragolpe para ferir o adversário. Caso o jogo seja mais complexo, Arrasate pode preferir colocar um outro lateral direito a jogar como extremo/médio ala, estando a essa asa representada por Peña e Vidal, que oferecem mais regalias defensivas que Ávila ou Torres, conseguindo aplicar o movimento ofensivo de forma semelhante, ainda que com menos velocidade. Contra o Bétis foi esta a opção realizada, de maneira a impedir as ações de Álex Moreno, apesar de não ter impedido a derrota. Já na ala esquerda, Juan Cruz tem permissão para explorar a profundidade da mesma maneira que o defesa direito a tem, beneficiando de mais algum espaço, caso Moi Gómez esteja a extremo/médio ala esquerdo, com tendências de se deslocar para o centro. Rúben Garcia executa atitudes semelhantes às de Moi, porém do lado direito do ataque, no caso de disputar a partida e aí é Rúben Peña/Nacho Vidal a ter toda a banda por sua conta.

A surpresa de 2022/23 tem sido Aimar Oroz, jogando ao lado de Ante Budimir (como segundo avançado, mais móvel que o croata), com dois golos marcados em quatro jogos, podendo ser também médio ofensivo (numa linha com Moi Gómez e Rúben Garcia, por exemplo). 

A contratação de Abde é naturalmente candidata a uma das melhores do ano, encaixando brilhantemente no sistema de Arrasate (é ver a assistência que faz para o golo de Rúben Garcia, no jogo contra o Rayo Vallecano), podendo jogar a extremo direito e a extremo esquerdo. A dupla do meio campo, pouco varia. Torró é o 6 e Moncayola o 8. O primeiro muito mais físico (com 1,90m) e com boa antecipação e o segundo com uma maior capacidade de construção e passe (com o acréscimo de Moncayola poder atuar perfeitamente a 6, em certos jogos).

Com os jogadores certos a encaixar na tática predileta do treinador, os bons resultados surgem naturalmente, sendo o Osasuna apontado a uma das grandes revelações da temporada. Só se adquire um jogador se o mesmo integrar bem as ideias do treinador, poupando-se dinheiro e tempo de adaptação. É essencial algo assim num projeto a longo prazo. Se não existe o elemento x ou y no mercado, deve recorrer-se ao Osasuna B (1ªRFEF) ou ao CD Subiza, que têm elementos promissores nas suas fileiras, dando-se realce neste caso a Christian Mutilva, que poderá terminar a época a fazer sombra a Torró.

A acompanhar todo o caminho desenvolvido pela equipa de Navarra, as infraestruturas são de qualidade. O El Sadar foi alvo de uma reestruturação, sendo elegido pelo Stadium Data Base como o Melhor estádio do Mundo, no ano transato. Já o centro de treinos, o Tajonar, irá receber algumas modificações, devido à compra de mais terrenos por parte do clube, estimando-se a criação de mais dois relvados de erva natural.

Infelizmente para os amantes do futebol, a maioria dos órgãos de comunicação desportiva portugueses, somente dão atenção aos maiores clubes espanhóis quando abordam o país vizinho, além de aos lusos que atuam do outro lado da fronteira, retirando a oportunidade de conhecer bons projetos que até estão na La Liga, pois existem mais nas divisões inferiores (como os rivais Real Oviedo Sporting Gijón). O Osasuna figura como o principal candidato a atingir um patamar que outros clubes já alcançaram, como a Real Sociedad de Fútbol e Real Bétis Balompié, que foram capazes de criar bases suficientes para lutarem pelo acesso às competições europeias. Sem dúvida, uma equipa para acompanhar no resto de 2022/23.

Visão do Leitor: Ricardo Lopes

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