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Um futuro à minha maneira

vsdsdFoi um dos melhores futebolistas da sua geração. Representou o Real Madrid e o Barcelona, mas foi ao serviço do Steaua Bucareste e do Galatasaray que viveu os melhores momentos da sua carreira. Com o clube de Istambul, conquistou 10 troféus, entre os quais, 4 campeonatos e uma Taça UEFA. A nível internacional, liderou a Roménia aos quartos-de-final do Mundial de 1994, a melhor prestação de sempre da equipa tricolor em fases finais. Dono de um pé esquerdo fabuloso, Gheorghe Hagi será para sempre recordado pelas suas assistências e golos de antologia, como o que apontou à Colômbia no certame norte-americano.

Com 125 jogos pela Roménia, Hagi é o segundo jogador mais internacional pelo seu país, e o melhor marcador na história da Tricolorii com 35 golos – cifra que mais tarde Adrian Mutu iria igualar. O seu estilo de jogo valeu-lhe a alcunha de “Maradona dos Cárpatos”. Depois de uma carreira tão ilustre como jogador, Hagi tentou a sua sorte nos bancos. Bursaspor, Galatasaray, Politehnica Timisoara, Steaua Bucareste e a selecção nacional. Todas estas experiências resultaram em fracasso, desfecho para o qual o seu carácter extravagante e algo controverso nunca ajudou. Assim, Hagi decidiu resolver as coisas à sua maneira, como tantas centenas de vezes o fez dentro de campo.

Em 2009, o antigo internacional romeno criou junto da sua terra natal, Ovidiu, em Constanta – nas margens do Mar Negro –, uma academia de futebol com o seu próprio nome, cujo objectivo passava por dar aos jovens locais condições para que estes se pudessem afirmar no futebol profissional e na equipa nacional, que desde o Euro 2000 – curiosamente, o último torneio em que Hagi participou –, só se tinha apurado para o Euro 2008. Para isso, o lendário jogador investiu mais de 10 milhões de euros do seu próprio bolso para construir um complexo com 9 campos de futebol e que acolhe mais de 300 jovens de todas as regiões do país.

Simultaneamente, Hagi fundou o Viitorul Constanta, um clube que serviria como uma plataforma para que estes jogadores pudessem conquistar o seu espaço no futebol de elite. O clube, formado exclusivamente por jogadores romenos, iniciou o seu percurso na 3ª liga, depois de ocupar o lugar do CSO Ovidiu, uma equipa local. Em apenas três anos, e sob a chefia de Catalin Anghel, o clube alcançou duas promoções, atingindo a I divisão no final da temporada 2011/12.

2016/17 é, portanto, a 4ª temporada do Viitorul na Liga I – assim é conhecida a principal divisão da Roménia. Nos primeiros três anos, a equipa terminou sempre na segunda metade da tabela, muito próxima inclusive da zona de despromoção. A 13 de Outubro de 2014, após somar apenas 9 pontos nas primeiras 10 rondas do campeonato, o técnico Bogdan Vintila foi rendido por Hagi, que passou a ser, a partir daquele momento, e até aos dias de hoje, presidente, director e treinador do Viitorul. A equipa reagiu bem à chicotada psicológica, terminando a época na 11º posição, melhorando o 13º e o 12º lugares alcançados, respectivamente, em 2012/13 e 2013/14.

Com o objectivo de poder lutar por metas mais ambiciosas, Hagi estava ciente de que era necessário aumentar a experiência do elenco, cuja média de idades sempre se situou entre os 21 e os 22 anos de idade, até como forma de facilitar a integração dos mais jovens. Assim, foi com toda a naturalidade que o clube viu chegar nas últimas janelas de transferências elementos como Adnan Aganovic (27 anos), Florin Cernat (35), o nosso bem conhecido Peçanha (35) ou Banel Nicolita (30), talvez o mais credenciado de todos eles.

Na última temporada, o conjunto de Hagi manteve-se durante um longo período de tempo na 2ª posição, infligindo por exemplo derrotas fora de casa ao Cluj (2-1) e ao Dínamo Bucareste (5-1). Uma quebra na recta final atirou a equipa para a 4ª posição, mas não a impediu de se qualificar para o grupo de 6 equipas, onde se apurou o campeão. Contra os melhores, o Viitorul somou apenas uma vitória, terminando no 5º lugar. No entanto, o afastamento das competições europeias aplicado ao Dínamo Bucareste, permitiu que o clube se estreasse nas mesmas na presente temporada – apenas sete anos após a sua fundação.

A estreia do Viitorul nas pré-eliminatórias da Liga Europa não correu da melhor forma. O Gent, que acabaria por integrar o grupo do Sporting de Braga, goleou o conjunto romeno por 5-0, transformando a 2ª mão numa mera formalidade. No campeonato, antes da primeira paragem para compromissos internacionais, em Setembro, o Viitorul era apenas 9º. Porém, desde o retomar da prova, e antes de nova pausa, a equipa não mais perdeu, somando quatro vitórias – uma delas, no passado fim-de-semana sobre o campeão em título Astra Giurgiu – e um empate, que a catapultaram para o último lugar do pódio.

Ao longo deste trajecto, o Viitorul tem recorrido maioritariamente a futebolistas oriundos da sua academia. O objectivo passa por vender estes elementos numa fase posterior da sua formação aos maiores clubes europeus, de modo a tornar o projecto sustentável. Este tem se revelado de tal forma bem-sucedido que o Viitorul participou nas duas últimas edições da Youth League e já forneceu mais de 50 jogadores às selecções nacionais da Roménia. Entre eles, está Ianis Hagi, que se transferiu no último verão para a Fiorentina, de Paulo Sousa.

O filho da antiga glória romena nasceu a 22 de Outubro de 1998, em Istambul, vsdsdquando o seu pai ainda representava o Galatasaray, e entrou para a academia logo após a sua criação. Projectado como um dos seus principais valores, Ianis capitaneou todas as selecções jovens da Roménia e estreou-se pela equipa principal do Viitorul a 5 de Dezembro de 2014, com 16 anos recém-cumpridos. Daí até envergar a braçadeira, em Agosto, foi um curto espaço de tempo, fixando um novo recorde de precocidade na I divisão romena.

Cristian Manea (1997), lateral direito que quebrou em 2014 um recorde com mais de 80 anos quando se estreou pela selecção principal da Roménia; Florin Tanase (1994), avançado que se transferiu em Agosto para o Steaua; e Razvan Marin (1996), médio que ainda pertence ao Viitorul, são os outros talentos oriundos da Academia de Futebol Gheorghe Hagi e que prometem formar a espinha dorsal da Tricolorii a médio-prazo.

Gheorghe Hagi participou em 6 fases finais de grandes torneios como jogador, liderando uma magnífica geração de ouro, que incluía elementos como Popescu, Stelea, Munteanu, Dumitrescu, Petrescu, Belodedici, Raducioiu ou Moldovan. Daí para cá, a Roménia só se voltou a apurar para dois Europeus, o de 2008, e o último, em 2016, não registando qualquer vitória em ambos. Nos últimos anos, o futebol romeno atravessou uma profunda crise, a que nem o todo-poderoso Steaua escapou. O aparecimento do Viitorul é um balão de oxigénio e a Roménia parece agora dispor de matéria-prima suficiente, para nos anos vindouros, quem sabe, reeditar os feitos da década de 90. Hagi volta a ser o principal obreiro, mas desta feita, é o seu filho que tem a palavra dentro de campo.

Notas e outras curiosidades: Gheorghe Hagi disputou 787 desafios como profissional, nos quais apontou 318 golos (média = 0,4). Foi um dos melhores marcadores da Liga dos Campeões em 1987/88, ao serviço do Steaua, terminando afastado da prova pelo Benfica, nas meias-finais. Foi o jogador do ano na Roménia em 7 ocasiões (um recorde). Nasceu a 5 de Fevereiro, a mesma data de aniversário de Cristiano Ronaldo, Neymar ou Carlos Tévez. Viitorul significa “futuro” em português. Agora sim, faz sentido.

João Lains

26 Comentários

  • Logen
    Posted Outubro 6, 2016 at 11:40 pm

    Palmas para ti Joao.
    Um olhar sobre o futebol que deveria ser a regra !

  • Marco Rodrigues
    Posted Outubro 6, 2016 at 11:44 pm

    Existe o Visão de Mercado e existe os artigos do João Lains. À sua maneira, transporta isto para outra dimensão. Grandes histórias deste nosso futebol, que dificilmente viriam ao nosso encontro de outra forma. E sem recorrer a grandes malabarismos, a escrita, que pessoalmente aprecio, consegue estar ao nível do conteúdo.

  • NDinis
    Posted Outubro 6, 2016 at 11:52 pm

    Simplesmente fenomenal. Texto escrito por quem sabe e que nos leva a conhecer mais um pouco do que melhor tem este desporto, já por si fantástico. Da minha parte, um grande obrigado João por este relato. Sempre fui um admirador deste grande talento que foi Hagi, porém desconhecia está vertente do mesmo. Impressionante o que está a fazer (mais uma vez) pelo futebol, num país de desde Mutu não tem ninguém nas bocas do mundo.

    • Tiago Silva
      Posted Outubro 7, 2016 at 12:33 am

      O Mutu sempre andou mais no nariz do mundo do que na boca.

      • João Lains
        Posted Outubro 7, 2016 at 10:12 am

        Mutu passou ao lado de uma grande carreira, que ainda assim foi boa. Está no melhor onze de sempre da Fiorentina, onde viveu os seus melhores momentos ao lado de jogadores como Frey ou Gilardino, e do treinador Prandelli, com quem já se havia cruzado – com todos eles – no Parma, onde formou uma dupla temível com o Adriano. Igualou os 35 golos de Hagi pela Roménia, com quase menos 50 internacionalizações. Só isso diz muito da sua valia.

        O Inter de Milão, que o foi buscar em 1999/00 ao Dínamo de Bucareste, com apenas 20 anos, procurou repetir a receita alguns anos mais tarde com um tal de Ianis Zicu (era comparado a Hagi, uma vez que também é natural de Constanta e actuava na mesma posição), e à semelhança de Mutu, também o cedeu ao Parma. Mas este nunca esteve à altura do seu potencial. Os dois cruzaram-se em 2013/14 no Petrolul.

  • Ray
    Posted Outubro 7, 2016 at 12:01 am

    Excelente artigo. Obrigado.

  • Jose Nuno Alves
    Posted Outubro 7, 2016 at 12:24 am

    Lains, és o Maior! Não pares nunca de escrever e de nos contar estas pérolas! Só mesmo tu! Abraço

  • YNWA
    Posted Outubro 7, 2016 at 12:35 am

    Muito bom. Desconhecia este projecto do Hagi

  • JotaPê
    Posted Outubro 7, 2016 at 12:36 am

    Parabens pela informação

  • Luis ES
    Posted Outubro 7, 2016 at 12:44 am

    Grande artigo! É óptimo ter no VM pessoas como o Lains a escrever estes artigos muito interessantes sobre o futebol de outras nações! Como diria o Pedro Sousa da TVI: “Que categoria! Eu tiro o meu chapéu de coco e me curvo” aos artigos que escreves. Simplesmente geniais!

  • João Diogo
    Posted Outubro 7, 2016 at 12:58 am

    Espectacular artigo, obrigado. E que figura este Hamilton, grande personalidade, um dos melhores pés esquerdos que vi (lembro me especialmente dos tempos do Galatasaray) e agora uma grande visão de futuro no futebol romeno.

  • joao
    Posted Outubro 7, 2016 at 1:13 am

    Não há pai para o João lains. O Hagi era um craque absoluto. Dos jogadores que mais prazer me deu ver jogar. E estava muito bem acompanhado na selecçao pelos nomes que referiste. Que saudades tenho desses mundiais!

  • João
    Posted Outubro 7, 2016 at 3:16 am

    Amei! Obrigado

  • PBS TL
    Posted Outubro 7, 2016 at 3:16 am

    Uma ovação de pé para este artigo.
    O Hagi foi só um dos melhores jogadores dos anos 90/00, um 10 fenomenal. Tenho saudades de jogadores como ele.

  • Feirense
    Posted Outubro 7, 2016 at 3:56 am

    Excelente artigo. Conhecia vagamente a história deste clube devido a um desafio no FM, em que o objetivo é levar este clube à vitória na Champions e a Roménia à vitória no Mundial. Aliás, com brincadeiras deste género aprende-se muito sobre clubes de ligas periféricas. Sugiro aos fãs do jogo que experimentem.

  • Dr.evil
    Posted Outubro 7, 2016 at 7:23 am

    E de pensar que o neymar nao sabe quem e o hagi… Enfim, exelente texto joao parabens

  • Tiago
    Posted Outubro 7, 2016 at 8:45 am

    Grande post.

  • Rui Sousa
    Posted Outubro 7, 2016 at 8:57 am

    Mais um grande texto João! Palmas para ti.
    Conteúdo 10/10, Qualidade 10/10, Interesse 10/10!
    Quando uma pessoa acha que sabe muito de futebol, chega sempre à conclusão que ainda há muito para aprender ao ler os teus textos.

    Cumps

  • Kafka
    Posted Outubro 7, 2016 at 9:02 am

    Brutal Lains, parabéns

  • RodolfoTrindade
    Posted Outubro 7, 2016 at 9:34 am

    Excelente post João.

    Obrigado!

  • Kacal
    Posted Outubro 7, 2016 at 12:35 pm

    Sensacional! Parabéns pelo texto, João Lains!

    Não cheguei a ver o Hagi a jogar mas foi realmente um craque pelo que li e vídeos que vi e pelo que falam, um 10 fantástico. Textos como este ajudam-nos a aprender mais e a ter mais interesse ainda por este desporto que é a nossa paixão e saber mais sobre estes campeonatos e clubes preferidos ou lendas que não vimos jogar. Continua a trazer estes textos!

    PS: o Mutu num PES (não me recordo qual) era sempre a massacrar os defesas contrários. Ahah

  • Dragos
    Posted Outubro 7, 2016 at 12:50 pm

    Muito bom o artigo, parabéns

  • SCP 1979
    Posted Outubro 7, 2016 at 12:58 pm

    Bom ler sobre o Hagi desperta-me uma nostalgia, porque na altura do mundial de 94 tinha eu 14 anos e para mim foi o último mundial com grandes números 10, foi o último do Maradona, que terminou como se sabe, isto depois de ter feito um golo à Grécia e ter feito aquela celebração à Maradona junto à camara a jogar de raiva. Depois este Hagi que já tinha estado no mundial de 90, já tinha passado pelo Real Madrid, e estava em 94 na série B italiana a jogar no Brescia treinado por outra lenda que é o Lucescu, vejam o currículo do Lucescu para quem pensa que ele só treinou o Shaktar. Com este a jogar e jogadores como Dumitrescu, Popescu e Raducioiu era provavelmente a seleção que que melhor futebol de contra ataque jogava no torneio, salvo erro deram logo 4-1 à Colômbia que era considerado um dos outsiders depois de ter vencido a Argentina em Buenos Aires por 5-0, treinados pelo Maturana e que jogavam um futebol de toque curto, com jogadores com Valderrama, Rincón, Asprilla, Valência. Nos oitavos de final o Roménia – Argentina foi provavelmente o jogo do torneio em que venceram por 3-2, na Argentina um tal de Fernando Redondo a jogar a 6 ao lado do Simeone, de cabeça levantada como dizia o mítico Gabriel Alves, para depois serem eliminados nos quartos de final por outra seleção espetacular da Suécia com jogadores como Brolin, Dahlin, Kenet Anderson, jogadores que jogaram no SLB como Thern e Schwarz.
    Só para dizer que a Roménia se deu ao luxo de não convocar outro grande nº 10 que jogava no Porto e depois no Boavista, o Timofte. E para falar em números 10 que jogavam em Portugal, ainda esteve lá o Sanchez pela Bolívia, e claro o meu Balakov que junto com o Stoitchkov e Kostadinov do Porto levaram a Bulgária ao quarto lugar, só de pensar que cheguei a ver no velho estádio de Alvalade o Balakov, Figo e Paulo Sousa aos domingos à tarde a espalhar magia no relvado, enfim aquele 6-3 não estava no guião, mas nesse dia o grande artista fez o jogo da vida dele, ou então ver o Balakov e Figo a darem uma surra ao Real Madrid para a taça Uefa, em que coitado do Quique Flores deve ter ficado com problemas de coluna depois de levar com o Figo, mas claro que o Lemajic tinha de dar um frango e mais uma vez o RM sem saber como lá passou a eliminatória. Para finalizar sobre os números 10 neste mundial de 94, só falta falar do mágico e maior deles todos, para mim quando estava sem problemas físicos melhor do que Messi, o grande Baggio, que com problemas no joelho e sem marcar golos na primeira fase, só meteu cinco golos nos três jogos antes da final com o Brasil, o que seria deste jogador se não fossem as lesões, tudo isto para dizer que foi o último mundial dos 10, que são cada vez mais raros, só faltou lá o Rui Costa, depois de mais um falhanço de Portugal, e claro lembrei-me disto tudo por causa do Hagi que mesmo com 35 ou 36 anos no Galatasaray jogava devagar e devagarinho e mesmo assim metia a bola redondinha na cabeça do Jardel sempre com o pé esquerdo mais uma vez treinado pelo Lucescu e no ano anterior em 2000 treinados pelo Terim lá ganharam a taça Uefa ao Arsenal, com jogadores como Taffarel, Popescu e Hakan Sukur.

  • Ze da Bola
    Posted Outubro 7, 2016 at 1:47 pm

    Nao havia uma historia que o Hagi gostava de jogar sem meias para que o pe sentisse melhor a bola? Como era proibido jogar sem meias, dizia-se que ele rasgava a ponta onde assentam os dedos dos pes…. a ser verdade, brilhante

  • J Silver
    Posted Maio 16, 2017 at 10:54 am

    Este projecto do Hagi é uma das coisas mais fascinantes que uma pessoa pode fazer, seja no futebol ou noutro sítio qualquer: criar algo do nada e chegar ao topo. Simplesmente lindo.

  • Jaime
    Posted Maio 16, 2017 at 8:12 pm

    Excelente artigo!

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