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Um português a fazer história num país improvável

Quando pensamos no futebol húngaro, geralmente não temos conhecimento de causa do seu atual momento. A nossa memória remete-nos para a História e para os bons momentos que foram proporcionados. Os magiares foram grandes impulsionadores do desporto rei durante algumas décadas, porém a partir dos anos 80 acabaram por ficar para trás, algo que se agudizou nas últimas décadas. Vive uma situação similar à da maioria dos seus vizinhos, que não conseguem realizar prestações de alto gabarito, seja a nível de clubes, seja a nível de seleção. É de facto uma verdade que a Hungria não tem realizado grandes prestações e apenas marca presença no Campeonato da Europa, porque o número de seleções é elevado, para a quantidade de países que existem (quando eram somente 16 não tinham grandes chances). A nível clubístico, analisamos que a postura das equipas da nação foram enfraquecendo, a acompanhar o final da Taça Mitropa, que terminou em 1992, porém a ultima presença húngara no primeiro lugar do pódio foi em 1983, com o Vasas. Nos anos 50,60 e 70, a frequência de vitórias de equipas magiares era muito maior.

Ao olharmos para os elementos constituintes da OTP Bank Liga, verificamos que existem instituições que nos são familiares, porque integram parte importante do passado futebolístico ou já defrontaram equipas portuguesas. Ferencváros TC, Budapest Honved, MOL Fehervar FC (antigo Videoton), Újpest FC ou MTK são clubes respeitados, e ainda que não sejam os mais temidos da zona geográfica (os checos são mais fortes, por exemplo), podem sempre realizar uma surpresa. Na temporada 2012/2013, o Sporting foi visitar o Videoton e acabou goleado por 3-0 (com Caneira, Filipe Oliveira). O atual campeão em titulo é o Ferencváros TC, que têm o melhor elenco e o treinador mais conhecido a atuar na temporada, Peter Stoger. O austríaco, estreia-se pela equipa de Budapest nesta época após sucessivos trabalhos menos bem conseguidos, no Borussia Dortmund e no Áustria Viena, a sua verdadeira casa. Ao rumar a uma liga com menor expressão, o ex centro campista procura voltar à forma dos tempos áureos de Colónia.

Ainda assim, não é Peter Stoger o líder da tabela (a data da escrita deste artigo). Dizem que existe um português em cada canto do mundo, na Hungria não é diferente. João Janeiro é o treinador do Kisvárda Master Good, que ocupa o primeiro posto do campeonato. Um feito que possivelmente ninguém estava à espera, já que não figura nos candidatos ao título. O ano passado realizaram uma campanha satisfatória, com um quinto lugar, pelas mãos de Attila Supka, atual orientador do Mezokovesdi SE. Era altamente improvável na própria cidade, perto da fronteira com a Ucrânia, sonhasse com esta magnifica prestação.

A instituição nasceu em 1911, apoiado pelas mãos dos comerciantes locais, da então pequena vila. Após problemas financeiros e uma refundação nos anos 70, o Kisvárda chegou ao principal escalão na época 2018/2019, conseguindo um nono lugar na estreia e um oitavo de seguida. Nunca terminaram com o mesmo treinador duas épocas consecutivas na OTP Bank, o que eventualmente pode exibir alguma instabilidade.

Antes de escrevermos sobre o técnico português, passemos uma vista de olhos sobre o plantel. A equipa tem vinte e sete jogadores, com diversas nacionalidades: 10. Ainda que a nacionalidade local seja a que tenha mais representantes (9), a presença ucraniana não fica muito atrás (6). Já a língua portuguesa é representada por Matheus Leoni e Lucas Marcolini, brasileiros. O segundo é já uma figura histórica, estando no clube desde 2014/2015. O valor do plantel é pequeno, somente 7,2 milhões de euros, enquanto que o rival comandado por Stoger é de 40,35 milhões de euros (o dobro do segundo mais valioso, o Fehérvár). João Janeiro não tem nomes como Besic, Marin ou Mak, todos com passagem por palcos bastante mais elevados. O Kisvárda é financeiramente muito mais humilde, ainda que recheada de jovens, que eventualmente podem propulsionar uma venda avultada (para a realidade). O jogador com maior valor é Claudiu Bumba, número 10, tanto na camisola, como na posição que faz. Está avaliado em 600 mil euros, tal como Mesanovic, oriundo do FK Sarajevo, ponta de lança Internacional pela Bósnia e Herzegovina, que leva quatro golos em dez jogos. Tem menos três tentos que Martin Ádám, o artilheiro da temporada até agora.

João Janeiro tem 40 anos e em Portugal, apenas conseguiu atingir o patamar de treinador principal dos juniores do Cova da Piedade, tendo ocupado o posto de treinador adjunto no Loures e 1º de Dezembro. Partiu então em 2018 para os Estados Unidos da América, mais concretamente para o FC Tulsa da USLC. No mesmo ano, a 11 de Novembro assumiu o Szegred-Csanád. Permaneceu no clube fundado em 2011 até 2020/2021, não permanecendo até ao término da época. Assim, em 2021/2022 obteve a oportunidade de dirigir um clube de primeira linha do futebol húngaro, após três anos na Segunda Liga. Aplicando um 4-4-2 losango, tem obtido resultados satisfatórios, com um plantel modesto.

João Janeiro, em entrevista ao Canal 11, referiu que a oportunidade de treinar no Centro-Leste adveio da realização de algumas palestras no país. Na verdade, o lisboeta pode fazer história no país, onde os portugueses não têm grande expressão. Decerto que não imaginara este futuro, quando era analista de Marcelo Bielsa no Athletic Club, há dez anos atrás.

Seria deveras interessante acompanhar a aventura de Janeiro a partir do nosso país, porém a Liga Húngara não está decerto nos planos das nossas operadoras, sendo apenas disponível assistir aos clubes magiares nas competições europeias, maioritariamente nas eliminatórias iniciais, já que a comportamento geralmente é fraco, sem causar impacto ou memória.

O treinador compara o Kisvárda ao Moreirense, com as devidas distâncias, o que é bastante razoável e aceitável. Estão em zonas com poucos habitantes, não são propriamente históricos e os planteis são modestos. Ainda assim, na região húngara é possível assistir a cenas de Hollywood, já em Moreira de Cónegas é improvável.

Um português está a realizar um belo filme num país improvável, no entanto não tem obtido a atenção merecida por parte do nosso público. Como João Janeiro, existem alguns treinadores portugueses “perdidos” pelo mundo fora, em campeonatos menores, que com a oportunidade certeira, podem voltar a ser felizes na sua pátria (ou algo mais).

Visão do Leitor: Ricardo Lopes

VM-Desporto
Author: VM-Desporto

3 Comentários

  • PNBenfica
    Posted Outubro 27, 2021 at 1:31 pm

    Nem eu que vivo na Hungria tinha ouvido falar nele :| mas tambem nao acompanho o futebol nacional.
    Um dia destes vou la a um jogo dele com uma camisola da selecao!

  • Tiago Silva
    Posted Outubro 27, 2021 at 2:18 pm

    Não conhecia esta história, obrigado pela partilha! Muita sorte ao João Janeiro e ao Kisvárda, que continue a crescer como treinador, pode ser que ainda regresse ao nosso país para treinar na Primeira Liga.

  • w0bbly
    Posted Outubro 27, 2021 at 4:11 pm

    Não é o primeiro português a andar pelo Kisvarda. O Hugo Seco, jogador da Académica e ex-Farense e Feirense, também jogou lá, salvo erro em 2018-19. Na altura havia também o Felipe (ex-Braga, o GR), o Sassá que passou pelo Setubal (em termos de contigente que passou pelo nosso pais). Nessa equipa também jogava um craque ucraniano muito conhecido certamente dos jogadores de FM. O Artem Milevskyi. Na altura escaparam por pouco a despromoção folgo em saber que estão bem e comandados por um português! Boa sorte ao mister Janeiro e ao Kisvarda. Quem sabe nao farei um save neste FM com eles!

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