“Um ex-jogador de futebol”; “Para o ano está no Médio Oriente, na China ou na MLS”; “Nem vai calçar”… Quando o Sevilha anunciou a chegada, por empréstimo do Manchester City, de Samir Nasri, estes foram alguns dos comentários mais suaves que foram proferidos pela generalidade dos analistas. E havia razões para tal pessimismo.
Nasri sempre foi um talentoso criativo que se destacou desde cedo no Marselha e nas selecções jovens de França. Aliás, foi campeão da Europa sub-17, numa selecção que contava também com Benzema, Ménez e Ben Arfa, jogadores cuja dose de talento sempre rivalizou com um feitio complicado, polémico e, muitas vezes, pouco dado às exigências da alta competição. Ainda assim, Nasri conseguiu afirmar-se no Marselha, no Arsenal e na selecção principal francesa até rumar, em 2011, ao Manchester City. Nos citizens, o seu rendimento foi caindo a pique, ao ponto de na época passada praticamente não ter sido opção de Pellegrini (apenas por 5 vezes foi titular). Ora, é no meio deste vazio de rendimento que Nasri desembarca na Andaluzia.
Mas o talento é sempre capaz de surpreender, de produzir um último suspiro mesmo quando o julgamos totalmente morto e enterrado. Basta haver vontade do seu portador e um contexto idóneo para o seu surgimento. E, em Sevilha, tudo se está a conjugar a favor de Nasri. O francês encarou a passagem pelo Sanchéz Pijzuán como uma última oportunidade e foi parar às mãos de um treinador amante dos jogadores “diferentes”, “especiais” (no seu Chile vencedor da Copa América contava com Valdívia, a quem “não pedia que corresse mas que jogasse”) que desde o primeiro momento apostou nele, mas não de uma forma vã ou limitando-se a dizer-lhe “vai para dentro e joga”: Sampaoli colocou Nasri no centro do jogo, onde tudo se decide e onde os bons podem ter máxima influência no que sucede em cada desafio, tocando o maior número de bolas possível e melhorando o jogo da equipa a cada intervenção. Assim, a posição mais central de Nasri (no City era muitas vezes colocado sobre uma das alas) está a torná-lo numa espécie de placa giratória em torno da qual se move toda a equipa, e isso gera no próprio jogador a sensação de importância dentro de um colectivo de que ele precisava para voltar à ribalta (é como se o antídoto encontrado pelo treinador argentino para a tendência que o jogador tem em desligar-se da competição fosse fazê-lo alinhar numa zona do terreno em que é obrigado a estar o jogo inteiro “alerta”, sem relaxe). Prova do impacto que Nasri tem neste Sevilha é o facto de no último jogo da Champions League, frente ao Dínamo Zagreb, ter dado 185 toques na bola, sendo que na história da competição só Xavi, mestre absoluto do passe, havia superado a barreira dos 180 toques num só desafio. Este dado mostra bem como Nasri procura sempre ter a bola e como os colegas o procuram sempre a ele, mesmo quando está pressionado ou sob marcação cerrada (prova da confiança que possuem na sua qualidade técnica).
O Sevilha está nos lugares cimeiros da La Liga (a só 1 ponto do líder Real Madrid) e encontra-se à beira de se qualificar para a fase seguinte da Liga dos Campeões, e o actual líder da equipa de Sampaoli é, indiscutivelmente, Samir Nasri, que rodeado de executantes de técnica requintada tem dado verdadeiros recitais, assumindo-se como o grande “comeback” deste início de época. A natureza embrionária do projecto dos andaluzes e o conhecido caracter difícil do francês fazem com que o prolongar no tempo deste momento seja uma incógnita, mas se tal acontecer é certo que no Sul de Espanha poderão continuar a ter nas prestações do “jogador acabado” um regalo para os olhos e, claro, uma potente arma competitiva para sonhar em dar mais êxitos à “década do Sevilha”.
Pedro Barata


18 Comentários
Dragão 86
Nasri e Mudo Vasquez. A dupla mais entusiasmante do futebol atual. Domingo foi mais um passeio de clase contra uma equipa que é a antítese daquilo que caracteriza o futebol do frances e do italo-argentino.
Mário Silva
O Nasri, assim como o Ben Arfa são jogadores que não enganam, são craques da cabeça aos pés. Agora conciliar isso com os outros fatores tão ou mais mportantes no desporto de alta competição é que é mais complicado.
Em condições normais seria uma pedra fundamental no sistema de Guardiola, não esperava de todo que nesta fase estivesse a ser tão importante em Sevilha.
Filipe Gaspar
Muito bom texto, dá sempre gosto de ler estas crônicas.
Já agora, uma sugestão para o VM, colocarem um botão de ‘like’ para os posts, da mesma maneira que têm para os comentários.
Gunnerz
Muito contente pelo nasri. Um dos meus preferidos antes de ir para o City.
Diogo Breda
Um jogador com um talento inquestionável e que estava a passar ao lado de uma grande carreira.
Merito para o treinador que soube puxar pelo melhor que o Nasri tinha para dar.
Numa questão paralela mas que sempre me ocorre qnd falamos do Nasri.
Se olharmos para as carreiras de Nasri e de Nani, qual consideram que “daqui a 20 anos” acharemos que teve a melhor carreira?
Mário Silva
É muito ela por ela, mas o francês ainda assim parece-me ter ligeira vantagem. Grandes épocas em Marselha, grandes épocas em Londres e uns primeiro anos em Manchester também muito bons.
A nível de seleção não teve tanto impacto como o Nani, mas a concorrência também é outra.
Filipe Gaspar
Provavelmente iremos dizer que o Nani teve uma melhor carreira, tendo em conta o que já conquistou ao nível de títulos. Sendo que são dois jogadores com carreiras semelhantes, que têm uma carreira muito inconsistente, passante por altos e baixos muito dispersos.
The Monster
Grande jogada no vídeo, parece fácil!
RodolfoTrindade
Excelente texto.
Grande trabalho de Jaime Pacheco na recuperação do Nasri, está a ter um começo muito prometedor. já com golos e boas exibições.
Espero que a cabeça ajude e consiga manter-se regular durante a época.
Max Alves BR
Tem muito talento desde o tempo de arsenal,mas em manchester nao teve sucesso por N fatores,falta de cabeca,fustigado por lesoes,acima do peso em algumas ocasioes e talento muitos tem mas nao basta,tem que trabalhar duro para se destacar,assim de exemplo temos o cristiano que nao sendo meu jogador preferido tenho imenso respeito porque talento tem (nem que seja pra marcar gols hoje),mas trabalha pra se destacar,e vai ser melhor do mundo porque trabalhou muito pra o ser.
Como previa aconteceu o efeito ben arfa com o nasri,mas nao tao bruscamente,deu um passe para tras na carreira e acordou para a vida,tambem ajuda nao estar lesionando certamente,mas tem jogado e feito seus companheiros jogar,o que realmente sera mais pra frente sera surpresa,mas tenho a sensacao que nao ficara muito tempo no sevilla e seu feitio vai voltar a se mostrar a acabar com seu potencial,porque sinceramente me parece demais sami nasri e ben arfa,mas quem sabe esse passe pra tras tenha sido o click que faltava…
Kacal
Lesões, excesso de peso (especialmente pelas paragens devido a lesão mas não só), falta de “cabeça”, pouca atitude, acho que os problemas do Nasri sempre foram evidentes mas nunca por falta de talento ou qualidade mas não basta ter 10 de talento e nota negativo no resto, é preciso equilíbrio entre todos os aspectos. No Marselha, no Arsenal e no inicio de Man City até aparecerem as lesões e descarrilar, depois entrou numa espiral e foi por ali abaixo. A saída e mudança de ares fez-lhe bem e com um treinador como o Sampaoli não é possível “dormir à sombra da bananeira” e parece estar de volta o verdadeiro Nasri aos poucos e poucos, esperemos que continue assim e na próxima época possa ter uma oportunidade num clube superior mas com melhor sorte e atitude que o Ben Arfa tem tido no PSG. Se bem que ele já estava a dar sinais de querer voltar nos últimos jogos no Man City quando voltou de lesão e agora confirmou, vamos ver.
Tiago Silva
Eu próprio dava-o como acabado, mas está a supreender-me! O Sevilha é o clube ideal para ele exibir as suas qualidades, é um clube que tem jogadores muito diferentes e que contrata com critério. Ao Sevilha faltava alguém que assumi-se o jogo após a saída do Banega e encontrou em Nasri a solução ideal. Espero continuar a vê-lo a jogar desta forma e espero que ele me continue a calar porque um jogador como ele está agora é um regalo de se ver jogar.
Pedro o Polvo
Craque. A jogar assim há poucos médios ofensivos com a sua qualidade, agora é manter e fazer uma época forte.
Dca
Normalmente são os esquerdinos que nascem com o dom para o futebol (parece que neles, aquelas bolas altas ficam no chão só com um domínio, mesmo entre os amigos), mas Nasri, Iniesta e alguns outros são destros que nascem com o pé esquerdo no lado direito tal é a classe, técnica e não só que possuem. Excelente texto.
Masquemta
Desculpa, mas essa dos esquerdinos nao fez sentido nenhum
Jorge Santos
Talentos como ele há sempre a aparecer, agora o factor mental é que determina até onde podem chegar.
Veja-se o exemplo da Holanda sempre carregada de ”prodígios” com 17 ou 18 anos e quando chegam aos 21 já ninguém se lembra deles. A maior parte destes jogadores são descendentes do Magreb, não sei se tem alguma coisa a ver, mas é um dado importante. Não são jogadores que se consigam focar muito tempo numa carreira de alto-rendimento. Facilmente se perdem com os excessos. E em Portugal tivemos alguns exemplos disso, como o Labyad ou o Taarabt.
MikA77MiKe
Ben Arfa tbm é um bom exemplo)
Bruno Sousa
Para efeitos de FM, digam-me mais jogadores que se poderiam tornar num caso parecido