O Sporting, contrariando o que tinham sido as épocas anteriores, apresentou-se em 2020-21 como uma equipa bastante segura do ponto de vista defensivo. Amorim montou um esquema com uma linha de 5 defesas, que permitia à equipa estar relativamente confortável em momentos sem posse, mesmo contra adversários com argumentos técnicos inferiores. Como exemplo máximo, recorde-se o jogo no Algarve frente ao Farense, numa altura crítica do campeonato em que o Sporting venceu por 1-0 (golo de Pedro Gonçalves) mas que sofreu bastante para segurar essa vantagem. Contudo, conseguiu repelir com sucessos todas as investidas dos algarvios (que tinham em Ryan Gauld o seu maestro). O ano terminou com o título, mas se olharmos para a época toda vemos que o jogo com o Farense não foi caso único, houve vários momentos onde a equipa de Alvalade estava confortável em dar a iniciativa ao adversário para depois explorar os espaços nas costas. E para isso Amorim socorreu-se de um meio campo batalhador e dos seus laterais muito projetados. Acontece que em situação defensiva a equipa dava sinais de ser uma defesa muito sólida, de tal maneira que a ideia que passava era de que o adversário podia tentar tudo que o Sporting não desarmava. E para este mecanismo defensivo contribuíram:
– Adan, com a sua qualidade a liderar a linha defensiva, experiência e reflexos incríveis;
– Uma linha de 3 centrais com Coates no meio posição que provavelmente potencia as suas valências e esconde melhor as suas debilidades (algo que nem Peseiro, nem Keizer, nem Silas conseguiram fazer);
– Dois centrais distintos, mas complementares, Inácio à direita e Feddal à esquerda;
– Um médio defensivo que parecia ao mesmo tempo um 4.º central e um 8 tal a maneira como cobria uma quantidade significativa de terreno.
Aliado a isto a presença de elementos como Feddal ou Palhinha permitia à equipa ser praticamente imbatível pelo ar. O jogo aéreo foi simultaneamente uma arma defensiva como ofensiva, tendo a equipa conseguido vários resultados positivos com base nas bolas paradas. O Sporting terminou o campeonato com 20 golos sofridos, uma bela marca que sublinha a coesão defensiva da equipa.
2021/2022 trouxe novos desafios. O abaixamento de forma de Feddal e um ano clínico complicado de Palhinha abriram vagas no 11 a Matheus Reis e Ugarte. Ambos rapidamente conquistaram os adeptos com a sua qualidade com bola no pé. O Sporting parecia à primeira vista até mais forte com estes 2 jogadores. Mas, à medida que o ano avançava, notou-se que o processo defensivo, outrora imagem de marca da equipa, ia sendo comprometido aqui e acolá. A 29 de Dezembro de 2021 o Sporting recebe o Portimonense em Alvalade, num jogo em que os leões tiveram de puxar dos galões para bater uma equipa algarvia muito física. Estavam dados os primeiros sinais para as dificuldades de que a nova linha defensiva sofria. Na jornada seguinte, os leões deixaram fugir 3 pontos nos Açores. E neste jogo muito especificamente ficou na retina a dificuldade da defensiva leonina em lidar com avançados poderosos (no caso, Matheus Reis com o Cryzan). Na verdade Gonçalo Inácio ia também alternando jogos muito positivos com outros mais erráticos o que aliado à sua ainda dificuldade em travar oponentes fisicamente superiores, se tornava um problema grave. O Sporting ia ficando refém da inspiração de Sarabia, dos números de Nuno Santos e dos rasgos de Matheus Nunes, mas não mais pôde alavancar-se na solidez da sua linha defensiva. Apesar de tudo os números vão desmentindo este texto: o Sporting termina o ano com 23 golos sofridos o que não compara muito mal com os 20 do ano anterior. A postura mais ofensiva assumida após a descrença no título terá ajudado a equipa a libertar-se da pressão. De ressalvar que o jogo aéreo ficou também severamente penalizado já que a linha de 3 composta por Palhinha, Coates e Feddal foi desmantelada para passar a incluir Paulinho e Gonçalo Inácio que não têm a mesma qualidade pelo ar.
O novo ano arrancou com um empate muito amargo no estádio do SC Braga. Artur Jorge leu bem aquilo que são as limitações dos visitantes ao colocar Banza lado a lado com Vitinha e os dois deram imenso trabalho à defesa leonina. Matheus Reis praticamente não venceu um duelo frente ao francês e Inácio sentiu imensas dificuldades perante um irrequieto Vitinha, mas nem foi isso que mais assustou. Mesmo na presença de erros (ou incapacidade) individuais, o Sporting de 2020/2021 conseguia equilibrar através do seu processo defensivo como um todo. Ontem (em 2022?), nem Porro nem Coates foram capazes de ajudar Inácio a parar Vitinha. Nuno Santos não tem a leitura tática para ser um complemento a Matheus Reis (como era Nuno Mendes com Feddal). E o Sporting voltou novamente a ser muito permeável pelo ar.
Neste jogo o Sporting sofreu 3 golos e já se atrasou na luta pelos primeiros lugares. Sendo que não é mentira apontar a falta de eficácia como um dos motivos para o desaire, não é menos verdade que a defesa, outrora intransponível, comprometeu de igual modo. Não acredito que o Sporting vá ao mercado novamente, pelo que Amorim tem agora parcos dias para retificar ou para desvendar formas alternativas para que o Sporting recupere aquilo que é a sua essência desde que chegou: uma defesa de betão.
Visão do Leitor: Neville Longbottom


19 Comentários
pdomingues
A malta nao esta a overreacting ao 1o jogo do campeonato?
Vermelhudo
Gostei do post.
É giro ver alguém que me acusava de falar em “características de jogadores” para bajular o antigo treinador do Benfica vir agora dissecar as características dos elementos do Sporting para “justificar” o fracasso da equipa contra um Braga mais fraco.
Tudo bem, as pessoas mudam.
Foi uma análise gira e concordo que o Sporting perdeu força no jogo aéreo e músculo no combate.
Mas há muita galera do Sporting em pânico, sim.
Tens razão, há muito “houver-acting”.
henry14
E a verdade é que aos primeiros maus resultados do benfica o pânico também há-de surgir, há-de vir algum iluminado pôr em causa tudo o que de bom se está a fazer. Vamos supor que por exemplo o Benfica é eliminado com Dinamo Kyev no playoff (estou já a supor que vamos passar amanhã, confesso)… O caos instala-se de imediato. Grimaldo vira Esgaio num ápice, Neres vira Cebolinha e Ramos vira Seferovic.
No entanto, eu consigo compreender os sportinguistas, já passaram por muito. Graças às minhas veias gunners consigo compreender um bocado do que eles passam. Não na totalidade obviamente porque apesar de adorar o Arsenal, sinto com mais força o benfica por ser do meu país. Eu também à mínima má exibição o Arsenal também meto logo muita coisa em causa.
Vermelhudo
Sim, concordo.
Agora vê o lado giro.
Dizem que o sábio não tinha plano coletivo e que o Rogério tem.
Ok. Mas agora leio que se o Neres não estiver disponível então a equipa vai sofrer porque não há jogadores de jeito.
E é irónico porque uma boa ideia coletiva é capaz de suprir as ausências, desde que não sejam muitas. E aqui estamos a falar de um jogador.
Portanto, nem é preciso o Benfica ter maus resultados para muita galera já começar a dar o dito por não dito e ficar com o miolinho em papa.
JM888
Tenho a mesma sensação. É o primeiro jogo do ano, em Braga, numa equipa que se está a habituar a não ter o seu número 1 (claramente Sarabia fará falta ao Sporting, mais que Vitinha e Vieira ao Porto ou Darwin ao Benfica).
Ainda assim algumas ilações podem ser tiradas, não só por este jogo mas pelo final da época passada, esta pré época e este dito jogo:
– O Sporting não têm plano B. Em alguns momentos o jogo pede menos gente lá atrás e mais meio campo. Pede também que o ponta de lança seja ponta de lança e não ande sempre a entrar entre a linha de médio e a de extremos para dar apoios de costas para a baliza (só prejudica a equipa, neutraliza a capacidade de ataque e retira a referência que era o Paulinho em Braga que até tinha capacidade de golo quando jogava na área – e gente como N.Santos, Porro, Nunes, Pote, Edwards podem fazer muitas, mas muitas assistências).
– Falta banco ao Sporting. Não só em quantidade mas também em qualidade. Sim, Rochinha, Edwards e talvez Fatawu agitam o jogo mas não há um Tony Martinez ou um Henrique Araújo ou um Yaremchuk que obriguem a defesa contrária a cuidado redobrados e não lhes permita grandes aventuras (ontem o Sporting nunca conseguiu prender o Braga lá atrás).
– A ideia de um falso 9 é uma tentação mas com preço elevado. Guardiola tê-lo, Xavi, Klopp, Ancelotti e outros também. Mas não temos um Rahez, um Mané, um Ferrán ou um Rodrygo. Há nuances tácticas que só resultam se houver protagonistas com qualidade para isso. E num futebol português que fundamentalmente consiste em contra golpe pouco produzimos se não houver dois “animais” no ataque (ontem vimos Banza e Vitinha, o ano passado Evanilson e Taremi são bom exemplo). Ontem marcamos três porque o Braga avançou, mas contra Arouca, Paços, etc. (sem desprimor por estas equipas) voltaremos a necessitar de “estrelinha” a cada jogo. Gente criativa é um must, mas um par de calmeirões na frente também não é má ideia.
Poucos dias para fechar o mercado. Não diria que não a um lateral esquerdo, a um ponta de lança e a um trinco (tipo Palhinha, Al Musrati…) que permita um trio de meio campo diferente do duplo pivot. A venda de Inácio e/ou Nunes podem desbloquear a época do Sporting. Precisamos profundidade e opções.
Jeco Baleiro
Um pouco sim. E como referi no post do Esgaio acho que se deveu muito às incidências do jogo, o facto de o Sporting ter perdido três vezes a vantagem. Se tivesse ficado 0-0 ou 1-1 não se fazia este alarido (nem se questionava tanto o processo defensivo).
Da minha parte ainda estou bastante tranquilo e sereno, estamos na primeira jornada.
Joao X
Completamente.
Neville Longbottom
Como é visível nos posts que se seguiram ao jogo, a maioria das pessoas descrentes já o eram antes do campeonato começar. Da minha parte, não acredito minimamente no título (penso que o foco que querias com esse comentário era esse), mas acho que o Sporting pode ser competitivo e pode propiciar bons jogos, ou pelo menos, melhores do que o último.
Sobre este post em específico, já o tinha idealizado há algum tempo, a ideia geral não dependeu do jogo, embora eu tenha incluído 2 parágrafos sobre o mesmo porque o jogo foi paradigmático. Apenas isso.
SL
Nome sem Caracteres Ilegais
Concordo que a defesa de betão é o que fez a diferença no Sporting de Amorim. Em Braga não se viu isso, pelo que a perda de pontos é pouco surpreendente. Tenha pena, sobretudo, por Matheus Reis, um jogador do qual eu não esperava muito mas que considero que subiu a pulso e, mesmo com o fantasma do último jogo, é comummente considerado um dos melhores jogadores do Sporting. E bem. Pelo menos por agora.
Mas gostava de saber se o caro Neville Longbottom sempre acha que St. Juste é de rir. Perguntei-lhe no post do XI do Sporting, mas não respondeu. Claro que não é obrigado a responder, mas eu fiquei na dúvida se chegou a ver o que eu escrevi ou não. Seja como for, mantenho a minha opinião: se a defesa do Sporting não funciona como já funcionou, St. Juste pode fazer a diferença. Não é garantido, claro, mas acho que pode.
Estigarribia
Nome Sem Caracteres Ilegais,
Eu sei que o comentário não era para mim, mas não resisti em responder na mesmo ?
Eu gosto muito do St.Juste e tenho a certeza que o holandês vai ser claramente uma mais-valia na defesa do meu clube. St.Juste no lado direito, Seba Coates no centro a coordenar e Gonçalo Inácio no lado esquerdo (já que é canhoto) é um trio que subirá de nível a equipa do Sporting. E com Porro e Matheus Reis nas laterais será muito bom para a realidade do nosso Tugão.
Saudações Leoninas
Neville Longbottom
Viva,
Não reparei, sorry.
Eu até sigo bastante a Bundesliga, mas de facto nunca ouvi falar dele sequer. Se calhar eu achava que seguia a Bundesliga ou então estive muito distraído.
Não conheço o jogador, vi dele apenas os minutos em Braga. Não fiquei extremamente impressionado, cometeu demasiadas faltas (bem sei que há uma certa habituação à nossa arbitragem peculiar) e não transmitiu aquela segurança que eu sentia há 2 anos. Mas foi apenas o primeiro jogo.
Quanto às lesões, ele foi operado 2 vezes aos ombros (penso que um ombro cada), chegou e lesionou-se no tornozelo, estando a pré-época toda a recuperar. Acho que não será ainda a primeira opção.
Não tenho grandes esperanças nele porque já são inúmeros casos no nosso huistorial de jogadores que chegam com a sua áurea e depois não rendem o esperado. Posso estar a ser extremamente injusto e oxalá me cale (não tenho problemas nenhuns com isso, aliás eu já falhei inúmeras previsões inclusive aqui no blog, acho que é o que mais faço).
Em primeiro lugar garantir a sua estabilidade física. Eventualmente para o lugar de Inácio (para proteger o jogador) não sei se não avançava com Neto frente ao Rio Ave e no Dragão. Depois disso (e se por acaso o Sporting consegue sair vivo destes 2 jogos), Inácio recupera o lugar, quem sabe à esquerda (eu que tanto o defendi à direita aqui, olha mais uma coisa em que falhei). Mas lá no fundo creio que Amorim não fará isto.
SL
Nome sem Caracteres Ilegais
Neville
Obrigado por responder, então.
Estou a ver que, a si, St. Juste não lhe transmite a mesma confiança que a mim. Eu também não sou grande referência nisso, pois só vi St. Juste jogar uma vez…na Alemanha, creio eu. Mas na altura deixou-me bem impressionado. Sem parecer um craque, pareceu-me um central seguro e rápido. Enfim, tenho fé no jogador e creio que pode melhorar a defesa do Sporting.
Percebo o que diz de jogadores que aparecem cá cotados e depois desiludem. Já aconteceu, sim. Mas eu desde que tenho acompanhado a afirmação de jogadores como Casillas, Rami, Adán, Sarabia e talvez até David Neres, começo a partir da perspectiva otimista de que os tais jogadores cotados se vão sair bem.
Posso vir a perceber que estava enganado, mas pronto.
De resto, concordo sobretudo quando diz que primeiro é garantir a estabilidade física do neerlandês. Eu tenho ficado muito contente com vários jogadores de grande qualidade que têm passado por Portugal e espero que continuem. Acho que a liga ganha com isso.
Boa noite.
Filipe Ferreira
Bom artigo Neville, tocas num ponto importante.
Hoje Roger Schmidt disse algo muito interessante: “Estou convencido que a melhor defesa é jogar longe da nossa baliza”.
Por um lado creio que terá que passar por aqui o próximo passo do Sporting. Joga-se com uma frente de ataque móvel à procura de espaços entrelinhas e com dois alas ofensivos mas que por vezes parece haver receio em deixá-los subir. Por vezes parece que ficam desaproveitadas as laterais.
Pode ser contrassenso, mas libertar, ainda mais, os alas pode ser a solução. Veja-se o Porto onde os laterais parecem autênticos extremos. Para isso é preciso uma equipa disponível fisicamente, agressiva, sem medo de fazer faltas (que no Sporting parece sempre mais difícil) e organizada.
DICAS
O Sporting não pode ser agressivo como Porto e Benfica porque ao mínimo toquezinho os jogadores do Sporting levam logo a amarelo !
Isso ficou provado com o ano passado quando tínhamos mais do dobro dos cartões quando nem de perto nem de longe somos a equipa mais agressiva dos três grandes.
Filipe Ferreira
Esse é um dos problemas.
Jeco Baleiro
A falta de poder aéreo é por demais evidente, teríamos sofrido o segundo golo com Feddal no lugar de Matheus Reis? Provavelmente não. Coates passa praticamente a ser o único com valências neste aspecto mas não pode ir a todas sozinho.
St Juste, caso não esteja cronicamente lesionado, acabará por entrar no onze e desviara Inácio para o centro esquerda e Matheus Reis para a ala, onde ainda me parece superior (Nuno Santos é importante a atacar mas tem graves lacunas a defender e no passe).
Jeco Baleiro
(continuação)
Um meio campo de maior controlo com bola e menos raio de acção e poder de choque, não me choca (passe o pleonasmo) se isso permitir à equipa jogar mais subida e estar menos exposta à agressividade (também pelo ar) do adversário. Precisamos é de centrais rápidos (como St Juste e Inácio, não tanto Coates mas está mais protegidos) e alas com grande capacidade de dar largura e profundidade mas também de recuperar rapidamente em transição defensiva (Porro e Matheus Reis podem fazer perfeitamente). Assim a melhor linha defensiva seria, na minha opinião St Juste, Coates e Inácio, com Porro e Matheus nas alas.
Não descartaria uma referência na posição #9 pelas razões já aqui explanadas por outros users mas isso parece ser já chover no molhado, o Rúben não quer, não entende assim e vamos à luta desta forma.
Dca
Só um aparte. Em 20-21 Amorim nao se socorreu de um meio campo batalhador, tanto que o 8 era o João Mário.
A elite comenta
IMPORTANTE perceberem isto, porque isto é extremamente positivo.
A defesa do SCP precisa de aperfeiçoamento (alcançável com treino e dedicação) .
Não é necessário contratar, não é preciso uma revolução. É só aperfeiçoar.
As bases estão lá todas (Adán, Coates, Porro e Inácio).
Importante passar esta mensagem de calma aos nossos adeptos.
Agora claro que nem tudo é rosas.
Perdemos muita altura e experiência com saídas de Feddal e Palha.
Palha era fundamental, atuava muita vezes em processo defensivo como o 4 central na defesa das bolas paradas, pela fisicalidade e altura que tem, nem Ugarte nem Morita conseguem resolver esses problemas, não têm essas características.
Perdemos Palha (1.90m) e ganhamos Morita (1.77m)
Perdemos Feddal (1.92m) e ganhamos Matheus Reis (1.84m)
Vamos ser bombardeados com bolas paradas a época toda.