Ocupando uma vasta área do globo terrestre que viu a ascensão e queda de diversas civilizações muitíssimo relevantes para a história da Humanidade, o Irão, habitado por 81 milhões de habitantes, é uma das potências do Médio Oriente. A sua selecção nacional de futebol prepara-se para disputar a quinta fase final de um Mundial na sua história, sendo que nas quatro participações anteriores nunca superou a fase de grupos, tendo vencido apenas uma partida (frente aos EUA, num histórico e simbólico confronto em 1998). O homem que, desde 2011, está no comando técnico dos leões da Pérsia é o português Carlos Queiroz, que realizou a proeza de classificar o Irão para um segundo mundial consecutivo pela primeira vez na história. Ora, nos 7 anos à frente desta equipa a fórmula aplicado pelo antigo selecionador português é clara: prioridade total a uma organização defensiva forte e rigorosa, a qual tem levado a muito poucos golos sofridos. Com efeito, a existência desta “muralha iraniana” é facilmente constatada: no caminho para o Mundial’2014, os homens de Queiroz encaixaram apenas 2 golos em 8 partidas da 3.ª e decisiva ronda de qualificação asiática, ao passo que no certame realizado no Brasil, após um nulo no primeiro jogo contra a Bósnia, só uma genialidade de Messi aos 91 minutos quebrou a resistência defensiva dos persas. Estes registos foram ainda melhorados na fase de apuramento para este Mundial, com apenas 3 golos sofridos em 8 jogos da 2.ª ronda de qualificação e 2 tentos encaixados (ambos na última partida quando o passaporte para a Rússia já estava carimbado) em 10 desafios da 3.ª ronda. Tudo somado, e incluindo também a Taça da Ásia’2015 (na qual o Irão foi eliminado nos quartos-de-final), Queiroz sofreu apenas 22 golos em 47 jogos oficiais no comando do Irão, tendo a baliza ficado inviolada em 18 dos derradeiros 25 compromissos oficiais disputados. Assim, para a Rússia, e tendo em conta a enorme superioridade dos rivais (o Irão está no grupo B juntamente com a candidata Espanha, a campeã da Europa Portugal e uma equipa de Marrocos com muito mais argumentos técnicos e criativos), é de esperar um Irão de tracção atrás, com um bloco baixo e unido, procurando protagonizar verdadeiras proezas de resistência defensiva (à semelhança do que foi feito há 4 anos) que possam acalentar esperanças de sucesso.
Apesar desta força defensiva ser o grande trunfo (e Queiroz repete permanentemente que a estrela do Irão é o seu colectivo), a formação do Médio Oriente chega à Rússia com diversos jogadores de características ofensivas que se evidenciaram nos últimos meses na Europa. Desde logo, Alireza foi o melhor marcador da Eredivisie, marcando 21 golos pelo AZ Alkmaar, mas também Karim Ansarifard (segundo melhor marcador da liga grega com 17 golos no Olympiacos), Saman Ghoddos (22 golos marcados nos últimos 59 jogos que realizou na liga sueca ao serviço do Ostersunds) ou Reza Ghoochannejhad (29 tentos nos derradeiros 70 encontros que fez na Eredivisie pelo Heerenveen, tendo sido o terceiro melhor marcador da prova em 2016-2017) dão razão à ideia que Queiroz tem defendido de que este Irão apresenta um potencial muito maior do que há quatro anos (e o português ainda preteriu Kaveh Rezaei, terceiro melhor marcador da liga belga). Assim, e não ignorando os problemas na preparação que os iranianos enfrentaram (devido ao controverso regime político do país várias selecções, como a Grécia ou o Kosovo, cancelaram os amigáveis marcados para as semanas prévias ao Mundial), é com entusiasmo que os persas encaram a sua presença na Rússia. A tarefa de passar a fase de grupos pela primeira vez afigura-se como praticamente impossível, tal a disparidade de argumentos para os adversários do grupo, mas a solidez defensiva, a competitividade apresentada nos últimos anos e o bom momento de vários dos elementos da frente podem levar a que o Irão seja uma formação mais difícil de superar do que se poderia pensar, sendo que uma participação semelhante à do Brasil’2014 (na qual conseguiu empatar com uma selecção europeia e ficar a minutos de travar uma candidata ao título) já seria bastante satisfatória.
Estrela: Alireza Jahanbakhsh (Extremo, 24 anos, AZ Alkmaar) – Numa selecção sem elementos a jogar em formações de elite, Alireza tem neste Mundial a possibilidade de confirmar a qualidade que tem demonstrado na Eredivisie e convencer clubes de ligas de primeiro plano a apostar nele. Desde 2013 na Holanda, tem feito um percurso regular no país, primeiro no NEC e depois no AZ Alkmaar, onde viveu, em 2017-2018, uma época de consagração, com 22 golos e 14 assistências, conquistando o título de melhor marcador da Eredivisie. Na selecção é há algum tempo peça fundamental (já no Mundial’2014 participou nas 3 partidas) mas ainda não conseguiu transpor a veia goleador do clube para o Irão (somente 4 golos em 37 internacionalizações, sendo apenas 2 tentos em partidas oficiais).
Jogadores em destaque: Alireza Beiranvand (Guarda-redes, 25 anos, Persepolis) – O guardião que defende a “muralha iraniana”. Antes de se tornar profissional, trabalhou numa lavagem de carros e a entregar pizzas, mas hoje é indiscutível para Queiroz. Os seus registos ao serviço do Irão impressionam: em 12 partidas oficiais como guarda-redes da selecção, só sofreu 2 golos e deixou a baliza inviolada em 11 dessas partidas. Já assumiu o desejo de brilhar no Mundial para rumar a Europa, confessando que gostaria de jogar no Liverpool ou no PSG; Masoud Shojaei (Médio, 33 anos, AEK Atenas) – Recentemente consagrado campeão da Grécia ao lado de André Simões e Hélder Lopes, Shojaei é um experiente médio com 74 internacionalizações e que estará no seu terceiro Mundial. Acumulou muita rodagem competitiva em Espanha entre 2008 e 2014, fase em que somou 141 jogos entre Las Palmas e Osasuna. Shojaei foi suspenso para sempre da selecção pelo governo do Irão por ter jogado contra uma equipa de Israel (Maccabi Tel Aviv) quando estava no Panionios, mas esta foi depois anulada.; Sardar Azmoun (Avançado, 23 anos, Rubin Kazan) – Considerado por muitos como o principal talento a surgir no Irão nos últimos anos, Azmoun está na Rússia desde os 17 anos. Foi durante a sua cedência ao Rostov, entre 2015 e 2017, que Azmoun começou a provar a sua qualidade, marcando 25 golos no clube (incluindo um ao Atlético de Madrid e outro ao Bayern, em partidas da Champions League). No seu regresso ao Rubin Kazan não deslumbrou (5 golos e 5 assistências na última época) mas na selecção tem tido um super-rendimento, algo que se atesta facilmente pelos seus 23 golos em 32 internacionalizações, 11 deles na fase de apuramento para este Mundial.
XI Base: Alireza Beiranvand; Ramin Rezaeian, Morteza Poualiganji, Pejman Montazeri, Milad Mohammadi; Saeid Ezatolahi, Ehsan Hajsafi, Masoud Shojaei; Alireza Jahanbakhsh, Medhi Taremi, Sardar Azmoun.
Jovem a seguir: Saeid Ezatolahi (Médio, 21 anos, Amkar) – O “menino bonito” de Queiroz, Ezatolahi foi peça chave durante a qualificação, com 13 partidas realizadas. Cedido pelo Rostov ao Amkar, fez 15 jogos na última edição da liga russa, ele que esteve uma época entre os juniores e a equipa C do Atlético Madrid. Um vermelho no encontro de qualificação frente à Coreia do Sul tirá-lo-á da partida inaugural, numa grande dor de cabeça para Queiroz. Isto num Irão com vários jovens que podem surpreender, já que, para lá dos já citados Ezatolahi e Azmoun, há ainda os interessantes sub-25 Medhi Taremi e Saman Ghoddos.
Principal ausência: Jalal Hosseini (Defesa-central, 36 anos, Persepolis) – Queiroz surpreendeu bastante ao nem incluir o experiente defesa na pré-convocatória. Com 112 partidas pelo Irão (esteve no Brasil’2014), Hosseini foi muito utilizado pelo técnico português ao longo dos últimos anos (fez 11 jogos na fase de qualificação) mas desta feita o central terá de ver as prestações da sua selecção do lado de fora.
Convocatória: Guarda-redes: Alireza Beiranvand (Persepolis), Rashid Mazaheri (Zob Ahan), Amir Abedzadeh (Maritimo); Defesas: Pejman Montazeri (Esteghlal), Seyed Majid Hosseini (Esteghlal), Roozbeh Cheshmi (Esteghlal), Milad Mohammadi (Akhmat Grozny), Mohammad Reza Khanzadeh (Padideh), Morteza Pouraliganji (Alsaad), Ramin Rezaeian (Ostende), Ehsan Hajsafi (Olympiacos); Médios: Saeid Ezatolahi (Amkar Perm), Masoud Shojaei (AEK Athens), Mahdi Torabi (Saipa), Omid Ebrahimi (Esteghlal), Vahid Amiri (Persepolis), Saman Ghoddos (Ostersunds), Ashkan Dejagah (Notthingham Forest);Avançados: Alireza Jahanbakhsh (AZ), Karim Ansarifard (Olympiacos), Mahdi Taremi (Al Gharafa), Sardar Azmoun (Rubin Kazan), Reza Ghoochannejhad.
Selecionador: Carlos Queiroz
Prognóstico VM: Fase de grupos
Pedro Barata
As selecções já abordadas no nosso guia:
Grupo A: Uruguai, Rússia,Egipto e Arábia Saudita
Grupo B: Marrocos, Irão
Grupo C: França, Dinamarca, Austrália
Grupo D: Islândia, Argentina
Grupo E: Costa Rica, Brasil, Sérvia
Grupo F: Suécia, Coreia do Sul, México
Grupo G: Inglaterra, Panamá, Bélgica
Grupo H: Senegal, Japão


16 Comentários
Joao Silvino
Portugal a jogar contra uma equipa que joga “à Portugal” ? :)
Joao D
O mito de que Portugal joga à defesa continua…
vassallo
Nao joga é ao ataque! ahah
Ze Maria
Portugal não joga à defesa nem ao ataque, não joga nada.
touny71
Espero bem que não, mas é uma seleção tem potencial de surpreender tendo em conta a forma como aborda as partidas.
Ainda bem que Portugal tem o último jogo contra eles, o que os obrigará a jogar um pouco mais soltos.
Abilio
Muita atenção a esta selecção, o Azmoun é um craque e não falta quem marque golos.
Pedro Barata
A análise (e a pesquisa) que mais gozo me deu fazer até agora. Para a generalidade da opinião, estamos perante o débil rival de Portugal, uma equipa frágil que será facilmente goleada por portugueses e espanhóis. Bem, claro que é uma selecção longe do potencial competitivo das principais candidatas ao título, mas não esperem facilidades quando jogarem contra o Irão.
Carlos Queiroz, que merece muito mérito por estes anos no Irão (até pelas condicionantes que são colocadas ao seu trabalho, como a dificuldade em arranjar adversários que aceitem jogar amigáveis), construiu um bloco muito sólido e competitivo, que fez do “zero” na sua baliza uma forma de vida. Isso foi bem visível no Mundial’2014, onde, durante 180 minutos, o Irão viu a sua baliza inviolada e, com um pouco de sorte, poderia mesmo ter-se colocado na frente do marcador contra a Argentina.
E ganhou nova expressão nesta caminhada rumo à Rússia, na qual, na 3.ª e decisiva fase de qualificação, só na última partida, com tudo já decidido, é que sofreu golos. Não admira que o guarda-redes Beiranvand tenha a confiança no alto e sonhe com grandes voos europeus. Portanto, não me custa imaginar Portugal, Marrocos ou Espanha a terem muito trabalho para desmontar este bloco defensivo.
E a juntar a isto o Irão ganhou talento. Queiroz vem fazendo este aviso nos últimos meses e a constatação é óbvio. Nos últimos 4 anos, apareceram diversos iranianos interessantes, e agora há diversos sub-25 que podem “dar um salto” se estiverem a bom nível na Rússia. Desde Ezatolahi, o pêndulo da equipa (veremos quem jogará no seu lugar contra Marrocos), até Ghoddos, figura na equipa da moda da Suécia, o Ostersund, passando, claro, por Alireza (constantemente associado a boas equipas) e Azmoun (o “Messi do Irão”, que pela selecção ganha super-poderes e farta-se de marcar golos).
O mais normal seria fazerem 0 pontos, mas acredito que o Irão não me desiluda (e surpreenda muitos) no Mundial.
David
Excelente análise como sempre, acho que este Irão merece muito mais respeito do que aquele que tem tido. Obviamente que Portugal e Espanha têm a responsabilidade de se superiorizar e roubar os 3 pontos, contudo penso que é injusto para com a formação do Irão catalogá-los como uma presa fácil, ainda me lembro do jogão que fizeram contra a Argentina no último mundial e neste vão estar mais fortes. Estou como tu, o normal seria fazerem 0 ou 1 ponto, não ficaria era surpreendido se causassem grandes problemas às 3 seleções e conseguissem bons resultados.
Estigarribia
Esta Seleção do Irão não é assim tão fraca como querem fazer parecer. Nas minhas previsões para o Campeonato do Mundo não a coloquei nos dois primeiros lugares, mas não ficaria admirado se, por acaso, se apurasse para os oitavos-de-final. A Seleção do Irão é aquele tipo de seleção que é um cordeiro vestido com pele de lobo.
Bjouras
Um cordeiro na pele de um lobo ou um lobo na pele de um cordeiro?
Estigarribia
Era segunda opção que eu queria dizer. Obrigado pela correção Bjouras.
Tiago Silva
Vai ser um osso duro de roer. Eles defendem muitíssimo bem e têm Azmoun e Jahanbakhsh na frente que podem decidir jogos. Portugal vai precisar de ter uma dinâmica ofensiva bem afinada para quebrar esta muralha.
Humberto Cruz
Tradução: vem aí um empate a zeros
Ze Maria
Não me admirava nada que o Irão fizesse história e ultrapassasse a fase de grupos neste mundial.
cards
por anor de Deus estamos a falar do Irão a pior equipa do grupo Se temos medo do Irão e Marrocos mais vale não ir ao mundial.
TheGolden
Uma coisa é medo, outra é respeito.