
O mercado espanhol está a tornar-se um dos favoritos dos clubes portugueses. Se anteriormente a América do Sul, nomeadamente Brasil e Argentina, era o local predileto para adquirir atletas, nos últimos anos o panorama mudou. A primeira janela de transferências de 2022/2023 tem sido recheada de reforços oriundos dos nossos vizinhos, mesmo para equipas com menos posses monetárias. Ainda assim, estas chegadas são resultado de um conjunto de boas passagens de espanhóis pelo nosso campeonato, que começaram a surgir com mais assiduidade a partir de 2019/2020. Não era novidade a presença de atletas castelhanos por cá, mas com muito mais incidência pelos “grandes”. Grimaldo já era lateral esquerdo do SL Benfica desde 2015/2016 e Iker Casillas tinha marcado boas temporadas no Dragão. Capel ficou no coração dos sportinguistas, apesar de não ter sido brilhante.
Na época 2019/2020 existiam 11 atletas espanhóis na Liga Portuguesa, o que correspondia a 3,1% dos estrangeiros que atuavam por cá. O número aparenta ser pequeno, mas os nomes fizeram sucesso. CD Tondela (dono da SAD espanhol) e FC Famalicão foram os percursores desta “moda”. Pepelu, Toni Martínez ou Alex Centelles fizeram uma temporada de qualidade, acabando por serem apontados a voos mais altos durante esses meses. Claro que já existia Grimaldo, Marcano ou Bueno, porém não representavam uma novidade para o grande público. Curiosamente os elementos “com nome” que aterraram em Lisboa (Jesé Rodríguez e R.D.T.) ficaram muito aquém do que se augurava (por motivos diferentes). Com o sucesso ocorrido durante esta temporada, a porta ficou escancarada para chegarem mais futebolistas.
2020/2021 ficou marcado pela chegada de Espanha ao segundo lugar do ranking de estrangeiros (em igualdade com a França). Os 14 jogadores representavam 3,9% dos estrangeiros, sendo que alguns se mantiveram por cá, como Pepelu ou Toni Martínez, ainda que em equipas diferentes. Há que destacar Adán e Porro (quarto maior valor de mercado na atualidade da Liga Portuguesa), fundamentais para o título do Sporting CP, mas também as boas épocas de Mário González, Jaume Grau, ou Iván Jaime, além da forte aquisição de Abel Ruiz (terceiro maior valor de mercado do SC Braga, na atualidade), por parte do SC Braga. No fundo, este ano futebolístico representa a abertura de mais equipas ao mercado espanhol, que se apresentou como de baixo risco e que se veio a adensar na época seguinte.
Em 2021/2022 muitos eram os adeptos que pediam que se fossem buscar jogadores do país vizinho. Eram apontados diariamente novos elementos, da La Liga Santander, Liga Smartbank e da recém-criada 1ªRFEF, além de espanhóis que jogavam fora do seu berço. O resultado da política de contratações: 22 atletas de terras de “nuestros hermanos”, que resultou na percentagem de 6,1%. Surgiram novidades que marcaram a época como Fran Navarro (elemento mais valioso do Gil Vicente FC), Pablo Sarabia ou Adrián Marín, além de futebolistas competentes como Manu Hernando e Carles Soria (havia muita expectativa por Jordi Mboula, que foram um pouco defraudadas). Fran Navarro foi um dos grandes marcadores do campeonato (16 golos) e Sarabia apontado como um dos melhores jogadores (21 golos e 8 assistências), embora este não representasse uma novidade como os demais.
2022/2023 apresenta-nos números ainda mais avultados, com 24 espanhóis (7,6% dos estrangeiros), com a apresentação de nomes que não esperaríamos ver no nosso campeonato. Oriol Busquets (elemento com maior valor de mercado do clube). é um reforço de peso para o FC Arouca, assim como Pablo Moreno no Marítimo (somente Trmal e Xadas são mais valiosos). Victor Gómez, Carlos Isaac e Martín Aguirregabiria podem vir a ser dos melhores laterais direitos do campeonato (querem imitar Pedro Porro no seu crescimento), além de Antoñin que terá de “fazer esquecer” os craques que deixaram o Vitória SC.
A presença de castelhanos em 13 equipas da Primeira Liga são a consequência dos bons resultados alcançados anteriormente. Adán e Porro são fundamentais para Rúben Amorim. Toni Martínez um suplente de excelência para o FC Porto. Em Braga, Abel Ruiz poderá ter a sua época de afirmação e Fran Navarro em Barcelos tem tudo para ser o destaque da equipa (facilmente valeria uma bela quantia ao Gil Vicente FC), depois da maravilhosa época de estreia. Na verdade, qualquer um dos elementos de “nuestros hermanos”, pode vir a marcar a temporada, independentemente da equipa que representar, que naturalmente têm objetivos distintos. Há uma alta confiança no mercado “do lado” por parte de todas as equipas, que sentem cada vez mais que não têm que procurar muito longe por reforços de qualidade, permitindo concentrar parte do seu scout numa área mais pequena, o que poupa imenso trabalho. Mesmo na Segunda Liga há expectativas elevadas por Javier Currás, que deixou o Atlético de Madrid B, para assinar pelo Académico de Viseu FC.
Há alguns bons motivos que justificam esta “invasão espanhola”, além dos exemplos do passado. Os jogadores são baratos (ou são adquiridos a “custo zero”), oriundos de clubes de qualidade. Na maioria dos casos, chegam de equipas B, como Fran Navarro ou Mário González, ou seja, estão na estrutura de instituições com infraestruturas de gabarito. Mesmo que “aterrem” somente por empréstimo, a probabilidade de crescerem por aqui é maior do que nas equipas secundárias, além de obterem mais visibilidade. A imprensa portuguesa facilmente destaca estes futebolistas se fizerem algumas exibições com consistência. Os negócios não se tornam complexos, sendo a Primeira Liga uma boa escala antes da entrada na La Liga, como ocorreu no caso de Pepelu e como pode acontecer no futuro com diversos elementos. Uma outra justificação é a questão da língua. É muito mais simples um espanhol habituar-se à língua portuguesa do que um elemento oriundo de fora das línguas latinas. A isto soma-se a fácil habituação ao país, por costumes semelhantes e um estilo de vida parecido.
Do lado dos jogadores, ao verem o crescimento dos seus compatriotas, torna-se apelativo reforçar clubes portugueses. É fácil imaginar ativos como Fran Navarro ou Iván Jaime a progredir na carreira, quer seja dentro de Portugal, como fez Toni Martínez, quer no seu país de origem, onde se podem encaixar com relativa facilidade em equipas com bons projetos. Porro cresceu como atleta em Portugal, outros deram-se ao conhecer ao Mundo do Futebol e ao seu próprio país. Sarabia afirmou-se (e confirmou-se) como titular da seleção a jogar por cá.
Tudo isto nos pode levar-nos a questionar se a Liga Portuguesa é assim tão superior a Liga Smartbank, por exemplo (excetuando os 4/5 primeiros classificados). A maior parte dos reforços adapta-se sem qualquer tipo de dificuldade. Elementos que se destacaram em divisões inferiores não tiveram qualquer tipo de problema em afirmarem-se por cá. Basta ver os números de Mário González ou Fran Navarro por exemplo. Esta temática pode ganhar mais relevo se Villodres, Antoñin ou Quintillá conseguem atingir um bom nível e serem apontados a voos mais altos.
“Seduzir” atletas dos nossos vizinhos não é uma tarefa difícil e este mercado provou-nos isto. Os jogadores têm crescido, assim como os clubes, levando todos a ganhar com esta política. Sem dúvida que esta “invasão” tem sido positiva.
Visão do Leitor: Ricardo Lopes


11 Comentários
Tiago Silva
Muito bom texto, e uma análise muito boa. Era algo que também tenho vindo a reparar, os clubes portugueses olham cada vez mais para o mercado do país vizinho, há muitos jogadores profissionais em Espanha e muitos deles não têm o espaço que deveriam dentro do seu país. Portugal é visto por eles como um excelente patamar para darem o salto e mostrarem-se ao Mundo e aos próprios clubes espanhóis. Os portugueses vêm nos jogadores espanhóis excelentes jogadores em termos técnicos e que encaixam bem no nosso campeonato, para além da questão da mais fácil adaptação estilo de vida do país. Espero que esta aposta continue, acho mesmo que irá continuar a dar frutos.
Ricardo Lopes
Muito obrigado pelos elogios. A tendência é crescer, porque os casos de sucesso têm sido mais que muitos. Mesmo nos 3 Grandes, a La Liga deveria ser vista como uma bela fonte de jogadores (mesmo em equipas de menor escala). O Lainez acredito que seja o caso de sucesso que abra ainda mais a porta para jogadores com outro calibre (o Mathias Olivera era excelente para o SLB, por exemplo, embora não sendo espanhol).
Estigarribia
Bom texto, Ricardo, como tem sido hábito.
O mercado espanhol, à semelhança do que tem acontecido com o mercado japonês, tem sido incrivelmente bem explorado pelos nossos clubes portugueses e é como dizes: com os jogadores que têm vindo a conseguir uma evolução positiva por cá (Pedro Porro, Fran Navarro, Toni Martínez, etc, etc) tem sido muito fácil para os nossos clubes conseguirem atrair jogadores dos nossos vizinhos.
Quanto aos jogadores que por cá andam, gostava que em Janeiro, se for possível, o Sporting apostasse tudo na contratação do Fran Navarro, avançado de quem sou grande admirador desde a época passada. Acho que encaixava como uma luva na ideia de jogo do Rúben.
Saudações Leoninas
Ricardo Lopes
Obrigado pelo elogio. Em relação ao Navarro também é um elemento que aprecio, mas duvido que Amorim queira mais um avançado, mesmo em Janeiro. Curioso para ver a forma do espanhol, rodeado de meia equipa nova (onde até podem haver revelações). Não sei se a produtividade será igual.
Antonio Clismo
Nada contra quando efectivamente trazem qualidade. É até estranho nunca terem aparecido muitos jogadores espanhóis na Liga portuguesa uma vez que estão mesmo aqui ao lado. E vice-versa também não é muito comum jogadores portugueses fazerem o percurso inverso e irem jogar para Espanha, mesmo na Galiza onde as diferenças com Portugal quase não existem e a proximidade é notória.
Há cidades espanholas que ficam praticamente em Portugal como Vigo e a interação entre países é nula. Continua a existir o síndrome de país pequeno – país grande que evita que se façam mais interações seja com jogadores, treinadores e porque não, árbitros e dirigentes. Não sou a favor de uma união ibérica em termos futebolísticos mas todos os países só têm a ganhar se houver intercâmbio de conhecimento e experiências em vez de se fechar a sete chaves.
Mas uma coisa é uma aposta saudável em jogadores espanhóis que trazem qualidade. Outra coisa que não podemos escamotear é a quantidade absurda de estrageiros que competem todos os anos na Primeira Liga portuguesa que aumenta todos os anos.
2 terços dos atletas que competem na Primeira Liga portuguesa são estrangeiros. Não estou apreensivo com os 15 ou 20 espanhóis que por cá jogam, ou com os 10 japoneses que estão cá actualmente (clara aposta no mercado nipónico), ou os 13 franceses ou 7 argentinos.
O problema são os 130 brasileiros. 130!!! Não estou a brincar.
Em termos comparativos as ligas espanholas e francesas mesmo aqui ao lado com muito mais poder económico (mais 2 equipas do que a portuguesa) e com mais qualidade têm apenas, respectivamente 23 e 22 brasileiros a competir.
A liga italiana, também com 20 equipas, tem 25 brasileiros a competir.
Portugal tem 130!!! E na Segunda Liga tem 110 brasileiros em 18 equipas!!
Das duas uma, ou os jogadores portugueses jovens são assim tão fracos para darem pontapés numa bola, ou os clubes falham claramente na formação de jogadores e nem sequer querem saber, ou os brasileiros que vêm trazem uma qualidade inegável que faz com as competições subam de nível vertiginosamente (não); ou os dirigentes apenas olham para o Brasil na altura de compor os plantéis, porque sempre o fizeram há décadas, e porque lhes dá jeito aquelas fériazinhas pagas à família no Rio de Janeiro se jogadores X ou Y ingressarem no seu clube…
Clubes como o Portimonense ou o Arouca, sinceramente nem sei como conseguem manter a licença de competição na Primeira Liga portuguesa. Por mim podiam ir competir para a série D do Brasileirão que é lá onde estavam bem.
Carvaglio92
Nao estar a brincar…
estas a mentir. sao cerca de 90 brasileiros
Em cerca de 450/460 jogadores na 1ª liga, tens cerca de 200 portugueses, + de 40%….
Relativamente À 2ª nao tenho esses dados… mas estes podes anotar
Antonio Clismo
Conta outra vez então
Ricardo Lopes
Eu acho que é normal haver mais brasileiros em Portugal do que nos outros países. A História ensina-nos isso, além da questão linguística. Na minha opinião, o bom jogador pode vir de qualquer lugar, tem é que ser bem identificado. Temos visto alguns casos de sucesso de elementos oriundos de divisões inferiores brasileiras. O problema é quando são os empresários a colocar jogadores de qualidade duvidosa (mas isso nada tem de relação com o país, mas sim de como o jogador joga).
Manel Ferreira
Ricardo, comentário 5 estrelas a um comentador 0 estrelas.
Claro que há 500 razões para o Brasileiro ser a nossa maior importação e as férias devem ser a ultima dessas razoes, senão íamos buscar jogadores era à Republica Dominicana. A principal razão é que o Brasil continua a ser uma fonte quase inesgotável de talento, mesmo nas divisões secundarias.
Eu percebo que o pessoal não gosta de admitir isto porque depois aparecem os Marcios Ricardos a mandar bocas, mas é obvio que o talento brasileiro tem sido importante para o futebol português e diria mesmo que é das principais vantagens que temos em relação aos outros campeonatos de 2o plano (Holanda, Turquia, etc), onde, por razoes óbvias os brasileiros nao se adaptam tão bem.
Agora, claro que também é bom ir explorando outros mercados, mas o que não faltam aí também são flops descomunais. Ainda me lembro quando o Arabidze ia partir tudo e “em 6 meses está no Benfica ou Porto”. Pois, só que não…
Antonio Clismo
A língua não pode ser a única razão para os brasileiros serem tão utilizados na Primeira Liga portuguesa.
Não estou a ver a LaLiga com 200 sul americanos nas suas equipas apenas porque na América Latina se fala espanhol e isso ajuda na adaptação.
Para os espanhóis primeiro aposta-se nos deles e só depois é que vão ao estrangeiro procurar alternativas.
Por isso é que são uma das melhores lugas do Mundo e não são uma “liga abre pernas aos agentes mundiais” como a nossa que mais parece a liga ciperiota ou da moldávia nesse aspecto..
Ricardo Lopes
Concordo a 100%. O mercado brasileiro é altamente importante. Muitos atletas que encheram os cofres de clubes são originários do Brasil.
Falaste do Arabidze e imediatamente me lembrei do Dadashov (embora sejam de países diferentes), de quem nem desgostava, mas foi fraco em todas as passagens.