“Por uma unha negra”, “Morreu na praia”, “Bateu na trave”, são algumas das manchetes dos jornais quando se querem referir a alguém que quase ganhou. Um segundo, um golo, um ponto. Uma distração, uma escorregadela (que o diga Gerrard), uma bola que devia ter sido colocada 1cm ao lado. Tão somente isto, pode separar o 1º do 2º lugar. Sim, existe efetivamente um fosso entre ambos, mas cabe aos amantes de cada desporto não hiperbolizar o mesmo, não promover uma mentalidade em que se entroniza o primeiro e ostraciza o segundo.
Da parte dos desportistas, não poucas vezes esse fosso é mentalmente manipulado. Uns diminuem-no e evocam vitórias morais, outros aumentam-no numa tentativa de se auto-motivar, encarando o 2º lugar como um autêntico fracasso. Um bom exemplo desta última postura é Fernando Alonso. O espanhol em 2015 disse que teve “uma temporada frustrante mas mais frustrante ainda é quando se acaba em 2º ou em 3º lugar no pódio”. Na mesma linha de pensamento, e também dentro do universo automobilístico, Ayrton Senna afirmou que “ser segundo é ser o primeiro dos últimos”. Não obstante esta perspetiva que certamente levou os campeões supracitados a inúmeros sucessos, os que ficam efetivamente no segundo lugar merecem outro tipo de atenção e consideração. Quando ser vice é a exceção, não deixa de ser dececionante, mas “faz parte, há que levantar a cabeça” como tantas vezes ouvimos. E quando ser vice é a regra? Como será ter uma carreira que se destaca pelo fantasma do 2º lugar?
Aproveitando a anterior referência a Senna, depois do seu desaparecimento, o povo brasileiro órfão do mesmo, procurava o seu sucessor a qualquer custo. Esse desejo desmedido encontrou em Rubens Barrichello uma credível hipótese para o satisfazer, contudo o brasileiro nunca foi capaz de sair do “quase”, sendo vice-campeão em 2002 e 2004 (perdeu para o companheiro Schumacher). Curiosamente, em 2002 no GP da Áustria, Barrichello liderava com uma vantagem assinalável mas foi forçado a abdicar da vitória em favor de Schumacher. A sua submissão não agradou ao povo brasileiro, que certamente preferia uma reação “à la Pironi” (GP de San Marino, 1982). Quando já ninguém esperava nada de si, em 2009, o brasileiro foi de quase aposentado, a quase campeão, só que o problema foi mesmo esse, “o quase”. Nesse ano, Rubens disputou o título até à penúltima corrida e voltou a ver-se envolvido numa polémica, desta feita no GP da Catalunha. O brasileiro seguia confortável no 1º lugar, contudo, depois das paragens nas boxes, Button passa de 2º para 1º. A mudança de estratégia de 3 para 2 paragens do seu colega levou Barrichello a ameaçar o abandono da equipa, caso se confirmasse que tinha sido prejudicado pela mesma. Rubens, o mal-amado dos brasileiros, terminaria o seu percurso na F1 em 2011, sem o tão almejado título mundial.
Mas como falar de eternos vices e não falar de Raymond Poulidor seria um ultraje, as próximas linhas pertencem-lhe. O francês é sobejamente conhecido pelas três ocasiões em que ficou em 2º lugar no Tour em 1964, 1965 e 1974 (no total são 8 subidas ao pódio final), além de ter sido 3º classificado por 3 vezes no Mundial e 1 vez vice-campeão mundial (1974). Se algum dia ganhasse um Tour ou um Mundial, continuaria a ser tão conhecido!? A verdade é que ainda hoje, quando alguém apresenta uma “afinidade” fora do comum com o 2º lugar, é-lhe atribuída a “Síndrome Poulidor”.
Mais recentemente, Peter Sagan evidenciou-se por essa mesma afinidade. Sagan é sinónimo de sprint, média montanha, fuga, técnica, descida e… vice! O 5 vezes camisola verde do Tour, em 2014 e 2015, não ganhou qualquer etapa na prova francesa, tendo ficado¬ na segunda posição por 9 vezes, período esse que ficou conhecido como “saga do Sagand”. No total são 7 etapas ganhas e 18 (!!) vezes no 2º lugar, não esquecendo que se ganhasse também nessas 18 ocasiões, já seria o 4º ciclista da história com mais etapas ganhas no Tour, com apenas 26 anos. Todavia, em 2016, o eslovaco parece ter encontrado o antídoto para a síndrome supradita, tendo revalidado o título de campeão mundial e vencido 3 etapas da Grand Boucle.
Também no ciclismo português encontramos nomes que padeceram desta síndrome, uns encontraram a cura, outros nem por isso. Vítor Gamito, um especialista em contra-relógio, foi 2º classificado da Volta a Portugal por quatro vezes (1993, 94, 96 e 99). Ainda assim, continuou a tentar e na viragem do milénio quebrou o enguiço, entrando no lote dos vencedores da Volta a Portugal. Por outro lado, Cândido Barbosa e Rui Sousa notabilizaram-se até uma determinada posição: o 2º lugar. Cândido, o “Foguetão de Rebordosa”, ganhou 25 etapas, conquistou 8 camisolas brancas e vestiu a amarela em 8 anos diferentes, somando 17 dias com a mesma, mas nunca conseguiu alcançar o seu grande objetivo. Em 2005, o sprinter ficou na segunda posição, no ano seguinte fez 3º, enquanto em 2007 só perdeu a amarela no alto da torre e acabou novamente em 2º. Já Rui Sousa, com um perfil completamente diferente (especialista em alta montanha), tem no seu currículo um 2º lugar em 2014, com 38 anos (!!), e ainda 4 entradas no pódio como 3º classificado.
Quem pensar que esta propensão para ficar na sombra dos vencedores não é à prova de água, engana-se desde já. A expressão “morrer na praia” ganha um novo sentido quando nos reportamos ao surf, que o diga o australiano Cheyne Horan! O surfista natural de Sidney nunca ganhou o Circuito Mundial, mas foi por 4 vezes vice-campeão mundial (entre 1979 e 1982), sempre atrás de Mark Richards.
Todos estes percursos levantam algumas questões pertinentes. Uma pessoa que passe no código com 3 respostas erradas será assim tão melhor que aquela que chumba com 4? E se Poulidor em 1964 tivesse gasto menos 56 segundos, ou (à escala nacional) Cândido tivesse menos 35 segundos no seu tempo final na “Grandíssima” de 2005? Esses segundos a menos dar-lhes-iam a vitória, mas fariam deles ciclistas que nunca chegaram a ser? Se porventura Barrichello fizesse mais 19 pontos em 2009, passaria certamente de besta a bestial, mas será justa esta cultura do 8 ou 80 que impera na cultura desportiva contemporânea?
Os “ses” valem o que valem, já dizia Paulo Bento (também ele experiente nesta temática: levou o Sporting a 4 vice campeonatos consecutivos) que “se a minha avó tivesse rodas seria um camião”, ou seja, valem pouco. Porém, é importante sublinhar que não devem ser escassos segundos a rotular um desportista de fracassado. Vítor Gamito não era assim tão mau aquando dos seus vices, nem assim tão bom quanto faziam querer, no momento do término do seu jejum. Nesse sentido, ainda que pareça contranatura (e é), urge valorizar os que morreram na praia, porque lá chegaram, os que bateram na trave, porque estiveram perto! Ainda que não constem nos livros dos grandes galardoados, estarem ou não na memória é uma escolha nossa. Ainda que nunca tenham materializado todo o talento e trabalho com o título mais aspirado, serem ou não uma inspiração é também uma escolha nossa!
Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): João Romero


13 Comentários
VCK4480
Excelente texto! Não esquecer tambem Andy shleck, que a meu ver também se enquadra no que é referido neste texto.
Kafka
Outro foi o Jan Ulrich, em 7 Voltas à França ficou em 2º lugar em 5 delas, tendo vencido apenas 1
VCK4480
Isso não sabia! A rivalidade com Armstrong também ajudou que ambos alcançassem um nível tão elevado. Uma boa ideia para um texto, míticas rivalidades que motivaram desportistas a superarem-se.
JoaoRomero
VCK4480, tema muito interessante! Algumas delas:
Ronaldo-Messi
Federer-Nadal
Borg-McEnroe
Larry Bird-Magic Johnson
Carl Lewis-Ben Johnson
Lamond-Hinault
Muhammad Ali-Joe Frazier
Senna-Prost
Kafka
Já que falam nisso e para quem gosta de Ténis, ontem na Bola TV deu um excelente documentário sobre a rivalidade entre a Chris Evert e a Martina Navratilova, com as 2 a falarem na 1ª pessoa e frente a frente a relembrarem as rivalidades do passado entre as 2
JoaoRomero
Para quem quiser agarrar a ideia, vão aqui mais rivalidades históricas:
Lauda-Hunt (F1)
Peyton Manning Vs Tom Brady (NFL)
Marco Antonio Barrera-Erik Morales (Boxe)
Jack Nicklaus vs Arnold Palmer (Golfe)
No xadrez:
Bobby Fischer-Boris Spassky
Anataoly Karpov-Garry Kasparov
E por fim, Phelps vs Peixe Vela!
Kafka
Excelente texto
Acrescento a essa lista o Jimmy White no Snooker que terminou a carreira sem nenhum Mundial ganho, mas com 6 finais perdidas
JoaoRomero
Obrigado Kafka!
Não conhecia esse nome, mas vem mesmo a propósito com esse registo.
João Lains
Ou Merlene Ottey, uma atleta natural da Jamaica, que se especializou nos 100 e 200 metros. Conquistou 9 medalhas olímpicas, mas nenhuma delas de ouro (3 pratas e 6 bronzes). É a atleta com mais participações em Jogos Olímpicos (7, estreou-se em 1980 com 20 anos, e despediu-se em 2004 com 44) e com mais medalhas em Mundiais (3 ouros, 4 pratas e 7 bronzes, num total de 14). Conquistou a primeira medalha olímpica em Moscovo 1980 (bronze nos 200m) e a última em Sydney 2000 (prata nos 4×100 e bronze nos 100m, com 40 anos de idade). Já depois de abandonar a Jamaica, competiu nos Europeus de 2012 pela Eslovénia com 52 anos de idade. Detém uma série de marcas impressionantes: correu os 100m 67 vezes abaixo dos 11s ou 57 vitórias consecutivas nos 100m. Um fenómeno de longevidade.
JoaoRomero
Desconhecia.
Impressionante sem dúvida, obrigado pela informação pertinente!
Albicastrense
O O’Sullivan este ano também perdeu 3 finais consecutivas! (Pool)
Nuno R
Merlene Ottey nunca conseguiu ouro olímpico, embora tenha participado em sete Jogos. Nove medalhas, três pratas e seis bronzes.
O eterno segundo era Frankie Fredericks, bi-prata em 100 e 200 metros em Barcelona e Atlanta. Em 1996, conseguiu bater os 19.72 de Pietro Mennea, mas havia um senhor chamado Michael Johnson em pista…
Peter Gade
A título de curiosidade e não tanto conhecida, a “rivalidade” Lin Dan e Lee Chong Wei no badminton. Com Wei a não conseguir suplantar o rival nos momentos mais importantes.