Que o futebol é um desporto que move paixões e que é indissociável do apoio fervoroso dos adeptos, da rivalidade entre os principais clubes, da paixão aguerrida dos simpatizantes de cada equipa, é factual. É também um facto, que, como já aqui foi escrito, e bem, o dinheiro não é tudo no futebol. Veja-se os investimentos brutais feitos no Chelsea, apenas com resultados muitos anos depois, e numa Champions sui generis, a incapacidade de afirmação europeia do City ou até do PSG, o descalabro, apenas atenuado pelo efeito Mourinho, que tem sido o Real Madrid.
Um projecto organizado, que envolva as gentes da terra do clube, que desenvolva um projecto de parcerias fortemente alicerçado numa organização sem mácula, mesmo que com pouco dinheiro, pode ser o suficiente para levar uma equipa até à zona de decisão das suas ligas. Veja-se o exemplo do Braga, que cresceu da forma como cresceu, não apenas à custa de um aproveitamento fantástico das oportunidades do mercado, diga-se, de uma excelente visão de mercado, assim como a sucessiva escolha assertiva de treinadores, mas, digo eu, pela vivência e pela cultura futebolística que cresceu na cidade de Braga. O Braga dá à cidade, e a cidade dá ao Braga. Muito antes, de o Braga ascender à sua dimensão nacional e, quem sabe, nestes anos, internacional, foi um clube de cidade e um clube de região, sendo necessário o eclipsar do Vitória Minhoto, para que o Braga ascendesse verdadeiramente.
Será que existe portanto uma correlação entre o futebol enquanto desporto de cidade, ou por outra, se existe uma condição, pelo menos, comparativamente vantajosa em se ser o clube da cidade ou da região?
Vejamos o que se passa nos principais campeonatos do mundo, fazendo-se, uma ressalva, no sentido de que, para este estudo, não se consideram eventos exógenos, ou seja, se um magnata comprar um clube e injectar muito dinheiro nesse emblema, rapidamente o que se irá expor poderá sair enfraquecido, no caso português, se alguém investir 300 milhões de euros no Vitória de Guimarães, provavelmente teríamos esse emblema a lutar por títulos ou pelos lugares cimeiros no contexto nacional e quem sabe internacional, pelo menos no médio prazo.
Assim:
Espanha – Dois grandes clubes, das duas grandes cidades: Madrid e Barcelona. O Atlético, fantástica equipa consegue ganhar alguns títulos, mas nunca colocar em causa esta hegemonia, ganhando um título em 95/96 e nada dos tempos anteriores e posteriores. Mais recentemente, foi o Valência da cidade homónima, e o Deportivo da Corunha a tentarem colocar a supremacia dos gigantes Barcelona e Madrid em causa. Mais atrás, foi o Sociedad e o Atlético Bilbau a ganharem títulos. Nunca outro clube emergiu em Barcelona.
Inglaterra – Antes dos investimentos milionários no Chelsea e no City, essas equipas nunca ganharam. Quem ganhava? O United, de Manchester, o Liverpool da cidade com o mesmo nome, e o Arsenal de Londres. Três cidades, três potências.
Alemanha – Binómio entre duas equipas: Bayern e Borussia. Munique e Dortmund. Aqui e ali, colocado em causa, pela equipa de Estugarda, de Leverkusen, etc.
Holanda – Um país pequeno onde a concentração nas cidades poderia acontecer com maior facilidade. Ainda assim: PSV de Eindoven, Ajax de Amesterdão, Feyernoord de Roterdão, Az de Alkmaar.
França – Bordéus, Marselha, Montpellier, Lyon, Paris…cidades e outros tantos clubes que têm discutido a primazia do futebol gaulês nos últimos tempos.
Enfim, a excepção à regra, chega-nos de Itália, com os dois históricos de Milão e outras duas boas equipas e Roma, a que se junta a Juve de Turim. Mas, se admite a regra, em termos históricos, já não o admitimos em termos de coincidência temporal. A Roma só voltou a emergir, quando a Lázio se eclipsou. Milan e Inter, raramente disputam um campeonato. Vejamos os últimos anos: O Inter foi penta campeão. Em todos esses campeonatos, o Milan não ficou em segundo lugar. A disputa foi essencialmente com a Roma (4) e com a Juventus (1). O Milan apareceu, e conseguiu ganhar o seu campeonato, aí sim, numa disputa com o Inter que…se eclipsou, fixando-se agora em lugares mais ou menos obscuros da tabela classificativa.
Mesmo em alguns campeonatos emergentes, onde era tradicional existirem muitas equipas de qualidade semelhante na mesma cidade, têm-se vindo a perder esse timbre. No caso Russo, a questão é desvirtuada pelas questões do investimento financeiro. Mas Kazan e S. Petersburgo são hoje cidades de futebol, acabando-se com os duelos solitários das equipas de Moscovo (Spartak e CSKA).
Na Roménia, o Cluj, o Otelul e o Unirea colocam em causa o domínio das equipas de Bucareste.
Na Polónia, a dicotomia já existia entre o clube de Cracóvia e o de Varsóvia. Juntaram-se Wroclaw e Poznan como cidades com equipas vencedoras.
A Liga Portuguesa, é também um campeonato emergente. E nessa emergência, consolidaram-se duas equipas em duas cidades. Benfica, em Lisboa, Futebol Clube do Porto, no Porto. Duas equipas que são verdadeiramente de…outro campeonato. Neste tipo de ciclo, que me parece evidente, o Sporting, “naturalmente, perde o gás”, sendo relegado como a segunda equipa de Lisboa (os títulos, ainda que escassos dos verde-e-brancos foram no pior momento da história do Benfica), o projecto Boavista falhou – segunda equipa do Porto – e aparece o Braga na Nova Ordem do Futebol Português, um projecto de cidade. Julgo que isto é também uma das causas para o eclipsar do Sporting Clube de Portugal, por um lado, e uma das razões para que os seus dirigentes projectem tantas vezes as suas “baterias” para o Benfica e não para o Porto, que é, nos últimos 20 anos, a força liderante do nosso campeonato. Sabem, que apenas retirando o Benfica de cena, podem voltar a emergir como uma equipa com hipóteses de ganhar títulos do nosso país. Será tudo mera coincidência e simples curiosidade estatística? Ou terá tudo isto uma razão de ser? Fica a pergunta para os leitores.
Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar no VM aqui!): Tiago Mendonça



43 Comentários
Guilherme Sequeira
Tema interessante! Bem escrito! Parabéns.
Renato Oliveira
Excelente perspectiva!
Dário Rodrigues
Parabéns pelo artigo, muito bom e concordo com a última parte(não sou do sporting nem do benfica), o sporting está muito agarrado à rivalidade com o benfica. Eu vi isso com muitos amigos meus sportinguistas, no tempo do Paulo Bento em que o sporting acabou duas vezes seguidas em segundo lugar mas o nível de satisfação era quase o mesmo como se tivessem sido campeões (tinham sido melhores que o benfica, época ganha). Mas foi sempre de alguma maneira normal, as relações entre clubes rivais são sempre na base do "A minha é maior que a tua!", e vantagem financeira nem sempre é sinal de vitória e o caso mais visível é o de manchester, com o city de um poderio económico brutal comparado com o united mas mesmo assim, o united tem levado a melhor.
Os adeptos querem títulos a cima de tudo, não importa se o clube contrata a estrela A ou B, e quando adeptos de clubes rivais da mesma cidade observam o sucesso do outro é extremamente "humilhante"(é a palavra certa).
Continuem com estes artigos deste género muito bons!
Kaz Patafta
Devo discordar da análise que é feita ao campeonato alemão e que revela uma tremenda falta de cultura em relação a esse campeonato. O Dortmund ganhou 8 títulos de campeão na sua história. O Bayern ganhou 22 e pelo meio ainda há o Nuremberg com 9 e à frente . Parece-me evidente que não existe "Binómio" nenhum. Pelo contrário, existe um tremendo "monómio" dominado pelo Bayern que é aquele clube que de vez em quando não é campeão.
Gostaria de deixar uma nota interessante. Por exemplo no campeonato alemão, italiano e inglês as principais cidades não teem muitos títulos. Exemplo: Roma em Itália tem uma ténue representação no número de títulos totais. Em Berlim, na Alemanha nem se fala e em Inglaterra, Londres e Birmingham, que são as duas maiores cidades, não teem um número de titulos capaz de ombrear com Manchester e Liverpool
Cumprimentos
Tiago Mendonça
Boa perspectiva, quando à questão das cidades (capitais) não terem muitos títulos comparativamente com outras. É assim, em França, Itália, Inglaterra e Alemaanha, e, mais recentemente, em Espanha. Menos na Holanda e em Portugal, mas excelente apontamento.
Quanto ao caso alemão referia-me aos últimos anos, e tive em conta que o Dortmund atingiu também patamares decisivos nas competições europeias. Existe, é verdade, o Nuremberga. Para o objectivo do artigo, reforça a tendência. Outra cidade!
Bruso
Excelente post. Parabéns ao escritor.
Ravinas
Grande artigo.. muito interessante e atual.. o único senão são os investidores externos que desvirtuam o real poder económico das equipas.
Ravinas
Grande artigo.. muito interessante e atual.. o único senão são os investidores externos que desvirtuam o real poder económico das equipas.
Ravinas
Muito interessante o artigo, completamente atual. O único senão do Futebol hoje em dia são os investidores externos que desvirtuam o real poder económico das equipas, e consequentemente o nível de competitividade dos campeonatos.
Emanuel
Não concordo com a comparação do sporting com benfica e porto , o sporting é tão ou mais grande do que benfica e porto , não são por 3/4 épocas más que deixa de estar ao nível dos outros 2 clubes o benfica já passou por isto , o sporting está a passar , e o porto ainda vai a tempo..títulos escassos??? nos últimos 10 anos temos tantos títulos como o benfica e até há alguns anos tinhamos tantos campeonatos quanto o porto para não falar dos outros desportos…e os títulos do sporting foram no pior momento da história do benfica?? então tiveram dezenas de piores momentos no futebol e centenas para não dizer milhares nos outros desportos , visto por esse lado os títulos do benfica foram nos piores momentos da história do sporting..mas de resto foi um bom texto mas nessa parte não concordo.
cumprimentos
Pedro Vieira
Excelente artigo. Em relação ao Sporting (sou sportinguista) concordo consigo caro Emanuel, o Sporting é tao grande quanto os outros dois. No entanto isto só é possivel em poucos campeonatos como o portugues em que as pessoas são todas adeptas de apenas três clubes. Noutro local, um clube eclipsaria outro (na mesma cidade). No entanto, é engraçado que o Sporting apenas teve sucesso(nas ultimas duas decadas), quando Benfica não teve. Sinceramente acho foi coincidencia, mas que é um facto engraçado é. Menos engraçado é que o Benfica tem abafado o Sporting nos ultimos anos.
Em relação aos clubes corresponderem a cidades concordo, excepto na Russia em que claramente Moscovo engloba vários clubes fortes, isto tb porque na Russia a capital simboliza mais para o país do que noutros países a sua capital simboliza. Razões? Tamanho, clima (lembrar que muitas zonas da Russia são quase deserticas) e centralização do poder.
Concluindo, penso que a ideia de apoiar mos a nossa cidade, as nossas raizes e o nosso clube é algo que devia ser cultivado. Mas eu tb me dou já como culpado, visto ser de Aveiro e apoiar Sporting :p
Cumps
Tiago Mendonça
Emanuel,
O Sporting é um clube fantástico, com uma história futebolística e desportiva que fala por si. Durante décadas, dividiu, efectivamente, o predomínio do futebol nacional com o Benfica, muitas das vezes, alcançando inclusivamente alguma hegemonia no plano interno. No entanto, parece-me que com a melhoria significativa do campeonato português, ou por outra, com o engrandecer de duas ou três equipas do futebol português que hoje podem disputar fases finais das competições europeias, o Sporting quedou-se para um plano inferior ao do Benfica. E parece-me, ainda mais, que se terá criado um ciclo vicioso que determinará o afastamento do Sporting em relação aos outros dois grandes.
Pedro Vieira,
Sobre o caso russo é bem verdade o que diz. No entanto, mesmo com essas condicionantes, ainda que ajudadas pelos financiamentos externos, Zenit de São Petersburgo e o Rubin Kazan têm disputado a hegemonia com as equipas moscovitas. Quanto à questão Beira-Mar, Sporting, o apoio que hoje o Braga tem, é muito feito de transferências de pessoas que tinham o Braga como segunda equipa, apoiando Benfica, Porto ou Sporting com mais fervor.
Tiago Mendonça
Emanuel e Pedro,
O Sporting é sem dúvida um fantástico clube. Não só no Futebol, mas em muitas outras modalidades. Durante décadas, lutou ombro-a-ombro com o Benfica, pela hegemonia do futebol nacional, não raras vezes suplantando o rival da Segunda Circular. No entanto, a emergência do campeonato português, hoje tremendamente melhor, em termos qualitativos, não necessariamente competitivos, teve como consequência um Sporting menos forte e mais longe do poderio do Benfica. E acredito que o fosso que se criou será dificilmente recuperável, pese embora acredite que esta época é anormal e que o Sporting poderá, pelo menos, reposicionar-se na luta pelos lugares europeus e, inclusivamente, pelo acesso à Champions. Quanto à questão Beira-Mar/Sporting, é necessário que exista um projecto regional que seja atractivo. Muito do sucesso do Braga, teve na base transferência de simpatizantes que tinham o Braga como segundo clube, torcendo por Benfica, Porto ou Sporting no plano nacional.
Pedro Vieira
Acha que enquanto os adeptos do Braga forem primeiro de um grande e apenas em segundo de Braga (não pagamento de cotas e não ida ao estádio), o Braga conseguira crescer mais? Não a um plano de vencer um campeonato, mas no plano de estar todos os anos taco a taco a competir financeiramente e no campo com Porto e Benfica? Poderá ser o click que falta
Tiago Mendonça
Pedro,
Concordo em absoluto. Creio que esse é o clique que falta ao Braga. No entanto, isso já tem acontecido. Há uns anos era impensável termos a moldura humana que hoje avistamos no Estádio Axa. Mas é preciso concluir esse processo para que o Braga se assuma, verdadeiramente, como um grande do futebol português.
Vadeer
Excelente artigo com uma perspetiva interessante e sobre a qual ainda n me tinha debruçado.
Todas as equipas precisam de uma massa adepta por detras, apenas os novos ricos desvirtuam essa realidade.
Pedro G.
ora finalmente uma visão do leitor com pés e cabeça. gostei quando se fala no braga.
Reparem que para uma cidade com 120.000 habitante (braga mesmo,n o distrito) ter 13.000/14.000 de média anual no estádio é muito bom!
nem porto nem benfica conseguem ter uma assistencia média que ronde os 10% da pop da própria cidade, e estamos a falar de clubes nacionais, que puxam gente para ver o futebol de outras cidades.
JP
A cidade de Braga tem quase 200.000 pessoas, cerca de menos 50.000 do que a cidade do Porto.
Pedro G.
cidade- 120.000
concelho de braga – 190.000
(numeros aproximados)
não é a mesma coisa
Bráulio
É um tema bastante suigeneris pelo que não me atrevo a concordar o discordar com a veracidade do post. É evidente que está bem redigido, que contrasta bem a realidade histórica e que retrata com algum rigor uma realidade pouco conhecida por muitos. No entanto está tendencioso no que concerne ao futebol italiano porque por exemplo em 2010/2011 Inter e Milan disputaram o 1º lugar e Lázio e Roma o 5º.
Se de facto, historicamente havia uma clara tendência para que os clubes com mais adeptos fossem os mais vencedores, devido às receitas geradas por todo o tipo de simpatizantes, seja ao nível de quotas sócios, merchandising, bilhetes de jogo ou mesmo receitas televisivas uma vez que tinham mais visualizações e os jogos tornavam-se obviamente mais caros.
Contudo penso que os recentes acontecimentos têm contribuído e muito para desvirtuar a realidade futebolística tal e qual a conhecemos. Hoje em dia, com os avultados investimentos esta tendência que interligava massa adepta e resultados desportivos tem sido abandonada. Equipas como o PSG, City, Chelsea, entre outros não tinham a tradição de vencer (os franceses são um clube recente e sem campeonatos conquistados nos últimos anos) e com os recentes petro-dólares alcançaram um patamar inimaginável. Se por um lado os vencedores atraem adeptos, é óbvio que com a difusão das novas tecnologias os jogos são transmitidos para todo o mundo porque as pessoas querem ver quem vence e quem tem os melhores jogadores da actualidade, pelo que numa próxima geração estas equipas tenham apoiantes em diversos países.
Da mesma forma vemos alguns dos melhores jogadores a abandonarem os clubes tipicamente ricos da Europa para campeonatos com menor visibilidade. O dinheiro mudou o panorama futebolístico e quiçá, teremos o final da liga dos campeões num período de 15/20 anos em detrimento de uma liga universal englobando as melhores equipas dos campeonatos mais representativos e em clara fase de emergência. China, Brasil, Rússia e até a Índia são os países que estão emergir em termos de poderio económico e está claramente a reflectir-se ao nível do desporto rei. Os árabes também começam a apresentar mais valias monetárias e esperemos que não, mas ligas como a portuguesa e a grega irão dar um passo atrás em virtude da crise financeira.
Bráulio
É também um facto que os clubes precisavam de massa adepta e por isso os clubes que sobreviveram durante o século passado foram os que se localizaram nas zonas mais populosas. Cidades pequenas não têm a capacidade para se concentrarem em 2 ou mais clubes e por isso alguns tendem a perder desportivamente. Mas cidades bastante populosas como Lisboa ou Londres têm gente suficiente para apoiar 2 clubes. Assim penso que o Sporting, apesar de não estar no seu melhor momento, foi durante muitos anos um eterno candidato ao título.
Tiago Mendonça
Sobre a entrada dos petro-dólares, o seu resultado tem sido parco. O Chelsea ganhou muitos anos depois, numa Liga dos Campeões, completamente fora da matriz tradicional, averbando um conjunto de resultados improváveis. O City, ganhou um campeonato, e bem me parece que não o irá reconquistar nos próximos anos, amealhando prestações europeias sofríveis. O PSG, estou para ver o que pode fazer na Champions, mas lembro que nos anos 80/90 o PSG tinha uma equipa razoável, para além de que beneficia de ser a maior equipa da capital francesa. Quanto à ideia da Liga Universal, é uma hipótese. Tinha curiosidade em ver alguns duelos de equipas sul-americanas com europeias. Com uma maior aculturação tática, no Brasil e na Argentina, podemos ter equipas menos vistosas mas mais competitivas. Índia, China e Estados Unidos sou mais reticente. Neste último caso, dinheiro não falta, mas paixão futebolística é quase nula.
António Gomes
O artigo peca no caso português. se formos a ver nos ultimos 15-20 anos o Sporting soma se não mais pelo menos tantos titulos como o benfica.
Tiago Mendonça
A ideia passa mais por não existir confluência das duas equipas no topo, do que por priorizar o Benfica ao Sporting. No entanto, nos últimos 30 anos, o Benfica ganhou 8 campeonatos, o Sporting ganhou 2. Mas o ponto, é que nesses 8 títulos do Benfica, em 7 vezes o segundo lugar foi o Porto, numa foi o Braga. Em 93-94 e 2004-2005, o Sporting teve na luta, mas não conseguiu o segundo lugar, diga-se. Nos dois campeonatos que o Sporting conquistou, o Boavista foi secundado uma vez, o Porto outra. Benfica atrás.
Pedro Vieira
Tiago Mendonça concordo com o que diz. No entanto é estranho não é? Porque é que duas equipas da mesma cidade não conseguem estar taco a taco. Investimentos, adeptos e outras condicionantes são sempre independentes e não relacionados. E geralmente mais ou menos constantes ano após ano. Por isso devia ser mais provável que ambas as equipas lutas pelo topo. E quem diz Portugal, diz Itália. Encontra explicação para tal acontecimento?
Tiago Mendonça
Em Portugal, que é a realidade que conheço melhor, temos o caso paradigmático do Sporting. Nos anos de Paulo Bento, por exemplo, as coisas estavam longe de estar bem para os lados do Sporting. Pouca força no plano europeu (só conseguido, relativamente, com Peseiro) algumas vitórias em Taças e Super Taças, mas exceptuando uma vez, sem capacidade de discutir um título. Simplesmente, precisamente por existir sobreposição ao eterno rival, o clube da mesma cidade, existia uma aparência de que as coisas estavam bem. Creio que essa foi a primeira causa para o desastre actual. Depois, talvez excepto as grandes capitais, porque é impossível uma cidade ser atractiva para duas grandes equipas ao mesmo tempo. No entanto, clarificando, acho que o eclipsar do Sporting, em particular, se deve igualmente a outros factores, não sendo provavelmente este o mais importante.
David X
Um artigo muito interessante. Podia ser um bom tema para explorar mais aprofundadamente. Existem situações muito interessantes em Inglaterra, Londres apresenta pelo menos 3 grandes equipas, Chealsea, Totenham e Arsenal, Liverpool faz-se representar pela equipa do mesmo nome e Everton e Manchester Utd como representante. O City até há bem pouco tempo passeava por divisões inferiores. Ainda o Leeds, O Blackburn ou o Nottingham foram equipas muito interessantes até ao aparecimento dos novos ricos. Em Portugal o Sporting sempre teve muito peso, tendo feito um trabalho muito interessante até J. Jesus ter aparecido no Benfica. Depois ainda se podia ter analisado as equipas gregas, Olympiacos, Pananthinaicos entre outras ou as escocesas (estas como exemplos de exceção à regra).
Tiago Mendonça
Creio que, no caso inglês, Everton e Tottenham não conseguiram chegar, pelo menos numa base estável, aos patamares de Liverpool e Arsenal. Embora no caso londrino, isso seja menos evidente. Quanto ao caso grego, o que diz é bem verdade: Olympiakos, Pana e AEK Athenas, muito por via das condicionantes geográficas da República Helénica. No entanto essa tendência também está a cair em desuso: observa a classificação do campeonato grego: Olympiakos (Atenas), 2º Asteras (Tripolis), 3º Paok (Salónica). Em 4º, 5 e 6º aparecem ainda eequipas de outras cidades (Atromitos, Levadiakos e Giannina).
Tiago Mendonça
Quanto ao caso escocês, grande rivalidade de Rangers e Celtic. Mas repare, que a aceleração do Celtic, fez com que o Rangers caísse muito…acabando por falir. A grande excepção que vai sendo apontada, é o que acontece no campeonato argentino com uma extraordinária rivalidade e rotação entre Boca e River, embora nos últimos anos o River não tenha estado tão bem. Ainda assim, outras equipas têm aparecido, intrometendo-se na luta. E momentos muito bons de uma equipa, têm também tido momentos de grande quebra por parte da outra.
David X
A Argentina, assim como o Brasil, pelo tipo de campeonatos que praticam, apresentam caracteristicas bastante distintas, em termos de dominio de campeonato, o brasileirão e os torneios de Apertura e Clausura são casos diferentes. Na escocia também temos os dois clubes com carateristicas muito especiais, já que os adeptos se dividem essencialmente por motivos religiosos. O meu objetivo era acrescentar mais dados e desenvolver este tema interessante.
Pedro Vieira
Visão de Mercado, e que tal a ideia de por uma opção em que éramos avisados quando respondessem a um comentário nosso? Não sei se isso é possível, mas as vezes é complicado no meio de tantos comentários ver resposta ao nosso. Mesmo posts antigos, em que pessoas respondem e não nos apercebemos (por serem posts mais antigos). Isto podia alimentar a troca de ideias.
Pensem nisso.
Obrigado, Pedro
Zeca Galhão
Muito bom o post! Gostei bastante! Interessante e bem pensado!
Às vezes denotando uma outra falha,mas com muitos dados interessantes e uma análise ainda mais interessante…
Por exemplo o clube com mais títulos em França até é o Saint Etienne!
Mas no fundo, não me parece que seja coincidência…parece existir aqui muita razão! Igualmente interessante é alguma das grandes cidades europeias nao terem grandes clubes o que dá que pensar…
Mais tarde farei um comentário melhor sobre o assunto….
Nuno
Na Alemanha falta mencionar o Hamburgo, ou o nuremberga. Aliás, tirando o bayern, há muito equilíbrio em termos de títulos.
O investimento financeiro é essencial, mas de pouco serve sem uma base de sustentação popular. Um bom exemplo é o Mónaco, que chegou a estar na alta-roda, mas cujo reduzido apoio de adeptos nunca permitiu a sustentabilidade no topo.
A Espanha é incomparável devido ao carácter autonomista do país. Nunca um catalão apoiaria o Real, ou um basco deixará de puxar pelo Bilbau ou Sociedad, mesmo que desçam…
Há um ponto que gostaria de referir, e que foi ignorado. O apoio da cidade ao clube, através do seu poder económico. Ou seja, das empresas emblemas de uma cidade/região, que se colocam atrás do clube da "terra". A Phillips do PSV; a Bayer pelo Leverkusen, a Fiat pela Juventus. Ajuda muito ter umas empresas com dinheiro, pois não só investem via patrocínio, mas também são uma fonte de emprego, "fornecendo" uma classe de adeptos com poder de compra.
Tiago Mendonça
Nuno, totalmente de acordo. Marcas, empresas, todo um verdadeiro projecto de cidade são muito importantes. Mais, na minha perspectiva, do que o investimento descontextualizado de dinheiro.
R. Graça
Quanto mais pobre é um país e mais centralizado está mais equipas da mesma cidade dominam os campeonatos. Por exemplo Portugal há uns anos atrás era Lisboa e o resto era paisagem. As coisas têm alterado nos últimos anos, com a riqueza a espalhar-se por outras cidades mas Lisboa continua a ser de longe a maior cidade do país. Voltando uns anos atrás, quando Portugal era Lisboa, nessa cidade estava concentrada grande parte da riqueza do país, aí emergiam as duas grandes equipas, Benfica e Sporting, havendo ainda uma terceira, o Belenenses. A primeira liga tinha uma maioria de equipas de lisboa ou arredores. Porquê? Era onde estava o dinheiro, nas outras cidades não havia dinheiro não havia vícios. Apesar de o FC Porto sempre ter sido uma potência e uma excessão à regra, mas com periodos mais complicados e sem espaço para brilhar um Boavista ou um Salgueiros.
Outro exemplo mais atual é a Turquia, um país que é praticamente a sua capital, Instambul. Nela se concentram os 3 grandes clubes da Turquia e muitos outros, quase toda a primeira liga. O resto do país tem muito poucas condições para competir com os principais emblemas. Não há gente, não há dinheiro. Não há interesse, há coisas bem mais importantes que têm prioridade.
Tudo isto para dizer que é natural que as maiores cidades tenham as melhores equipas. Quanto menos evoluído está um país, mais centralizado está e mais se verifica este fenómeno.
Contudo não acho que se possa dizer que existe "um desporto da cidade". Existe um deporto mais popular no país, que se reflecte nas grandes equipas das cidades. Mas nas cidades ricas há espaço para todos os desportos, nas mais pobres é que só há espaço para um ou outro.
Tiago Mendonça
Certo. Quanto à evolução histórica, de facto foi assim. No passado, muito mais clubes a sul, hoje muitos mais a norte.
Fredgbm
Só uma correcção, a capital da Turquia é Ankara, apesar de Istambul ser a maior e mais populosa cidade!
irredutível marítimo
Excelente artigo e é por isso que se tivéssemos uma verdadeira cultura desportiva, se a maioria apoiasse os clubes que lhes são mais próximos e não apenas os clubes que lhes são impostos como escolhas nacionais e obrigatórias, teríamos uma Liga muito mais forte e competitiva.
O que aconteceu em Braga poderia repetir-se noutros pontos do país (A.A.C., C. S. Marítimo, Santa Clara, etc.) e com isso ficava a ganhar a Liga e o futebol como indústria geradora de empregos e riqueza para o país.
Tiago Mendonça
No caso concreto do Marítimo, porque me parece ter uma sustentabilidade superior ao próprio Nacional, julgo que facilmente poderia ser um clube com capacidade para disputar os três primeiros lugares da prova, senão sempre, muitas vezes. Um verdadeiro clube regional. No caso da Académica, é incompreensível. Cidade fantástica, muito jovem, este ano com competições europeias, logo depois da épica conquista da segunda prova desportiva mais importante do nosso calendário, e assistências sempre ténues.
Tiago Mendonça
Agradeço todos os comentários muito simpáticos. São bastante motivadores. Não faço agradecimento individual para não aumentar o número de comentários em demasia, apenas com agradecimentos. Mas reitero o agradecimento.
Sérgio_alj
Ja agora, adicionar um comentário ao caso francês.
St-Etienne e O. Marselha são as equipas com mais campeonatos, no entanto, têm apenas 10. Grande equilíbrio e sem um tubarão histórico. Houve várias eras, com o domínio do Stade Reims, "verdes", do Bordéus, do O. Marselha e do Ol. Lyon.
Outro facto curioso é das 40 equipas que compõem a Ligue 1 e Ligue 2, apenas 2 (!) são da mesma cidade! Qual é? A "pequena" Ajaccio, na Córsega (65 mil habitantes)!
João Clemente
Tenho muita pena realmente não termos mais "bragas" pelo país. Mas penso que em alguns clubes a contrução d novos estadios absurdos (e deslocados) para a dimensão dos mesmostiraram a pouca mistica e chama q ligava os clubes às cidades. VEjamos casos como o Beira-mar ou o Leiria.
É este capitalismo desmesurado no futebol, já não interessam (na maioria dos casos) a massa associativa em si e a comunidade onde o clube nasce, mas o lucro e as transmissoes televisivas. Como Benfiquista, penso que o que salvou o clube dos anos negros foi o investimento por parte da direcção (vilarinho e dps Vieira) em puxar pela massa associativa e pela comunidade (e os investimentores claro). Não estou com isto a dizer que é um exemplo a seguir até porque cada clube tem as suas caracteristicas, bem como a comunidade onde se insere, nem estou a defender que as sucessivas medidas foram as melhores. Mas sinto vontade de ir ao estadio e penso que é isso o que mais importa e que falta na grande maioria dos estadios portugueses, a menos que va la o benfica jogar.
Chico Lopes
A base do chamado Projecto Roquete foi a hipótese de que em Lisboa apenas haveria lugar para um grande e que o outro iria fatalmente "perder gás".
A aproximação ao FC Porto por parte das sucessivas direcções do Sporting, está inserida na estratégia de causar todas as dificuldades possíveis ao Benfica, desde o campo desportivo ao institucional, na esperança de que o Benfica acabasse por baquear.
Com a presença de 2 clubes portugueses na Champions, o segundo lugar era bom numa primeira fase, desde que o Benfica ficasse em 3º lugar ou abaixo disso. Numa segunda fase, e com o Benfica já fora do caminho, o Sporting colocar-se-ìa em posição para disputar a hegemonia com o FCP.
O problema foi que o Benfica não concordou com esta estratégia de subalternização, e o Sporting através de sucessivas gestões desastrosas acabou por ser o clube a ficar fora do caminho, o que já era visível há 3 ou 4 anos.
O Sporting tem vários problemas, um dos quais é uma megalomania dos seus adeptos que está bem expressa acima, no leitor que diz que "o SCP é maior do que o SLB e o FCP juntos". Os benfiquistas fizeram um ajuste à realidade há uns anos atrás. Enquanto os sportinguistas continuarem a pensar desta forma, o caminho será cada vez mais para baixo. Como se diz em psicologia, "os complexos de superioridade servem geralmente para disfarçar os complexos de inferioridade"