É já sexta-feira, 6 de maio que arranca de Budapeste a 105ª edição da Volta a Itália, edição aguardada de uma forma muito especial pelos fãs portugueses pelo facto de, pela primeira vez em algumas décadas, um atleta do nosso país ser considerado unanimemente como um dos principais favoritos à vitória – João Almeida.
O caldense, que aponta como objetivo o pódio na corrida italiana, será mesmo o primeiro ciclista nacional a ver-se na situação de líder absoluto de uma das mais fortes equipas que alinham à partida de um Grand Tour, um privilégio de que nem mesmo Agostinho pôde gozar. A justificação é simples: o brutal talento e profissionalismo do jovem de apenas 24 anos permitiu-lhe negociar uma posição de liderança numa das equipas “globais” do ciclismo – a UAE Team Emirates, onde milita com Rui Costa e os gémeos Ivo e Rui Oliveira, sendo que ambos os Rui o acompanharão no Giro, tal como Formolo, Ulissi, Covi, Gaviria e Richeze.
Vindo de um 4º e de um 6º lugares nas últimas duas edições da corrida italiana, representando a estrutura da Quickstep, o estatuto de favorito que é atribuído ao dorsal 211 neste Giro de 2022, advém não apenas destas prestações, mas muito particularmente da forma que Almeida exibiu no último terço da temporada de 2021, em que deu o salto do perfil consistentemente competitivo que exibiu desde a passagem a Elite, para um perfil ganhador, tendo alcançado a vitória à geral das Voltas à Polónia e ao Luxemburgo, com 3 etapas pelo caminho entre as duas corridas.
Em 2022 não seria espectável de João Almeida um nível muito exuberante no primeiro terço da época – os ciclistas que apontam ao Giro têm de construir consistentemente o pico de forma para maio, quando os rivais que apontam ao Tour podem construir um pico de forma entre março e abril sem colocar em causa o objetivo de julho -, mas o português apresentou um nível já muito competitivo de forma consistente, percebendo-se o desejável crescendo, entre o 5º lugar à geral no UAE Tour, o 8º lugar no mais competitivo Paris – Nice, e o 3º na Volta a Catalunha, onde venceu a etapa rainha.
Contra os atributos do português, joga a excessivamente curta distância de contrarrelógio da prova, com apenas 26 km divididos entre o CR de Budapeste à 2ª etapa, de 9.2km, e os 17km no CR de Verona na etapa final. No entanto, a capacidade de gerir ritmo e esforço que constitui um dos pontos fortes Almeida vai ser essencial para ultrapassar a absurda quantidade de desnível vertical positivo neste Giro, 54730 metros, o 2º maior neste século segundo uma avaliação do site ProCyclingStats. De facto, existem neste Giro pelo menos 3 etapas de alta montanha com potencial para fazer diferenças de minutos entre os favoritos, onde a gestão do esforço individual será essencial pela dureza das subidas: referimo-nos à 9ª Etapa com chegada ao Blockhaus (13,6km @ 8,4%), à 16ª Etapa em que a chegada a Aprica é precedida pela subida, pela 1ª vez na história do Giro, da vertente mais dura do Valico di Santa Cristina (13,5 km @ 8%), e à Etapa 20 com chegada ao belíssimo Passo Fedaia, precedido pelo Cima Coppi – a passagem a maior altitude do Giro, no Passo Pordoi, a 2239m.
Dado o perfil das primeiras etapas, existe uma boa possibilidade de João Almeida assumir a liderança da prova no Etna. No entanto, com a quantidade de desnível positivo deste Giro, não é espectável que qualquer favorito queira agarrar a camisola rosa logo na primeira semana.
Quanto aos rivais, o favoritismo maior é justamente atribuído ao vencedor da edição de 2019 e campeão olímpico Richard Carapaz, que lidera a INEOS Grenadiers.
Num 2º patamar de favoritismo, de que também fará parte, destacadamente, João Almeida, encontramos S. Yates (BikeExchange – Jayco), M.A. López (Astana Qazaqstan), os bascos da Bahrain – Victorious P. Bilbao e M. Landa, R. Bardet (DSM), J. Hindley (BORA – hansgrohe), G. Martin (Cofidis) e H. Carthy (EF Education-EasyPost).
V.Nibali (Astana Qazaqstan), T. Dumoulin (Jumbo – Visma), W. Kelderman e E. Buchmann (BORA – hansgrohe) ou I. Sosa (Movistar) são incógnitas devido à falta de resultados recentes ou à falta de resultados em 3 semanas (Sosa), enquanto nos jovens capazes de “explodir” numa prova de 3 semanas podemos nomear T. Arensman (DSM), T. Foss (Jumbo – Visma), A. Valter (Groupama – FDJ), L. Fortunato (EOLO-Kometa), e o ainda promissor P. Sivakov (INEOS Grenadiers).
Curioso é que o maior nome de cartaz nesta edição da corrida italiana não seja propriamente um candidato à geral (não obstante Contador o ter apontado à disputa pelo pódio). Falamos, claro, de Mathieu van der Poel (Alpecin – Fénix). Mesmo que não dispute a geral, o neerlandês, pela forma como corre agressivamente e por instinto, pode ter um grande impacto na corrida, pelo que os favoritos deverão estar atentos e procurar a sua companhia principalmente nas etapas de média montanha. Van der Poel é um candidato à camisola ciclamino, da classificação dos pontos, que disputará com C. Ewan, M. Cavendish, A. Démare, B. Girmay, G. Nizzolo e F. Gaviria.
Em suma, serão 3 semanas certamente entusiasmantes, permitam os deuses do ciclismo que os 3 portugueses presentes desfrutem plenamente do seu talento e do seu trabalho de preparação. Vai João!
Luís Oliveira


14 Comentários
Ibagaza
Ganhar a Geral parece-me muito difícil, mas no ciclismo dá para ser bem sucedido de muitas maneiras. Acho que top-3 ou top-5+vitória de etapa seria muito bom. Com o contra-relógio na primeira semana também há boas hipóteses de vestir a rosa. as expectativas são altas.
João Ribeiro
Acredito que o João consiga um lugar no pódio, mas não me acredito na vitória. O bloco da Emirates deixa algo a desejar para a grande montanha, dando a ideia que não levam como objetivo claro a vitória na geral do Giro (nem o João fala nisso). Acho completamente natural, o João Almeida ainda precisa de se estabelecer dentro da própria Emirates até poder usufruir de um estatuto de líder incontestável (Pogacar também teve de fazer este caminho). Por isso, acredito que Rui Costa e Rui Oliveira sejam os principais gregários, sendo que Richeze e Gaviria são um mini-bloco à parte dentro da Emirates, e que Formolo, Covi e Ulissi serão os caçadores de etapas, trabalhando apenas em determinados momentos. Prevê-se um mês duro nas redes sociais da Emirates com os previsíveis ataques da Jihad Tuga.
Será, por isso, extremamente duro para o João lutar contra blocos fortíssimos como o da INEOS ou o da Bahrain, mas ele tem capacidade de sofrimento e já demonstrou que consegue obter grandes resultados com poucos gregários ao seu lado, por isso acredito num pódio com uma vitória em etapa.
Para a geral, acho que Carapaz é favorito com algum distanciamento, sendo que na Bahrain tenho dúvidas quem será o principal líder, se Landa ou Pello Bilbao. Simon Yates também terá na luta pela Rosa, tal como, esperemos, o João Almeida e atenção ao Tobias Foss, acredito que terá no Giro a sua grande afirmação.
Olheiro da 2ª
Desde a sua asecenção na DQS que acompanho o percurso do João e considermo-me um fã ( o ano passado, fiz o esforço para ir apoiá-lo ao Zoncolan).
Se o ano passado, com partilha da liderança de equipa ficou em 6º, este ano com a equipa totalmente focada nele e com escudeiros CAPAZES de rebocá-lo para as grandes decisões, “exijo-lhe” no mínimo a subida ao pódio.
O João, para mim, mais que a questão física tem uma mentalidade (ainda demais) diferenciadora dos outros ciclistas. Quando todos pensam que vai ficar para trás, lá vai ele novamente para o topo.
Infelizmente, este ano, não conseguirei dar-lhe apoio presencial, mas estarei a torcer por ele.
Por fim, é uma vergonha apenas um acumulado de 26,2km de CR numa prova de 3 semanas (devia haver regulação para um minimo de 50km em provas de 3 semanas).
João… BOTA LUME!!!
porra33
Excelente análise, parabéns Luís!
De facto o João parte na linha da frente mas o percurso poderia ser mais favorável mesmo para o pódio. Só 26 km de contrarrelógio favorecem os seus rivais trepadores aos quais ele poderia ganhar muito tempo nesta vertente.
O João em alta montanha tem tendência a defender-se e a ir no seu ritmo, o que pode pesar contra ciclistas com mais valências nestas etapas que ainda vão ser algumas como Yates, Carapaz ou mesmo Lopez (embora este seja menos consistente e perca tempo significativo no contrarrelógio). O João consegue ser ofensivo e ter a possibilidade de ganhar tempo em, digamos, 60 ou 70% dessas etapas, tendo um dia mau numa delas é possível que perca 2 minutos por exemplo e isso pode ser fatal na luta pela rosa.
Terá que aproveitar as outras etapas mais favoráveis e terá que ter uma postura ofensiva.
Tem também a vantagem de desta vez pelo menos não haver dúvidas quanto à sua liderança com Cosi, Formolo, Ulissi e Rui Costa no apoio directo embora a equipa se apresente também competitiva ao sprint com Gaviria, Riqueze e Rui Oliveira. Acho sinceramente que tem tudo para correr bem se evitar as quedas e se não for muito afectado pelos dias maus que eventualmente terá.
Quanto ao resto uma Giro muito interessante e competitivo uma vez que não estão cá grandes papões que dominarão as lutas pelo pódio e sprints pelo que haverá muita gente com aspirações legítimas a atacar e a ser feliz o que torna a corrida muito apelativa.
Lourenco Oliveira
Acho que é entre o Carapaz e o Yates, a menos que existam quedas. De resto, MAL tem aqui uma oportunidade interessante perante a concorrência, mas a época dele não está a ser famosa. Entre Landa e Bilbao um deve fazer pódio. Quanto ao João, quando o melhor gregário é o Rui Costa a situação complica. Terá de correr sozinho, de trás para a frente muitas vezes. Acredito que faz top-10, mas não será fácil ficar nos 3 ou 5 primeiros. A corrida não o favorece, nomeadamente a ausência de contra-relógio.
De resto, Van der Poel estar aqui valoriza muito o Giro e muita curiosidade para ver o que fazem Girmay, Santiago Buitrago, Attila Valter, Tobias Foss e Sosa. No sprint, Ewan está acima de todos, mas VdP deve intrometer-se muitas vezes.
Ibagaza
O Formolo sobre melhor que o Rui Costa em condições normais. O Covi também é aceitável a subir. De qualquer forma, não são muitos os líderes fora da Jumbo e da Ineos que têm grandes blocos para a alta montanha. Talvez a Bora… mas ainda assim a equipa do João é aceitável. Para etapas de média montanha que normalmente são bastante atribuladas dá garantias. Na alta montanha vai ter de ser o João a dá-las, mas o Formolo é um grande corredor.
Lourenco Oliveira
Sim o Formolo é um bom ciclista, mas com o perfil das etapas não sei se será a ajuda que o João precisa em caso de ter de ser ‘rebocado’ na alta montanha. A minha crítica ao lote de convocados é mais tendo em conta o plantel da Emirates. Ficaram muitos ciclistas mais fortes na alta montanha de fora, o que me leva a crer que a aposta no João ainda não é total e que há um foco quase exclusivo em reconquistar o Tour.
De resto, além da Jumbo e da INEOS, eu acho que a Bahrain e a Astana chegam com blocos mais fortes para apoiar os seus líderes. A própria Bora como referiste tem vários ciclistas mais capazes, se bem que aí não sei bem qual deles será o líder. O João terá de correr muitas vezes sozinho, um problema que também o Yates ou o Bardet podem ter. A diferença é que são ciclistas que habitualmente mudam de ritmo mais facilmente e conseguem impor a sua lei na alta montanha quando estão bem. O João não é esse corredor, terá de ir lá pela inteligência e resistência, mas tenho dúvidas que faça top-5.
João Ribeiro
Não está em questão a qualidade dos ciclistas mas os papéis dos mesmos dentro dos blocos. Enquanto na INEOS, por exemplo, é claro que será para todos trabalharem para o Carapaz, com Sivakov num plano B, na UAE já não será assim, havendo ciclistas com os próprios objetivos.
O Formolo indicou que terá liberdade dentro do bloco da UAE para ir atrás de etapas, por isso não estará no Giro com o foco na ajuda ao João, mas obviamente que isto pode ser mudado com o decorrer da prova, principalmente se o João a determinado momento estiver com a Rosa ou perto dela. O mesmo para o Ulissi (nas chegada para punchers deve ser ele a principal carta da UAE) e para o Covi (para etapas de média montanha com chegada em pelotão reduzido ou para integrar fugas). Portanto, em condições normais, o João terá como gregários a tempo inteiro o Rui Costa e o Rui Oliveira, os restantes ajudarão mais pontualmente, e é por isso que o bloco de apoio da UAE é mais enfraquecido (não tem a ver com qualidade dos ciclistas.
Sede de vencer
João Ribeiro,
Adoro a lucidez dos seus comentários.
Cumprimentos Vitorianos.
Sporting1906
O favorito é claramente Carapaz e diria que o seu maior rival deve ser o Simon Yates. João Almeida, MA Lopez, Landa e talvez Bardet ou Bilbao parecem-me os outros principais candidatos ao pódio.
Filipe__Santos
Sinceramente, esperava pelo menos um Ayuso, um Polank ou um Soler no apoio ao João Almeida. Apesar de nenhum deles ser um team player de excelência nem perto disso, são ciclistas com capacidade para ajudar e que sobretudo davam capacidade à UAE para ter outra variabilidade tática.
Basicamente, João Almeida está no Giro mais desfavorável em termos de perfil que já correu, e a nova equipa dá-lhe a liderança indisputada, mas põe-lhe como únicos colegas capazes de ajudar na montanha 3 italianos que provavelmente não perderão oportunidade de brilhar a solo. Esperemos pelo menos que a gestão de corrida do Rui Costa se revele importante para posicionar o líder de forma a conseguir fazer algumas diferenças nas etapas de média montanha.
Acredito que sem percalços, o português vai conseguir um bom resultado, mais pela sua evolução enquanto ciclista, do que propriamente pelo upgrade que a equipa lhe deu.
Bayern de Monchique
Com o roster que apresenta a UAE mostra claramente as suas intenções face a este Giro. A liderança até pode ser do João mas a equipa parece curta para uma dura edição do Giro que conta com uma boa combinação de etapas de montanha e “rompe-pernas”. E como já aí disseram, os italianos vão querer aparecer também. Ulissi tem quase uma mão de vitórias no Giro. Covi andou a bater à porta no ano passado.
Um Giro com poucos tubarões este ano. No papel, a luta parece ser entre Carapaz e Yates sendo que em termos individuais dou favoritismo ao britânico. No que diz respeito ao bloco a INEOS tem um roster superior à BikeExchange o que pode fazer toda a diferença na terceira semana.
Geralmente a ausência de grandes favoritos e de blocos dominadores costuma querer dizer uma coisa: fireworks! Há muita gente que até pode não ganhar mas que tem qualidade para dinamitar a corrida.
Tenho um feeling que o Foss possa fazer uma graçinha este ano.
MM
Estou muito expectante a ver no que vai dar, gostava que ficasse no podio e a expectativa da equipa deve ser essa, mas receio que seja mta montanha e pouca equipa para o joao!
Faltam km de contra relogio tb….
A ver no que da…boa sorte!
Curioso tb para ver o que o van der poel conseguira fazer, o homem é uma maquina!
DNowitzki
De forma simplória: João, agarra-te ao Carapaz! Depois, no CR, envias-lhe um par de minutos. O Yates é muito irregular normalmente.
Foss: muita expectante para ver o que o rapaz poderá fazer… ou não.