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Xavi Hernández sobre Pep Guardiola

1394309746_extras_mosaico_noticia_1_g_0A entrevista de Xavi ao The Guardian, onde conta tudo sobre Pep Guardiola:

“Quando o Barcelona nomeou Pep Guardiola como treinador, pensei para mim: ‘Madre mía, vamos voar, vamos ser uns foguetes’. Eu já o conhecia e sabia como ia ser. Ele é duro, persistente e gosta que os jogadores trabalhem forte e intensamente para terem um andamento forte. Se o Pep decidisse ser um músico, ele ia ser um bom músico. Se ele quisesse ser um bom psicólogo, ele ia ser um bom psicólogo. Mas o futebol é a sua paixão.

Guardiola é meticuloso e foca-se em cada pequeno detalhe. Mesmo em jogador, ele já controlava tudo: sabia exatamente o que queria fazer e tinha já tudo pensado na sua cabeça. Ele adora futebol e em especial uma forma particular de jogá-lo. Detesta perder a bola, tal como já o detestava enquanto jogador. Nós, que crescemos no Barcelona, com os ideais que Cruyff trouxe para o clube, temos uma clara ideia de como devemos jogar, especialmente Pep. Ele é um purista, um radical.

Mas não é suficiente ter esses ideias: tens de conseguir passá-los aos outros também. Podem existir outros treinadores que partilham pensamentos similares, mas são mais fracos e não conseguem transmiti-los. Guardiola consegue. Ele tem a liderança, a personalidade. Nós precisávamos disso quando ele assumiu o comando técnico do Barça. Faz exigências enormes com ele próprio e isso é contagioso, já que passa para toda a gente. Tem visão e sabe como transmiti-la. Sabe como atingir os jogadores. Apenas sendo assim, as pessoas ouviram-no no Barcelona. É um pouco como Zidane no Real Madrid: ele tem sido tudo no futebol, ele impõe respeito pelo que ele é. E esse respeito apenas pode crescer. Se o Pep não é o melhor treinador do mundo, é de certeza um dos melhores.

Nunca trabalhei com Ancelotti, por exemplo, ou Mourinho, mas Guardiola e Luis Aragonés foram os treinadores que tiveram mais impacto na minha carreira, sem qualquer dúvida. A estratégia de Guardiola é aplicável fora do Barcelona e Munique é a prova disso. O Bayern praticava um excelente futebol, da maneira como ele queria que jogasse. É verdade que não ganharam a Liga dos Campeões, por pequenos detalhes, mas continuaram a ganhar e ele deixou a sua marca. Se falares com pessoas lá, eles vão dizer-te o mesmo. Eu conheço o Javi Martínez e o Thiago Alcântara e já os ouvi. Eles dizem que ele é diferente do resto.

Tu realmente aprendes com Pep. Ele explica as coisas muito bem: não apenas o que deves fazer, mas como o deves fazer. Ele é bom a sintetizar essa informação. Ele fecha-se no escritório sozinho a ver vídeos sem conta, para preparar os jogos, até encontrar uma forma de ganhá-lo. Ele pode perder duas ou três horas, ou até mais, num vídeo, mas quando o vai mostrar aos jogadores, não demora mais de 10 minutos. Os vídeos focam-se em aspetos do jogo, detalhes precisos. Nós não mudámos a nossa idealogia em função disso, é mais sobre a forma como podemos atacar o adversário baseado no que vimos. Eles mostram o espaço que podemos encontrar, por exemplo, entre a linha defensiva e o pivot, e explicam como podemos lá chegar. É sobre tempo e espaço. Ele procura por esses detalhes para melhorar as oportunidades de ter a bola e criar oportunidades.

Essas ideias depois são transladadas para o campo de treinos. Treinas esses movimentos que ele quer, mas ele não te obriga a fazer isso horas sem conta. As sessões normalmente demoram uma hora e um quarto. Num certo sentido, é uma forma de exercício mental – pensar e compreender o que tens que fazer. E depois no final, fala com a equipa resumindo tudo o que preparou. Não só sobre táticas e aspetos técnicos, mas também emoções e componentes psicológicas também.

Quando és muito claro nas tuas ideias, quando sabes como transmiti-las, tudo torna-se mais fácil. Se alguém consegue mudar o Manchester City é ele. Aliás, se me tivessem perguntado há 10 anos atrás, eu provavelmente tinha dito: ‘Bloody hell, isso é difícil’, mas o futebol inglês evoluiu, já não é tão direto e assim não é precisa uma mudança tão radical. Pellegrini esteve lá, Ferran Soriano e Txiki Begiristain estão lá.

A ideia é similar à que eles já tinham, o que vai facilitar a tarefa de Guardiola. Eles tinham um estilo de jogo onde queriam assumir o jogo, ter bola e ser protagonistas. O Barcelona sempre teve essa ideia que o City já tem. Silva, De Bruyne, Agüero e Yaya são jogadores que encaixavam bem no Barcelona. E Guardiola pode pegar por aí. Ele encontra sempre o parafuso que conserta tudo.

Ele não vai ter problemas com os jogadores que não encaixam. Ele é muito direto, muito correto com as pessoas. Eles vão saber que se não treinarem bem, não vão jogar. Ele não vai ter problemas em deixar um estrela de fora e meter um jovem no lugar dele. Ele fez isso com Pedro Rodríguez e Busquets, que apenas jogavam na 3.ª divisão, e passaram a ser titulares regulares.

Ele está mais maduro e tem a experiência do que aconteceu no Bayern. Ele também evolui e aprende. Está sempre a olhar para a frente, à procura de novas soluções. Existiram mudanças táticas em Munique. Trouxe laterais para zonas interiores para abrir espaços para os extremos, por exemplo. Nós não o voltámos a fazer em Barcelona. Inteligência é muitas vezes expressa pela forma como te adaptas e nisso o Pep é exímio. Ele adaptava-se a qualquer futebol e teria sucesso em qualquer lado, tenho a certeza disso.

Estas são mudanças dentro de um ideal, não uma filosofia. Pep uma vez disse que se pudesse jogar com 11 médios, ele jogava. Se ele pudesse ter 100% de bola, ele ia querer isso também. Ele pode mudar… pode tornar-se ainda mais radical. Se acreditas em alguma coisa, tens de acreditar nele. Para nós, ele trouxe essas ideias, e elas enraizaram-se profundamente, tipo uma religião. Pep é um purista. E vai mudar mesmo que tenha sucesso. Não acho que ele vá mudar a sua ideia. Mas vai tentar aperfeiçoá-la.”

Traduzido pelo Visão de Mercado

VM
Author: VM

3 Comentários

  • RicardoSantos21
    Posted Agosto 11, 2016 at 5:29 pm

    Só tenho uma palavra para Pep: Espectacular.

    Adoro Mourinho, por ser português, pela sua personalidade inconfundível e por ter levado a nossa pátria tão longe como tem levado no entanto o meu estilo de jogo preferido é o de Guardiola, é espectacular, é como ver classe dentro de campo, gostava de assistir por uma semana aos treinos dele, ou seja, a forma como ele treina, perceber de que modo é que ele consegue enraizar de tal forma os seus ideais nos seus jogadores… Realmente ter a bola e saber estar dentro de campo sem ela são os mais importantes factores no futebol!

  • Miguel Costa
    Posted Agosto 11, 2016 at 5:31 pm

    O Guardiola é, para mim, o melhor treinador do mundo. Ele começou a treinar o Barça em 2008, sendo que nestes 8 anos (7, tendo em conta que parou um ano) enquanto treinador ganhou 21 títulos. Só perdeu um campeonato (e foi para Mourinho).
    Isto é simplesmente absurdo.

    Aconselho, para quem não viu, um vídeo do Henry (com a Carragher, na Sky Sports penso eu) a explicar certas ideias do Pep e métodos de treino. Incrível mesmo.

    E ainda há pessoas com capacidade para dizer que ele só ganhou porque tinha grandes equipas e que a passagem pelo Bayern foi um fiasco. Não consigo perceber, juro.

  • Pulga
    Posted Agosto 11, 2016 at 6:05 pm

    O Pep é simplesmente brutal.

    Numa altura que o futebol estava praticamente estagnada a nível tatico (nunca está mas entenda-se) aparece um tal de Guardiola com um super Barcelona a ganhar tudo de forma dominante e com um futebol diferente.

    O maior elogio que se pode fazer é que durante os primeiros 2/3/4 anos do tiki-taka discutia-se todos os dias uma forma de parar aquele jogo, os adversários treinavam formas de o parar e mesmo assim continuavam a ganhar.

    O trabalho no Bayern não foi brilhante (como o Guardiola nos tinha habituado) mas foi bom.

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