Na ressaca da conquista portuguesa do Mundial de Futsal no passado Domingo (o primeiro da sua história, e terceiro Mundial FIFA sénior para a FPF, depois dos Mundiais de Futebol de Praia 2015 e 2019), e na antecâmara de se cumprirem 10 anos de presidência de Fernando Gomes à frente da Federação (começou em dezembro de 2011), importa fazer um exercício de correlação do trabalho da atual direção do organismo federativo e das conquistas recentes do mesmo.
Voltemos então a 2011. Terminava o consulado de Gilberto Madaíl com duração de 15 anos, já com notório desgaste.
Em termos de seleções, Portugal teve nesse período uma grande geração, que atingiu uma final de Europeu em 2004, mas que ficou aquém em termos de títulos. As seleções jovens foram vítimas de um desinvestimento atroz, a que se juntou o desinteresse dos selecionadores A, nomeadamente de Scolari, passando de uma final do Euro sub-21 em 1995, para presenças meramente na fase de grupos, depois apuramentos sofridos e finalmente não apuramento em 2010. Espremendo, apenas um título europeu de sub-17 em 2003, em Viseu.
Na organização das competições nacionais, também muita estagnação, na altura ainda com a antiga IIB e terceira divisão, com visibilidade praticamente só nos jornais de segunda-feira, os campeonatos de Futsal e Futebol de Praia completamente amadores e o Feminino uma autêntica miragem. Houve algumas iniciativas, como a Liga Intercalar por alturas de 2007, mas sem continuidade e condenadas à extinção.
Posto isto, chegava a hora de uma nova direção, liderada por Fernando Gomes. O futebol jovem foi das primeiras preocupações. Logo nos primeiros meses, através de acordo com a Liga, a reativação das equipas B, competindo na II Liga a partir de 2012/13, tornando-se o principal viveiro para as seleções jovens mais velhas (sub-21 e sub-20) e dando espaço aos menos utilizados dos plantéis nomeadamente dos grandes, para que não andassem “perdidos” em empréstimos muitas vezes em divisões inferiores. Resultado prático quase imediato, apuramento imaculado e presença na final do Euro Sub-21 em 2015, sendo certo que também ajudado por uma grande geração.
De seguida, reformulação das divisões amadores e semi-profissionais, com melhor organização, primeiro com o Campeonato Nacional de Séniores (CNS), mais tarde Campeonato de Portugal (CP), impulsionados com algumas transmissões televisivas (na altura na CMTV). Reformulação e investimento nos campeonatos nacionais de Futsal, Futebol de Praia e Feminino, aumentando e melhorando as condições de trabalho.
Tudo isto, sempre acompanhado também por melhoramento de condições para todas as Seleções Nacionais, desde as jovens, passando pela de Futsal, Futebol de Praia, Feminino (Futebol e Futsal), com muitas mudanças das equipas técnicas sempre que se justificasse, sempre com competência em crescendo.
Em 2016, nasce a Cidade do Futebol, casa logística das Seleções Nacionais, centralizando o local de trabalho para selecionadores, equipas técnicas, staff, departamento médico, organização de competições e munido de campos de treino e tecnologia ao mais alto nível. Logo no mesmo ano, curiosamente, ou não, chega o primeiro título no Futebol desta direção, o Euro de Sub-17 em maio de 2016, seguido imediatamente pela histórica conquista do Euro 2016 em França. Como sabemos, as conquistas têm o condão do desbloqueio mental, que depois tem o efeito “ketchup”, sendo isto especialmente importante devido ao nosso histórico e cultural “quase” que parecia não nos querer largar, impulsionando mais chegadas a finais e mais títulos.
Em 2019, ano em que a Seleção A conquistou a Liga das Nações e, por exemplo, o Futebol de Praia conquistou praticamente tudo, nasce o Canal 11, uma aposta a meu ver de enorme importância e sucesso, dando a máxima visibilidade a tudo o que concerne a FPF – seleções jovens; liga, competições europeias e seleções de futsal, futebol de praia e futebol feminino, Campeonato de Portugal (e agora também a Liga 3), quer a nível de transmissões, quer reportagens, quer programas temáticos que visam estar mais próximo de jogadores, treinadores, dirigentes (neste caso de clubes de menor dimensão), e até dos adeptos. Para além também de alguns programas sobre antigos ou atuais internacionais portugueses das modalidades da FPF, e entrevistas a jovens seja de seleção ou de clube. Com mais visibilidade, maior a aposta, maior a qualidade, mais interesse geram as transmissões, criando um ciclo positivo em que todos saem a ganhar.
Títulos e finais conseguidas para a FPF desde 2011:
Futebol A:
– Euro 2016
– Liga das Nações 2019
Futebol Jovem:
– Euro Sub-17 2016
– Euro Sub-19 2018
– Finais do Euro Sub-21 2015 e 2021 e Sub-19 2014, 2017 e 2019.
Futsal:
– Euro 2018
– Mundial 2021
– Medalha de Ouro Jogos da Juventude (Feminino) 2018
– Final do Euro 2019 Feminino
Futebol de Praia:
– Mundial 2015 e 2019
– Europeu 2015, 2019, 2020 e 2021
– Medalha de Ouro Jogos Europeus Minsk 2019
– Finais do Europeu 2013, 2016 e 2017
Menção para o apuramento da seleção A Feminina em 2017 para o Europeu, sendo que nesta componente foi uma estreia, demonstrando também aqui evolução.
Se foi/é tudo perfeito? Não. A meu ver os selecionadores Fernando Santos e Rui Jorge já encerraram o seu ciclo, embora não esquecendo o mérito e trabalho de ambos (e os títulos do primeiro), para além de ter havido campanhas aquém do exigível, nomeadamente no Mundial 2018, no Mundial sub-20 2019 (com a geração de 99) e o não apuramento para Euro Sub-21 2019. Mas passaram a ser mais as vezes que chegamos às decisões do que as que ficamos em fases embrionárias, e conseguimos efetivamente algumas conquistas (não só ao nível de seleção, mas também com consequências a nível dos clubes, como as conquistas europeias do Sporting no Futsal e do SC Braga no Futebol de Praia, só para citar alguns exemplos), mostrando que quando há competência, rigor, trabalho, visibilidade, e acima tudo, o quebrar da barreira psicológica do “quase”, como já referi, está-se muito mais perto do sucesso, sabendo que, isto é desporto, haverá sempre e convém não esquecer, a bola que bate no poste e entra ou sai, e também o mérito dos adversários (não jogamos sozinhos).
Considero, portanto, estes (quase) 10 anos da liderança de Fernando Gomes na FPF, um grande sucesso, sendo que haverá, naturalmente, ainda mais a fazer, mais apostas a fazer, e crescimento e sucesso para cimentar, sendo necessário (a crítica principal que faço) às vezes não deixar que a gratidão em excesso impeça de se fechar alguns ciclos.
Visão do Leitor: Rúben Meireles


3 Comentários
OlhodeFalcao
Não conheço Fernando Gomes, mas todos os Profissionais de Futebol (jogadores, adeptos, dirigentes) que se cruzam com ele, reforçam a sua elevada competência e profissionalismo.
Nunca me esqueço das sábias palavras após o fracaso do Mundial 2014 na África de Sul, quando lhe perguntaram “o que falhou”. Sem meias medidas e desculpas ele respondeu aos jornalistas: “não fomos suficientemente competentes”. Dois anos depois fomos Campeões Europeus…
Acho que precisamos de mais pessoas como Fernando Gomes em Portugal, quer nas empresas, sector público e nos negócios. Pessoas competentes, capazes de admitir as suas responsabilidades e sobretudo que trabalhem sem grandes folcores, sem gostar sempre de aparecer.
O mandato não é perfeito (nenhum é) mas fazendo um balanço pode-se dizer que foi de sucesso.
PS: Parabéns pelo belo texto.
Kacal
Podia dizer algo mas penso tal como tu e diria o mesmo, totalmente de acordo com a tua opinião e subscrevo! Inclusive o PS dos parabéns ao Rúben Meireles :)
RubenMeireles14
Muito obrigado :)