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Bundesliga, o paraíso dos avançados

Nos últimos anos, temos assistido a um crescimento sustentado da Liga Alemã. Desde de sempre foi considerado um dos melhores campeonatos do mundo, mas com o recente abaixamento de qualidade que se verifica na Liga Espanhola, a Bundesliga pode ter reais aspirações a entrar numa discussão, no curto-prazo, sobre qual é o segundo melhor campeonato do mundo (A Premier parece ser praticamente unânime). O treinador alemão parece estar hoje na vanguarda, não haverá, porventura, nenhuma outra nação com tanto treinador de topo. Klopp, Tuchel, Flick, Nagelsmann, quatro treinadores que são referências atuais e tantos outros que numa segunda linha, seguem a mesma escola. A gestão por parte dos clubes da Bundesliga também costuma ser alvo de inúmeros elogios à escala planetária. De facto, numa altura onde imperam as loucuras, quer a nível de valor de transferência, quer a nível de salários, os clubes germânicos têm sabido reinventar-se e não entrando em loucuras desmedidas, mantêm a sua competitividade. O campeonato é excelente nas infraestruturas, com bons estádios, sempre lotados e com adeptos apaixonados e que tornam o campeonato único. Dentro do rectângulo de jogo a qualidade dos jogos também costuma ser de alto nível, com uma filosofia de jogo que entretém o adepto. Como expoente máximo de toda esta filosofia, qualidade, organização e profissionalismo surge o Bayern. O clube da Baviera é um dos mais temidos a nível mundial e atualmente é apontado por muitos, legitimamente, como a melhor equipa atual. Um futebol avassalador que assusta qualquer clube na hora de enfrentar esta máquina que parece funcionar sempre independentemente de quem se sente no banco. Contudo, e se tudo parece ir bem para os lados da Bundesliga, existe um dado curioso que pode ser justificado, em parte, devido à filosofia ofensiva de grande parte das equipas do campeonato, que é a dificuldade das estrelas da Bundesliga renderem fora do seu paraíso.

Não trazendo para a discussão outras posições do terreno, pois nestes casos têm havido inúmeros casos de sucesso (Kroos, Alaba, Rudiguer), os avançados e extremos que têm saído do viveiro alemão tardam em mostrar tudo aquilo que mostram entre portas. Vejamos vários casos:

Haller- Brilhou no Eintracht, o que lhe valeu um bilhete para Londres. Após um ano em que marcou 20 golos e distribuiu 12 assistências, teve muitas dificuldades para replicar tal rendimento no West Ham. Acabou vendido ao Ajax por um valor significativamente mais baixo. Em Amesterdão parece ter regressado à boa forma, mas a Eredivisie é indiscutivelmente um patamar inferior, comparativamente aos 5 principais campeonatos europeus.

Werner- O internacional alemão apresentou um alto rendimento, de forma constante, no Leipzig. Desde da sua chegada, nunca faturou menos que 20 golos e na sua última época apresentou umas estrondosas 47 participações de golo (34 golos e 13 assistências) em apenas 45 partidas. Parecia que tinha explodido definitivamente para a elite do futebol mundial. Contudo, chegado a londres o seu rendimento caiu a pique, sendo que “forçou” o Chelsea a fazer um investimento brutal em Lukaku, apenas um ano após a sua chegada.

Havertz- A jóia germânica parecia ser o rosto da nova geração da Mannschaft. Depois de atuações brilhantes ao serviço do seu clube de formação, o Chelsea procurou antecipar-se à concorrência e pagou uma fortuna para requisitar os seus serviços. Se é verdade que marcou o golo decisivo que valeu a conquista da 2ª liga dos campeões aos londrinos, não é menos verdade que a sua participação tem sido bem mais titubeante e menos espetacular do que aquilo que mostrava em Lerverkusen.

Jovic- Uma época brilhante que culminou com uma meia final histórica para o Eintracht na Europa League, que só terminou nas grandes penalidades, frente ao futuro campeão Chelsea. Aos 21 anos não fez duvidar um Real Madrid, sempre na busca das melhores promessas, a pagar uma enorme quantia para o fazer chegar à La Liga. Perdeu-se na capital espanhola e nunca mais voltou a mostrar um terço da qualidade que se lhe viu na Alemanha.

Bailey- Chega a Birmingham com a responsabilidade de substituir a grande estrela da companhia. Vinha de uma excelente época na Alemanha e parecia que seria a sua época de afirmação definitiva. No entanto, tem-lhe sido complicado garantir um lugar no 11. Dos 14 jogos do Villa este ano apenas participou em 7, num parco total de 316 minutos. Ainda vai a tempo de inverter a situação, mas até ao momento tem sido uma autêntica desilusão.

Sancho- Muitos anos como uma das figuras de maior destaque do campeonato. Uma técnica desconcertante, aliada a uma objetividade que lhe faziam ter uma preponderância muito grande na equipa. Golos e assistências com uma regularidade impressionante. Estas atuações levaram o Manchester United, que já o desejava há um ano atrás, a desembolsar uma quantia elevada para o trazer de regresso a casa, mas para o lado vermelho da cidade. É verdade que não tem sido muito protegido pelo contexto do clube, mas até ao momento tem sido uma verdadeira desilusão para as expectativas que foram criadas com a sua chegada.

De uma forma geral, a desilusão tem sido o registo dos jogadores ofensivos que brilham na Alemanha e emigram para outros campeonatos. Podia-se ainda acrescentar outros atletas, como Paco Alcácer que viveu, numa curta passagem, em Dortmund o melhor período da carreira. Dembélé que nunca conseguiu replicar em Barcelona aquilo que mostrou em Dortmund.  As grandes exceções a esta regra parecem ser Aubameyang que conseguiu manter um ótimo rendimento num Arsenal moribundo e Sané que chegou a ser dos mais importantes num City avassalador. A próxima grande transferência parece já estar encontrada, pois Haaland não deverá continuar muito mais tempo na sua atual equipa. Resta saber se será a nova excepção à regra, ou se será a confirmação definitiva de que na Alemanha existe um paraíso para avançados.

Visão do Leitor: Santander

VM-Desporto
Author: VM-Desporto

5 Comentários

  • Mr. Mojo Risin'
    Posted Novembro 23, 2021 at 4:52 pm

    Uma espécie de Eredivisie dos ricos e digo isto sem ser uma crítica. O campeonato é entusiasmante (excluindo domínio do Bayern) e as equipas são pressionantes, o que leva muitas vezes a que o jogo se parta e haja espaço. É um campeonato com transições constantes e mesmo as equipas de topo têm debilidades defensivas.

  • Kacal
    Posted Novembro 23, 2021 at 5:10 pm

    É a Eredivisie das Ligas de topo. Na Liga Holandesa também acontece muito isto, rendem lá e depois por norma “flopam” fora de portas. Há sempre excepções claro, mas muitos falham. Talvez seja pelo contexto específico da Liga como a política de futebol dos clubes apostando mais no espetáculo havendo mais espaço assim como muitas equipas tentaram jogar ofensivo.

  • coach407
    Posted Novembro 23, 2021 at 5:26 pm

    Já venho dizendo isto há uns anos. O futebol alemão é semelhante ao futebol holandês, mas com melhores jogadores.

    Ao contrário do que possa ser dito sobre alemães, o futebol deles está longe de se caraterizar por um particular rigor tático, coesão defensiva, consistência, trabalho, disciplina…

    Nada disso. O futebol alemão é o apogeu da indisciplina no momento defensivo, juntando-se a campeonatos como o holandês, argentino ou brasileiro que são alguns dos poucos campeonatos onde aparecem e explodem pontas de lança como Werner, Moukoko, Jovic, Aguero, Suarez, Firmino, Gabriel Jesus, Kaio Jorge, Gabigol…

    A maioria destes avançados se fosse formado em Portugal provavelmente teriam crescido a jogar como extremo ou como médio ofensivo e não como ponta de lança. Formata-se o ponta de lança para um futebol com menos espaço onde a dimensão física é mais importante.

    Claro que existem exceções. O próprio Tiago Tomás não é propriamente o típico ponta de lança que é valorizado em Portugal, é muito mais um jogador de explorar espaços, correr, muito móvel, muito ataque à profundidade/largura… Ainda assim, por norma, não é este o tipo de avançado que é formado em Portugal.

    Claro que este espaço todo que é dado no futebol alemão inflaciona muito os números dos avançados com Lewandovski à cabeça, mas também os bem conhecidos por cá André Silva ou Jovic que parecia impossível fazerem tantos golos num campeonato “a sério”.

    Evidentemente, isto também influencia os extremos e até os médios. Se formos a analisar, a Alemanha tem muita dificuldade em formar médio defensivos “puros” de alto nível. O próprio Kimmich – que é o Kimmich – para se afirmar no Bayern foi encostado a lateral primeiro. Neste momento, o 2º melhor médio defensivo alemão é o Weigl, novamente um 6 com um estilo muito mais ofensivo e, mesmo assim, acabou por perder espaço para um duplo pivô de médios centro em que jogavam sem médio defensivo.

    Mesmo os mais criativos como Djuricic ou Waldschmidt acabam por ter muitas dificuldades na adaptação a Portugal porque o espaço é muito menor e simplesmente não conseguem jogar.

  • henry14
    Posted Novembro 23, 2021 at 5:28 pm

    Texto muito interessante!

  • Jan the Man
    Posted Novembro 23, 2021 at 6:17 pm

    Acredito que, associado a essa filosofia muito própria da Bundesliga, muito do sucesso dos avançados em terras germânicas tem sido resultado directo da fraca qualidade das suas organizações defensivas. Normalmente, a Bundesliga é das principais ligas europeias a que apresenta uma maior média de golos por jogo (quase sempre acima de 3). A facilidade com que as equipas com melhores intervenientes conseguem chegar a resultados avolumados é também reflexo disso.

    Tal facto é reflectido também a nível individual, pois é possível observar que a maioria dos defensores exportados pela liga não obtêm grande sucesso. Tendo por base transferências desde 2015, são vários os exemplos de defesas transferidos para os principais cubes importantes estrangeiros que não conseguiram impor-se ou apresentar o mesmo rendimento que levou à sua aquisição. Aqui ficam alguns deles (uns mais flagrantes que outros):

    Rahman Baba
    Kevin Wimmer
    Benatia
    Howedes
    R. Rodriguez
    Kolasinac
    Kehrer
    Henrichs
    Sokratis
    Bernat
    Diallo
    V. Lazaro
    O. Kabak
    K. Rekik
    Konaté (ainda é cedo para estar aqui, mas para já tarda em ganhar o lugar a Matip)

    Comparativamente com os casos de sucesso no mesmo período (Rudiger, Alaba, Matip, Vestegaard, Soyuncu), vemos que existe uma diferença significativa de números, o que acaba por ser revelador das dificuldades quando o nível aumenta.

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