A história é um dos pilares da sociedade contemporânea. Não só ajuda a compreender o presente, como é o esboço do futuro. No futebol, a história pode assumir um papel, também ele, preponderante e Arsène Wenger parece precisar de umas lições.
Nos dias que correm, a carreira de Wenger no Arsenal é vincadamente marcada por uma nostalgia dos tempos áureos de Henry, Bergkamp, Vieira, entre outros, que levaram à formação do glorioso conjunto que cravou o seu nome na história do futebol sobre o epíteto “The Invincibles. Dez anos passaram, desde então, e na segunda década de Wenger à frente do clube, os londrinos atravessam um interregno que se afigura infindável, continuando o Santo Graal do futebol inglês a ser, por enquanto, uma miragem.
Em entrevista à BBC, Martin Keown descreveu o jogo da sua gloriosa equipa do seguinte modo: “O Patrick Vieira passava a bola ao Bergkamp, que a passava, posteriormente, para o Henry…e a bola estava no fundo das redes. Era, na verdade, tão simples quanto isto”. Embora se trate de uma explicação bastante redutora, exalta as características que regiam a filosofia de jogo daquela que foi, provavelmente, a melhor equipa de sempre do Arsenal e espalhou poesia futebolística em Highbury Park: jogo direto e transições ofensivas simples, objetivas e céleres. A eficácia do modelo de Wenger, imortalizado como The Arsenal Way, era tal, que viria a moldar, ou pelo menos aprimorar até ao seu maior expoente, o estilo de jogo praticado em Terras de Sua Majestade.
É, então, plausível afirmar que, de certo modo, Wenger tem nos últimos anos saído como derrotado de “um jogo que ele próprio criou”. Ainda que a equipa mantenha a cultura de futebol de posse, característica cimeira do jogo idealizado pelo Professeur, esta tem encontrado sérias dificuldades na definição do seu processo ofensivo, nomeadamente, no que concerne à celeridade dos movimentos de transição e objetividade dos mesmos.
Analisando os dados estatísticos dos londrinos respeitantes à posse de bola (são a equipa com o melhor índice da Premier League até ao momento – 58,4%) somos induzidos a acreditar que se trata de uma equipa dominadora e agressiva que não perdoa qualquer momento de desatenção dos seus adversários sem os punir. A estatística não poderia, neste caso, ser mais enganadora. Em Dezembro de 2013, José Mourinho descreveu, em tom irónico, e do seguinte modo o “domínio” coagido pela equipa de Wenger “O Arsenal esteve a jogar do Arteta para o Sagna, do Sagna para o Arteta, do Arteta para o Gibbs, do Gibbs para o Arteta (…)”. Ainda que a pretensão dos comentários de Mourinho seja dúbia, estes retratam fidedignamente as lacunas apresentadas pela equipa do norte de Londres. Na presente época, temos observado uma equipa tenebrosa e com pouca capacidade criativa para encontrar soluções que quebrem as linhas defensivas adversárias, tal a previsibilidade do seu processo ofensivo e a falta de celeridade que lhe está inerente. Ainda que sejam, até ao momento, uma das equipas mais rematadoras da liga (17,3 remates por jogo), a verdade é que aqueles que, efetivamente, resultam em ocasiões de perigo surgem, mormente, de jogadas individuais e não tanto do entrosamento da equipa. Este modelo de jogo tem estado, também, na origem das adversidades defensivas com que a equipa se tem deparado. Dadas as deficiências do quarteto defensivo dos Gunners, a estéril e constante troca de bola no corredor central do terreno, que obriga à subida dos laterais, deixa a equipa suscetível a perdas de bola repentinas e altamente vulnerável às investidas do adversário, que, eventualmente, culminam neste a desferir um contragolpe fatal para as pretensões da formação londrina (esta época já sofreram 18 golos em 15 partidas).
Se nas épocas transatas, face aos resultados menos positivos, o timoneiro francês podia refugiar-se no estilo de jogo atrativo dos seus discípulos, o mesmo não se tem verificado nos últimos meses, dando azo a uma vaga de crescente incredulidade por parte dos adeptos, e até mesmo de alguns elementos do quadro administrativo do clube, que começam a exigir a queda do “autocrata”.
A solução para este problema poderá estar, tal como o título indica, na História, mais concretamente, no modelo de jogo engendrado pelo timoneiro francês nos primeiros anos do seu reinado. Não pretendo, com isto, sugerir que Wenger procure formar um plantel à semelhança dos invencíveis, até porque seria utópico considerar, por exemplo, que a excelência de Henry, a genialidade de Bergkamp e a propulsão de Vieira são facilmente transferíveis e reproduzíveis, mas antes a adoção de um modelo de jogo mais pragmático, assertivo e, acima de tudo, calculista – este último atributo respeitante ao processo defensivo – que confira maior equilíbrio à equipa e se adeque às premissas do futebol inglês, ou seja, um jogo cuja génese se encontra na exploração da profundidade do terreno e da velocidade dos seus atacantes.
Mais aliciante ainda, é o facto de Wenger dispor no seu plantel de jogadores cujas qualidades e características se enquadram neste modelo de jogo. Jogadores como Alexis Sánchez, Welbeck, Walcott, Oxlade-Chamberlain e Campbell dispõem dos atributos técnicos e físicos para se assumirem como as flechas ofensivas da companhia, que, aliados à apurada visão de jogo e precisão de passe de elementos como Ozil, Cazorla e Rosický, poderiam dar azo à construção de um dos ataques mais temíveis e implacáveis da Premier League. Por outro lado, a qualidade dos jogadores mencionados chega (e sobra) para a constituir um ataque significativamente prolífico, permitindo que figuras como Wilshere ou Ramsey, frequentemente envolvidos no processo ofensivo dos londrinos, fiquem, somente, incutidos de iniciar o processo ofensivo da equipa, funcionando, concomitantemente, como pivôs ofensivos e defensivos, dando prioridade à organização estrutural da equipa e auxiliando Arteta ou Flamini (ou um novo elemento que seja um trinco de raiz) que assumiriam um papel de índole, exclusivamente, defensiva, com o intuito de, assim, evitar a promiscuidade e perniciosidade que tem sido evidenciada no processo de transição defensiva da equipa.
Ainda que o plantel possa (e deva!) ser aprimorado com a chegada de novos jogadores que se assumam no onze basilar da equipa, a verdade é que as características do plantel dos Gunners são análogas às exigidas por um modelo de jogo semelhante àquele praticado pelo Dortmund da época 2012/2013 e pelo Arsenal da época 2003/2004, em que as equipas progrediam da sua área até à do adversário com 4/5 passes.
Não se tratando o futebol de uma ciência exata, seria falacioso assumir que existe uma metodologia de jogo que garanta dogmaticamente o sucesso de uma equipa, todavia, este início de época fez soar o alarme para a necessidade premente de Wenger proceder a uma reflexão e reconceptualização do modelo de jogo praticado por uma equipa que, ano após ano, perde credibilidade na corrida pelo título da Premier League.
Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Pedro Pateira



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Anónimo
Concordo muito com o que aqui se diz. Não é mandatoria a troca de treinador, mas pelo menos mudar esta filosofia previsível, que tem jogado contra a equipa do arsenal nos últimos anos.
Por último, não esquecer elementos como pires, ljungberg ou Gilberto Silva. Era uma equipa fantástica, mesmo.
A.B.
Nuno
O problema do Arsenal é não ter um Vieira, nem nada que se pareça, nem um Bergkamp, muito menos um Henry. Tem o Alexis, o Ozil não rende o esperado, não tem um médio defensivo à altura, na defesa há 2 ou 3 bons jogadores, no ataque não há nada parecido com Diego Costa, ou Aguero, ou van Persie, ou Rooney… falta ter um plantel com capacidade para lutar pelo título, algo que o Arsenal já não tem há anos. Tem vindo a perder jogadores fundamentais sem conseguir recrutar substitutos suficientemente bons. Quiseram pagar o estádio e a equipa foi perdendo qualidade, agora em vez de gastarem 50M num jogador deviam ter investido noutros para mais de uma posição em vez de terem de andar à pesca de jogadores livres para tapar buracos.
Acho que o Wenger enquanto treinador não é o problema, o problema é o manager, o que define a estratégia e constrói o plantel.
LM
O problema do Arsenal é que há 10 anos havia o Manchester United…
Agora há: Manchester City, Chelsea, Manchester United, e depois equipas como o Liverpool, Tottenham, Everton elevaram claramente os seus índices de competitividade em comparação com o passado, a Liga inglesa também se tornou mais competitiva a nível de jogadores…
Há 10/15 anos havia menos estrangeiros a jogar em Inglaterra, e curiosamente o Arsenal tinha uma carrada de Franceses e Holandeses de classe mundial,
Não penso que o problema esteja em Wenger ou menos inteligência de ir ao mercado, o Arsenal tem é muito mais competidores a nível de contratação de jogadores, hoje há muito mais equipas com dinheiro a perseguir os melhores jogadores… os petrodollars vieram baralhar isto tudo…
Não é só o Arsenal, vejam as grandes equipas italias, e mesmo o Calcio, isto que se está a passar no Calcio e menor quantidade de jogadores de classe a jogar em Italia tem muito a ver com a existência de Chelsea's, de Citys, de PSG's e afins, é que esses clubes ricos, tem planteis de 30 jogadores e praticamente contratam tudo o que mexe, há 10 anos atrás quando eles não existiam, o Real Madrid, o Bayern e os Manchesters já contratavam os melhores jogadores, mas também não podiam contratar todos, porque não precisavam, essa "gap" era aproveitada pelo Arsenal, pelos clubes Italianos, e clubes de segunda linha em Espanha como o Valência, Atletico, e clubes Alemães como o Dortmund…
Hoje em dia já não há espaço para isso, o surgimento do grande capital em força no futebol basicamente fez com que exista uma maior concentração de grandes jogadores em determinadas ligas, mas principalmente Inglaterra, e nisto o Arsenal saiu prejudicado, porque há mais concorrência, só isso…
Porque antigamente era Arsenal e Manchester…ano mau do Manchester? ganhava o Arsenal…
Onde que é hoje em dia equipas como o Blackburn ou o Leeds iriam ganhar a Liga Inglesa como aconteceu em 1992 e 1995? nunca, impossível com os valores praticados hoje no futebol, desapareceram esses fenómenos…
O Ajax também deixou de ser uma das equipas de primeira agua no futebol Europeu, porque há tantos compradores para os seus talentos, que praticamente nunca consegue manter os atletas mais do que dois anos…
O futebol mudou drasticamente em 10 anos, o Arsenal não estava preparado para isso, assim como muitas equipas e ligas como a Italiana.
Kafka I
LM
Na minha opinião a tua análise está correcta em quase tudo, só não concordo na questão de Itália, porque aí o problema foi mesmo apenas a falta de dinheiro, não os clubes estarem ou não preparados, pois o Milan/Juve/Inter sempre foram 3 clubes ao nível do Real/Barça/Bayern/United, e aliás há 10/15 anos atrás até era mais prestigiante ir jogar para o Milan/Inter/Juve que ir jogar para o Manchester United ou para o Bayern Munique por exemplo…
O problema das equipas Italianas não foi não estarem preparadas para esta mudança, até porque a mudança começou nelas, o problema foi que a Itália entrou em crise financeira e todos os clubes Italianos foram atrás dessa crise e deixou de haver dinheiro…
João Lains
Concordo em absoluto. Falando especificamente dos clubes italianos, hoje em dia, eles já não tem dinheiro para contratar os melhores jogadores do mundo. O Pogba era o único entre os 23 nomeados. Ainda na viragem do milénio, o Del Piero era o futebolista mais bem pago do mundo. O futebol mudou..
André Sousa
O Arsenal de 2003 a 2006 foi o melhor da era Wenger
Anónimo
O Arsenal actual é muito fraco. O treinador, não obstante ter ganho com essa grande equipa, não fez mais nada. É mediocre. Enquanto não se for embora, o clube não vai ganhar mais nada, disso ninguém duvida. O city e o chelsea estão a anos-luz do arsenal.
Jorge S.
Filipe Daniel Oliveira Ribeiro
Agora disseste tudo é exactamente o que penso.
Maverick
O problema do Arsenal não tem muito a ver com Wenger o treinador tem a ver com Wenger o diretor desportivo ou gestor das contratações.
E na história está a prova, quando teve jogadores de top Wenger ganhou. Em 2004 o futebol era quase igual ao atual pelo que não se pode dizer que esteja desatualizado até porque em 2006 foi á final da Champions.
Quantos jogadores top 10 nas suas respetivas posições tem o Arsenal?
Eu conto no máximo 2: Alexis e Ramsey (e com muita boa vontade já que este ano não tem sido o médio fantástico do ano passado).
O Chelsea: pelo menos Ivanovic, Courtois (e o suplente), Matic, Hazard, Diego Costa e Fabregas. Terry e Apilicueta poderiam também entrar.
O City tem Kompany, Zabaleta, Tourre, Aguero e Silva, sendo discutível no Fernandinho, Nasri e Dzeko.
Ora assim não dá para lutar por nada mais que o 4º/3º lugar. Se bem que devia estar a fazer melhor no campeonato.
Os treinadores são importantes mas quem joga são os jogadores. Mourinho melhorou este ano ou a equipa melhorou porque chegou Fabregas e Diego Costa? Acho que é óbvio a resposta.
Wenger não pode ser responsável pelas contratações. É aí que ele tem falhado. Como treinador continua a ter qualidade só que agora em vez de Tony Adam tem Mertzaker, em vez de Pires tem Ox, em vez de Cole tem Gibbs, em vez de Vieria tem Arteta, em vez Bergkamp tem Carzola e em vez de Henry tem Welbeck. Foi o Wenger que se tornou incompetente ou o plantel que piorou?
Wenger dantes era um bom treinador e um bom diretor desportivo (apostou em Bergkamp e Henry quando estes foram flops em Itália, viu o talento fantástico do Cesc aos 14 anos, etc.) agora é um bom treinador e um péssimo diretor desportivo.
Guilherme Silva
Esse equipa do Arsenal era qualquer coisa de extraordinário. A classe de Bergkamp era inigualável, e era um regalo vê-lo jogar e rever alguns vídeos no Youtube. Henry era o que toda a gente sabe, um jogador formidável, e Vieira era a pedra basilar da equipa e resumia na perfeição tudo o que um bom médio defensivo devia ser.
Falando no Arsenal actual, acho que o problema é maior que o modelo de jogo. Na minha óptica o ideal é uma mudança de paradigma, mas a começar no treinador. Não quero com isto dizer que Wenger não tenha capacidades para dar a volta à situação ou construir um modelo novo, apenas acho que o seu ciclo já devia ter encerrado à uns bons tempos pois já não tem a mínima margem de erro, a relação com os adeptos e com a direcção está desgastada pelos constantes falhanços, e mesmo os jogadores não devem confiar nele a 100% para rectificar o que está mal na equipa.
Como já se sabe, Klopp é o escolhido da maioria para o lugar de treinador. Talvez seja a melhor alternativa, mas também há outras bastante interessantes e vem-me logo à cabeça Roberto Martinez. Laudrup também fez um bom trabalho no Swansea, mas talvez não esteja bem cotado para assumir o comando da equipa. Entre Klopp e Martinez, gostava de ver um deles por lá.
Depois disso, teriam que haver 4 ou 5 adições essenciais ao plantel. Pelo menos um central (eu comprava 2 se pudesse), um médio defensivo puro, um ponta de lança de qualidade inegável e um médio que fizesse várias posições e fosse capaz de galgar vários metros em transição (Sissoko do Newcastle era a minha escolha). Se conseguissem Cech, o que eu duvido, era de aproveitar também.
Acho que assim e a juntar ao plantel que tem actualmente acredito que teriam condições para voltar a lutar por títulos e a ser mais respeitado, porque ultimamente ninguém leva os Gunners a sério e isso também mexe com os adeptos e com a moral da equipa.
Awesome_Mark
Gostei imenso.
Trouxeste-me uma enorme nostalgia,não exclusivamente pelo Arsenal,até pk nem sequer acompanhei essa equipa de 2003,mas tmb pelo Liverpool ou Manchester United que conseguiram por exemplo em 2005 e 2008 respetivamente ser campeões europeus,sendo que os reds e os guners tmb foram finalistas em 2006 e 2007.Eram equipas com uma matriz de jogo bem definida e que reproduziam uma mística hoje não mais sentida.A despedida do Fergunson,a insistência em fazer do Wenger um novo Fergunson e a saída de elementos fundamentais do Liverpool que não foram devidamente substituidos podem ser algumas das explicações.
Pelo contrário,emerge no país da velha majestade o poder de milhões com equipas,sem grande história,a preometerem hegemonia nos próximos tempos,como são caso o Chelsea e o City.O que eu vou dizer a seguir pode parecer cruel,mas dá-me uma sensação que o futebol inglês vendeu-se.
O mais triste disto tudo,é ver a desmorronar da força inglesa nas provas europeias.Só para se ter ideia,nas últimas 5 edições da Champions League,em 20 equipas apenas 3 inglesas estiveram em meias-finais(Man United em 2011 e Chelsea em 2012 e 2014) e em 10 apenas 2 em finais(Man United em 2011 e Chelsea em 2012) contando-se apenas um troféu.Alemanha e Espanha têm os melhores registos.
Pedro Ramos
Muito bom artigo Pedro.
Cumprimentos
Anónimo
Excelente artigo .
É completamente verdade , o Arsenal nesses tempos era fantástico e tinha aquele futebol direto fantástico que nos fazia ficar colados . Bons tempos de facto e que saudades deste trio que fazia jogadas que eram um hino ao futebol !
DS