Skip to content Skip to sidebar Skip to footer

A importância de Janeiro – casos práticos de 2022

O mundo do futebol dá uma atenção especial aos períodos de mercado de transferências. São diárias as presenças de alguns jogadores apontados a certo clubes na comunicação social. Quando fazem capa, deixam os adeptos ainda mais ansiosos pela confirmação e chegada do atleta. Naturalmente que o processo é muito mais longo do que o dia da transferência ou dias antecedentes, podendo até ter começado fora dos períodos estabelecidos. Ainda assim, a existência de um mês onde pode ocorrer movimentações de jogadores a meio da temporada, faz com que muitas pessoas “torçam o nariz”. Há várias razões apresentadas, ou seja, defeitos e desvantagens que este mercado exibe. Sérgio Conceição referiu que os jogadores ficam com mais ansiedade, além de ter perdido a sua jóia da coroa para a Premier League, criticando fortemente a gestão de transferências do clube. Arsène Wenger há uns anos queixava-se que somente as equipas em dificuldades atuavam neste mercado. Uma das justificações é a mesma de Conceição, os problemas que podem ocorrer no balneário. A outra é a questão da injustiça. Na época, o francês orientava o Arsenal e deu o exemplo de que o Newcastle (clube com muitos reforços em Janeiro de 2013) que alguns clubes iam defrontar era diferente do que muitas outras equipas já tinham encontrado nas jornadas anteriores, pois já se tinha reforçado com alguns nomes. Apesar de defender a supressão, o técnico francês propôs também uma limitação de contratação de dois jogadores.

O papel do primeiro mês do ano é fundamental para o presente e futuro de muitos clubes e jogadores. Naturalmente que o caso do Newcastle dessa época é algo raro, já que se tratou de uma remodelação para a temporada seguinte, além de ajudar na melhora dos resultados que se viviam pelo St. James Park. Sem embargo, a revolução num plantel é uma das possíveis missões de mercado de inverno. Mas existem outras mais importantes.

A fundamental (e que Wenger estará, à partida, de acordo pela limitação proposta) são os ajustes no plantel. A maioria dos adeptos e formações técnicas notam entre Setembro e Dezembro que falta algo à sua equipa como mais consistência defensiva ou um “abre latas”, por exemplo. Contratar dois ou três jogadores para melhorar a capacidade da equipa ou suplantar algumas baixas não me parece de todo um erro. Olhemos a um caso bastante conhecido em 2022. O Sporting CP trouxe dois jogadores para integrar o clube: Islam Slimani e Marcus Edwards. O primeiro veio para ser a sombra de Paulinho, na teoria, já que também pode ser o seu complemento. Estar mais meia época somente com o português para a posição 9 (natural) seria o mesmo que dizer adeus ao título, já que a produtividade do ex-SC Braga tem sido escassa e uma das suas missões é a concretização. Marcus Edwards veio para trazer alguma magia, sendo um upgrade a Bruno Tabata e Jovane Cabral (cuja vaga ocupou), a partir do banco de suplentes. Pode-se alegar que a sua transferência ocorreu para o preparar para substituir Pablo Sarabia, no entanto o inglês também conta para o momento, apenas não é um titular. Há vários casos no plantel leonino de jogadores que são fundamentais, ainda que estejam fora do 11.  Outra equipa que utilizou Janeiro para ajustar o seu plantel foi o Inter de Milão. Robin Gosens chegou para ser titularíssimo na ala esquerda e Felipe Caicedo para “fazer plantel” numa posição onde ocorria alguma escassez de opções com as suas caraterísticas.

Uma distinta postura neste mercado (acumulável com outras) que os clubes podem adotar é a tentativa de transferir jogadores que sairão a custo 0 dos seus quadros. Se deixarem a equipa em Janeiro ainda podem ganhar algum capital, muito inferior ao que poderiam faturar com uma venda em períodos anteriores. Exemplos principais de 2022? Jesús Corona do FC Porto e Denis Zakaria do Borussia Monchengladbach. Tratam-se de dois jogadores de qualidade, embora realizar a sua transferência tenha sido preferencial, na ótica dos seus dirigentes. No caso de Corona, num clube que passa por algumas dificuldades financeiras e com o jogador a render muito pouco no último meio ano, foi o melhor caminho. 3 milhões em Janeiro é melhor que 0 em Julho e provavelmente o destino do jogador seria o mesmo. Já Zakaria foi vendido por cerca de um terço do seu valor de mercado, o que aparenta ter sido um negócio genial, dadas as circunstâncias. Estes tipos de transferências são excelentes para o comprador, que adquire um ativo a um preço substancialmente menor. Para o vendedor não são tão agradáveis, mas tiveram uma margem temporal bastante grande para conseguir vender o jogador em outro período e evitar vendas tão curtas.

Uma das missões de Janeiro em certas instituições trata-se da colocação de jogadores excedentários. Na maioria dos plantéis existem certos elementos que não contribuíram o suficiente, por falta de qualidade ou porque simplesmente não contam para o treinador e não tiveram as oportunidades desejadas. É necessário distribuir esses atletas por onde eles possam render e justificar o seu salário. Aqui vemos uma nova oportunidade de negócio. Se no caso dos jogadores a custo 0, os referidos (e a maioria) foram para equipas de um patamar superior, neste caso o atleta tem que baixar o nível. Quer em empréstimos, quer em transferências em definitivo, esta razão para justificar movimentações no inverno tornou-se muito usual. A AS Roma de José Mourinho cedeu Gonzalo Villar e Borja Mayoral ao Getafe. Tratam-se de dois elementos com qualidade (encaixariam bem no futebol português), mas que para o português não passavam de reservas, enquanto que na equipa dos arredores de Madrid vão ser estrelas (na teoria, claro está). Dele Alli foi outro exemplo de mudança de patamar destas semanas de transferências. Estava claramente esgotado no Tottenham, não revelando ser o jogador que se augurava e rumou ao Everton onde, longe de casa, pode regressar às boas exibições e confirmar todas as expectativas. Se no caso dos espanhóis, a equipa da cidade da Loba ainda tem alguma esperança nos atletas (o problema neste momento não aparenta ser a instituição), já que ocorreu um duplo empréstimo, Alli saiu dos Spurs em definitivo porque não existe espaço para ele, nem agora nem no futuro próximo. Igualmente no norte de Londres, Bryan Gil aproveitou para regressar a Espanha para continuar a crescer, no entanto a realização da cedência ter sido apenas por empréstimo é sinal que em 2022/23, Conte está a contar com o jogador. Já se o “special one” sair de Roma, Mayoral e Villar podem voltar a ser felizes por lá…

O mercado de inverno pode ser terreno fértil a transferência com quantias elevadas. Não havendo espaço para as loucuras de Verão, onde a possibilidade de contratar uma estrela é bem maior, contratar uma ou outra jóia (principalmente para o futuro) não é de todo impossível. Seduzir um jogador de uma equipa com menos ambições é relativamente simples para os grandes clubes. A transferência de Dusan Vlahovic para a Juventus, a partir da Fiorentina foi a maior do mercado. 81,6 milhões de euros é algo irrecusável para os “viola” apesar da sua falta de gosto em negociar com os rivais. Para o sérvio a chegada a Turim representa a possibilidade de se tornar num dos maiores artilheiros do Calcio e ganhar vários títulos, se se mantiver pelo Piemonte durante alguns anos. Quem também faturou bastante foi o FC Porto com a saída de Luis Díaz, que tanto incómodo causou a Sérgio Conceição. O Liverpool pagou 45 milhões, bastante abaixo da cláusula, tendo o negócio sido considerado negativo por alguns analistas. Se Conceição pode queixar-se sobre este negócio? Obviamente que sim, era o melhor jogador do campeonato. No entanto há que ter atenção a dois fatores: as finanças (já referidas) dos dragões e a existência de um substituto no plantel. Perdeu-se Díaz mas já existia Pepê e passou-se a contar com Galeno. O colombiano é um jogador superior aos dois, mas era também o grande ativo portista e o timing para o vender era agora. O trabalho da equipa técnica é aproximar os seus sucessores, que foram bastante caros para a nossa realidade, da qualidade proporcionada pelo agora atleta dos “Reds”. A saída de jogadores com classe e qualidade do nosso campeonato para superiores é o “pão nosso de cada dia” e a sua substituição deve ser encarada como natural. Não temos (as instituições) condições de manter uma série de atletas a ganhar salários de Premier League. É algo impraticável e perigosíssimo para a saúde financeira dos clubes.

Por fim, há que referir a utilidade de Janeiro na reconstrução de um plantel. Se em 2013 o Newcastle conseguiu o objetivo da manutenção, bem pode agradecer aos reforços de inverno. Nove anos depois vemos equipas que necessitavam de fazer o mesmo e não o conseguiram. Com alguns clubes em crise, era obrigatório que estas começassem a mexer-se ativamente no mercado, mesmo que os frutos destas alterações no plantel somente surgissem em 2022/2023. Que exemplos podemos estudar? Ocorrem alguns na cabeça do leitor seguramente, mas há três que se realçaram pela negativa ou inércia. Começando pela forma negativa. O FC Barcelona olha para a formação como uma das soluções para ajudar o clube, no entanto há que ser acompanhada com contratações. Laporta trouxe quatro jogadores novos para o plantel. Um bom número para uma mudança, mas que se olharmos aos nomes e posições podemos não perceber o porquê de certas movimentações. Reforçar o ataque fazia algum sentido, com um ou dois nomes, acompanhados com a saída de jogadores “a mais” como Martin Braithwaite. Chegaram três jogadores para ocupar algum dos três lugares da frente. Ferrán Torres é a chegada que faz mais sentido, trata-se de um elemento jovem, presença assídua na sua seleção e com capacidade de fazer a diferença. Já Adama Traoré e principalmente Aubameyang deixam as suas dúvidas. Adama não casa totalmente no estilo do Barcelona, porém sendo um empréstimo pode-se considerar essencialmente uma boa oportunidade de mercado, sendo que obteve um bom arranque neste seu regresso. Já a chegada do internacional gabonês coloca algumas reticências. Não conseguia fazer a diferença no Arsenal, pelo menos como no passado, auferindo um salário principesco. Em Barcelona, onde alegadamente existem algumas dificuldades de inscrever jogadores pelo salário faz menos sentido, pese que poderá acrescentar algo mais do que certas peças que já estavam no plantel. Os Culés deveriam ter-se reforçado na defesa, essencialmente no centro. Dani Alves trouxe o espírito vencedor e relativa qualidade, mas não vai solucionar todos os problemas que ocorrem na parte recuada do terreno. É obrigatório investir muito forte em um, dois ou três elementos para acompanhar Ronald Araújo, porque Gerard Piqué já está debilitado e Clément Lenglet não apresenta a qualidade suficiente. Matthias Ginter ou Niklas Süle (já está confirmado no Dortmund, num excelente movimento) podiam ter saído dos seus clubes por maquias pequenas (se Monchengladbach ou Bayern permitissem as suas saídas no imediato) e teriam sido grandes oportunidades de mercado. Ainda que não sejam top na posição, dariam um upgrade na defesa catalã. Faltaram também saídas do Camp Nou de modo a entrar capital. Por fim os casos de inércia. Internacionalmente o maior exemplo é o do Manchester United, onde Ralph Rangnick não viu chegar nenhum jogador novo e perdeu por empréstimo Donny van de Beek, entre outros menos relevantes. Para os “Red Devils” regressarem de novo ao topo do futebol inglês e mundial precisam de mexer em algumas peças, trazendo qualidade e vendendo muitos ativos que notoriamente não renderam o pretendido, o que não aconteceu neste mês. A remodelação poderia ter começado no mês transato, de maneira a não “oferecer” mais pressão ao Verão. Rangnick deixará de ser o treinador, porém a sua influência será imensa.  Já ao nível nacional não se pode deixar passar em claro a situação do SL Benfica. Mais importante que contratar, era necessário deixar sair elementos. Pizzi outrora aplaudido à porta do Seixal acabou por ser cedido para a Turquia, assim como Gedson Fernandes, em definitivo, já fora da nossa janela de movimentações. No entanto faltaram nomes. André Almeida, Haris Seferovic, Adel Taarabt ou Gil Dias não contribuem o suficiente (ou não são regulares, principalmente no caso de Taarabt) e seriam facilmente substituídos por elementos mais baratos ou até mesmo da formação. A falta de mexidas levou os adeptos encarnados ao desespero, apesar de Nélson Veríssimo dizer que o plano tinha sido cumprido. Janeiro teria sido uma boa oportunidade para reduzir custos e encontrar agradáveis surpresas. No entanto foi preferível para a direção do SL Benfica seguir à risca o que Wenger havia dito há nove anos atrás. Óbvio que o problema do Benfica não se fica somente pelas fracas transferências, sendo bastante mais profundo.

Janeiro é um mercado decisivo para o resultado do fim dos campeonatos, podendo estar na contratação ou na venda de algum elemento a chave para um bom resultado. Além disto é o elo de ligação com os “mercados de transferências iniciais” de países com um calendário diferente, como ocorre no Brasil A sua extinção seria um erro, pois boas oportunidades de negócios iam ser perdidas, haveria mais jogadores parados no banco a auferir um salário muito elevado, e certos projetos estariam mortos em Dezembro. O mercado de inverno é uma chance para dar um “refresh” e em certos casos é um mercado de necessidade. Somente é irrelevante para quem manter a casa bem fechada.

Visão do Leitor: Ricardo Lopes

VM-Desporto
Author: VM-Desporto

3 Comentários

  • TOPPOGIGGIO
    Posted Fevereiro 23, 2022 at 11:56 pm

    Artigo interessante Ricardo e com o qual estou de acordo. Acho contudo que, embora os exemplos que apresentas o enriqueçam, tornaram-no também um bocadinho extenso e dá alguma preguiça de ler, daí o pessoal não ter comentado (acho eu), o que é pena, por ser relevante… Abraço e continuem o excelente trabalho :)

    • Ricardo Lopes
      Posted Fevereiro 24, 2022 at 9:27 am

      Obrigado pelo feedback. De facto quando publicado no site parece demasiado extenso, nomeadamente na versão para o telefone! A apresentação dos exemplos serve para exibir os casos práticos, embora me tenha estendido um pouco em demasia.

      • TOPPOGIGGIO
        Posted Fevereiro 24, 2022 at 1:34 pm

        Ora essa. Entendo os exemplos, perfeitamente, mas já sabes como a malta é para a leitura (eu também fui ganhando essa tendência) e “sem o colorido das imagens” o menino não come a sopa :) Abraço.

Deixa um comentário