Skip to content Skip to sidebar Skip to footer

A qualidade: a desculpa simples para a complexidade do processo

Com alguma frequência, dizemos ou ouvimos dizer que determinado jogador não tem qualidade. Que não deveria estar na equipa. Que não apresenta os atributos necessários para jogar em determinado clube. Para reconhecer qualidade a um jogador, tendemos a olhar para o nome das camisolas e logo aí definimos as nossas expectativas. No entanto, parece-me que avaliar o sucesso ou fracasso de uma equipa pela qualidade dos jogadores é altamente redutor. No rendimento de qualquer atleta existem diversas variáveis que influenciam. Nesta gestão existe um elemento fulcral: o treinador. O treinador deve e tem de ser o ponto de união e de maximização de rendimento de um atleta. Até ao ponto de interrupção do campeonato, não foram poucas as vezes que colocamos em questão a qualidade das equipas portuguesas. Sentia-se um enorme descontentamento relativamente ao nosso futebol.

Apesar desta tendência, não deixa de ser curioso que muitos dos grandes nomes que chegaram ao nosso campeonato, não demonstraram um impacto tão elevado. Imbula nunca conseguiu ser destaque, Raul de Tomas não apresentou nada de extraordinário, Facundo Ferreyra esteve longe de mostrar o que apresentou na Ucrânia. Se puxarmos a fita um pouco mais atrás vemos que estes apenas seguiram o caminho de nomes como: Adrian, Reyes, Suazo, Bueno, Balboa, Diego, entre muitos outros.

A comparação entre planteis é algo muito frequente. Quando sentimos alguma insatisfação com o rendimento do nosso clube, caímos muitas vezes na nostalgia, recuando até jogadores do passado que nos fazem suspirar. Contudo, até aqui podemos perceber que existem inúmeros exemplos que podem facilmente anular esta ideia. A nível internacional podemos olhar para a equipa do Mónaco de Leonardo Jardim de 2016/2017. Hoje dizemos que era uma grande equipa, recheada de grandes jogadores, mas na verdade em Agosto de 2016 poucos seriam aqueles que tinham o mesmo pensamento. Podemos olhar para o Ajax do ano passado e escalonando o 11 vemos que realmente havia um grande coletivo, mas quantos eram aqueles que em Agosto de 2018 viam no Ajax a mesma qualidade que hoje são capazes de ver? Muitos de nós reconhece o Liverpool como uma das melhores equipas do mundo, senão a melhor. No entanto, Klopp foi capaz de transformar jogadores como Wijnaldum, Robertson, Mane ou Arnold nos melhores do mundo na sua posição, sendo que estavam bem longe desse rendimento antes da chegada do Alemão. Recuemos um pouco mais ainda. Em 2008 um treinador inexperiente chega ao banco de um colosso e tem como primeiras opções riscar do plantel os dois melhores jogadores do clube. Hoje reconhecemos Xavi como um dos melhores jogadores espanhóis de sempre, no entanto em 2008 e já com 29 anos, estava bem longe desse reconhecimento.

Olhando para o panorama nacional podemos olhar para o Estoril de Marco Silva, o Paços de Paulo Fonseca, ou o Moreirense de Ivo Vieira. Hoje dizemos que Di Maria era um craque, Fábio Coentrão um enorme lateral, que Matic era um trinco de classe mundial ou que Bruno Fernandes é um jogador top mundial. Mas qual era o seu rendimento antes de serem trabalhados por Jorge Jesus? Hoje dizemos que Fernando era um grande trinco, Quaresma um dos mais habilidosos que já passaram por cá, Varela e Cissokho foram enormes achados ou que Hulk cabia em qualquer equipa do mundo, no entanto qual era o seu rendimento antes de serem trabalhados pelo Jesualdo Ferreira. Hoje dizemos que o F.C. Porto de 2004 tinha uma equipa magnífica, mas o que tinham rendido todos aqueles atletas até à chegada de Mourinho? No sentido oposto dizemos que o F.C. Porto de Paulo Fonseca era totalmente mediano. Mas voltamos às mesmas questões! Licá foi bode expiatório máximo da equipa, mas o que tinha mostrado antes de chegar ao Porto seria assim tão menos que Varela? Josué tinha feito campanhas assim tão piores que o Fernando Reges? O próprio Paulo Fonseca já reconheceu que a má passagem pelo clube nada teve que ver com a qualidade dos jogadores que dispunha.

No fundo, nós adeptos deixamo-nos levar em demasia por aquilo que vemos no jogo do fim de semana e quando as coisas não correm bem, procuramos respostas demasiado simples para problemas complexos. Parece-me que é caso para dizer que a qualidade é uma desculpa simples para a complexidade do processo.

Visão do Leitor: Santander

14 Comentários

  • Mantorras
    Posted Maio 12, 2020 at 8:14 am

    E sempre um misto. Por vezes pode nao ser uma questao de qualidade, mas de vontade do jogador, e se podemos dizer que o treinador tem que extrair o melhor do jogador, fazer o menino feliz, lidar com ele da melhor maneira, etc tambem e verdade que ha sempre responsabilidade dos jogadores e do colectivo. O colectivo, esse, nao e apenas a responsabilidade do treinador, depende doa colegas, depende por vezes da capacidade da direccao de dar ao treinador quem quer, etc.

    No geral, no entanto, a ideia esta correcta e tens toda a razao, embora talvez pouco aprofundada.

  • Flavio Trindade
    Posted Maio 12, 2020 at 12:17 am

    Percebo a intenção do texto mas discordo em grande parte porque a realidade não é assim tão linear.

    Seguindo esta lógica de raciocínio bastaria às equipas ter o melhor treinador para garantir títulos e isso está bem longe de ser verdade…

    Todos os treinadores precisam de alguns ingredientes para terem sucesso.

    E um desses ingredientes é tempo para poderem trabalhar as suas ideias. (Usando os exemplos citados no texto, Klopp é um destes casos. Um treinador que constrói equipas demolidoras mas que é mais efectivo quanto mais tempo possuir).

    O outro ingrediente é o treinador ter poder de decisão nas aquisições. Como é que um treinador pode ser responsável se raramente é ele que decide os jogadores a trabalhar?

    Isto em Portugal é paradigmático.

    Raros são os treinadores que têm esse poder de decisão (quase sempre do lado de directores desportivos de qualidade duvidosa, das direcções e de empresários), e raro é o treinador que tem tempo para colocar em prática o seu trabalho.

    Ora um dos exemplos citados encaixa perfeitamente nesta equação.

    Não teve tempo, nem foi ouvido ou achado na elaboração do plantel.

    Paulo Fonseca mostrou trabalho em Paços, em Braga, na Ucrânia e na Italia.
    No Porto foi-lhe dado um plantel a anos luz da qualidade de outros porque a soberba de Pinto da Costa achou que chegaria Licás e Josués para vencer o principal rival.

    O outro exemplo citado é o de JJ, enquanto potenciador de talentos como se isso fosse suficiente para ter sucesso.

    Potenciou Coentrão, Matic, Witsel? Verdade.
    Potenciou Bernardo ou Cancelo?

    JJ é potenciador de talento. Perdeu duas ligas para Vitor Pereira. O actual treinador do SIPG é melhor que Jesus então? Potenciou o plantel da melhor forma?

    Lá está. Percebo a lógica por detrás do texto mas está demasiado simplista e não leva em linha de conta as variáveis.

    A tempestade perfeita, quando um treinador encontra uma equipa em cujos jogadores acredita e cujos mesmos servem de imediato a sua ideia de jogo é uma raridade de acontecer.

  • Nazgul
    Posted Maio 11, 2020 at 6:14 pm

    Tendo ou não qualidade existem muitas nuances:

    1. Esforço do jogador
    2. Qualidade do jogador
    3. Treinador e Esquema tático da equipa (médios e avançados)
    4. Aposta do treinador/jogos feitos a titular
    5. Sorte de apanhar a equipa bem ou mal e lesões

    O Sérgio Conceição é péssimo a potenciar jogadores diria mesmo que ele só gosta daqueles jogadores já de meia idade 23/28 já praticamente feitos que sejam armários para por o pé e cavalos de corrida, formação ou jovens 0 tem medo!

    O lage acha que sabe muito de futebol, o homem tem muita teoria parece que jogou mil horas FM, mas depois na prática o Benfica joga 0, defende mal, não tem 1 bola parada treinada e o mais impressionante é que está em negação acha que joga bem quando joga miseravelmente e acha que todos os miúdos do Benfica são craques a insistência em Tomás Tavares ê do mais ridículo que já vi porque nem sequer se vê qualidades no miúdo!

  • Af2711
    Posted Maio 11, 2020 at 4:53 pm

    Para mim também depende do esforço que o jogador faz para aprender e se enquadrar naquilo que o treinador exige, e não creio que jogadores como Imbula tivessem apresentado isto. A componente psicológica de uma mudança de país também deve ser levada em conta, embora não seja tão salientada.
    Muitos dos jogadores que chegam em Portugal nunca haviam saído do país para jogar noutro clube. De qualquer forma, concordo que é muito simplista avaliar um jogador por um jogo mal conseguido. Há todo um contexto para que atletas consigam singrar, ou até para desempenhar um nível acima das suas capacidades.

  • AngeloGJ
    Posted Maio 11, 2020 at 4:41 pm

    Penso que este ano o fracasso que foram as campanhas europeias de Benfica e FCP e a pouca valorizacao dos jogadores em Portugal deveu-se a falta de qualidade dos treinadores, ja o disse e repito, quer Bruno Lage quer SC sao treinadores cuja mestria esta apenas em organizar as suas equipas quando nos grandes exige-se alem de qualidade extra ordinaria que se seja professor, e nao é a idade que os faz ser limitados na “arte” de desenvolver atletas, porque Naglesman com 32 anos esta a ser “professor” em Leipzg, falta-lhes e possivelmente vai lhes sempre faltar esta caracterisitica essencial no futebol, porque certamente que jogadores como: Ferro, Grimaldo (uma auto estrada quase vazia a defender), Weigl, Florentino, Jota, Rafa, Zivkovic e ate Carlos Vinicius teem muito mais para render no Benfica do que ja mostraram, assim como: Mbemba, Leite, Loum, Uribe, Otavio, Baró, Luis Diaz, Nakajima e ate Ze Luis teem igualmente muito mais para render no FCP do que ja mostraram, concordo com o ponto do Santander em que o treinador pode fazer de jogadores com potencial, certezas, pessoalmente penso que quer Lage quer SC ja deram a Benfica e FCP tudo que podiam dar, mas como em Portugal por norma, mudancas so acontecem por motivos de forca maior e o Corona virus veio aliviar a pressao sobre ambos, penso que a viver do quase vai continuar a ser realidade

  • Kacal
    Posted Maio 11, 2020 at 2:21 pm

    Por vezes o plantel é limitado, outras vezes é o treinador que não tem “mãos para a guitarra” e outras é uma junção dos dois. Seja como for, um treinador só pode potenciar aquilo que tem qualidade. Fernando e Hulk eram jogadores com potencial, Jesualdo fez deles grandes jogadores. Josué e Licá nunca vi qualidades neles para serem acima da média. Acredito que Paulo Fonseca pudesse retirar um pouco mais deles, mas não ia conseguir extrair muito mais. Hulk teve um rendimento muito bom no Japão, por exemplo. Mas sim, há que ter bom senso e saber equilibrar a nossa opinião, mas somos todos treinadores de bancada, uns que percebem mais que outros e uns que têm mais ponderação e bom senso que outros, mas somos. Mas compreendo de certa forma a visão do post.

  • Giuseppe F
    Posted Maio 11, 2020 at 12:52 pm

    Bom, canso-me de dizer que, no caso do meu clube, enquando se colocar a ênfase nos jogadores, o problema maior subsiste: a ocupação de altos cargos por gente incompetente ou com outros interesses que não os do clube. Aliás, acho uma mistura dos dois. Eu tenho plena convicçao que se o Benfica trocasse de plantel com o Sporting, o Benfica continuava a lutar pelo título e o Sporting pelo 3º lugar com o Braga (que é uma tristeza, mas é o que é).

    O trabalho de quem lidera é muito importante e isso relfete-se em toda a socidade. Um ministro não sabe plantar batatas, mas sabe desenhar um quadro legisativo favorável à agricultura. Um Presidente (bem sei que o post é sobre treinaodres, mas já agora alargo-o à estrutura) não sabe assistir, desarmar ou finalizar, mas sabe desenhar uma estratégia que permita ao treinador potenciar os seus recursos e atingir o sucesso.

    Há 18 anos que o Sporting não é campeão. Nesse tempo já tivemos equipas boas e equipas más, treinadores bons e treinadores maus, o que sempre ficou foi a incomptetência das sucessivas direções e seus tentáculos.

    SL

    • JoaoMiguel96
      Posted Maio 11, 2020 at 3:18 pm

      Completamente de acordo, Giuseppe F.

      Já venho dizendo há algum tempo e, por exemplo, o Campeonato da primeira época de JJ é um reflexo temendo disso.

  • André Dias
    Posted Maio 11, 2020 at 12:19 pm

    Há alguns exageros no texto mas percebo o ponto que o Santander quis passar.

    Há a desculpa simples mas também se verifica o elogio simples. Quando as coisas correm bem é fácil olhar para o plantel e desvalorizar o trabalho do treinador ou valorizar imenso o treinador e ignorar a qualidade que tinha à sua disposição. É complicado achar ali um meio termo.

    É futebol, está sempre sujeito a uma análise subjectiva e parcial. Não é fácil encontrar opiniões ponderadas quando o assunto é algo que provoca paixões e ódios com uma facilidade tremenda.

    E também há que ter em conta que a maioria dos adeptos não compreende o jogo como um profissional. É natural ser simples na sua análise. Eu adorava entender e descrever um jogo com a mesma facilidade de Guardiola mas infelizmente não tenho essa capacidade e limito-me a opinar da melhor forma que sei.

  • E o que temos
    Posted Maio 11, 2020 at 12:02 pm

    Entendo a visão do texto mas acho que é uma opinião consensual que o lage tem sido um dos principais problemas no benfica pela falta de lá está, potenciar jogadores.

    • Boris Yeltsin
      Posted Maio 11, 2020 at 4:06 pm

      Pensei que tinha sido o Lage o grande potenciador de jogadores como Félix, Taarabt ou Gabriel?
      A linha entre bestial e besta é mesmo muito ténue.

    • Boris Yeltsin
      Posted Maio 11, 2020 at 2:53 pm

      Então mas não tinha sido o Lage a saber potenciar o Félix, Taraabt e Gabriel? A linha entre bestial e besta é mesmo muito ténue.

Deixa um comentário