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A Superliga: Do Sonho à Realidade

A aclamada série “Pro Evolution Soccer”, esse extraordinário fenómeno cultural geracional e global, passou, em finais da década de noventa, a oferecer aos seus já incontáveis e apaixonados fãs uma aventura invulgar: permitia-se ao utilizador participar numa liga composta somente pelas melhores equipas do planeta, ainda que se visse obrigado (inicialmente) a tomar as rédeas de um plantel de inesquecíveis mas fraquinhos futebolistas fictícios de trazer por casa, dos Minandas aos Castolos – autênticas lendas virtuais; e que, como de costume, jogadores e equipas aparecessem munidos de estranhas designações: dos caricatos Roberto Larcos, Fegos e Ronnaldos aos inenarráveis Trad Bricks, Rekordmeister e Navarra (que correspondia, por um qualquer imperscrutável motivo, ao Real – não de Navarra, mas de Madrid!…). Esta “Master League”, qual NBA do futebol, cedo conquistou o público: não apenas à conta do imorredoiro charme (arque)típico do underdog, esse que era eximiamente representado por essa lendária equipa de (in)autênticos proscritos das quatro linhas virtuais, mas também pela, conquanto singela, em igual medida atraente proposta desportiva. Eis uma electrizante jornada baseada exclusivamente em constantes derbies; eis um palco apenas pisado pelos mais distintos praticantes da modalidade; eis uma oferta que resumia a arte do jogo bonito num explosivo cocktail – ante o qual ninguém ficou indiferente. Se o eterno rival FIFA também por essa altura experimentou concretizar este sonho através da sua “European Dream League”, foi a versão de Pro Evolution que definitivamente venceu, tendo-se implantado firmemente no consciente futebolístico moderno. Por lá se conservaria durante vinte anos; mas curiosamente, sem quiçá ter sido uma mera coincidência, foi precisamente ao desviar-se do original e conquistador modelo dessa Master League que a série japonesa decaiu e degenerou: transformara-se esse modo de jogo, da competição dedicada apenas aos melhores que originalmente havia sido, numa reprodução do contexto futebolístico real à base de campeonatos nacionais e competições continentais. Foi o futebol virtual a fazer o caminho inverso do real. O sonho do Olimpo do desporto-rei parece extinguir-se. Adiante, todavia, se veria que se quedou apenas dormente.

Anos mais tarde, já no início da década de 2010, tentar-se-ia recuperá-lo. Por muito que os jogos de futebol dominantes tivessem querido perpetuar a popularidade do real formato da modalidade, brotava a vertente online – que serviu de oportunidade para novamente se rejeitar liminarmente essa tradicional perspectiva, porquanto os milhões de jogadores que entre si se digladiavam nessa nova plataforma interactiva tendiam, invariavelmente, a defender as cores das melhores e mais populares equipas do mundo – sacrificando todas as outras. Competitividade, a quanto obrigas! Notando tal evidência, logo se desenvolve a mesma componente online de acordo com essa extraordinária popularidade dos melhores intervenientes e conjuntos, essa que crescia agora não só, como habitual, no plano real, mas também no cada vez mais importante plano virtual. Permite-se então a compra, venda e troca de jogadores num âmbito alimentado por fenómenos marcantes como o “Ultimate Team” da série FIFA; e se a missão dos jogadores da antiga Master League fora a de compor um plantel de estrelas para poder competir com as demais poderosíssimas equipas da sua divisão, a dos modernos fãs era ainda a de formar um conjunto o mais competitivo possível, para tal, como sucedia há duas décadas atrás, adquirindo os melhores futebolistas: diferia apenas o facto de se multiplicarem essas super-equipas pelas de milhões de jogadores espalhados pelo mundo que todos os dias disputavam entre si partidas e competições. Nunca foi, como é hoje em plena era dos eSports, tão óbvia essa tendência para a elitização do futebol – perpetrada e alimentada precisamente pelos próprios aficionados. 

Se nos é possível discernir no plano virtual uma certa preparação, nas últimas décadas, da consciência futebolística dos mais jovens adeptos para uma transformação da realidade desportiva, no mundo para além do das consolas, o real, a própria evolução do desporto muito também terá contribuído. Degradaram-se paulatinamente os contextos futebolísticos nacionais principalmente por meio de políticas desportivas liberais – que escancararam a porta ao domínio das potências financeiras; resultou disso a expansão da clivagem entre abastados e pobres: e desvirtuam-se, assim, as competições; o desequilíbrio é tal que hoje assistimos constantemente a encontros entre conjuntos cujos orçamentos e possibilidades são, e cada vez mais, perfeitamente incomparáveis. Tentou o futebol sobreviver no seu formato original e, simultaneamente, render-se à sua própria modernização, sem com isso se desfazer das suas raízes – nem perder o comboio dos tempos. Já dizia o outro que não é possível “servir a dois senhores”: e a actual crise por que passa o desporto-rei (que é profunda precisamente por atingir a própria raiz) representa o clímax da narrativa do seu declínio – o futebol vê-se, ora, obrigado a escolher entre estes dois caminhos, não sendo já possível segui-los aos dois ao mesmo tempo. 

Propôs-se então uma solução, parcial embora, para este problema: recupera-se, pois, uma ideia que pelo menos nas últimas duas décadas se alimentou com bastante sucesso no plano virtual, e que provavelmente nunca terá abandonado o (in)consciente desportivo – prova disso é a real conquista do desporto americano no século passado, que concretizou exemplarmente essa ideia. Em suma, propõe-se uma “Master League”. A Superliga é o pináculo do capitalismo futebolístico; é o corte total com as suas raízes; é o sonho, antes meramente virtual, tornado realidade. Diga-se, todavia, que sendo os sonhos ainda tão misteriosos e por nós incompreendidos, quiçá sonhos sejam precisamente por não estarem destinados a serem concretizados. A primeira vaga da tentativa de popularização da Superliga chocou de frente com o natural conservadorismo das gentes; ter-se-á julgado que o impacto cultural do futebol virtual já havia moldado o bastante a mundividência dos adeptos. Não se terá tido em conta, porém, a ainda mais anciã e enraizada cultura futebolística, essa que se firma nas próprias origens da modalidade – e que afinal o sonho do futebol virtual não logrou, pelo menos por enquanto, derrotar completamente. Mas será ela sequer derrotável, não obstante o seu profundo e já demorado declínio, a (clássica) tentação da imitação dos americanos, e essa influência sempre crescente dos videojogos? Parece provável que o conluio destes factores logre o impensável – não a curto-prazo, mas assim que se tornar intolerável a clivagem entre os poucos grandes e os muitos pequenos, que se convencer realmente as gentes dos méritos dos sistemas americanos, e que passem a compor a maior fatia de adeptos deste desporto os que experienciaram apaixonadamente o mundo virtual das últimas décadas nas quatro linhas de consola. São esses, afinal, os que, tendo vivido a glória da “Master League” da sua infância e adolescência, mais facilmente anuirão ao seu ressurgimento – enquanto realidade com que tanto sonharam.

Visão do Leitor: Miguel S. Rodrigues

2 Comentários

  • Santander
    Posted Fevereiro 15, 2023 at 11:21 am

    Já tive a oportunidade de me pronunciar sobre este mesmo assunto, num outro Post.. Para mim, esta ideia da superliga é a que faz mais sentido, mas sempre em substituição dos campeonatos nacionais, de resto tal como aponta o texto são mesmo estes campeonatos nacionais que têm perdido cada vez mais fulgor… Para o adepto comum seria muito mais interessante ver um Real-City, ou Real-Bayern, do que ver um Real-Elche, ou um Bayern-Bochum… E isto é só o correr natural das coisas.. Da mesma maneira que dos primórdios do futebol e dos torneios e campeonatos regionais se criaram ligas nacionais.. Neste momento, o futebol nacional atingiu uma monotonia tal, que já se consegue antever com relativa facilidade (mais nuns países do que outros) quem será o top-5/6, sendo a única excepção a Premier, que é cada vez mais uma superliga europeia, sem que lhe seja dada esse nome (e curiosamente a Premier já criou um documento onde proíbe equipas inglesas de se junatrem a tal projeto, pois sabem na verdade que iriam perder muita força e pujança)…

    Tal como tive oportunidade de dizer, penso que o melhor caminho para o futebol é criar 4/5 divisões europeias e passar os campeonatos nacionais para a lógica que existe hoje do distrital em relação ao nacional, criando posteriormente um Play-Off e onde 5/6 equipas provenientes dos campeonatos nacionais, pudessem aceder à última divisão europeia..

  • Christian "Chucho" Benítez
    Posted Fevereiro 14, 2023 at 3:57 pm

    Excelente texto, Miguel S. Rodrigues.

    Por falar em ‘Pro Evolution Soccer’, eu ainda sou do tempo do seu antepassado, o velhinho International Superstar Soccer Pro que muito joguei na minha sempre fantástica PlayStation 1. Era um jogo só de seleções nacionais e cujos nomes fictícios dos jogadores correspondiam aos reais jogadores. Depois de alguma pesquisa feita há alguns anos lembro-me de alguns nomes que me ficaram na memória (partilharei aqui alguns nomes ?):

    • Fuerte (Argentina) – Claudio Caniggia
    • Pardilla (Brasil) – Mauro Silva
    • Allejo (Brasil) – Bebeto
    • Gomez (Brasil) – Romário
    • Kostov (Bulgária) – Yordan Letchkov
    • Murillo (Colômbia) – Carlos Valderrama
    • Dubois (França) – Djorkaeff
    • Passaro (Itália) – Roberto Donadoni
    • Coliuto (Itália) – Pierluigi Casiraghi
    • Carboni (Itália) – Fabrizio Ravanelli
    • Matoso (Portugal) – Domingos Paciência
    • Paz (Portugal) – Luís Figo
    • Felix (Portugal) – Paulinho Santos
    • Duarte (Portugal) – Rui Costa
    • Ribeiro (Portugal) – Vítor Baía
    • Jenkins (País de Gales) – Ian Rush

    Em relação à Superliga Europeia, espero que os clubes avancem com a competição, mas que não seja uma competição fechada mas, sim, por divisões e com subidas e descidas. A criação da Superliga Europeia foi, muito provavelmente, a melhor ideia que saiu do Florentino Pérez e de Agnelli.

    Saudações Leoninas ?

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