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A Velocidade da Luz, a Lira Turca e a Insustentável Leveza do Frete

Dizem que quem corre por gosto não cansa, mas o Rafa deve ter uma interpretação muito própria desse ditado, provavelmente escrita em letras miudinhas no contrato. As notícias que nos chegam do Bósforo trazem o eco de um amuo milionário, mas servem, acima de tudo, para nos avivar a memória de um dos maiores paradoxos com pernas que já pisou os relvados da Luz.

Ainda está gravada na retina de todos nós aquele golo, que serve de prólogo perfeito para esta novela turca: Rafa a pegar na bola ainda no seu código postal, a ligar os motores daquele Ferrari que tem nos pés e a deixar todos os adversários para trás como se fossem pinos de sinalização numa autoestrada deserta. O estádio veio abaixo, o mundo do futebol aplaudiu de pé. E quando a bola beijou a rede, o que fez o Rafa? Festejou? Rasgou a camisola? Não. É a imagem de marca do “fenómeno”: genialidade nos pés, tédio na alma. Aquele golo soberbo, de uma baliza à outra, merecia fogo-de-artifício, mas teve direito apenas à cara de tédio de quem acabou de perceber que se esqueceu de descongelar o frango para o jantar. Era o prenúncio de tudo o que veríamos: uma jogador genial, refém de uma alma que encara o futebol como um frete de luxo.

E agora, lá está ele na Turquia, no Besiktas, onde foi ganhar o tal balúrdio que o Rui Costa não conseguiu cobrir. O nosso Rui bem tentou, suou as estopinhas, quase vendeu um rim do Benfica para o manter, mas o Rafa ouviu o canto da sereia (ou o canto da lira turca) e lá foi. Fez uma época estratosférica no último ano no Benfica – 22 golos, 15 assistências – carregando o Benfica às costas quando quis, e começou na Turquia a partir a loiça toda. Mas eis que chegamos ao presente, e o filme repete-se, agora com legendas em turco.

Dizem que lhe doem as costas. Ai, as costas. A medicina moderna, com todas as suas ressonâncias e máquinas que fazem “ping”, não encontra nada. Mas o Rafa diz que dói. E se o Rafa diz que dói, o Besiktas que se aguente. É a “lesão diplomática”, a velha tática do “não me apetece e quero ir embora”. Está amuado, não treina, e já mandou o empresário avisar que quer sair. É o futebol moderno no seu esplendor: assinam contratos milionários, beijam o símbolo na apresentação e, seis meses depois, lembram-se que têm saudades do bacalhau ou que o trânsito em Istambul é chato.

Olhamos para o lado e vimos o mesmo circo. O Gyökeres, ali no rival da Segunda Circular, também fez as suas birras de verão, apagou o Sporting do Instagram (ui, que medo!), falhou treinos, tudo porque achava que valia mais ou menos, numa dança de milhões que envergonha quem trabalha das nove às cinco. O Alexander Isak, no Newcastle, a mesma cantiga. São os novos mercenários de luxo, meninos mimados que acham que um contrato é apenas uma sugestão, um papel higiénico glorificado. O clube que paga? Que se lixe. O adepto que compra a camisola? É paisagem.
E agora fala-se no regresso. O Benfica, esse colosso que é maior que qualquer jogador (e que o Rafa, convém lembrar), olha de esguelha. O Rafa quer voltar? Pudera! Mas só a custo zero, dizem as más línguas. O Besiktas quer 15 milhões. O Rafa diz que perdoa salários. E nisto, surge a ameaça nuclear: “Ah, se não me deixarem sair, deixo o futebol!”.

Calma lá, ó reformado precoce. A FIFA, essa organização que de santa não tem nada, tem regras para estas chico-espertices. Se o Rafa rescindisse unilateralmente alegando “reforma” e depois, passados dois meses, aparecesse fresco e fofo a assinar pelo Benfica (ou outro qualquer), o Besiktas caía-lhe em cima com a força de um camião TIR. A FIFA protege o contrato: se te retiras, ficas impedido de jogar profissionalmente durante o tempo que duraria o teu contrato original, ou então o novo clube tem de pagar uma indemnização que faria o Estádio da Luz penhorar as águias. Não há almoços grátis, nem reformas de brincar.

É uma pena, uma tragédia grega vestida de equipamento de futebol. O Rafa tinha tudo. Tinha a velocidade, o drible, a visão. Podia ter sido de nível mundial, podia ter sido lenda. Mas faltou-lhe sempre aquilo que separa os bons dos imortais: a cabeça. A mentalidade competitiva de quem quer comer a relva. O Rafa joga como quem faz um frete de luxo.

Onde encaixava no Benfica de hoje? Em todo o lado e em lado nenhum. O talento dele entrava de caras, a jogar solto atrás do ponta de lança, a partir os rins aos defesas da nossa Liga. Mas a atitude? Essa atitude de “menino que o dono da bola não deixa jogar” é tóxica. Um clube como o Benfica precisa de guerreiros, não de artistas que só pintam quando lhes apetece e que fingem dores nas costas quando a vida aperta.

É urgente que a FIFA, os clubes, que alguém ponha mão nisto. Não se pode permitir que jogadores usem os clubes como hotéis de luxo onde fazem check-out quando lhes dá na real gana. O Rafa é um desperdício de talento que dói na alma de quem ama o futebol. Podia ser tudo. Escolheu ser rico e amuado. Que seja feliz com os seus milhões, mas que não venha pedir colo a quem ele trocou por um cheque mais gordo. O Benfica é gigante, sempre foi e sempre será, com ou sem Rafas. E se ele voltar? Que venha. Mas que venha para correr, e não para nos fazer correr atrás dele. E se marcar aquele golo de uma ponta à outra, por favor, ao menos que sorria. É que nós, cá na bancada, pagamos bilhete para ver alegria, não para ver um génio deprimido.

Valter Batista

10 Comentários

  • Canutinho
    Posted Novembro 29, 2025 at 2:40 am

    EXCELENTE texto, Valter!!! Humor e seriedade! Parabéns

  • Pao com Presunto
    Posted Novembro 28, 2025 at 9:56 pm

    Pode ser uma opinião pouco popular, mas aqui vai: Rafa não é, nunca foi, propriamente muito talentoso. Usa bem a sua velocidade, que em Portugal fazia a diferença, e pouco mais. Não é jogador de fintinhas ou de passes com régua e esquadro, por exemplo. Mesmo no remate, não me parece que seja potente como um Cardozo ou colocado como um Pote.

    • Petrol
      Posted Novembro 30, 2025 at 1:55 pm

      É rápido. Tem grande capacidade de progressão com bola. Juntou golos ao seu futebol mesmo não sendo exímio nesse capítulo. Não sendo um portento em tudo o resto, fazia a diferença no nosso campeonato. Concordo que não é um predestinado.

    • Honestly II
      Posted Novembro 30, 2025 at 6:47 am

      Concordo

  • DNowitzki
    Posted Novembro 28, 2025 at 9:06 pm

    1. O Rafael fez finca pé em deixar o Benfica sem qualquer retorno financeiro.

    2. O Rafael foi acusado de, juntamente com o Luís pizas e o André Almeida, ter feito ao cama ao Lage, que, como membro ilustre do Bananismo, já desmentiu tudo há uns tempos. Ninguém sabe exatamente o que se passou, porém onde há fumo há fogo, etc. e tal, no entanto, não deixa de ser curioso que o nosso Rafa esteja em rutura com o treinador e seja essa a causa desta novela.

    3. O que o Rafael tem estado a fazer é de um profissional? O que o Rafael fez quando, com todo o direito, deixou o Benfica a ver navios possibilita o seu retorno? Não fez nada de errado ou criminoso, note-se, porém por que razão haveria o Benfica de ir buscar alguém que esteve a defecar nele há uma dúzia e meia de meses?

    4. O Rafael tem 32 anos, salvo erro, ou está a caminho disso. Mantém os vícios de sempre e perdeu muito do que o levava a destacar-se. O Benfica não vai ter qualquer retorno financeiro no futuro… previsível. Tem um salário de 9 milhões de euros mensais. É mau profissional. É suspeito de fazer a cama a treinadores.

    5. Em suma, poupem-me! Longe, muito longe da Luz,mas já se sabe que, no reino do Bananismo, tudo é extremamente relativo.

  • ManuelFAlbuquerque_
    Posted Novembro 28, 2025 at 1:15 pm

    Os dois jogadores turcos fazem falta a este Benfica.
    O Aktur trabalhava e tinha golo apesar de não ser um primor na definição.
    O kok sabia o que fazer com a bola, tem boa técnica, bom passe e bom remate.
    Não desarma nem tem perfil para roubar bolas. E então?
    Neste momento o Benfica não tem um extremo com golo e trabalho nem tem um médio assim tão forte com bola. Sudakov ganharia muito com um jogador como o Kok porque lhe iria retirar pressão de ser a peça mais criativa, ele precisa de liberdade e de ajuda nesse capítulo. É bastante jovem.
    Neste momento o Benfica não tem um jogador que faça a diferença criativa no meio e mesmo o Rios têm falhado com bola.
    Diria que bastaria a Rios estar a jogar como o nórdico do Porto para a equipa estar muito melhor. Falta acerto.
    Rafa ainda é um bom jogador, mas acho que o Benfica não deve entrar em loucuras.

    • Honestly II
      Posted Novembro 28, 2025 at 2:03 pm

      Mas o kokcu não jogava apenas e só naquele metro quadrado que por acaso joga o sudakov? Como é que lhe retirava a pressão? Só se fosse de não jogar por estar o outro a titular.. a 8 sempre se mostrou curto devido ao curto raio de ação e a 6 então foi um desastre já que era longe de onde poderia jogar melhor, no último terço.
      Rios nunca foi um portento com a bola no pé. No entanto acredito que valha mais que isto que tem mostrado. Mas parece que a bola pica as vezes.
      Quanto ao Rafa estou de acordo ctg. Não tenho acompanhado a liga turca mas duvido que a qualidade mais determinante dele, a velocidade, esteja ainda intacta, pelo que, a não ser que seja pedido do treinador, um negócio pouco favorável

  • Honestly II
    Posted Novembro 28, 2025 at 12:58 pm

    “o nosso Rui bem tentou”…
    Talvez em vez de investir 25+5 milhões num koça o cu, talvez algum desse dinheiro daria para o manter cá. Se foi para lá por dinheiro, isso,supostamente, nunca faltou para esses lados. Talvez então não tenha sido (só) isso

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