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As SAF – O grande trunfo brasileiro na aproximação à Europa

Imagem: Lance

A chegada das Sociedades Anónimas do Futebol é uma novidade no futebol brasileiro a partir de 2022. A ideia já tinha sido proposta em 2018, através do Botafogo Futebol e Regatas. O modelo tinha (e tem) como missão uma melhor gestão da secção futebolística dos clubes. A partir do momento em que SAF é formada, o clube transforma-se numa empresa, ainda que somente na área do futebol, tal como acontece nas SAD’s. Este modelo permite que a direção da instituição comece a procurar investidores, com o objetivo de terem a maioria do capital. Basicamente estão à procura de um “dono” para o clube-empresa. Isto traz inúmeras vantagens no Brasil, já que o regime de tributação fica bem mais claro, os prazos de pagamento tornam-se melhores e o investimento realizado prevê uma redução do fosso para os europeus. A criação de uma SAF é mais vantajosa para os clubes com uma dívida bastante elevada, podendo tornar-se uma realidade para as equipas médias do futebol brasileiro (com menos dívida que os gigantes), caso o fenómeno seja positivo nas já existentes. Se as equipas com menos dívida verificarem que o comportamento foi bastante positivo podem aderir à “moda”. São diárias as notícias de possíveis realizações de Assembleias Gerais para estudar a possibilidade e mesmo em equipas bastante distantes da Série A, como a Associação Portuguesa dos Desportos, o nascimento de uma SAF pode virar realidade.

Há três casos que são uma realidade. O Botafogo, o Cruzeiro Esporte Clube e o Club de Regatas Vasco da Gama, clubes que tinham dívidas elevadíssimas, passaram a contar com uma SAF, que naturalmente tem um dono (maioritário na SAF, mas sem os 100%). Os de Belo Horizonte contam com Ronaldo Nazário (90%) como seu grande investidor. John Textor (90%) assumiu o controlo da “Estrela Solitária”. Já o “Cruz- Maltino” tem na empresa 777Partners (70%), a principal interessada, com o negócio quase 100% concluído. Nos dois casos já plenamente formados, o trabalho realizado é bastante satisfatório. São clubes históricos longe do seu auge, mas que se movimentaram com muito mais qualidade do que no passado, mostrando que Ronaldo e Textor (e suas respetivas equipas) têm uma visão do futebol diferenciada dos seus antecessores. Há um investimento elevado, mas com consciência e paciência, porque não será em um ano ou dois que vão atingir o topo. Antes da chegada dos “messias”, estas equipas estavam ainda mais atrasadas em relação a outras no futebol brasileiro. SE Palmeiras, CR Flamengo e Clube Atlético Mineiro representam bons exemplos, com frutos da boa gestão. O Palmeiras, com Leila Pereira (agora Presidente) e a Crefisa a fornecer capital já venceu duas Libertadores recentemente, enquanto que o “Galo” ganhou o último campeonato com uma equipa brilhantemente montada, com os 4R’s a contribuírem para a causa. A própria MRV é a responsável pela construção do novo estádio, dando a Rubens Menin um maior destaque. A boa gestão dos três clubes, que aparentam ser os mais próximos de conquistar o título, tem que servir de inspiração para os demais. Não se pode descartar a criação de SAF’s nestas instituições, pois as dívidas são elevadas, mas para já vão resistindo.

Verifiquemos o que ocorreu em Botafogo e Cruzeiro. Começando pela equipa da Série A, o “Glorioso” contratou um treinador novo e recheou o plantel com jogadores de qualidade, além de alterações no departamento de futebol. Luís de Castro sucedeu a Enderson Moreira, após o trabalho positivo do brasileiro em 2021. O português é um claro upgrade, sendo um dos melhores treinadores do Brasileirão, com caraterísticas que agradam a John Textor, nomeadamente o seu bom trabalho com jovens. Sendo o Botafogo uma das melhores academias de formação do país, faz sentido um treinador que lance os jovens na equipa A. Textor investiu igualmente em jogadores para fazer crescer o projeto, com mais experiência. Foram gastos cerca de 12 milhões de euros para trazer elementos como Patrick de Paula, Gustavo Sauer, Philipe Sampaio, Lucas Piazon, Victor Sá, Tchê Tchê entre outros. Com estas chegadas, o 11 da equipa mudou substancialmente, se tivermos em comparação 2021, oferecendo mais qualidade. Muitos reforços são oriundos da Europa, o que mostra uma evolução no trabalho de mercado realizado, atraindo jogadores que estavam em boas ligas e equipas (Sauer era uma das estrelas do Boavista FC, por exemplo) de volta ao país, para um clube que não está nas competições internacionais. Mesmo Patrick de Paula, que apesar de não ser titular no Palmeiras, tem um potencial gigantesco, tendo sido já apontado ao SL Benfica, por exemplo. Para que estes nomes tenham aceitado ingressar no Botafogo, é porque o projeto é de excelência e tem uma margem de crescimento enorme.
Na Série B, o Cruzeiro é um dos candidatos à subida. Foi um choque a sua descida em 2019, já que era um dos clubes que pertencia ao restrito grupo de clubes que somente tinham jogado a Série A: Santos FC, Flamengo e São Paulo FC, atualmente. 2020 e 2021 foram anos fracos para a “Raposa”, nunca conseguindo afirmar-se como candidatos à subida. No entanto, com a chegada de Ronaldo à liderança da SAF, a esperança dos adeptos aumentou. Não pode existir um investimento como o de Textor, mas há uma noção de gestão bem mais elevada do que existia antes. A contenção de gastos é uma realidade, havendo rigor e critério nas entradas e saídas. Foram travadas certas contratações de jogadores, como Maicon ou Sidnei, assim como na estrutura, sendo o caso Alexandre Mattos o descarte importante. Ronaldo optou por um treinador estrangeiro, Paulo Pezzolano, que optou por abandonar o CF Pachuca, e por contratar jogadores com experiência na Série B, como o caso de Pedro Castro que fez um bom trabalho no meio campo do Botafogo, ou Edu, oriundo do Brusque FC, onde foi o melhor marcador do campeonato em 2021. O projeto do clube de Minas Gerais tem mais complexidades que o do Rio de Janeiro porque começa um passo atrás. Além disso Textor é um milionário e Ronaldo Nazário tem menos posses que o estado-unidense.

O grande objetivo da criação das SAF é tornar o futebol brasileiro mais atrativo. Nem todos os jogadores querem ir para o Brasil, mesmo que sejam dessa nacionalidade. Com um investimento forte nos clubes para os aproximar da realidade europeia, certos regressos podem ser uma realidade. Mesmo os jogadores estrangeiros, especialmente os sul-americanos podem ver na Série A bons clubes para seguirem as suas carreiras (mesmo com o limite máximo de cinco jogadores de fora a serem convocados). No fundo, os resultados no seu todo são a longo prazo. O primeiro passo é verificar o sucesso de Botafogo e Cruzeiro (além do Vasco da Gama, onde a SAF está a dar passinhos de bebé), para que outras equipas sigam o mesmo caminho, com mais ou menos dívida. Isto será um processo de vários anos, ainda que existam muitos investidores interessados em clubes da Série A e B. Um ponto interessante é a possibilidade de mudanças no paradigma interno. Se o clube X conseguir um investidor que traga elementos (incluindo estrangeiros) com uma boa visão para fazer o projeto crescer, pode tornar-se um dos protagonistas do futebol brasileiro, mesmo que neste preciso momento este já longe disso. Apesar de tudo, este modelo já teve uma nega (pelo menos provisória). O EC Bahia rejeitou a adesão, já que o principal interessado em garantir a sua SAF era o Grupo City, que tinha interesse em ter um clube no Brasil, como o grupo Red Bull. Porém, as conversações estão a ocorrer, podendo o acordo estar próximo. O caso é distinto dos exibidos anteriormente. O Botafogo e o Cruzeiro não pertencem a nenhum grupo, apesar de seus proprietários terem outras percentagens em outros clubes. Verifica-se com as atitudes realizadas que são o foco dos seus novos líderes. O Bahia corre o risco de não ter esse protagonismo, porque o Manchester City FC absorve a maioria dos recursos e o grupo é constituído por muitas equipas, de todo o Mundo.

Em caso de sucesso, a aproximação do futebol sul americano (com o brasileiro a puxar as outras nações) ao europeu, algo que não acontece há muitas décadas. Tornaria o desporto rei mais equilibrado, dividindo os jogadores pelos continentes, ainda que poucos europeus aceitariam ir para a América do Sul, pelo menos num futuro próximo. No entanto, é uma ideia para acompanhar, tanto de um lado, como do outro do Atlântico.

Visão do Leitor: Ricardo Lopes

4 Comentários

  • Natan Fox
    Posted Maio 4, 2022 at 4:47 pm

    Ótimo mesmo e super inteligível para quem não sabe o que está acontecendo no Brasil. Só um adendo: As conversas pra criação de uma Liga no futebol brasileiros estão acontecendo e deve sair ainda esse ano. A formação da Liga geraria um investimento nos clubes de mais de 1 bilhão de reais ou 200 milhões de Euros. A SAF mais a Liga e uma possível mudança de governo (esse ano tem eleição presidencial) que poderia fazer o país voltar a crescer economicamente poderia colocar o futebol brasileiro ente um dos mais ricos do mundo, afinal, só em terras brasilis são 210 milhões de consumidores.

    • Ricardo Lopes
      Posted Maio 5, 2022 at 1:16 am

      Acredito que a criação de uma Liga faça muito bem ao futebol brasileiro, terá é de ser bem gerida e guiada pelo caminho correto. O futebol brasileiro está cheio de potencial e tem caraterísticas muito interessantes. Tem muitos clubes tradicionais que poderão vir a crescer. Existe talento por todo o lado. Ombrear com a Europa é um desafio complexo, mas o desenvolvimento interno é um grande passo.

    • Antonio Clismo
      Posted Maio 4, 2022 at 6:20 pm

      O problema é: como podem de um momento para o outro recuperar de um atraso futebolístico geral de 30 anos em relação á Europa?

      A China também investiu muitos biliões na sua estrutura futebolística na última década e pouco ou nada se viu.. continua tudo igual como estava.

      A única forma de evoluir é a competir. E é aqui que a Europa leva vantagem porque são muitos países próximos a competir e a trocar impressões, ideias e experiências. A evolução é máxima quando o número de iterações são máximas também.

      O Brasil iria apenas competir internamente? E a nível continental apenas competir contra o Boca Juniors e River Plate? A Argentina está numa situação económica que deus me livre… Não sei se não será mais uma década perdida para eles também…

      • Ricardo Lopes
        Posted Maio 5, 2022 at 1:20 am

        A Europa está alguns níveis acima do Brasil de isso não há dúvidas. Mas o povo brasileiro está muito mais ligado ao futebol que o chinês, logo aí está em vantagem, por muito dinheiro que exista. O Brasil respira futebol, a China não está perto disso. O futebol sul americano tem de se desenvolver para se tornar mais atrativo, mas alguém terá de ser mais “rápido” que os outros. Dentro de uns anos acredito na possibilidade de investimentos noutros países, recheado de históricos e com possibilidades de criar projetos interessantes. Se é suficiente para apanhar a Europa? A curto prazo não, mas tem de se começar por algum lado.

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