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CATARSES 27: A grande tenda marroquina

As tendas dos nómadas do deserto são obras de arte e engenho que suportam os ventos e as temperaturas extremas, tanto o frio como o calor. São escancaradas pelas abas para deixar circular o ar, mas absolutamente bem escoradas e firmes, para manterem o centro à sombra, fresca e tranquila – e os inimigos à vista.

Assim é o sistema de jogo de Marrocos, um enorme “bivouac”, à boa maneira dos séquitos dos berberes que viajam sempre com a casa às costas, em protecção da sua área, aberto pelos lados às brisas inofensivas do ataque português, mas mantendo sempre a zona central e a baliza vedadas aos raios de luz e calor das estrelas adversárias.

Só um vendaval ofensivo poderia abanar e derrubar o enorme acampamento marroquino, mas parece que as únicas tempestades causadas pelas nortadas portuguesas no deserto do Catar foram de “fogo amigo” e de areia e poeira sopradas para os olhos dos adeptos pela ventoinha de informação e contra-informação da FPF.

Assim se resume a carreira de Marrocos no Mundial, derrotando em sequência algumas das maiores potências, Bélgica, Espanha e Portugal, e resistindo à Croácia, com apenas seis golos marcados, mas, sobretudo, somente um golo sofrido – um auto-golo até, portanto com 100% de eficácia defensiva perante cinco adversários em 600 minutos de jogo.

Porque o ataque ganha jogos, mas a defesa ganha campeonatos – dizem os americanos. No caso de Portugal, foi um erro defensivo, uma “barraca” na realidade, que nos levou mais um campeonato de esperanças e sonhos.

Sim, Marrocos tem uma equipa muito organizada, forte, combativa, com um guarda-redes que faz a diferença e avançados buliçosos, mas sem qualquer jogador de classe mundial como têm os outros semi-finalistas e os favoritos já mandados para casa. É, aconteça o que acontecer a seguir, um campeão pelo trabalho e pela determinação.

O futebol, que começou a ser jogado no século XIX em 2x2x6, tornou-se no mais adorado desporto pela luta eterna dos treinadores ambiciosos contra os arquitectos da defesa e do anti-golo. Em décadas sucessivas, foram inventados o defesa-central, o stopper, o WM, o ”Método” e o “Sistema” de Pozzo, a “retranca” suíça, o “libero”, o “catenaccio”, o terceiro central – e houve sempre “antídotos” de ataque, que passaram pela criatividade, liberdade de acção e genialidade dos melhores jogadores. Amarrar os atacantes a sistemas defensivos é um crime de lesa-futebol.

Há tempos, apareceu no léxico futebolês o verbo “desmontar”, lançado pelo treinador Vítor Pereira como comentador televisivo fugaz. “Desmontar” as defesas tornou-se então a ‘password’ dos “experts” para toda e qualquer situação de dificuldade perante equipas bem montadas na defesa.

Ora, “desmontar” é o enigma que Fernando Santos nunca conseguiu resolver na maioria dos jogos mais complexos dos seus anos na FEMACOSA federativa, sobretudo nas fases adiantadas das grandes competições, com o bambúrrio do Euro-2016 a servir como a excepção.

Bola trocada atrás e pontapés longos a procurar espaços inexistentes nas costas da defensiva marroquina, sem ritmo, sem dinâmica, sem criar superioridade nas zonas nevrálgicas, assim jogou Portugal cerca de uma hora até à introdução desesperada e sem nexo de mais e ainda mais corpos para a frente ofensiva.

Se foram os jogadores que decidiram ou obrigaram a estes equívocos estratégicos, em contra-ciclo com as boas ideias mostradas na partida anterior, é porque o treinador não tem “criatividade nem imaginação”, precisamente os defeitos que aponta à equipa.

Porque, efetivamente, dispôs e desperdiçou o maior naipe de jogadores de classe mundial de sempre, melhor que o dos campeões europeus, e termina – assim espero – o longo consulado sem nos deixar um legado que possa constituir base de trabalho, seja para quem quer que venha a seguir. Portugal tem jogadores excepcionais, que merecem um seleccionador tão bom e seguro de si, que só aceite um contrato de trabalho a termo, que lhe garanta independência e superioridade moral.

João Querido Manha

17 Comentários

  • Amigos e bola
    Posted Dezembro 10, 2022 at 10:14 pm

    A verdade é esta: Marrocos é uma seleção limitadíssima e Portugal é claramente superior.

    Mas a verdade é que os anos passam e a grande maioria dos jogadores da seleção apresenta um rendimento entre o razoável e o fraco na seleção. Então em fases finais nem se fala.

    Bernardo Silva, João Cancelo, Ruben Dias, Diogo Jota, Guerreiro, Bruno Fernandes, Rafael Leão, João Felix, Dalot…
    Isto só para dar alguns exemplos exemplos de jogadores de rendimento muito irregular na seleção.

    Devia dar que pensar. Mas já sabemos que vai tudo ficar na mesma.

    • TBL
      Posted Dezembro 11, 2022 at 12:35 am

      Embora nem sempre a resposta mais simples seja a mais correta, a verdade é que se um jogador rende sistematicamente no clube e não rende na seleção, ou não tem simplesmente interesse em lá estar ou passa-se algo por lá (relação com a equipa técnica, sistema tático, entrosamento com os companheiros, preparação dos jogos, etc).

  • Antonio Clismo
    Posted Dezembro 10, 2022 at 10:15 pm

    Se Portugal tem um grupo de jogadores fenomenal em 2022 então em 2026 ainda terá um grupo de jogadores ainda melhor porque apenas Pepe, CR7 e Rui Patrício não irão fazer a próxima campanha..

    E temos muitos mais jogadores a bater à porta da selecção (muitos deles ainda em idade de evolução) do que aqueles que estão na porta de saída.

    Não haverá Rui Patrício? Vêm aí o Max, João Virgínia ou Samuel soares.

    Não haverá Pepe? Vêm aí António silva, David Carmo, Tiago Djaló ou Gonçalo Inácio

    Não haverá Danilo Pereira? Vem aí Florentino

    Não haverá Cristiano Ronaldo? Henrique Araújo,Rodrigo Ribeiro, etc

    Fossem os quadros técnicos tão bons como as soluções para jogadores.. parece que agora os treinadores portugueses só querem ir treinar pars o Brasil para passarem férias e ganharem muito a fazer pouco…

    • Amigos e bola
      Posted Dezembro 10, 2022 at 10:29 pm

      Muito mal estaríamos nós se o futuro da seleção passasse por David Carmo, Samuel Soares, etc.
      Entendo o que dizes e concordo mas deste os piores exemplos.

      • Antonio Clismo
        Posted Dezembro 11, 2022 at 11:15 am

        São jogadores que ainda estão a evoluir. David Carmo com 23 anos está ao mesmo nível do que Ricardo Carvalho, Pepe, Bruno Alves, etc quando tinham 23 anos também.

    • Paulo Roberto Falcao
      Posted Dezembro 11, 2022 at 7:59 am

      Engraçado, tanta prosa sobre jogadores com futuro e não falas no Diogo Costa, o grande responsável pela derrota de ontem.

      Detesto ter tido razão, eu tinha mudado de guarda-redes depois do primeiro jogo. Veio a propaganda, fez uma boa defesa contra o Uruguai e achou-se que estava tudo bem.

      Estava escrito nas estrelas.

      Mas vá venham lá com a demagogia, que ainda ontem ouvi e li, que a culpa era do Ruben Dias. A culpa dos erros do DC é sempre dos outros…

  • Khal Drogo
    Posted Dezembro 11, 2022 at 5:35 am

    Vou analisar a nossa prestação neste Mundial de uma forma que ainda não vi cá no blog. Não porque seja uma análise especial; simplesmente por ainda não ter sido feita.

    De acordo com o ranking FIFA mais recente, Portugal partiu para este Mundia como a nona melhor Seleção do mundo. Ora, logo à partida, só com a qualificação, já fizemos melhor do que uma das Seleções teoricamente mais fortes que nós: a Itália.

    Mas adiante. Tendo em conta a ausência da Itália, Portugal era, à partida, a oitava Seleção mais bem cotada da competição. Ora, nós terminamos a nossa prestação precisamente no oitavo lugar (eliminados na mesma fase que Países Baixos, Brasil e Inglaterra, mas com performance global inferior a nível pontual). Analisando com mais pormenor, acabamos por fazer pior do que duas Seleções pior classificadas do que nós no ranking (Croácia e Marrocos) mas, em contrapartida, melhor do que outras duas com melhor classificação (Bélgica e Espanha).

    Ou seja, a nossa prestação não foi má nem boa. Foi normal.

  • Paulo Roberto Falcao
    Posted Dezembro 11, 2022 at 7:48 am

    Excelente texto, mais uma vez parabéns João Querido Manha.

    Fico com a frase: no ataque ganham-se os jogos, na defesa ganham-se os campeonatos.

    O frango do Diogo Costa de ontem é absolutamente inadmissível em alta competição, quase ao nível do que ia dando contra os ganeses no primeiro jogo. Mas não foi só isso, mostrou nervosismo quando teve a bola nos pés, e por pouco não deu um segundo frango.

    O fantasma da baliza com jovens jogadores em formação têm este paradigma. Vi o Patrício frangar durante uns bons três anos no Sporting, antes de melhorar, e depois de ter tornado no esteio da baliza no Euro 2016. Frangar a sério.

    Ao De Gea, por outro lado, aconteceu uma coisa semelhante ao Diogo Costa, foi mandado aos lobos demasiado cedo, para substituir um guarda-redes de créditos firmados. E fracassou, estrepitosamente. Tal como DC, que é o grande responsável pela eliminação de ontem, gostem ou não disso os seus fãns.

    O futebol tem de ser meritocrata, têm sempre de jogar os melhores. Eu não digo que ele não seja melhor que o Patrício, simplesmente mostrou que ainda não tem competência e maturidade para calçar a este nível. O Patrício é pior, mas é sólido e fiável. E é isso que uma equipa precisa numa competição curta.

    Ah e tal e a Champions, e o Porto.

    A Champions e o Porto é uma coisa, isto é um país inteiro. Ninguém prepara um atleta para este tipo de pressão, e só na competição a sério se vê quem está, e quem não está preparado.

    O Fernando Mamede também foi, de longe, o melhor atleta da história do atletismo em Portugal, e isso é factual, objetivo, indiscutível. Mas falhava, era humano. Moral da história? Quem tem o Pavilhão com o seu nome em Lisboa é o Carlos Lopes. Porquê? Porque ganhou.

    O desporto é por essência meritocrata. O Diogo não estava preparado, infelizmente deveriam ter sido compreendidos os sinais do jogo com o Gana.

  • Christian "Chucho" Benítez
    Posted Dezembro 11, 2022 at 8:57 am

    Como disse Carlos Queiroz á uns bons anos atrás, é necessário limpar toda a porcaria que existe na Federação Portuguesa de Futebol. O que andam a fazer na FPF senhores como João Vieira Pinto (respeito-o pelo jogador que foi, especialmente no meu Sporting, mas não entendo o que faz na FPF), José Couceiro ou Ricardo Regufe? Tanto tacho e tachinho, á boa maneira dos tugas, e zero trabalho mostrado…

    Quanto a Fernando Santos, está mais do que na hora do Engenheiro deixar o cargo de selecionador nacional. Há necessário sangue novo e ideias novas para a Seleção Nacional. E não me venham com nomes como José Mourinho ou Jorge Jesus, porque de velhos jarretas ultrapassados já eu estou farto (a esmagadora maioria dos selecionadores de qualquer seleção, salvo raras exceções, é tudo com idades acima dos 65 anos).

    E como para sucessor de Fernando Santos há alguns nomes bem possíveis para o seu lugar, que dificilmente fariam pior trabalho que o Engenheiro:

    Abel Ferreira
    Sérgio Conceição
    Bruno Lage
    Leonardo Jardim
    Carlos Carvalhal
    Rui Jorge (para fazer a transição pós-Ronaldo e integrar mais sangue novo é o ideal e os Sub-21 até jogam bem sob a orientação do ex-Sporting).

    ?⚪

    • Amigos e bola
      Posted Dezembro 11, 2022 at 11:24 am

      Mas esta discussão do sucessor pouco adiante porque o FS não vai sair de lá tão cedo. Temos de nos mentalizar disso.

  • Cambiasso
    Posted Dezembro 11, 2022 at 10:06 am

    Estes textos do JQM são qualquer coisa, entao

    • Cambiasso
      Posted Dezembro 11, 2022 at 10:07 am

      *então o último parágrafo foi em cheio. Os meus parabéns ao autor e ao VM por esta excelente aquisição.

  • Paulo Roberto Falcao
    Posted Dezembro 11, 2022 at 12:24 pm

    Os meus dois cents sobre o tema do selecionador.

    Não acredito que Fernado Santos saia. Fez o melhor Mundial da era dele, e pode dizer que não foi ele quem criou o circo à volta da seleção, mas sim Cristiano Ronaldo, e que teve de ficar no difícil papel de gerir a tempestade. Não se pode dizer que não tenha gerido bem o problema, bem pelo contrário, era complicado fazer melhor, só se Fernando Santos fosse outra pessoa mais corajosa e radical, que infelizmente não é.

    Se sair sou a favor de termos um treinador estrangeiro. E fazia como o Benfica, e ia a Alemanha buscar um sucessor da FEMACOSA. Tuchel. Vendia-lhe bem a ideia de um projeto a médio prazo, e não é difícil adivinhar que iriamos jogar o dobro.

  • Joaquim O
    Posted Dezembro 11, 2022 at 12:30 pm

    Marrocos, Bélgica, Uruguai, como é que, em 8 anos, a equipa técnica de Fernando Santos não conseguiu arranjar resposta tática para situações em que o adversário fecha o jogo com um bloco compacto? É incompetência, e incompetência de quem o manteve lá tanto tempo e deixa a Gestifute mandar naquilo tudo.

    Ninguém pensa que se Portugal brilha num mundial é bom para os interesses de cada um, para o negócio, para valorizar os jogadores e o futebol português? Mas para isso é preciso colocar o DESPORTO no centro do projecto da selecção, e pôr de lado os interesses financeiros, o nepotismo e as trafulhices.

    Daqui a pouco acaba o ciclo CR7 e com ele a atenção do mundo dada ao futebol português, se a FPF não limpa a casa AGORA e prepara o futuro para garantir melhores resultados desportivos penso que o futebol português vai sofrer muito tanto em termos de valorização como de performance.

  • Red Scorpius
    Posted Dezembro 11, 2022 at 1:57 pm

    A tenda marroquina ou a segunda barraca contra Marrocos.
    Incompreensível a mudança do processo de jogo utilizado contra a Suíça para um outro no qual foi nítido que foi desconfortável para os jogadores. Sempre que vejo o Rúben Neves lembro-me do Gabriel, o que está agora no Botafogo, pela visão de jogo, pela capacidade de passar à distância, pela potência de remate, e também pela falta de velocidade, pela incapacidade de acompanhar os adversários na transição defensiva, pela incapacidade de ter tempo ou espaço para poder rematar.
    É claro que a derrota não se deve ao jogador, mas sim a uma estratégia que nunca resultou.
    Também a mentalidade do jogador português voltou a não ajudar, pela frequente incapacidade em recuperar desvantagens, em que falta o discernimento e abunda o desespero.
    Espera-se um sucessor de FS com maior capacidade de liderança e uma maior ” democracia ” no grupo se CR7 abdicar da seleção, embora o mesmo já se tenha convocado para o Euro2024.

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