Skip to content Skip to sidebar Skip to footer

CATARSES 31: Mãe-África

Nunca a expressão “Mãe-África” fez tanto sentido como neste dia da meia-final do Mundial entre França e Marrocos, a primeira com uma seleção africana. Ou melhor: com duas.

Uma recheada de jogadores filhos ou netos de africanos, contra outra com mais de metade de internacionais nascidos noutros continentes – todos orgulhosos e vinculados às respectivas raízes.

Muitos povos em luta social e política contra o estigma do colonialismo irmanaram-se fervorosamente nos últimos dias aos 40 milhões de marroquinos no sonho de celebrar a simbologia de um triunfo à escala mundial sobre os estigmas da opressão, do colonialismo e da escravidão que esteve na sua génese. No Brasil, chamaram-lhe “Brarrocos”.

Marrocos apresentou-se com africanos naturais no Canadá, de Espanha, de França, dos Países Baixos, da Bélgica e de Itália.

França com europeus oriundos da Argélia, Congo, Benim, Camarões, Guiné-Bissau, Angola, Mauritânia, Costa do Marfim, Mali e do próprio Marrocos.

Todos nascidos dessa grande, terna, forte e incansável mulher africana, lutadora, trabalhadora e sustentáculo das famílias, como as homenageadas no relvado de Doha pelo “espanhol” Hakimi, filho de Fatima, e pelo “francês” Boufal, filho de Zoubida, após a vitória sobre Portugal.

“Viemos ganhar por África, pelos países que estão em desenvolvimento” – assumiu o seleccionador marroquino, Walid Regragui, ele próprio nascido perto de Paris em 1975, apenas um ano depois de as seleções africanas terem sido admitidas pela primeira vez no torneio da FIFA.

Após se ter coroado novo Califa do Al-Andalus, com as suas vitórias sobre Espanha e Portugal, Regragui desvendou a mudança psicológica que pode vir a mudar a mentalidade das equipas de África para sempre, uma atitude que reflete, precisamente, a rejeição dos seus 14 jogadores nascidos fora de Marrocos ao rótulo da “ingenuidade” do futebolista africano “puro”:

“Há uma ideia baseada na nostalgia preconceituosa de que os africanos precisam ser ingénuos, atacar com tudo, ou então não prestam”.

O “regraguismo”, que promete alastrar a todo o continente como um grande movimento motivador de referência, começando por reivindicar mais do que os cinco lugares atuais nos finalistas dos Mundiais, sofre todavia de uma patologia crónica que dificulta essa unidade, um paradoxo de ordem racista, uma idiossincrasia à escala continental: muitos povos e países da chamada África negra não se revêem nos países do Magreb e estes, politicamente, estão muito mais virados para a Europa do que para Sul.

O sonho marroquino terminou quando já não era mais possível ir mais longe, com a derrota inevitável em campo frente a um adversário muito superior, sem margem para o triunfo do romantismo sobre a experiência e o pragmatismo dos franceses.

Um jovem “congolês” nascido na cosmopolita Île-de-France, Kolo Muani, ditou a sentença final à seleção africana que mais alto chegou num campeonato do Mundo. Foi o futebol, em campo, a ratificar sem margem para dúvida a crescente e decisiva influência deste pan-africanismo moderno, em que todos se sentem irmanados por uma matriz comum, independentemente das nações onde nasceram. Mas igualmente e em simultâneo a lei do mais forte, ainda (e sempre?) um país europeu com todo o poder de convencer e reter os melhores talentos.

Além disso, este histórico desafio em marcha à escala transcontinental tem de se haver ainda com um adversário de peso, que é a própria rivalidade a sul e a norte do Sahara.

Quando o continente foi chamado a organizar o Mundial de 2010, um dos “slogans” da candidatura vencedora, da África do Sul, apoiada pelos países sub-saharianos, foi “África somos nós”, marcando uma evidente e profunda distância e diferença relativamente à concorrência de países como Marrocos, Líbia, Tunísia ou Egipto.

E esta questão ancestral não se resolve, tão simplesmente, apenas com a melhor classificação e exibição de sempre de uma seleção africana.

Talvez só com todo o amor das mães de África.

João Querido Manha

28 Comentários

  • Kafka
    Posted Dezembro 15, 2022 at 12:05 am

    Excelente texto ao nível da excelente campanha de Marrocos, a melhor de smp de uma selecção africana

    Só faltou um reparo, os marroquinos não se sabem comportar e andaram estas semanas a vandalizar as capitais europeias, e hoje a vergonha continua e já andaram a vandalizar cidades em França depois do jogo…. Há uma solução para acabar com esta pouca vergonha, mas os wokes do politicamente correcto, não estão preparados para esta conversa

    • El Pipito
      Posted Dezembro 15, 2022 at 11:15 am

      Qual é?

      • Strasza
        Posted Dezembro 15, 2022 at 12:13 pm

        Deportação para emigrantes, trabalho comunitário e multa pesada para residentes, prisão para residentes reincidentes. Vandalismo é terrorismo, e não se pode passar uma esponja sobre o assunto cada vez que acontece.

        • Kafka
          Posted Dezembro 15, 2022 at 2:56 pm

          Isto, mas os wokes vão-te já todos cair em cima

          • Manel Albuquerque
            Posted Dezembro 15, 2022 at 3:45 pm

            Ainda não percebi bem o que os wokes querem.
            Temos os que são pagos para dizer o que dizem e aqueles que o fazem porque os partidos querem captar votos nesse tipo de eleitorado.

            Mas depois há aqueles que aparentemente querem uma completa alteração dos valores ocidentais, agarrando-se a fantasias e vendo as minorias como seres maravilhosos e um exemplo para todos. Mesmo quando estão longe de o serem, como é óbvio.

            Mesmo assim, creio que muitos só dizem o que dizem em ambiente de redes sociais para serem do contra.
            Nem vale a pena falar nos que tem problemas mentais.
            Seja como for, acho que o problema está em darem demasiada importância a eles.

            Por mim, rejeito todo e qualquer conteúdo woke. Aliás, os resultados comerciais deles têm sido um desastre ao nível do cinema, etc. Flops atrás de flops mas lá vão continuando porque parece haver sempre dinheiro injetado para enviar esta ideologia pela goela das pessoas à força.

            São hilariantes e devem ser levados como aquilo que são: hipócritas, iludidos ou alucinados.

        • Dario Nunes
          Posted Dezembro 15, 2022 at 3:31 pm

          Mas porque é que emigrantes deveriam ter penas diferentes de residentes?

          • Strasza
            Posted Dezembro 15, 2022 at 3:56 pm

            Se emigras, tens de seguir as normas do país que escolheste. A partir do momento que apresentas um comportamento que coloca em risco os cidadãos e propriedades públicas ou privadas do país que te acolheu, deves ser convidado a sair e a voltar ao teu país de origem ou escolher outro destino. Simples.

            • Dario Nunes
              Posted Dezembro 15, 2022 at 4:52 pm

              Porquê? As pessoas devem ser julgadas consoante a nacionalidade ? E depois, é consoante a raça, ou o sexo? Crimes iguais,apenas iguais.

              • Strasza
                Posted Dezembro 15, 2022 at 5:09 pm

                Eu percebo que estás a puxar a conversa para o campo da discriminação contra emigrantes e admiro a ginástica mental para isso, mas meu caro, deportação, expulsão e repartição é algo que existe em todos os países, segundo o direito internacional. E porquê que existe? Pensa lá um bocadinho. Se não chegares a uma resposta, faz um favor a ti próprio e pesquisa.

          • Kafka
            Posted Dezembro 15, 2022 at 5:20 pm

            Da mesma forma q se o meu filho me partir a televisão eu não o vou expulsar de casa, apenas o ponho de castigo, mas se tu q eu não conheço de lado nenhum me entrares em casa e me partires a televisão, vais ser corrido daqui de casa ao pontapé

            Se vais ao País dos outros, só podes ter 2 opções, ou cumpres as regras desse País, ou tens de ser mandado embora

        • Nome sem Caracteres Ilegais
          Posted Dezembro 15, 2022 at 4:02 pm

          Strasza
          “Vandalismo é terrorismo”…que dramatismo, meu Deus!
          Pintar ou graffitar uma letra numa caixinha na rua é terrorismo, por acaso?
          “Sublinhar” a cores textos de livros de uma biblioteca é terrorismo, por acaso?

          É que para muita gente os actos que eu descrevi são vandalismo. Isso quer dizer que são terrorismo?! Vá lá, convém não ser mais papista que o Papa. Senão qualquer dia vamos na daqueles que chamam “agressão sexual” a qualquer toque acidental.

          • Strasza
            Posted Dezembro 15, 2022 at 4:36 pm

            Sim é, a um grau de gravidade menor mas é, porque é exatamente a mesma coisa que alguém graffitar uma porta do teu carro ou sublinhar em a cores um documento teu pessoal. A única diferença aí é que nos exemplos que deste, como não são tua propriedade pessoal, não tem relevância para ti. É só mais uma parede, é só mais uma caixa da água, é só mais um livro..

            • Nome sem Caracteres Ilegais
              Posted Dezembro 15, 2022 at 5:01 pm

              Strazsa

              Ah, então sempre acha que essas acções também merecem que lhes chamem terrorismo. É?

              Pois eu acho que, se por um milagre qualquer, centenas de vítimas mortais de terrorismo (esse sim, digno do nome!) ressuscotassem e ouvissem chamar terrorismo a algo assim, eram capazes desferir (se recuperas sem do trauma, claro).

              Mas pronto, o seu conceito de terrorismo engloba isso é tem direito a ter o seu conceito. Eu cá, na dúvida, fico com o do dicionário. Não será perfeito, mas parece-me melhor.

              • Nome sem Caracteres Ilegais
                Posted Dezembro 15, 2022 at 5:04 pm

                *capazes de se rir. Malandro do corrector…

              • Strasza
                Posted Dezembro 15, 2022 at 5:20 pm

                Eu não percebo porquê que achas que uma coisa exclui a outra. É mais grave matar uma pessoa em comparação com estragar uma parede? Claro que sim. Estão na mesma escala de dano ou prejuízo efetuado? Claro que não. Tomara eu ver mais notícias de paredes pintadas do que mortos na Ucrânia, por exemplo. Mas ainda que assim fosse, era algo desculpavel? Vamos ignorar uma ação não consentida só pelo facto de haver outras piores? Estragaram-te o carro? Olha é pena, porque morreu 1 civil na guerra, logo só houve terrorismo ali. Ou então vamos ficar com a definição de Hollywood em que terrorismo=homens de sandálias com bombas.

                • Nome sem Caracteres Ilegais
                  Posted Dezembro 15, 2022 at 6:16 pm

                  Strazsa
                  Mas eu escrevi que uma coisa
                  exclui a outra?! Não, pois não?

                  Não lhe faz comichão quando alguém grita racismo numa situação que pouco ou nada tem de racista? A mim sim, assim como me faz comichão que chamem terrorismo a algo que não merece essa nomenclatura.

  • Antonio Clismo
    Posted Dezembro 15, 2022 at 9:55 am

    Há conferências em que isso acontece.
    Não é por acaso que a própria CAF está dividida por 4 sub-confederações:
    -UNAF – Dos países do Norte de áfrica
    -WAFU – Dos países do Ocidente africano (Gana, Senegal, Nigéria, Costa do Marfim, etc)
    – UNIFFAC – Dos países da África Central (Camarões, Congo, etc)
    – CECAFA – Dos países da áfrica Oriental (Tanzânia, Quénia, Uganda, Somália, etc)
    – COSAFA – Dos países do Sul de África (Angola, Moçambique, África do Sul, Zâmbia, etc)

    Ora todas estas sub-confederações têm órgãos e direções diferentes, competições de seleções jovens diferentes, sedes diferentes e reportam à CAF.

    Há depois uma pseudo-organização trans-confederação que engloba todos os países árabes (UAFA), com os países do norte de África e os países do Golfo Pérsico, organização financiada, claro, pela Arábia Saudita e que já tem as suas próprias competições de seleções e de clubes (ainda falam da Superliga na UEFA…. ) – foi a própria FIFA que permitiu que isto acontecesse… a troco de uma bela quantia para os seus directores, claro está, á boa maneira da FIFA..

    • Antonio Clismo
      Posted Dezembro 15, 2022 at 10:21 am

      A própria AFC está dividida em 5 sub-confederações e cada uma dessas divisões tem bastante autonomia como por exemplo a ASEAN onde fazem parte a Austrália, Indonésia, Malásia, Tailândia e aqueles países ali à volta.

      Se a Rússia entrar na AFC, sinceramente não sei a que sub-confederação poderão entrar… talvez para a da Ásia Central onde estão países da ex URSS como o Tajikistão, Uzbequistão ou Quirguistão juntamente com o Irão..

  • Lord Monkey
    Posted Dezembro 15, 2022 at 10:12 am

    Vivemos num mundo e numa sociedade em que os mais sabios têm que se calar para não ofender os ignorantes. Basta dizer algo “pseudo” discriminatorio e monta se a tenda com todos a criticar e a apontar de tudo sem saber do que se fala ou o que se diz e a verdade já não é bem aceite pois todos querem viver no reino do sonho da igualdade sem saber que estão é a criar outro tipo de desigualdade. Basicamente todos puxam a brasa a sua sardinha revindicando fundos e mundos mas sempre usurpando o espaço dos outros… e se acham todos com razão…

  • Christian "Chucho" Benítez
    Posted Dezembro 15, 2022 at 11:47 am

    Grande Mundial que a Seleção de Marrocos proporcionou a todos os adeptos que adoram ver surpresas neste tipo de torneios (eu pessoalmente adoro ver as grandes seleções caírem aos pés dos mais pequenos – só não acho lá grande piada quando acontece a Portugal ?).

    Tendo em conta que o futebol europeu está cada vez mais robotizado e onde qualquer equipa só sabe jogar em tiki takas e algo do género, nem deixam os jogadores mais criativos serem, lá está, criativos, felizmente as seleções africanas continuam a mostrar o seu futebol de rua nestes torneios e a magia que o seu estilo de jogo transmite.

    Hoje em dia, os jogadores são cada vez mais robotizados desde as camadas jovens e os treinadores quase que não permitem liberdade criativa em campo, amarrando-os a certos conceitos táticos.

    ?⚪

    • Santos David
      Posted Dezembro 15, 2022 at 4:21 pm

      Ola Baba
      Quando é que Marrocos jogou futebol “à africana” ?
      Nao vi todos os jogos deles por isso se calhar passei ao lado
      Eles tem um estilo nao se pode mais “à europeia”: futebol académico bastante defensivo com 1 ou 2 jogadores mais tecnicistas para fazer uns contra ataques, mas também nao é de admirar ja que a grande maioria foram formados na Belgica, nos Paises Baixos, na Espanha e claro na França com um selecionador que também foi formado na França (como treinador)

      • Christian "Chucho" Benítez
        Posted Dezembro 15, 2022 at 6:02 pm

        Olá, Santos David, O meu segundo parágrafo era na generalidade das seleções africanas, não só Marrocos, como Senegal, Gana ou Camarões, por exemplo (só para citar as seleções que estiveram no Mundial deste ano).

  • Paulo Roberto Falcao
    Posted Dezembro 15, 2022 at 11:55 am

    Excelente texto, mais um João, parabéns.

    O único titulo de uma equipa africana foi aquela olímpiada que a Nigéria venceu com uma equipa mítica com Amokachi, Amunike, Babayaro, Ikpeba, Oliseh, Taribo West e sobretudo dois candidatos ao top 10 de melhores jogadores africanos de sempre Jay-Jay Okocha e Kanu. A melhor equipa africana que os meus olhos viram, e que fracassou em concretizar todo o seu potencial em Mundiais, apesar de momentos de um brilhantismo assinalável.

    Nunca mais vi uma equipa com tanto talento junto, e nos últimos anos o fim das carreiras de jogadores como Eto’o ou Drogba significou o fim de dois jogadores colossais, e que este mundial é marcado pela ausência dos dois melhores jogadores africanos da atualidade, Salah e Mané.

    A surpresa Marrocos demonstra um modelo diferente, um futebol diferente, com jogadores de um perfil diferente. Faltou a esta equipa uma pontinha do talento que citei acima para dar o pulo acima, mas é extraordinário o trabalho feito, e o exemplo que dão a África. Não é só com o futebol exuberante dos Camarões, do Senegal ou da Nigéria que podes ter resultados, e jogando-o precisas de muitissimo mais talento para teres resultados.

  • Borsalino
    Posted Dezembro 15, 2022 at 5:06 pm

    Excelente texto (mais um)! Adicionar que, esta grande prestação no Mundial da seleção de Marrocos, pode significar uma nova era em termos da escolha dos jogadores em representar a seleção Marroquina que sempre produziu grandes talentos.
    A título de curiosidade, o jogador Francês com mais golos em Mundiais e é o jogador que mais golos marcou numa só edição de um Mundial, Just Fontaine, era de origem Marroquina.

    • Paulo Roberto Falcao
      Posted Dezembro 15, 2022 at 5:41 pm

      Há muita gente que diz que essa seleção francesa de 1958 hoje seria campeã do mundo, porque se viu privada de três importantes jogadores argelinos, então na sua luta de libertação nacional.

      A história de Mekhloufi, o melhor dos três e considerado o melhor jogador “francês” da época, faria correr rios de tinta e levantar debates apaixonados. Deixo um artigo sobre a história, na era em que castigam jogadores por gestos ou pelo braçadeiras LGBT, imagino o castigo que levariam…

      https://sol.sapo.pt/artigo/769462/argelia-a-fuga-dos-rebeldes

Deixa um comentário