Chega ao fim o mais controverso campeonato do Mundo de sempre.
Disputado num país anacrónico em que o principal desporto é a corrida de camelos.
Disputado num país onde o dinheiro se sobrepõe a qualquer valor humano por direito.
Do Mundial do Catar, talvez o pior de sempre, salvaram-se os profissionais, os treinadores e os jogadores, que alguém uma vez disse, profeticamente, que são o “melhor do futebol”. Apesar do péssimo nível das arbitragens, sacrificado pela necessidade de satisfazer as clientelas regionais da FIFA.
Os jogadores deram tudo em situações adversas, para satisfazer os caprichos dos novos césares nas tribunas e para gáudio das galerias acéfalas, como na Roma do poeta Juvenal, inconformado com a hipócrita política social de distribuição gratuita de comida e acesso aos jogos dos coliseus: “pane et circenses”.
Milenar contradição essa do filósofo romano também autor da expressão “Mens sana in corpore sano”, que alguns atribuem a uma Grécia olímpica onde não se escrevia em latim, de usar a saúde dos atletas para manipular as vontades dos povos: “o único caminho de uma vida tranquila passa pela virtude”, escreveu Juvenal na sua Sátira X.
É óbvio que os dirigentes do futebol mundial não seguem os Clássicos.
O próximo Mundial, em 2026 na América do Norte, será expandido de 32 para 48 selecções, o que significa que um em cada quatro países será finalista. Foi a solução proposta por Platini, primeiro, e agora por Infantino para distribuir o mal pelas aldeias, assegurando a reeleição pelo voto dos pequenos países, mas vulgarizando a um nível infra-competitivo o que era supostamente entendido como o máximo desafio deste desporto.
E porquê?
Porque a nova fórmula expandirá a competição de 64 para 80 jogos, concentrados no mesmo número de dias, quase um milagre da multiplicação, dos pãezinhos e dos circos, à razão de 120 milhões de euros por cada jogo a mais – que é o valor estimado das receitas de cada partida do Mundial para a FIFA, que, tudo somado, em 2026 deverão rondar os dez mil milhões de euros.
Ou, quem sabe, para a monstruosidade de 104 jogos em 32 dias, como a FIFA estuda agora, em função do “sucesso” do Catar, em cima de um Mundial de clubes completamente insano.
Indiferente aos avisos de sábios como Joachim Löw, para quem os “jogadores já atingiram os limites físico e mental”, e à oposição formal da Associação Europeia de Clubes, que considera inaceitável o actual calendário – Mundial é quando, como e onde Infantino quiser.
João Querido Manha


16 Comentários
Kafka
Discordo deste artigo, para mim este está a ser o melhor Mundial de todos os o q já vi (vejo desde o Itália 90), por exemplo a fase de grupos foi simplesmente épica…
Nota-se ainda pouco desgaste nas principais estrelas, ao contrário da maioria dos Mundiais em Junho em q as estrelas já chegam cansadas, este Mundial não teve isso e foi smp jogado a bom ritmo e alta intensidade
Para mim este deve ser o modelo a seguir, Mundial a meio da época é o ideal, sempre defendi este modelo e na 1ª edição provou-se q é o melhor, infelizmente em 2026 voltaremos aos Mundiais em Junho com todas as estrelas de rastos a jogarem a ritmo baixo e repletos de ausências por lesões
offtopicguy93
Todos falam mal do mundial do catar e dos direitos humanos, mas os últimos 2 mundiais não deixam muito a desejar a este e não houve tanta controvérsia… talvez se gere mais na CS portuguesa pois o melhor jogador de sempre está prestes a ganhar o título e de certa forma temos de lhe tirar mérito, certo?
O mundial do Brasil foi só do mais polémico que houve, milhões de pessoas a passar fome, a viver na rua, não existe um sistema de saúde, um sistema de ensino e educação, taxa de desemprego altíssima e principalmente a enorme inflação que existe por lá, mas resolveram/preferiram gastar centenas de milhões (senão mais) a construir estádios…
O mundial da Rússia outra vergonha, mas aqui foi num aspeto político também… há quem diga que o mundial da Rússia serviu para atrasar uma possível invasão à Ucrânia, o que é certo é que assim que a pandemia levantou, atacaram com tudo e instaurou-de aquilo que se sabe… ou seja, este tipo de corrupção e subserviência também existe aqui, não é só no médio oriente!
Quanto ao novo mundial, a minha opinião é a mesma que em relação à nova champions, acho uma tremenda b*sta!
Já que é para inventar, deixavam de fazer qualificação e todas as seleções estavam qualificadas para o mundial e tinham 2 meses intensos de jogos 24h sob 24h até acabar o torneio. Se é para gerar dinheiro, a melhor solução era esta, futebol 24/7!
Antonio Clismo
E o Mundial da Africa do Sul foram só maravilhas?
Sodogodo
Todas as CS durante anos falaram dos problemas envolvendo este Mundial. A nossa pouco fala até, quanto mais ser por causa de Ronaldos/Messis. Isso não cola aqui, até fomos os que mais ignoraram tudo à sua volta. Americanos, britânicos e europeus do Norte/Centro são os que mais falam sobre isto.
Se estiveres atento perceberás que todas as competições desde Mundial aos Jogos Olímpicos têm sido muito criticados por diferentes motivos. Ainda recentemente se criticou bastante os JO no Japão, pois os japoneses não gostaram do que se gastou para o que receberam, fora toda a situação da pandemia.
Este Mundial foi muito mais criticado do que o normal, pela atribuição corrupta do mesmo, seguido da quantidade de mortes na construção dos Estádios. Muito acima de qualquer outro torneio organizado. Durante anos fez-se reportagens a falar das condições miseráveis dos trabalhadores e da forma como foram escravizados. Não se começou a falar agora. Nada disto se viu noutros Mundiais, quer queiram ou não usar esse argumento, apesar deste tipo de problemas acontecer em vários países (desenvolvidos), simplesmente a uma escala menor.
A normalização desta situação e da censura, num torneio desta magnitude, é preocupante. São situações que devíamos ser contra não importa como, mas em vez disso arranjamos todos os argumentos possíveis e imaginários para os justificar, pois não nos afecta e queremos é ver futebol (então argumento da cultura é de partir a rir, como se o Catar hoje não tivesse sido a Europa à 150 anos atrás, agora a censura e a escravidão são culturas…).
Ss
A única coisa positiva desde mundial é o fim do ciclo da FEMACOSA. E mesmo este, já vem com vários anos de atraso. Fora isso, o texto resume bastante bem a barbaridade que tudo isto representa…mas ao menos as pessoas têm andado distraídas e não se tem falado a sério do que se passa no mundo.
Antonio Clismo
Fim da FEMACOSA mas o príncípio de outra coisa qualquer.
Os esquemas de lavagem de dinheiro e fuga aos impostos continuam lá na FPF na mesma
Antonio Clismo
A FIFA conseguiu montar um mercado paralelo em que mais parece uma religião que opera independente dos governos centrais.
Aliás, até na parte de não gostarem de pagar impostos (ou conseguirem isenção) estão iguais às instituições religiosas.
Pobres são aqueles que por gostarem de um desporto em apenas se tem que dar pontapés numa bola de um lado para o outro, alimentam esta gente…
Af2711
Eu gostei do Mundial, e discordo frontalmente do argumento de que não há um respeito pelos clubes porque o torneio foi realizado em novembro/dezembro. Afinal, quando é a melhor altura a se jogar futebol? Se no fim da época estão todos desgastados já acontecem reclamações, a meio de época a reclamação é que os jogadores chegarão desgastados? Difícil de concordar porque as lesões podem acontecer a qualquer momento (Nkunku num treino, ou Neuer num momento fora dos treinos). Até acho que o Mundial ficou demasiado colado aos jogos de clubes e poderiam ter pensado melhor isto (talvez algumas das ausências que tivemos pudessem ser evitadas com um planeamento e as seleções com um tempo mais equânime de trabalho).
Amigos e bola
Arbitragens fraquinhas, verdade. Mas foi um bom Mundial, ao fim ao cabo.
Rui Costa
O texto é claro sobre o que foi este Mundial, este comentário só consegue dar enfase ás arbitragens…
Há coisas mais importantes e isto foi uma prova da hipócrisia da sociedade em que vivemos, em troca de uns dolares os direitos (todos e mais alguns) sao ignorados
Amigos e bola
Quais direitos? Os do Catar? Queres que eles pensem como nós, é isso?
Sodogodo
Quero, quero que respeitem os direitos humanos, sim, como quero que todos os países os respeitem também. É assim tão difícil perceber? Respeitar o básico, não é cultura que estamos a falar. Nunca existiu tanta a morte a organizar um evento como este Mundial, a construir puto de estádios. Quero que todos respeitem o básico e não se normalize censura, só para que se organize um Mundial de futebol. É assim tão dificil lá chegar?
Amigos e bola
Mas para eles tu é que não respeitas os direitos humanos ao permitires o casamento homossexual.
Tens de perceber o mundo como uma entidade heterogênea, com vários credos.
Chega de pensar no mundo na perspectiva ocidental.
Rui Costa
Desculpa lá se eu acho que estou certo por considerar a mulher ter os mesmos direitos e deveres do que eu…
Eles até podem manter as leis deles nao devem é ter eventos destes para fazer o famoso sportswashing.
Este mundial foi uma vergonha de um senhor que diz barbaridades como fazer um na Coreia do Norte ou ser vitima de bulling por ser ruivo, e estao estas bestas à frente de instituiçoes que movem milhoes de pessoas e de euros…
Podia ter sido o mais bem organizado de sempre que para mim continuaria a ser uma vergonha!
bpstp
Acho o texto muito injusto com o Catar.
Concordo que em tempos de arbitragem foi mau mas isso já é normal nos Mundiais. Em 2002 foi bem pior ao meu ver.
Foi um Mundial muito bem organizado pese embora a sua atribuição ter sido manipulada. Como disse o afrotuga jogador de Catar “as pessoas têm que cá vir antes de falarem”. Viu-se claramente Ocidente dizer as maiores barbaridades do Catar como se fossem algum regime ditatorial. Vejam os comentários dos jornalistas que lá estiveram. Todos falaram bem. A adepta de Croácia andou “nua” e não se passou nada. Outro invadiu o campo foi só detido. Ainda há dias viu-se a tentativa de CS ocidental colar a morte do jornalista durante o jogo com o facto de Catar ter alguma coisa a ver.
Sodogodo
O Catar é um regime ditatorial e os jornalistas por todo o mundo têm feito críticas à competição. Um dos que mais criticava morreu.