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Coração na boca vs Olho que vê

Há uns dias tornaram-se públicas as afirmações de um ex treinador, Graeme Souness, sobre as equipas orientadas por José Mourinho, “As equipa dele não são agradáveis de se ver”.

Ora olhando para esta frase, acredito que pode ser interpretada de duas maneiras, por quem consome o desporto pelo prazer de ver e sentir (adeptos) e por quem o olha com olhos de análise, sustentado num conhecimento do que é o jogo (treinadores).

Julgando do ponto de visto do adepto que vê o jogo pela sua equipa ou por gostar do desporto e das emoções que ele transporta consigo, percebo se alguém fizer esta critica, já que estamos a falar de um jogo ou uma ideia sem os desequilíbrios necessários para provocar momentos que façam os adeptos levantar-se da cadeira e vibrar, contudo, acredito que em muitos adeptos, quando se trata da sua própria equipa, não se importam de abdicar destes 90 minutos de emoção pela vitória no final (e os do Tottenham certamente estão satisfeitos pela razia de títulos que vivem há anos).

Por outro lado, quando se olha do ponto de vista do treinador temos de ser muito mais completos e sustentados na crítica do que no elogio. Primeiro por ter uma perceção do contexto do mundo do futebol e da complexidade do mesmo. Hoje, todos falam sobre José Mourinho e que o pragmatismo é a melhor coisa do mundo. Existe sempre alguém que espera vitórias para provar pontos de vista. O que não se percebe é que a linha entre ganhar e o perder no alto nível é muito ténue. Pegando na emblemática discussão (Mourinho vs Guardiola), o Mourinho não é melhor que o Guardiola porque o venceu há uns dias, nem vice-versa em outros momentos, quem acha isso, tem todo o direito, mas que seja muito mais completo na análise, que fale dos recursos que ambos têm, das suas ideias, das suas estratégias, do passado de ambos, etc.

Dando um exemplo que todos conhecem, Atlético de Simeone, ok, todos sabemos que uns gostam e outros odeiam, contudo, apesar de eu, pessoalmente não gostar de ver os jogos enquanto adepto pela sua abordagem, não posso deixar de atribuir valor ao trabalho realizado, é uma ideia, trabalhada exaustivamente sobre a visão e crença de uma equipa técnica, com o sustento de uma planificação de toda uma estrutura para fazer e aplicar aquilo, aceito que nos últimos anos, os jogadores que chegaram não encaixam a 100% na ideia do seu treinador, mas muitos anos teve os recurso que se encaixavam na ideia/ no processo, e conseguiu ter bons resultados. Não podemos por o peito para fora nas vitórias e ser ambíguos nas derrotas. Sérgio Conceição por exemplo, e sem entrar em clubites, constantemente fala das dificuldades a formar plantéis (acredito que seja jogo psicológico, o “nós contra o mundo” funciona muito bem e num clube como o FC Porto com a sua cultura e envolvência, ainda melhor), contudo, tem neste momento os jogadores que desempenham o papel que ele lhes pede, eu não critico o Sérgio por isso, critico quem lhe pôs lá o Nakajima a preço de ouro sabendo que este tipo de jogadores não se enquadram na ideia, e certamente ele não vai mudar o seu estilo porque foi o que lhe trouxe vitórias e reconhecimento.

O Mourinho, o Simeone, o Sérgio são aquilo e para estarem no top e vencerem têm de o fazer bem, tal como o Guardiola ou o Sarri são criticados quando numa saída de bola os atletas falham e sofrem golo por exemplo, eles são aquilo, para o bem e para o mal. Numa formação que fiz, ouvi André David (treinador) a dizer: “os treinadores são cada vez mais marcas, como as marcas de carros, e o clube que os contrata, vai comprar uma marca anteriormente identificada, seja na ideia, na postura, no palmarés, etc. Eles não perdem porque saem a jogar desde trás ou ganham porque o fazem, o jogo é muito mais complexo que isso e hoje, com tanta gente boa no mundo do que é o treino e a preparação das equipas, as vitórias estão muito caras, e quanto mais no top estivermos, mais temos de ter noção que a linha entre marcar golo ou sofrer é demasiado fina para uma critica fácil.

Percamos (nós que queremos aprender mais com este desporto) mais tempo a ver realmente as ideias de cada um e realizar uma análise quando umas se batem com as outras e deixemos espaço para os adeptos que se movem pela emoção, berrarem, criticarem ou chorarem de alegria, porque a emoção deles é grande parte do que é o futebol e neste momento, todos que estão num estádio vazio sabem disso.

Visão do Leitor: Hélder P. Gonçalves

VM-Desporto
Author: VM-Desporto

8 Comentários

  • Marcio Ricardo
    Posted Dezembro 8, 2020 at 9:39 pm

    O Milan de Sacchi não era a equipe mais espetacular da história, não era equipe de uma nota artística de cair o queixo e no entanto é uma equipe que jamais será inesquecível…

    Além disso, o Chelsea de Mourinho, na sua primeira passagem, dava sim, gosto de ver.

  • Mantorras
    Posted Dezembro 8, 2020 at 8:04 pm

    O que fica no final sao os resultados e as analises sao infinitamente influenciadas por estes. As conclusoes mudam quase diametralmente, dependendo do resultado final.

    Mourinho e Guardiola podem despoletar analises distintas quanto ao estilo, dependendo do “quadrante” que os observa, mas aquilo que os torna emblematicos, e que os consgra a ambos, e terem alcancado feitos notaveis e muitos, muitos titulos, que sustentam a sua qualidade. Sejamos justos, por muito que se possa ter uma analise negativa ou positiva, no momento, argumentar que um ou outro e fraco, ou mesmo que um estilo ou outro e fraco, e um argumento condenado a ser esmagado pelo palmares de ambos.

    Ja Simeone teria uma aura totalmente diferente se tem vencido pelo menos uma das finais da liga dos campeoes com o seu Atletico. Ficou longe? Nem por isso. Ate nem ficou longe de vencer qualquer uma das finais, podia ter dado ao Atletico duas champions, e quao diferente seria “a marca Simeone” se isso tivesse vencido? Muito diferente.

    Posto isto, e olhando para o caso de Simeone, ele poderia ter feito exactamente o mesmo trabalho “efectivo” (por isso quero dizer o trabalho de campo, no dia a dia, nos estagios, etc), em concreto, e ter uma “nota final” muito diferente. A analise e sempre redutora e injusta, em alguma medida.

    PS: se possivel continua a escrever, gostei muito do texto.

  • Af2711
    Posted Dezembro 8, 2020 at 6:28 pm

    O conceito de agradabilidade é extremamente subjectivo. Se fizermos uma linha do tempo, os adeptos duma forma ampla passam a simpatizar com o modelo vencedor.
    De 2010 para cá, quantos modelos de sucesso vimos e foram extremamente elogiados? Gegenpress, tiki taka, a organização defensiva incrível de Simeone, a filosofia de Bielsa no Athletic e agora no Leeds, e tantos outros.
    Gosto de ver futebol bem jogado, bola no pé, artistas da bola tecnicamente que fazem uma jogada que levanta estádios, mas compreendo também que hajam jogadores mais intensos e físicos que estão robotizados a seguir o que o treinador pede (e os verdadeiros artistas precisam hoje aliar esta intensidade à qualidade técnica para singrarem). Não é diferente tacticamente falando; há adeptos que querem vencer à qualquer custo, e outros que querem que a equipa deles não apenas vença, mas convença. Assim é o futebol, não há uma única via para o sucesso, nem para o deleite.

  • Goncalo Silva
    Posted Dezembro 8, 2020 at 6:17 pm

    Concordo com o que é dito no texto, mas não creio que as equipas de Sérgio Conceição se comparem às de Mourinho e Simeone. O futebol vem mais sobre o uso da força e dos movimentos nas costas do adversário, aliviar e pressionar de forma agressiva basicamente. Mas em termos de volume ofensivo o Porto tem bastante comparado ao Atlético e ao atual Tottenham, e não jogam tanto assim no contra-ataque.

  • Antonio Clismo
    Posted Dezembro 8, 2020 at 6:02 pm

    Olhamos para a Primeira Liga e quem são os treinadores que poderão ter o que é preciso para terem carreiras sólidas numa das big5?

    Jorge Jesus? (se o Bielsa teve sucesso no Championship sem saber falar inglês…)
    Sérgio Conceição? (Em França, principalmente)
    Rúben Amorim? (Tem falhado sempre nos jogos europeus, mas parece ter potencial para mais)
    Carlos Carvalhal? (Sabe vender-se bem, não é tão bom como julga, mas é muito competente)
    João Pedro Sousa? Talvez, talvez, quem sabe…
    Luís Freire? (Tem tido uma carreira de sucesso, mas parece sempre escolher os clubes mais sólidos)
    Mário Silva? (Ainda tem que comer muita fruta)

    Depois temos o Tiago Mendes que teve uma falsa partida no Guimarães… Ivo Vieira que ainda tem que mostrar mais,

    Na Segunda Liga também não parece haver ninguém que se distinga sobremaneira em relação aos restantes…

    Olhamos lá para fora e vemos excelentes trabalhos ao nível Champions como Mourinho, André Villas Boas, Luís Castro ou Paulo Fonseca.. depois também outros trabalhos interessantes como o Nuno Espírito Santo ou o Abel Ferreira.. Não é fácil conseguir um cargo num nível destes no estrangeiro, demonstra enormíssimo poder de resiliência, competência e poder de adaptação. Será que a Primeira Liga portuguesa é o habitat necessário para a evolução de treinadores neste tipo de contextos?

    Porque não costumamos ver técnicos portugueses na Alemanha por exemplo? Ou mesmo na Áustria coisa que até um americano tem conseguido singrar por lá..

    Porque é que os brasileiros não conseguem chegar muito longe? Possivelmente porque lhes falta este poder de adaptação que precisam… Raros são aqueles que sabem falar uma segunda língua, por exemplo…

  • Kafka
    Posted Dezembro 8, 2020 at 5:39 pm

    Excelente post

  • Keizer Potter
    Posted Dezembro 8, 2020 at 5:15 pm

    Brilhante. Muitos parabéns!

    Saudações desportistas

  • Tiago Silva
    Posted Dezembro 8, 2020 at 5:15 pm

    Concordo, muito se gosta de se criticar X ou Y sem ter grandes argumentos. Pode-se não gostar, isso é diferente, mas ainda bem que há muitas formas de se ver o jogo, senão não o tornava tão sofisticado e emotivo. Claro que toda a gente gosta de mandar críticas para o ar, principalmente no calor do momento, de cabeça quente e isso não é só no futebol é em qualquer coisa. Mas temos que parar e pensar sobre as coisas: porque realmente perdemos, porque não conseguimos ter bola, porque não criámos perigo, porque sofremos X golos… e tentar arranjar soluções. Cada um com o seu estilo, claro.

    E o mesmo se deve fazer quando queremos comparar. O que este dá melhor que aquele? Em que aspetos? Esse é o objetivo de qualquer análise e no futebol também se aplica.

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