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Criminosos de cachecol

O pensamento inspirador dos pirómanos encarnados que deitaram fogo ao anel inferior de San Siro é que “as tochas são um espetáculo visual fantástico”, fazendo a apologia do “uso de pirotecnia nos estádios como parte de uma cénica essencial” – uma doutrina irresponsável a coberto de absoluta impunidade, como uma espécie de crime de cachecol, comparável ao estatuto dos delinquentes de colarinho branco que gozam de indulgência social e de negligência judicial.

Aos “adeptos” tudo é permitido, desde os insultos, as ameaças, os distúrbios, as agressões, o tráfico, o furto, a posse de armas, e, claro, o fogo posto. Dir-se-á que é apenas uma pequena parte, uma percentagem que não representa o colectivo, mas os crimes que praticam nas bancadas, ou na via pública, a caminho dos estádios, só são possíveis por cumplicidade dos adeptos “normais”. Porque estes, muitas vezes por medo, fecham os olhos aos desmandos cometidos à sua beira e, nestes casos das tochas e dos petardos, até os aprovam porque ficam bem na “coreografia”.

“No pyro, no party”, dizem os imbecis, para quem o futebol não passa de fonte de ignição para a fogueira do fanatismo tribal.

O que aconteceu em Milão, quando a eliminação do Benfica já estava decretada, não foi um festejo, nem uma manifestação artística, foi um acto de vingança através da tentativa de provocação de danos físicos graves aos espectadores adversários da bancada inferior, ou seja, um inqualificável ataque de cobardes, protegidos pelas barreiras policiais e pelo perverso sistema das “caixas de segurança”.

Cabe à UEFA punir o Benfica com um castigo exemplar, memorável, que obrigue o clube a, finalmente, tomar medidas drásticas e apropriadas à associação de malfeitores que vem acobertando há décadas sob o pretexto falacioso de não ter claques “oficiais”, ou grupos de adeptos, ou bandos de incendiários, ou lá o que sejam estas hordas de energúmenos.

Foi assim, com a interdição dos clubes ingleses às competições continentais, que há mais de 30 anos se interrompeu a vaga criminal dos “hooligans” ingleses e se construíram as bases da Premier League, como pináculo de segurança e imagem positiva do desporto-espectáculo da era digital, enterrando para sempre as memórias terríveis do futebol dos homens das cavernas.

Passaram algumas horas, nem Benfica, nem Liga, nem Federação, se manifestaram sobre este grave incidente – quem cala consente.

Mas serão, certamente, enérgicos a protestar quando se conhecer o castigo sumário que a UEFA prepara – consequência da “síndrome de Estocolmo” que invariavelmente acomete as vítimas dos sequestradores das bancadas.

João Querido Manha

8 Comentários

  • DNowitzki
    Posted Abril 21, 2023 at 5:38 pm

    Isto não são adeptos de nada, exceto da violência, e gente desta não tem lugar num recinto desportivo. Não é o cidadão anónimo que se mete nestas caldeiradas criminosas, é alguém de outro calibre.

    Portugal – e a Europa ocidental em geral – é um país de gente mansa. Se uns vândalos criminosos se voltam contra a polícia, são normalmente uns coitados pobres, discriminados e por aí vão; se um polícia dá um encontrão a um imbecil, aqui d’el rei que a polícia é isto, aquilo e mais ainda.

    Em Inglaterra, todas as vezes em que joga a Toninho Futebol Club, há «n» ditos adeptos do mesmo que, naquelas duas horas aproximadamente, estão sentado numa esquadra de polícia. Por cá, ninguém faz nada; pior ainda, vários clubes apoiam e/ou encobrem a ação destes criminosos.

    Nisto, entra a falta de organização. Há uns anos, assisti, em Coimbra, à final de uma Taça da Liga com os dois miúdos. O jogo teria começado há uns dez minutos, mais coisa menos coisa, e estávamos todos, tranquilamente, a assistir ao fenómeno, quando subitamente entra na bancada onde estávamos a horda de NN. Foram 35 minutos em que não vi nada, pois a única preocupação foi abraçar os dois miúdos junto a mim para que nada lhes acontecesse. Mal chegou o intervalo e a horda de vândalos dispersou momentaneamente, mudámos para outra bancada e pudemos assistir aos segundos 45 minutos do jogo tranquilamente. É gente que não respeita nada nem ninguém, e estamos a falar de gente que apoia o mesmo clube.

  • dependente
    Posted Abril 20, 2023 at 6:41 pm

    Podem achar que estou a ser estúpido, mas na minha opinião, só há uma forma de lidar com este tipo de gente; À bordoada que é a única linguagem que eles conhecem. Quanto ao facto dos adeptos irem para locais, onde a maioria é adversária deveria ser possível, mas infelizmente devido ao comportamento de algumas bestas humanas não é viável.

  • lipe
    Posted Abril 20, 2023 at 3:10 pm

    Por norma gosto muito dos textos do JQM, mas com este tenho que discordar. Começa logo de forma errada, ao supor que para energúmenos como os de ontem a pirotecnia é um “espetáculo visual fantástico” e fazem parte de “uma cénica essencial”.

    Nada mais errado. Isto são pessoas cuja principal motivação nos estádios de futebol é exatamente esta: semear o pânico, a discórdia e a confusão. Não é um fenómeno recente sequer; lembro-me de acontecer algo semelhante aquando da visita do Benfica ao Vicente Calderón há uns anos atrás (e sim, também aconteceu/acontece com outros clubes, até com o meu).

    Pirotecnia pode ter lugar no futebol, como é exemplificado pela Alemanha, não pode é ter lugar na mão de pessoas assim.

    E mais, este episódio só vem reforçar a importância das redes nos setores visitantes (e infelizmente mostra o porquê de ser má ideia espetar adeptos visitantes em cima de adeptos da casa).

    • Manel Ferreira
      Posted Abril 20, 2023 at 4:16 pm

      O teu último parágrafo é, citando um ilustre user aqui do tasco… na mouche!

      Tem piada ver o JQM tão crítico do adepto e da condição de adepto ao qual tudo é permitido (e tem alguma razão), mas depois faz um escarcéu com o impedimento de adereços visitantes na bancada de sócios do clube da casa. Uma medida implementada precisamente para evitar (ou diminuir as hipóteses) que haja essa selvajaria, que, qualquer pessoa que tenha ido a um estádio sabe que está sempre a um centímetro de acontecer.

      Ou seja, quando lhe convém os adeptos são uns animais selvagens que não se sabem comportar; quando já não convém são uns pobrezinhos que só querem disfrutar da bola em comunidade, cantando “kumbaya”, mas os malvados clubes da casa não os deixam.

      • DNowitzki
        Posted Abril 21, 2023 at 5:29 pm

        Há adeptos e… os outros. A mim, jamais me ocorreria andar à batatada com quem quer que seja num estádio de futebol, quanto mais praticar crimes.

      • lipe
        Posted Abril 21, 2023 at 9:15 am

        Em relação a esse assunto sou como o Mourinho: “I prefer not to speak, if I speak…”

  • Fadista
    Posted Abril 20, 2023 at 2:55 pm

    A pergunta que se impõe, como é que isto entra num estádio de futebol, a uns bons KMS de distância da origem?
    Os clubes não podem pagar por estes atrasados, eles é que têm de ser identificados e excluídos dos estádios de futebol, o clube vai dizer para não o fazerem e eles continuam, não querem saber disso para nada…

    • lipe
      Posted Abril 20, 2023 at 3:11 pm

      Qualquer pessoa pode encomendar tochas da internet hoje em dia. Pra além disso, muitos dos que marcaram presença eram portugueses a viver noutros países. Da Suíça a Milão é um tirinho, por exemplo.

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