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Das brumas ao esplendor

Se Roberto Martinez fosse português, provavelmente, não teria feito entrar João Mário em campo a um minuto do fim, em pleno estádio do Sporting – a menos que quisesse humilhar o jogador.

A falta de respeito, ingratidão e clubite de que se queixou o presidente da Federação a propósito deste incidente talvez não sejam sentimentos do cardápio formativo do novo seleccionador de Portugal, não obstante ter nascido na Catalunha com azia inata contra o Estado castelhano.

Humilde, Martinez diz que está a aprender, a conhecer os jogadores, e tem muito poucas e extremamente fugazes oportunidades para descobrir e adoptar ou adaptar.

É interessante ter um treinador estrangeiro que se esforça por aprender português. É curioso ter um líder oriundo de um país de várias nações e com um hino sem palavras a procurar cantar os versos da Portuguesa, mesmo sem base cultural para entender o silogismo entre a heróica e nobre valentia e a sabedoria dos egrégios antepassados, a vitória das “armas” sobre os canhões – esse imortal complexo de inferioridade que nos agiganta.

Roberto Martinez não fazia ideia de que João Mário, o melhor jogador da época em Portugal, era “persona non grata” no “José de Alvalade” e um alvo potencial da frustração clubista que divide o país. E ninguém teve o cuidado de lhe explicar, apesar de a Federação ser hoje um retiro dourado para dezenas de ex-jogadores, a começar pelos adjuntos portugueses que elegeu, Ricardo Carvalho e Ricardo Pereira, que conhecem este assunto a fundo, através de experiências pessoais extremas.

O espanhol aprendeu assim na primeira aula que, em Portugal, um ex-capitão de um clube pode transformar-se em “maçã podre” ou em “traidor” como quem troca de camisa e que a identidade dos clubes é primordial relativamente à da equipa nacional. Já acontecera com João Moutinho, que tinha um passado idêntico e cometera um pecado semelhante, “defraudando” valores materiais e sentimentais aos olhos dos sportinguistas, mas o grau de intolerância sobe em função da cor do clube beneficiário e, eventualmente, também da tez da pele.

O lado “social” deste episódio com João Mário é, apesar de tudo, menos importante do que o “desportivo”.

As múltiplas observações que o espanhol pareceu andar a fazer nos estádios portugueses levaram-no inexplicavelmente a adoptar uma solução táctica igualmente contra-natura, inédita em seleções de Portugal, e a deixar fora da equipa inicial alguns dos jogadores mais determinantes dos jogos a que assistiu, a começar pelo próprio “patrão” do Benfica actual.

Roberto Martinez assume o compromisso de levar a seleção à final do Europeu, num percurso em que defrontará 80 por cento, ou mais, de adversários claramente mais fracos, através de um dispositivo inflacionado de defesas, meio travestidos em jogadores de pressão, mas pelo sacrifício de unidades decisivas no ataque, como Gonçalo Ramos, Diogo Jota ou Rafael Leão.

Depois de falhar uma gestão emocional básica, obrigando a cúpula federativa a sair do seu silencioso sepulcro para sanar o mal-estar criado, e expor-se inexplicavelmente com uma proposta de futebol para equipas pequenas que vai demorar a ser assimilado por jogadores e adeptos – só pode melhorar.

Pelo menos, terá entendido a charada sobre a liderança que se propõe cantar antes de cada jogo, igualmente uma metáfora para o futuro de João Mário: das brumas das más memórias ao esplendor das grandes vitórias.

João Querido Manha

8 Comentários

  • Neville Longbottom
    Posted Março 30, 2023 at 3:39 pm

    Eu discordo em absoluto deste texto, lamento ao autor.
    O treinador tem de meter em campo quem considera melhor no minuto que entender.

    Eu já aqui elogiei o João Mário várias vezes, compreendo a sua decisão de ter ido para o Benfica. Mas, ao tomar essa decisão, o João já sabia do reverso da medalha. Há sempre algo a perder e, neste caso, foi a simpatia e o carinho dos 5 ou 10% de sportinguistas que são deficientes mentais.

    É óbvio que ele não devia ser assobiado, é óbvio que devíamos estar todos a remar para o mesmo lado. Agora, querem controlar os comportamentos de todas as pessoas? Querem impedir os adeptos de assobiar? E digo isto não no sentido de não condenar os assobios, mas no sentido de “era o que faltava isso ser impedimento de meter o jogador em campo”:

    O João é homenzinho, como o Martinez também é. Têm é de saber lidar com isto, com toda a nornmalidade, a mim faz-me confusão o grau que isto atingiu, como se nunca tivesse acontecido antes. Está longe de ser inédito (ainda me lembro de cartazes a gozar com o Patrício num jogo da seleção em que ele jogou).

    Que tenha toda a sorte no Benfica e na seleção. E que siga a sua vida a ignorar este barulho todo.

  • Fireball
    Posted Março 25, 2023 at 9:51 am

    A nível tático e de escolhas só tenho a dizer que este 11 com Ruben Neves e William nos lugares de Inácio e Palhinha era exatamente o 11 que Fernando Santos escolheria. A forma, o contexto, não importam, é só o nome da camisola. Mudam-lhes as posições mas os lugares mantêm-se. Sim, há lugares cativos na seleção. 3 jogadores do Benfica, uma das melhores equipas da Europa convocados, nenhum no 11. Jogam para isso 3 jogadores fora de forma ou a jogar em campeonatos muito periféricos. Aplaudo a estreia de Inácio, literalmente a única lufada de ar fresco que vi.

  • Jeco Baleiro
    Posted Março 24, 2023 at 9:36 pm

    Há passagens e considerações neste texto absolutamente vergonhosas. Fica ao critério de quem as escreveu e, quanto a isso, nada a fazer.

    Quanto ao João Mário, é um jogador e profissional que admiro. Bom jogador, com uma postura correcta. Defendeu o meu clube com brio e mostrou sempre um enormes respeito pela camisola enquanto cá esteve. Tem o meu apreço. O meu e o de muitos sportinguistas. (Estou a comentar sem ter visto o jogo e a situação em particular que provocou todo este sururu). Jogar no Benfica, no Porto, no Shangai ou no Lokomotiv é-me completamente indiferente a partir do momento em que já não está no Sporting.

  • Artur Trindade
    Posted Março 24, 2023 at 8:38 pm

    Discordo por muitos motivos deste artigo de JQM.
    João Mário é um jogador que muito admiro, até como homem, e discordo em absoluto da posição confragedora, em que foi colocado, principalmente neste contexto de seleção.
    Mas o JQM deve recordar-se, apesar de não ter referido, do exemplo de JVP que sempre foi olhado de soslaio pelos adeptos do clube encarnado, numa situação bem menos insuspeita para si, por ter sido corrido do clube.

    O técnico catalão conhece obviamente casos como o de Figo, e da importância de mudar para um clube rival.
    Taticamente discordo em absoluto, por achar que a tática dos 3 defesa assenta como uma luva, nos alas magníficos que temos, Cancelo, Dalot e NM, no Palhinha aguentar o meio campo sozinho, e no facto de BF, Bernardo e Félix serem incapazes de encostarem nas laterais, portanto é uma tática de equipa grande, principalmente por estar adaptada aos jogadores que temos.

    JM não é neste ano melhor jogador do que sempre foi, e não é pela importância no Benfica, por ser o líder, que o seu enquadramento competitivo deve ser tão valorizado como a dupla de Manchester, apesar de dever estar a jogar mais que Bernardo, por ter o mesmo futebol associativo, mas bem mais produtivo neste momento.
    O futebol mais direto de BF, não tem substituto, por MN estar fora dela.

    • Citizen_Erased
      Posted Março 25, 2023 at 11:39 am

      Duvido que tenha havido mais de 1% (e isso atesta bem a capacidade de raciocínio dessa amostra), e já estou a ser exagerado, de adeptos do Benfica que tenham “olhado de soslaio” para o JVP. Então o homem é completamente arrastado na lama por aquele mentecapto que estava como presidente, que dispensou o melhor jogador do clube, e, durante os 8 anos em que esteve lá, praticamente o único garante de qualidade e estabilidade futebolística (durante tanto tempo só Saint Michel), e os benfiquistas iam ficar chateados por ele ter ido para o Sporting???
      Depois há outro ponto que eu vi alguém referir num comentário ao post do Palhinha, nem o Pepe e especialmente o Otávio, que é das personagens mais asquerosas que passou pelo nosso futebol em termos de atitude, especialmente contra o Benfica, é vaiado na selecção, e um jogador que nunca faltou ao respeito ao clube, apenas decidiu prosseguir carreira onde lhe deram melhores condições e onde o desejaram, é vaiado…
      Mas já estou como o outro, isto é só notícia porque é o Sporting, se fosse o Benfica estaríamos protegidos..

      • Pringle
        Posted Março 25, 2023 at 2:37 pm

        Não querendo exagerar, mas acredito que na altura do JVP, se calhar houve mais adeptos do Sporting indignados do que adeptos do Benfica por ter assinado pelo Sporting. Quem viu o Benfica naquela altura, sabia que era quase JVP e mais 10, só de horrível que eram as equipas do Benfica desde o campeonato ganho em 94. Quem viveu essa era sempre lhe foi grato. Outro ponto e que era sabido por toda a gente, era o facto de JVP não querer ir para o estrangeiro. Portanto era lógico que quando é dispensado do Benfica, só iria haver dois clubes com capacidade para assinar contracto com ele, Sporting e Porto. Portanto nada a criticar em relação ao JVP, só agradecer como Benfiquista aquilo que ele deu ao clube numa fase negra deste.

        • Artur Trindade
          Posted Março 25, 2023 at 8:52 pm

          Aqui o ponto é o facto de esta situação lamentável com o JM ter acontecido na seleção, provavelmente para quem o fez, o facto de ter sido contra o Liechestein,e no final do jogo, terá confundido com um treino.
          Mas para quê negar que o JVP foi maltratado em jogos do Sporting contra o Benfica, tal como foram o uruguaio DD, o Yuran e o Kulkov, o Paulo Sousa, o João Pereira, o Pacheco, ou o JJ que foi corrido da Luz, mas que os adeptos (é sempre parte deles), não lhe perdoaram a ida para o rival, concordando inclusivé com o processo de milhões para lhe moerem a cabeça.
          Cada um com os seus casos, que na maioria são saudáveis rivalidades.

          PS: Aproveito para registar que nas poucas vezes que apanho a BTV, tenho visto a reintegração de Carlos Manuel, Pacheco e Rui Águas, na tribuna e microfones, readmitidos pelo seu benfiquismo.

        • Citizen_Erased
          Posted Março 25, 2023 at 6:18 pm

          Exacto, não sei se aconteceu mas até é mais provável, especialmente porque ele não se saia nada mal contra o Sporting. Adicionalmente com os filhos ainda em idade menor, deve ter pesado o facto de não ter de mudar de cidade.

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