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DDP vs. Khamzat, críticas e a “WWEzação” do UFC

Imagem: UFC

No passado sábado (ou domingo para os europeus) ocorreu um dos combates mais aguardados pelos fãs de MMA. O campeão Dricus du Plessis enfrentaria Khamzat Chimaev pelo cinto dos middleweight e vários eram os motivos para o interesse geral: um ano com a generalidade dos cards pouco atrativos; a ascensão e domínio do desafiante; e o choque de estilos. Se estava criado o caldo que criava expectativa generalizada, para muitos o combate não correspondeu, mas a culpa não foi dos lutadores.

A analisar-se o combate o que tivemos foi uma excelente luta. A forma como ao longo de quatro rounds Khamzat dominou du Plessis entrará para os manuais dada qualidade dos takedowns e do ground and pound. Raras são as vezes em um campeão é dominado de uma forma tão brutal ao ponto dos três juízes terem dado 50-44 a favor do novo campeão Chimaev.

Só no primeiro round Chimaev acertou 131 dos 137 golpes que desferiu, uma taxa de precisão de 95,6%. Du Plessis acertou apenas três. Há, no entanto, o facto de, das 137 tentativas de golpe de Chimaev, apenas duas terem sido classificadas como tentativas significativas de golpe.

Para se ter uma análise mais global, Chimaev desferiu um total de 567 golpes ao longo dos cinco rounds, o que perfaz uma média de 113,4 golpes por round. Estes números foram possíveis de alcançar porque, com extrema facilidade, Chimaev colocou du Plessis num crucifixo e com isso ganhou uma posição dominante que lhe permitiu fazer o que quisesse. O ex-campeão teve dificuldade de reacção e Chimaev banalizou-o, chegando a haver momentos confrangedores dada a qualidade que se exige naquele nível.

Um outro dado de relevo é o ponto forte de Chimaev: em 17 tentativas de takedown, o lutador checheno conseguiu concretizar 12. Este número por si só pode não impressionar, mas associando-o aos 21m40s de tempo total de controlo que alcançou numa luta de 25 minutos, e cruzando-o com o número de golpes, o domínio imposto fica evidente.

Du Plessis não recebeu crédito por um único segundo de tempo de controlo ao longo dos primeiros quatro rounds e os 53 segundos contabilizados a seu favor referem-se ao quinto round no qual, sabendo da evidente derrota, realizou a única tentativa de submissão de todo o combate, algo que Chimaev não realizou mesmo tendo controlado tanto.

O resto já se sabe. Chimaev é o novo campeão da divisão dos middleweight e, neste momento, é difícil imaginar alguém que o consiga destronar. Na retina fica sempre o estado em que ficou Robert Whittaker e a sua dentição após o combate com o checheno.

Mas fica aqui o grave problema com o combate. Ao longo do mesmo ouvia-se o público a apupar o main event deste UFC319, um evento que contou com dois KOs via spinning elbow. Os fãs de UFC não tardaram em apelidar como «aborrecido» o combate de Dricus du Plessis e Khamzat Chimaev, mas esse é um problema criado pela própria companhia.

Os patrões do UFC entenderam que o seu produto não era o desporto, mas sim o espectáculo – algo que Conor McGregor desbloqueou. É por este motivo que a companhia procurou atribuir o nível de estrelato a lutadores como o Sean O’Malley e atribui-o agora a Illia Topuria. A promoção dos combates passou a ser direccionado nesse sentido e a característica única do MMA foi relegada para segundo plano. Os KOs e o trash talk fazem highlights partilháveis nas redes sociais e isso cria uma expectativa entre os fãs de que todos os combates terão esse desfecho. Isto gera uma massa adepta que não quer ver a riqueza do desporto, preferindo uns segundos de adrenalina, ignorando assim um bom combate.

Dricus du Plessis contra Khamzat Chimaev foi um excelente combate onde o domínio foi alcançado por uma técnica brilhante. Não foi fogo de artifício, porém foi puro MMA. Nos múltiplos estilos que o desporto contempla, enfrentaram-se dois atletas com características próprias. O combate no chão é parte do desporto e cabe ao UFC ter uma acção pedagógica em relação a isso. Não deixa de ser verdade que foi criado o UFC BJJ, porém pode não ser suficiente.

Pode-se dizer que esta forma de olhar para o desporto por parte do UFC é normal uma vez que a companhia é detida pela Endeavor Group Holdings que tem sob a sua alçada a WWE. Isto pode ter marcado o ponto de viragem para a forma como o UFC trata o desporto, porém terá de levar a questionar se isso é favorável ao MMA. O combate do Dricus e do Chimaev pode ser o ponto de partida para esse debate.

Visão do Leitor: António Azevedo

6 Comentários

  • Tyrion
    Posted Agosto 19, 2025 at 2:32 pm

    Obrigado pela análise. Um desporto que gosto imenso mas que raramente consigo ver devido aos horários.
    Relativamente ao Chimaev, que domínio. Como é que se luta contra aquilo?

  • odiaemquejesuserrou
    Posted Agosto 19, 2025 at 3:30 pm

    Bom texto, parabéns.

    Quanto ao combate, não sei se alguma vez tinha visto um challenger a dominar desta maneira um campeão. É normal que, quem não faça grappling (seja wrestling, BJJ, judo, sambo, etc.) não goste de ver as lutas no chão – o ritmo é mais lento do que uma troca de punhos / pontapés. Para quem faz ou já fez, é mesmo muito interessante porque sabem o quão tecnicamente complicado é dominar alguem assim. Chimaev é muito rápido nos seus takedowns e o pior é que também não é mau em pé.

    Era expectável que Chimaev vencesse (basta ver as odds para a luta nas casas de apostas), mas ninguém pensou que seria com este domínio. O complicado será ver como fica a divisão middleweight agora, e custa perceber como é que Gibert Burns foi o homem que mais perto esteve de bater Chimaev (se não viram essa luta, recomendo). Usman esteve bem também quando lutaram e pode ser que eventualmente tenha uma oportunidade, embora não acredite que consiga destronar Khamzat.

    De resto, algum destaque também para MVP (mais uma vitória importante), que vai continuando a subir nos rankings, bem como Carlos Prates (bastante carismático e até vai fumar cigarros nas entrevistas pós-luta) – pode ser que tenhamos um contra o outro em breve, e isso seria espetacular.

    A UFC BJJ não me parece que vá mudar muito as coisas, mas posso estar enganado – o jiu-jitsu está em crescimento (basta ver o crescimento da academia em que treino nos ultimos 3 anos, que vai aumentando exponencialmente o número de praticantes) e pode ser que mais olhos se virem para a modalidade. No entanto, a UFC tem que conseguir ir buscar os melhores lutadores, e isso não será facil de fazer porque exigem exclusividade ao seu roster (até agora o nome maior que tem no roster é Mikey Musumeci), não permitindo aos atletas competir em outras competições de maior prestigio (ADCC, IBJJF ou mesmo CJI). Parece-me a estratégia errada, embora se perceba que não queiram usar os seus atletas para promover outras marcas ou arriscar lesões noutras competições que enfraqueçam um card futuro por indisponibilidade dos atletas.

    Quanto à WWEzaçao – é sem duvida verdade e é normal, porque a empresa quer apelar aos casuals e não àqueles que tecnicamente percebem de lutas (porque os primeiros são um grupo mais vasto que os segundos). É preciso star power e Dana White sabe que lhe falta no roster. Há malta com carisma, como Topuria, Pimblett e o próprio Khamzat ou o Islam e até o Aspinall, mas nenhum deles é McGregor (embora sejam todos largamente superiores ao irlandês na jaula).

    Quanto a mim – acho que temos visto combates espetaculares no UFC recentemente e há muito talento. Com um bocado de sorte em breve teremos bons combates para ver (Topuria vs. Pimblett ou Islam vs. JDM parecem ser os mais próximos) para que o fan base continue a crescer.

    Parabéns mais uma vez pelo texto!

    • smackmybeachup
      Posted Agosto 21, 2025 at 6:12 pm

      É a primeira vez que acho uma luta do Chimaev aborrecida, apesar de ter sido impressionante o que ele fez durante 25 minutos. Muita gente disse que se passasse do R1, só dava DDP, e não foi o que se verificou.

      Percebo a abordagem mais cautelosa do Chimaev, pois é uma luta de 5R pelo título mas achei uma luta demasiado previsivel, até pela falta de respostas do DDP no chão. A grande diferença entre esta luta e as duas lutas contra Burns/Usman é mesmo o gás. Não sei o que deram ao rapaz no centro olimpico russo, mas resultou.

  • slipkorn
    Posted Agosto 19, 2025 at 10:33 pm

    Chimaev dominou totalmente o combate, aliás foram 4.5 rounds de total domino, literalmente “sem se esforçar” e sem correr grandes riscos e no único momento, no final do 5 round, ainda cometeu aquele ligeiro erro de calculo que deu alguma abertura – por segundos – ao DDP mas ainda terminou o round literalmente por cima.
    Agora segue-se Abu Dhabi já em Outubro para Chimaev porque todos querem: Chimaev quer lutar no pais que ao dar-lhe nacionalidade permitiu que ele fizesse esta luta nos USA e ser o esperado campeão , os donos daquilo tudo (Sheikh) querem e o Dana quer ($$$).
    Numa análise simples e rápida: Borralho e Imavov lutam em Setembro logo não serão porque é muuuuito improvável alguém vencer rápido e sem dano e mesmo que isso acontece 1 mês para preparar Vs Chimaev é 100% impossível 1 deles ser, ainda por cima sabendo-se que quem vencer terá title shot.
    Restam Anthony “Fluffy” Hernandez e Reinier de Ridder, sendo 100%, vá 99.999999999999% que o Dana pode bater com a cabeça e inventar – que será 1 deles…Fluffy–here we go
    Independentemente de qual dos 2…provavelmente Chimaev vai ter uma odd de 1.10 para vencer…isto se for tão alta kkkkkk
    Uma palavra para DDP, amigo, podes aposentar porque SE voltares a ter title shot é só depois de Chimaev “limpar” toda a categoria e se ele não resolver subir para atrás do 🔥
    Ele pediu 🔥 e até aceitava que não fosse por titulo.

    • slipkorn
      Posted Agosto 20, 2025 at 7:05 pm

      E não é que Dana bateu mesmo com a cabeça? 🤯
      Anthony “Fluffy” Hernandez Vs Reinier de Ridder confirmados para 5 rounds no UFCVancouver a 18 de Outubro…
      Agora ficou esquisito…quem irá defrontar Chimaev em Abu Dhabi? Será muito estranho os donos daquilo tudo não “exigirem” Chimaev no UFC Abu Dhabi, quando o próprio pediu isso depois de vencer o cinturão…

  • Citizen_Erased
    Posted Agosto 20, 2025 at 6:38 pm

    Antes de mais, parabéns por mais um excelente artigo – quando há um PPV vale sempre a pena vir ver se escreveste algo sobre o mesmo.
    Concordo parcialmente com a avaliação da luta principal – tecnicamente, foi uma demonstração excelente do Chimaev, mas acho que o que as pessoas se referem mais é de algo que apontas e bem – a extrema paciência dele durante a luta; estavamos habituados a um Chimaev que ou atropelava tudo e todos, ou quando as lutas não eram fáceis (Durinho e Usman), eram sempre candidatas a lutas da noite. Aqui não foi o caso; ele esteve com o crucifixo 3 vezes e em vez de usar os cotovelos por exemplo, andou a dar “rabbit punches”. O Khabib por exemplo tinha um arsenal parecido mas raramente fazia lutas chatas (sempre à procura da finalização, até em lutas pelo cinturão – nas 3 defesas finalizou sempre)
    Por outro lado, é de realçar a fibra do DDP, mas quem viu a luta pensou que ele não treinou nada wrestling – o que não acredito, esta é apenas a diferença de um tipo que treinou wrestling durante uns meses afincadamente e um tipo que treina desde criança.
    Adicionalmente acho que o publico não gostou porque até à luta principal tinha sido um grande PPV (pelo menos em termos de lutas principais), e esta desiludiu.
    Do resto, grandes exibições do MVP e Prates, Tim Elliott a provar que velhos são os trapos (as quedas viraram a luta) e mais uma questão relativa a lutadores da PFLator – Pico estava a fazer uma grande luta, mas a soberba e aquela entrada leeeeeeeeeeennnnnnttttaaaa antes de levar com o cotovelo deu cabo de tudo (e com 28 anos, já levou 3 ou 4 deles…)
    Quanto ao próximo adversário de Chimaev, Borralho e Imavov lutam em setembro – logo parece impossivel estarem em outubro no PPV. Fluffy e RDR vão-se enfrentar (já foi anunciado), e o Strickland está suspenso e vem de derrota (tal como o Izzy), logo duvido muito que haja luta pelo cinturão em Agosto (a não ser que se lembrem de uma maluquice como Paulo Costa…)

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