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Dicionário futebolês século XXI (sem prefácio de Manuel Machado)

A evolução do futebol pode ser vista em diferentes elementos. Nos números que já não são de 1 a 11, nas botas coloridas, em jogos com 22 nacionalidades diferentes no relvado. Mas um especto interessante é o modo como o próprio léxico do futebol mudou.

As citações de Gabriel Alves (que nos deu pérolas como “e aqui está, um golo substantivo que nem pode ser adjetivado”) e a ripa na rapaqueca de Perestrelo deram lugar aos Freitas-Lobismos, termos como “entre linhas” ou “transição” foram lentamente introduzidos no dicionário de futebolês, sendo hoje considerados indispensáveis para descrever qualquer partida de futebol. Não que antes a procura do espaço vazio não fosse uma realidade, ou que as equipas de hoje não joguem em contra-ataque, mas a verdade é que a língua evolui com o tempo, algumas expressões caem em desuso e outras emergem.

A questão é que muitas das palavras que se tornam populares, ao serem utilizadas em demasia, perdem o seu significado, acabando por tomar um significado abrangente, perdendo o seu sentido inicial. Seguem-se alguns vocábulos sem os quais o comentador de sofá não passa, mas que nem sempre são alvo de correcta utilização:
Potência
Jogador forte, rápido ou poderoso é hoje inevitavelmente denominado “potente”. A certa altura, a expressão até acaba por parecer depreciativa, pois subentende-se que este tipo de jogadores pouco mais tem que perfil atlético. Mas o facto é que as características físicas de um jogador não se podem reduzir à tal “potência”, tantos são os parâmetros a considerar. A velocidade é um factor relevante, mas nem todos os jogadores rápidos o são pela mesma bitola. Alguns jogadores são capazes de sprints longos, outros são rapidíssimos, mas apenas em distâncias curtas, e depois há o factor aceleração, cuja variação molda a visão que o espectador tem da velocidade de um jogador. A força, o poder de choque (muitor relacionado com o equilíbrio e coordenação motora), com e sem bola, a resistência (porque há aqueles carros potentes cujo motor gripa cedo) são algumas características físicas que definem um jogador, e que muitas vezes são ignoradas.
Técnica
Palavra várias vezes utilizada, de modo errado, para descrever habilidade. Técnica individual passa, antes de mais, por dominar os aspectos básicos do jogo, tais como passe, recepção e remate. Um jogador que faça 500 embaixadinhas no treino e aplique três ou quatro cabritos num jogo, mas que não receba uma bola no pé sem que esta fique coladinha, não pode ser apelidado de tecnicamente evoluído. Um exemplo era Edgar, antigo extremo do Benfica. Drible genial, raramente perdia no um contra um, porém, o destinatário primordial dos seus cruzamentos era o apanha-bolas atrás da baliza adversária. Esta é uma discussão antiga, e sem consenso, tendo como um dos seus pontos a dicotomia entre o jogador latino e o alemão. Os germânicos sempre foram considerados como pouco tecnicistas, e até toscos, embora quase todos mostrassem uma capacidade de executar gestos de passe e remate muito superiora à dos tecnicistas portugueses.
Decisão
O poder de decisão, tantas vezes confundido com capacidade de execução. Quando um jogador lê o jogo, vê as opções, e toma a decisão de colocar a bola no seu colega sozinho, mas atira um biqueiro pela linha lateral, não estamos perante uma má decisão, mas sim má execução dessa decisão. Falta de capacidade de decisão é não saber o que fazer com a bola (e não é exclusivo dos atacantes), ou então passar para um colega marcado, ou arriscar o drible quando se tem dois companheiros isolados. Essa tomada de decisão pode ser limitada pela incapacidade de jogar de cabeça levantada, ou por lentidão com bola no pé, mas é preciso sempre distinguir os erros que se cometem por falta de cabeça daqueles cometidos por falta de pés. Outro ponto a referir é que a decisão nem sempre acontece com bola no pé, pois qualquer movimentação sem bola é uma tomada de decisão que influencia o decorrer de uma partida.
Intensidade
Correr desalmadamente, morder os calcanhares do adversário, discutir cada jogada como se da última se tratasse? Esta é uma palavra e significado complicado? Alguns jogadores optam por fugir ao contacto físico, sendo por isso apelidados de pouco intensos. William Carvalho é um bom exemplo, pois muitas vezes no processo defensivo prefere gerir o espaço do que atacar o adversário. A verdade é que, dada a sua fraca capacidade de aceleração, ele torna-se presa fácil para quem lhe apareça embalado pela frente, preferindo por isso contemporizar (outra palavra futebolesa), mas para tal, tem de contar com… a intensidade(?) dos colegas, que terão de o acompanhar no processo de recuperação. A verdade é que os adeptos preferem o jogador que se mata em cada jogada, apelidando de preguiçosos os Cardozos que por cá passam, e não ligam àqueles que, através de constantes movimentações sem bola, possuem a capacidade de dar e tirar linhas de passe sem recorrer a grandes correrias, permitindo-lhes estar sempre em jogo.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Nuno R.

0 Comentários

  • Alexandre
    Posted Setembro 8, 2015 at 10:04 am

    Bom artigo de introdução ao futebol dos dias de hoje. Acho que ficou a faltar um conceito ao post: o dos processos colectivos da equipa. É um conceito que está intimamente ligado aos outros que são aqui mencionados e em particular ao da decisão, mas que permite ver o futebol não apenas concentrado no indivíduo, do jogador como uma ilha (como tantas vezes se ainda avaliam os jogadores, aliás ainda há bem pouco tempo se falou aqui do hazard como o pior jogador no último jogo da Bélgica) e se tenta entender realmente o que uma equipa vale como conjunto e o que cada jogador traz (ou não) para ela.

  • Anónimo
    Posted Setembro 8, 2015 at 10:30 am

    Óptimo artigo, depois de o ler talvez muitos percebam porque prefiro o Varela ao Quaresma que apesar de mais vistoso era absolutamente inconsequente nesta segunda passagem pelo FCP.

    Carlos

    • André Gomes
      Posted Setembro 8, 2015 at 11:38 am

      O Varela é um jogador inteligentíssimo que passa despercebidos aos olhos do adepto comum. Movimentações soberbas, desde cortes para o interior para abrir espaço ao lateral (note-se que os laterais que jogam no corredor com o Silvestre rendem sempre muito mais que com outros extremos) aos ataques aos cruzamentos do lado contrário para finalizar (os golos que parecem só encostar mas só os marca quem lá está). Depois tem aquele remate fácil e poderoso. Soberbo também no processo defensivo, a trabalhar muito a cobrir espaços e linhas de passe. Também tem muitos defeitos, não há-de ser bola de ouro mas há aspectos do seu jogo em que é fortíssimo. Sou um fã do Varela :)

    • Ruben
      Posted Setembro 8, 2015 at 12:22 pm

      André Gomes, não sendo eu um fã do Varela, gostei imenso do seu comentário. Isto porque prova que tem que se olhar para mais do que os números para perceber a capacidade de um jogador. Quantos jogadores marcam pouco e assistem mas são fundamentais para que outros assistem e outros marcam ? Futebol é para se ver e desfrutar, não para se medir. Deixem a estatística para o INE :)

    • Ricardo Ricard
      Posted Setembro 8, 2015 at 12:55 pm

      Há jogadores que só se percebe o seu trabalho se os virmos jogar ao vivo ou compreende-se melhor.
      Lembro-me dos primeiros tempos do Enzo,só no estádio se percebia o que o homem fazia. O Ramires era outro.

    • André
      Posted Setembro 8, 2015 at 4:29 pm

      Grande verdade, o futebol no estádio dá para ver muita coisa que em casa escapa.

      Pessoalmente (sou novo ) há 3 jogadores que me impressionaram ao vivo e que percebi o porquê da sua importância nas suas equipas:

      Lucho (às vezes na televisão parecia que nem lá estava, mas coordenava toda a equipa parecia que lia os lances antes de acontecer, não era o mais rápido em campo mas parecia ser)

      Matic (a forma como condicionava a equipa que atacava era impressionante e a capacidade para sair a jogar acho que ainda não voltei a ver igual num médio defensivo – acho engraçado falamos muito do Enzo mas o Matic enchia-me muito mais as medidas)

      João Mário (mais pela evolução, desde o Setúbal primeiro ano do Sporting e agora Sporting versão Jesus é um jogador incrível, sempre a dar linha de passe excelente a coordenar com Adrian, mesmo a atacar está a "defender")

  • João S
    Posted Setembro 8, 2015 at 10:40 am

    Olá Nuno, obrigado por esta "introdução ao futebol" :) Gostei particularmente da definição de técnica! Uma pergunta, estas são as tuas definições/opiniões pessoais sobre o que cada um destes aspectos significa ou baseaste-te nalgum livro/artigo? Se sim, podias partilhar a referencia? Obrigado

  • João Gonçalves
    Posted Setembro 8, 2015 at 10:46 am

    Bom artigo, que poderia perfeitamente ter mais capítulos..
    Queria acrescentar ao poder de decisão algo que na minha opinião separa os bons jogadores dos melhores.. Trata-se da capacidade de avaliação individual dos seus companheiros e principalmente o reconhecimento dos próprios limites.. E no exemplo dado no post, a decisão do passe pode ter sido a errada caso a execução do passe fosse algo que exigisse algo que o jogador não tinha.
    E é uma das situações que mais noto na nossa liga.. Quase todos os jogadores fora dos 3 grandes, e mesmo alguns destes 3 parece que nunca viram um vídeo deles próprios ou dos colegas a jogarem.. Solicitam corridas de colegas lentos, tentam passes longos que acabam quase todos fora ou na defesa opositora.
    É um problema que não sei a quem devem ser atribuídas as culpas, mas devia existir alguma coisa que poderia ser feita para melhorar esse aspecto.

    • Joe Johnson
      Posted Setembro 8, 2015 at 11:14 am

      Isso é querer esmiuçar o que não é esmiuçável, na minha opinião. Os pontos apresentados no artigo são de facto relevantes, mas esse tema que apresentou, é um tema bonito, tem um nomo pomposo "capacidade de avaliação individual dos seus companheiros e reconhecimentos dos seus próprios limites" mas não vamos exagerar nos clichés. Digo isto porque já joguei futebol, e qualquer jogador que vê uma abertura entre linhas ou tem oportunidade de meter a bola nas costas entre a defesa e o lateral, coloca lá a bola como deve ser colocada, e o lateral só tem que estar apto a ganhar as costas e cruzar. A meio deste processo todo não vou avaliar se acho se o meu colega é ou não rápido o suficiente para alcançar uma bola que à partida tem que conseguir segurar.

      Se esse jogador não tem capacidade para jogar a esse nível, não são os jogadores que fazem o passe que têm que melhorar essa "capacidade de avaliação individual dos seus companheiros", o que acontece é que o jogador senta e dá lugar a alguém melhor.

    • Joe Johnson
      Posted Setembro 8, 2015 at 11:19 am

      Agora se me disser que temos que adaptar o estilo de jogo a um determinado companheiro, como por exemplo a um Pl concordo. O Sporting obviamente que não vai estar a solicitar constantemente o Slimani para cruzamentos rasteiros ou tabelinhas à entrada da área, ou pelo menos não devia. Mas é um facto que por a caso o slimani é muitas vezes solicitado para tal, pois como PL de um grande tem que estar apto a fazer isso, e se um jogador tem oportunidade para fazer "1,2" com o Slimani não vai hesitar em fazê-lo porque pensa que ele não é capaz. Se não for capaz, existe quem seja.

      Mas isso são casos particulares em que as características de jogadores chave influenciam a maneira da equipa trabalhar, e acabam definitivamente por influenciar a maneira de jogar e pensar dos colegas. Mas acho exagerado estar a falar nos exemplos que falou, "solicitar corridas a colegas lentos por exemplo.

    • Nuno R
      Posted Setembro 8, 2015 at 11:58 am

      Joe

      Claro que há jogadas que simplesmente têm de ser feitas, mas tem que haver uma avaliação, digamos que individual, de cada momento.
      A um jogador que faça uma piscina de 60 ou 80 metros para trás, não se pode pedir que acorra para um passe em profundidade logo a seguir. Não posso pôr a bola para um slimani marcado em cima por dois do mesmo modo que o faço para um Messi.
      Bombear bolas para a cabeça do Ronaldo é menos producente que solicita-lo em corrida.
      Claro que isto está ligado com o 11 e a estratégia colectiva, daí montar uma equipa ser mais que disparar 11 nomes. Se um treinador opta por laterais lentos (que se calhar dão garantias no jogo aéreo), não se pode esperar milagres nesse tipo de jogo de exploração de linha em corrida.

    • João Gonçalves
      Posted Setembro 8, 2015 at 12:09 pm

      Não era minha intenção introduzir um tema novo, mas sim dar a minha opinião sobre um dos referidos no post.. No entanto dou-te razão que o meu exemplo não foi o melhor, pois usei um aspecto básico do jogo, acabando por ser o teu bastante melhor..

    • Philippe Oak
      Posted Setembro 8, 2015 at 12:48 pm

      É um aspecto importante: quantas vezes um defesa poe o seu GR em situações dificeis porque coloca a bola no pé esquerdo em vez de jo pé direito, com o qual está mais à vontade?? Mas isso também é capacidade de decisao!

    • Anónimo
      Posted Setembro 8, 2015 at 4:42 pm

      Em relacao ao ponto do joao Goncalves estou totalmente de acordo que esse e' uma factor que distingue um jogador cerebral de outro menos cerebral. E e' algo que acontece naturalmente ate no futebol de rua, nao vais passar uma bola para a corrida do miudo que nao tem tenica nem velocidade para a apanhar. No futebol profissional acontece da mesma forma e nao me parece que o Rui Costa alguma vez tenha feito uma passe em profundidade para um lateral genereo Ricardo Rocha (nao me pembro da equipa nos tempos RC).
      Querendo assim dizer que acredito que no momento individual o jogador pode optar por nao fazer um passe entre o central e o lateral, ou jogar para tras em vez de tabelar com um Slimani marcado.
      Helder

  • Wonderkid
    Posted Setembro 8, 2015 at 10:58 am

    Enormíssimo artigo! Quem dera a qualquer meio de comunicação desportivo Português ter autores desta qualidade. Os meus Parabéns Nuno R.

  • Pedro Raimundo
    Posted Setembro 8, 2015 at 10:59 am

    Muito bom texto. Gostei particularmente do ponto em que fala da técnica e da comparação entre os jogadores portugueses muito fortes no 1 para 1 como por exemplo Nani ( caso mais flagrante ) e que depois do trabalho feito e de ultrapassado o adversário decide e executa sempre mal, seja na altura do passe seja no cruzamento.
    Por outro lado, é raro o caso de um jogador Alemão que "finte" bem, veja-se o caso dos jogadores mais ofensivos da seleção germânica ( Gotze, Müller, Ozil, Reus ). Em situações de um para um optam sempre por um drible simples em progressão ou por uma boa decisão a nível de passe.
    Posto isto, observando de um ponto de vista coletivo um jogador que não saiba "fintar" mas que decida bem e rápido e enquadrado num movimento colectivo torna-se fácil compensar essa debilidade no entanto um jogador forte individualmente que decida mal constantemente é um cancro para a equipa.
    Só em Portugal, nos países do Sul da Europa e latinos e que se acha que "fintar" bem é um requisito obrigatório para ser um bom jogador. Um jogador só tem de entrar em acções individuais quando não há um movimento colectivo que ofereça soluções de passe.

    • Joe Johnson
      Posted Setembro 8, 2015 at 11:23 am

      Não sei se interpretei bem o seu comentário mas o Nani é dos jogadores que melhor decide.

    • Kafka I
      Posted Setembro 8, 2015 at 11:40 am

      O Nani é dos que melhor decide? que Nani? o Nani actual decide mal que doi

    • João Dias
      Posted Setembro 8, 2015 at 11:44 am

      O atual Nani é muito desastrado a decidir e a executar…

    • Miguel Ferreira de Araújo
      Posted Setembro 8, 2015 at 11:47 am

      Entendo que dês Nani como exemplo, porém, aos dias de hoje e a meu ver, o extremo tem primado mais pela temporização, em detrimento da decisão. Saudações desportivas

    • Joe Johnson
      Posted Setembro 8, 2015 at 12:11 pm

      Durante toda a sua carreira, o Nani sempre foi um jogador que decidiu sempre muito bem e esperava pela melhor opção para fazer o passe. Se está numa pior fase é diferente, mas meter o Nani nesse saco não me parece correcto. O Tello por exemplo, dos jogos que vi dele parece-me muito mais esse tipo de jogador que não sabe decidir, e o Nani ao seu lado é um poço de inteligência (dentro de campo).

  • Anónimo
    Posted Setembro 8, 2015 at 11:00 am

    Uma coisa que eu acho muito importante numa equipa hoje em dia (e que eu acho qur não é muito valorizado) é um bom batedor de bolas paradas. Normalmente faz-se um 11 e vê-se desses qual bate melhor… Acho que é mesmo muito importante ter um bom batedor de bolas paradas. Quantos lances de perigo nao sao por jogo?

    Bruno

    • João Ribeiro
      Posted Setembro 8, 2015 at 11:13 am

      O Atl Madrid é o pontífice máximo desse paradigma e o que é certo é que nestes 2 últimos anos ainda ninguém arranjou o antídoto para deter o Atl Madrid em bolas paradas, o que diga-se não é propriamente normal um clube manter uma alta eficácia de bolas paradas durante tanto tempo, pois ao fim de 1 ano e pouco no máximo já todas as movimentações estão estudadas ao pormenor pelos adversários e a tendência é para perder eficácia nas bolas paradas, mas o Atl Madrid incrivelmente mantém-se como a melhor equipa do Mundo em bolas paradas ofensivas a pelo menos 2 anos.

    • João Lains
      Posted Setembro 8, 2015 at 11:42 am

      O Midtjylland da Dinamarca, que há dias, trouxemos aqui para a caixa de comentários, tem uma média de um golo de bola parada por jogo. Era interessante que alguém esmiuçasse o projecto deste clube, porque nem eu depois de uma extensa pesquisa consegui perceber como é que aquilo funciona.

    • Anónimo
      Posted Setembro 8, 2015 at 1:23 pm

      Não conheço, João Lains (esses dados são novos para mim), mas não deixa de ser um registo impressionante. Fui ver a altura dos jogadores titulares, e posso dizer que até são relativamente altos. Tirando o GR, esta é a altura dos jogadores do 11 no último jogo: 1.86, 1.84, 1.96, 1.78, 1.94, 1.81, 1.77, 1.78, 1.71, 1.85. João Ribeiro, posso relembrar o Benfica da primeira época de Jesus, que fazia muitos golos de bolas paradas. A estratégia no caso do Benfica era muito importante. Quanto ao Atlético, quando tens jogadores tão bons de cabeça (como, neste momento, o Gimenez, o Godin e o Jackson) arriscas-te a ter sucesso nesse capítulo. E os jogadores do Atlético atacam a bola com uma agressividade incrível, o que é muito importante (não podes só saltar e esperar que a bola te vá ter à cabeça).
      Quanto aos batedores de bolas paradas, por exemplo, o Çalhanoglou é, para mim, o melhor batedor de bolas paradas na actualidade, mas o Leverkusen não tem muitos jogadores que joguem bem de cabeça. Os únicos 3 jogadores normalmente titulares no clube alemão que jogam bem de cabeça são o Kiessling, o Tah e o Papadoupoulos, e mesmo assim esta dupla de centrais nem é nada de especial no jogo aéreo. O Kramer é muito alto, mas a nível de bolas paradas ofensivas é quase inexistente.
      Para dar o exemplo da equipa que mais acompanho, o Benfica: penso que é consensual que os 3 centrais do Benfica são muito bons no jogo aéreo, tal como o Jimenez e o Mitroglou (só jogará 1, Jonas tem (e bem) lugar cativo). Então temos no 11, no mínimo, 3 jogadores que são muito bons de cabeça (e quando digo muito bons, acho mesmo que são fantásticos neste capítulo). Lembro-me que na primeira época de Jesus às vezes o cabeceamento nem saía nada de jeito ao primeiro poste, mas lá aparecia o Saviola ao segundo poste a encostar (é importante aproveitar estes lances. O Jonas também é bom de cabeça, e sabe-se mexer dentro de área, podia ter este papel). O Benfica, com um bom batedor de bolas paradas, podia aproveitar melhor. Com 5 homens na área (imagine-se, Luisão, Lisandro, Jonas, Jiménez e Samaris), que na minha opinião é suficiente, podíamos causar perigo. Eu acho que deviam ficar 4 jogadores de fora, as segundas bolas são muitos importantes. 2 atrás (no grande círculo), e 2 na entrada da área (tirando o que bate, claro).
      Para vocês: acham que o Pizzi e o Gaitan batem bem? Eu não, e acho que era importante arranjarmos alguém para as posições mais debilitadas que batam bem bolas paradas (e podem ser laterais, por exemplo o Fabinho do Mónaco bate muitas vezes, e bem, tal como o Maxwell). Até acho que é o Sporting quem tem o melhor batedor dos 3 grandes, o Jefferson, mas tirando o Slimani, não tem mais ninguém que jogue bem de cabeça (tirando o Paulo Oliveira, mas deverá ser suplente quando voltar o Ewerthon). Quanto ao Porto, o Brahimi bate bem directo, mas não mete muito bem bolas na área.

      Bruno

    • Pedro, o Polvo
      Posted Setembro 8, 2015 at 1:25 pm

      Claro, o futebol tem 5 momentos de jogo: transição ofensiva e defensiva + ataque posicional ofensivo e defensivo + bolas paradas.

      De nada valia o antigo Man City (não estou a falar desta época), ser muito bom em ataque posicional e depois ter transições defensivas abaixo da média e desaproveitar as bolas paradas .. Depois imaginemos que apanhava um Atlético Madrid na Champions (nunca chegava a apanhar, porque era sempre eliminado cedo), o jogo ia correr com "domínio" do City, mas os colchoneros iam-se estar a rir e a matar o jogo no contra ataque.

      Viria toda a gente (como nos jogos contra o Mourinho) dizer que era injusto blablabla… O que não percebiam é que uma equipa não pode só ser melhor em ataque posicional e por isso merecer ganhar o jogo, quando há outros momentos que são dominados pelo adversário.

      Estou SEMPRE a bater nesta tecla e ainda bem que alguém falou dela na caixa de comentários. Marcar um golo de livre é tão legítimo como em "jogo jogado", quem não aproveita isso, está muito errado. O meu FCP devia ser caso de estudo para pior aproveitamento de bolas dos últimos anos, é ridículo como falhamos tantos cantos, livres, lançamentos …

      Adoro ver jogadas combinadas, trabalho de casa. Adoro ver lançamentos perigosos para a área – o JJ implementa sempre isso e tem muitos melhores resultados do que os rivais, que fazem do lançamento um momento em que a equipa adversária em vez de se sentir nervosa, pensa logo em fazer pressão e ganhar a bola. EX: golo do benfica no dragão na época passada (mas podia dar muitos mais).

      O meu clube às vezes leva banhos tácticos de equipas pequenas. Ser inofensivo nas bolas paradas não ajuda nada. Equipas ditas "pequenas", vêm ao dragão jogar em bloco baixo ou muito baixo, com uns tipos rápidos lá à frente e quando se vê equipas bem montadas, é penoso ver o Porto tentar lutar .. Fazem muitas faltas, perdem tempo, jogam 10 atrás da linha da bola .. Enfim usam todas as armas a que têm direito, nós é que reagimos mal..

      Se um canto nosso ou um lançamento fossem jogadas de golo como no Atlético ou no Midtjylland, as próprias equipas adversárias estariam muito sugestionadas na forma como defendem…agora como em cada jogo há 15 cantos e só por sorte algum dá golo, os defesas estão na praia deles, é só alívios e chutões para fora, porque já sabem que se pararem o "jogo jogado", o perigo desaparece.

      PS: boa sugestão a dos dinamarqueses, eu li um artigo interessante sobre eles numa revista da uefa o ano passado mas também não entrava em pormenores e gostava de saber. A única coisa que sei é que apostam nas estatísticas como solução para tudo: ataque de mercado e avaliação dos próprios jogadores (sim, eles sao avaliados tipo o ajax dos anos 90 que tinha reuniões com os jogadores para lhes dar "notas"). Basicamente em vez de se guiarem apenas pelas estatísticas de golos, assistência e outras coisas básicas, desenvolvem imenso a sua pesquisa e introduzem variáveis como "percentagem de passes para o lado ou para trás" e outras coisas assim complexas de pesquisar. Envolve muito trabalho de pesquisa, mas pelo vistos, está a ter uns certos resultados. Fico à espera de um artigo também!

    • João Lains
      Posted Setembro 8, 2015 at 1:50 pm

      Bruno, para não correr o risco de me repetir, recupero o que aqui disse há 3 meses e que de certa forma pode ajudar a explicar a força do Atlético de Madrid nos lances de bola parada.

      Simeone, tal como Mihajlovic, trabalharam aquando da sua passagem pelo Catania, com Gianni Vio, um economista italiano que nos seus tempos livres se entretinha a desenhar lances de bola parada.

      Em 2009/10, o Catania apontou 38,6% dos seus golos neste tipo de lances. 50% e 57,4% nas duas temporadas seguintes. Para estes números, também importante realçar que o clube contava com um dos melhores especialistas do futebol italiano: o médio Francesco Lodi.

      Em 2012/13, Vio transferiu-se para a Fiorentina e a média ficou pelos 40,3%. Na última temporada, por exemplo, creio que o Sampdoria do Sinisa também marcou grande parte dos seus golos em lances de bola parada.

    • Anónimo
      Posted Setembro 8, 2015 at 2:27 pm

      Mais um facto que desconhecia, mas que é deveras interessante. Que treinadores estão mais aí que tenham uma atenção especial por este tipo de lances?

      Bruno

    • gonçalo Duarte
      Posted Setembro 8, 2015 at 2:47 pm

      João Lains
      Eu enviei um texto para a visão do leitor há pouco tempo mas não tive resposta,é de facto um projeto interessantíssimo em relação ás bolas paradas,é tudo trabalhado ao pormenor, e existe inclusive um especialista em pontapear a bola

    • Kafka I
      Posted Setembro 8, 2015 at 3:15 pm

      Muito curiosa essa tua informação João Lains, desconhecia de todo a relação com esse economista, obrigado

      Gonçalo Duarte

      Agora fiquei curioso quanto a esse texto, pois de facto já tinha visto essa informação sobre o Midtjylland, mas nunca pesquisei muito sobre a mesma, se me puderes mandar esse texto que tens sobre eles agradecia, pois tenho bastante curiosidade sobre esses novos métodos, obrigado

    • gonçalo Duarte
      Posted Setembro 8, 2015 at 7:43 pm

      Kafka I
      Já enviei :D

  • Tomé Brito
    Posted Setembro 8, 2015 at 11:01 am

    Belo artigo! Via alguns desses aspectos de uma forma que agora percebo que não era a mais correta! Parabéns!

  • João Dias
    Posted Setembro 8, 2015 at 11:32 am

    Bom artigo! Gostei da comparação entre o jogador alemão e o jogador português.

    Enquanto que o jogador português sempre se caracterizou pelo virtuosimo no 1×1, na qualidade técnica que se perdeu um bocado com o tempo e que está a ser recuperada com o surgimento de elementos como Rony Lopes, Bernardo Silva, Gelson Martins, Iuri Medeiros, etc… o jogador alemão e mesmo inglês sempre foi bem mais pragmático e letal.

    Basicamente, não estão com rodriguinhos como nós e quando é para marcar, marcam!

    Resultado: são campeões do mundo!

    • Kafka I
      Posted Setembro 8, 2015 at 11:44 am

      Penso que estas a confundir na minha opinião, um pouco o conceito de técnica, porque o jogador Alemão sempre teve bastante técnica, porque técnica (para mim) é saber fazer um passe longo de 30 metros, é saber fazer uma recepção orientada, saber fazer um cruzamento ou saber fazer um remate enquadrado, e nestes capitulos de jogo os Alemães sempre foram muito superiores ao jogador Português e ao Inglês

      O que podes dizer é que o jogador Português tinha aquela "ginga" aquele virtuosimo do futebol de rua e que no 1 para 1 puro lhe traz alguma vantagem, agora de pouco vale ter esse virtuosismo se depois em 10 remates, apenas 1 é enquadrado com a baliza, ou em 10 cruzamentos apenas 2 ou 3 são feitos com qualidade

    • João Dias
      Posted Setembro 8, 2015 at 11:54 am

      Tocaste no ponto, Kafka. O jogador português faz 3 fintas, 2 passes de calcanhar e 1 receção de peito mas na hora de finalizar manda ao lado.

      E isto repete-se vezes sem conta.

      Já o alemão, troca a bola com o colega, desmarca-se na prefeição e quase sempre marca.

      Creio que estão bem espelhadas as diferenças.

    • Anónimo
      Posted Setembro 8, 2015 at 11:55 am

      Um elogio aos alemães? Eh la João! Muito bem! Resta dizer que há pouca coisa no futebol onde os alemães não sejam top! Adeptos fantásticos, jogadores fantásticos, estádios fantásticos, jogos fantásticos, liga fantástica…e acreditem que sou muito nacionalista.

      Zé Maria

    • Jose Nuno Alves
      Posted Setembro 8, 2015 at 12:06 pm

      tiravas o inglês do teu comentário e subscrevia…

    • Luís Neves
      Posted Setembro 8, 2015 at 12:28 pm

      E impressionante… João dias a seleccionador , não acredito mas acho que e deste que ganhamos um mundial já temos alguém que descobriu que paa ganharmos o mundial só precisamos de fintar menos…

  • Gil Eanes
    Posted Setembro 8, 2015 at 11:54 am

    E aqueles chavões que dizem tudo mas ao mesmo tempo não dizem nada, como "um avançado com golo" ou "um médio com chegada à área" ?

    • João Lains
      Posted Setembro 8, 2015 at 1:08 pm

      O Vidal é um médio com chegada à área. O Ramsey idem. O Modric e o Moutinho não, e todos eles são médios centrais. Se bem que tudo dependa das responsabilidades defensivas que cada um assume.

  • Luis La Liga
    Posted Setembro 8, 2015 at 12:13 pm

    Faltou a confiança. Sem confiança não ha jogador de futebol.

  • Scp_Duxxi
    Posted Setembro 8, 2015 at 12:16 pm

    Excelente artigo, só não concordo numa coisa.Não acho que o William tenha fraca capacidade de acelaração, alias para a sua posição e para a sua altura até acho que "arranca" bastante bem(especialmente com a bola nos pés), o problema é depois na velocidade final onde o William é bastante lento.

  • Filipe Ribeiro
    Posted Setembro 8, 2015 at 12:34 pm

    Nuno R dou te os meus sinceros parabéns este texto pode ajudar e muito as pessoas a entenderem conceitos básicos do futebol,principalmente a técnica e a intesidade que vi que faz muita confusão a muita boa gente.

  • Rodolfo Trindade
    Posted Setembro 8, 2015 at 1:50 pm

    Parabéns Nuno R, excelente post!

    Obviamente que ficaram algumas coisas por dizer, mas é uma excelente introdução para os mais desatentos ao fenómeno futebol!

  • tony cebola
    Posted Setembro 8, 2015 at 3:27 pm

    O que é o futebol especulativo? Este termo é usado por vários utilizadores e também pela VM, no contexto em que leio normalmente o termo que usaria seria "de expectativa", especular e tudo menos espectar, gostava que me ajudassem nesta questão se será uma gralha de português, como eu penso, outra coisa qualquer que não sei o que é?

    • Nuno R
      Posted Setembro 8, 2015 at 4:20 pm

      Gosto das virtualidades de certas equipas.

      Especulativo terá a ver com espera, para obtenção de resultados.
      La esta, neologismos.
      Na linha da abordagem pragmática.

  • Anónimo
    Posted Setembro 8, 2015 at 6:35 pm

    Excelente texto que demonstra as principais características do futebol.
    Tinha uma certa ideia do que era a técnica, mas fiquei mais "conhecedor" do termo a partir deste texto.

    Continuem, Abraço DanielM

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