A normalidade pode ser uma bênção, mas também o maior dos pecados. Para o adepto comum, a regra é vencer a qualquer custo. Contudo, esta tarefa não pode ser realizada por comuns mortais. Só os heróis se revelam nesses momentos. E é desses que reza a história.
O padrão do Barcelona tem sido coleccionar vitórias nos últimos 10/15 anos. Foi-se criando uma identidade: um clube com executantes tecnicamente soberbos, fazendo do momento com bola a sua maior virtude. Guardiola terá sido o expoente desta prática. Luís Enrique, apesar de continuar a senda de vitórias, mudou um pouco o ADN da equipa, colocando em evidência as individualidades, especialmente o trio MSN.
E é aqui que entra Ernesto Valverde. O ex-Athletic veio mudar esse paradigma. Tornou um modelo rápido, fluído e com trocas posicionais num futebol bastante regular, rígido e táctico. Não é por acaso que Ter Stegen, Umtiti, Busquets e Rakitic estão a ter um enorme destaque neste contexto. Os dois primeiros conseguiram dissipar as dúvidas relativas às suas contratações e os dois últimos beneficiam claramente do quase duplo pivot em que jogam. Todavia, se o sistema apenas assentasse nestes moldes, o Barcelona nada conseguiria vencer. Para contornar esse facto, o treinador teve de arranjar várias formas de o “avariar”.
Uma delas foi através de duas jogadas treinadas desde o início da época e que envolvem dois jogadores: Paulinho e Jordi Alba. O primeiro, que foi extremamente contestado aquando da sua contratação, revelou-se importantíssimo para que a equipa conseguisse ter mais um homem na área. Paulinho tornou-se no “chegador”, qual Dele Alli, que permitia ao Barcelona finalizar jogadas. Por outro lado, Jordi Alba também foi um foco de Ernesto Valverde. A jogada típica é atrair os defesas adversários para subir no terreno, colocando a bola na suas costas de forma a que o lateral esquerdo explore a profundidade.
Só que as equipas começaram a desenvolver estratégias que conseguiram conter estes movimentos. E aí Valverde viu-se na necessidade de se voltar para os seus dois heróis: Iniesta e Messi. Mas a verdade é que estes são heróis cansados. O primeiro, cada vez mais debilitado fisicamente, apenas tem demonstrado a sua qualidade a espaços, cada vez mais intervalados. O segundo tem carregado a equipa às costas, mas à custa de acumular um elevado número de jogos nas pernas. É o líder da equipa em termos de criatividade, mas a verdade é que ninguém consegue conduzir um exército de homens sem chama.
Valverde tornou o Barcelona uma máquina. O problema é que se esqueceu que a máquina faz exactamente o mesmo desde o momento em que é ligada até ao instante em que é desligada. Limitou os operadores de máquina, os únicos que poderiam provocar as avarias necessárias para desbloquear jogos. Esqueceu-se de algo que Manuel Sérgio nos relembra constantemente: o futebol é praticado por seres humanos. E estes são imprevisíveis. Por vezes conseguem o impensável, como virar uma eliminatória perdida. Como nunca, o futebol é dos heróis. O futebol é do Homem. O futebol é o Homem.
Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar no VM aqui!): Rui M. Teixeira


2 Comentários
JDTM
Excelente. Não diria melhor.
Demadrogue
Muito bom artigo. De facto, o Barcelona tornou-se muito aborrecido de ver jogar e, com Messi claramente exausto, as soluções escasseiam.