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Do estrelato ao anonimato

Em 2017/18, cumprem-se 10 anos sobre a última participação do Real Murcia na La Liga. Os ‘pimentoneros’, como são conhecidos os seus adeptos devido ao pimentão, um produto muito típico naquela região, não guardam grandes recordações dessa campanha. Com apenas 30 pontos somados, o clube ficou a conhecer o seu destino a 3 jornadas do fim, terminando o campeonato a 13 pontos da linha de água. Desse elenco, fazia parte Daniel Aquino, um jovem natural de Murcia, que se tinha juntado ao clube com apenas 8 anos.

Nascido em 1990, Dani cumpriu a sua estreia na primeira equipa com apenas 16 anos, na última jornada da temporada 2006/07, que culminou com a promoção do Murcia. No entanto, o primeiro jogo na divisão principal só chegaria 7 meses depois, na jornada 20. Pelo meio, este extremo/ avançado foi uma das principais figuras da seleção espanhola de sub-17, vice-campeã do mundo na Coreia do Sul, em Setembro de 2007. Da mesma geração de Bojan Krkic, David De Gea, Nacho ou Illarramendi, Dani apontou 3 golos nessa fase final, incluindo o 1º na meia-final com o Gana. No jogo decisivo, ‘La Rojita’ só sucumbiu nas grandes penalidades diante da Nigéria, que teve em Macauley Chrisantus uma das principais revelações do torneio. Bota de Ouro com 7 golos, Chrisantus perdeu o prémio de melhor jogador para Toni Kroos, mas já tinha atraído o interesse dos principais clubes do futebol europeu, nomeadamente, o Hamburgo, a quem se juntou em Novembro daquele ano.

Com passagens por Alemanha, Espanha, Turquia ou Grécia, a carreira de Chrisantus ficou muito aquém do potencial que todos lhe reconheciam. Mesmo para os adeptos que não acompanharam as suas exibições na Coreia do Sul, o seu nome era bastante familiar graças ao Football Manager, assim como o de Dani Aquino, actualmente ao serviço do Racing Santander, onde vem consolidando o seu nome na terceira liga espanhola, onde converge, dez anos depois, o trajecto desapontante destes dois jogadores.

Ora 2017/18 não tem sido uma época nada fácil para o Real Murcia. Vários problemas do foro interno do clube, envolvendo uma luta de poder entre os seus dirigentes, perturbaram os primeiros meses da nova temporada, que se repercutiram no desempenho da equipa, apenas 16ª classificada no final da 9ª jornada. Aí, José María Salmerón entrou para o comando técnico do clube, mas os problemas directivos mantiveram-se. Alguns dos reforços mais sonantes do mercado de verão, abandonaram a equipa na reabertura da janela de transferências, alegando salários em atraso.

Com poucos recursos financeiros para fazer face a estas baixas, mas com o objectivo de chegar aos lugares de playoff, o Murcia recorreu a vários nomes bem renomados para a sua realidade, mas sobre quem recaíam muitas incertezas em relação ao seu estado físico. O primeiro a chegar foi Hervin Ongenda, ex-PSG, que estava sem competir de maneira oficial há sensivelmente um ano. Juntaram-se a ele Macauley Chrisantus, com apenas 78 minutos de utilização em 2017/18, proveniente do Lamia, da Superliga grega e, já em Fevereiro, o médio Miguel Pallardó, ex-Levante, que retornou a Espanha depois de uma passagem pelo futebol japonês, onde somou uma única presença desde o último verão.

À medida que os problemas directivos vão conhecendo uma solução, também no campo as coisas vêm melhorando. Nas últimas 10 jornadas, nenhuma equipa na Série IV da Segunda Divisão B conquistou tantos pontos quanto o Murcia (21). A 3 jornadas do final da fase regular, o clube ocupa agora a 3ª posição (em lugar de playoff), a 2 pontos de distância do Marbella (2º) e a 4 do líder e rival Cartagena, que derrotou por 2-1 no passado dia 8, diante de 14 mil pessoas.

No passado domingo, o Murcia, que hoje voltou a vencer, tinha somado a 5ª vitória em 7 encontros desde o princípio de Março, na recepção ao Extremadura (4º classificado). Os ‘pimentoneros’ até estiveram a perder por 2-0 até bem perto do final da partida, quando Carlos Martínez, outro dos reforços de inverno, reduziu para a margem mínima ao minuto 84. Depois, já em tempo de descontos, foi a vez de Chrisantus vestir o papel de herói, e de forma épica, aumentar para 5 golos a sua conta pessoal e levar ao delírio o Nueva Condomina.

João Lains

4 Comentários

  • Estigarribia
    Posted Abril 23, 2018 at 11:01 am

    Grande texto, João Lains. Espero que o Real Murcia continue a reerguer-se que volte rapidamente ao convívio com os grandes do futebol espanhol, depois da época de 2007/2008. Dessa equipa do Murcia que esteve na La Liga, em 2007/2008, destaco alguns nomes: Fabián Carini, Stéphane Pignol, Curro Torres, Henok Goitom e Rosinei (e o já citado Dani Aquino). Nessa altura, esse Murcia ainda foi treinada por Javier Clemente.

    P.S.: Em relação ao Macauley Chrisantus, eu já tinha lido sobre ele, quando era uma jovem promessa, um texto no blog da revista FUTEBOLISTA na rúbrica “Vai dar que falar”. Era, de facto, uma das maiores jovens promessas daquela Nigéria que venceu o Mundial Sub-17. Depois de sair do Hamburgo, acabei por lhe perder o rasto.

    Saudações Leoninas

  • Pedro Barata
    Posted Abril 23, 2018 at 12:31 pm

    Excelente texto, João. Há imensas histórias que merecem ser contadas por esse futebol europeu fora.

  • Pedro Barata
    Posted Abril 23, 2018 at 12:36 pm

    E salientar também a dificuldade que deve ser para jogadores com este tipo de trajecto – que são muitos – lidar com expectativas goradas. Desde sempre que se destacam, ganham imenso mediatismo com 17 ou 18 anos, brilham em competições com a relevância de um Mundial sub-17 (ou europeu sub-17 ou sub-19 e mesmo Mundial Sub-20) mas depois vão-se “apagando” e, no futebol profissional, têm de lidar com carreiras em divisões inferiores, longe do estrelato que, a certa altura, eles próprios devem ter dado como garantido.

  • Estivela
    Posted Abril 23, 2018 at 1:10 pm

    Excelente texto. Mas como não é uma boca de um dos treinadores do três do costume, já não vai ter muitos comentários. Força, estes textos sao para quem gosta de futebol. O que infelizmente não acontece muito em Portugal.

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