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Do Sonho da Champions à luta pela manutenção na II Liga

O investimento em instituições futebolísticas por parte de empresas/indivíduos é cada vez mais recorrente, seja em pequenas participações ou na aquisição total do clube. Os casos mais mediáticos são o do Paris Saint-Germain e o do Manchester City FC, que almejam a conquista de vários troféus, ainda que tanto num caso, como no outro, o principal objetivo ainda não foi atingido. O dinheiro oriundo da Península Arábica entrou com estrondo no mundo do futebol, prometendo fazer crescer as equipas adquiridas. Mesmo com adeptos contra a entrada de capital estrangeiro (e de origem em países onde os Direitos Humanos são esquecidos), a realidade de certos clubes mudou a 180 graus.

O Málaga CF entrou neste Novo Mundo. Fernando Sanz, no ano de 2010 aceitou a realidade da crise do clube, havendo necessidade de entrada de capital. O Sheik Abdullah ben Nasser Al Thani assumiu a liderança do clube, prometendo colocá-lo na alta roda do futebol espanhol e desenvolver igualmente a cidade, bastante propícia a investimentos. Al Thani começou imediatamente na época 2010/11 o caminho que queria perseguir. Contratou elementos com qualidade para os “Boquerones” como Martín Demichelis, Willy Caballero, Eliseu, Júlio Baptista ou Salomón Rondón. 2011/2012 ficou marcado por um investimento superior, com a chegada de mais estrelas mundiais como Santi Cazorla, Jeremy Toulalan, Nacho Monreal, Isco ou Joaquín. Com estas aquisições, o Málaga atingiu um dos seus propósitos, a chegada à Champions League, com um quarto lugar em 2011/12.

Quando se pensava que isto era apenas o início de uma longa jornada de sonho, tudo desabou. 2012/2013 fica marcado por resultados em campo positivos, com um sexto lugar e uma chegada aos quartos de final da Champions League (eliminando o FC Porto nos oitavos de final). No entanto financeiramente o clube assumia a crise. Al Thani a pouco e pouco foi abandonando o clube, ainda que se mantivesse na presidência, sendo que todos os reforços para essa época aterraram por empréstimo ou a “custo 0”. O Sheik esquecera também os projetos na cidade e ao seu redor. O Marbella Marina Project nunca deixou o papel, ainda que se vendesse a ideia que iria “arrancar”. No clube, o sonho do La Academia MCF tornou-se num pesadelo para o clube. Al Thani comprou terrenos para aumentar o centro de treinos, que hoje em dia estão abandonados. Isto não significa que a formação do clube seja má. Foram os jovens que o “salvaram”, porque a balança financeira tinha que estar constantemente verde. Durante este período, foram lançados elementos das camadas jovens como Sergi Darder, Juanmi, Samu Garcia, Samu Castillejo, Pablo Fornals ou Javier Ontiveros, que se exibiram com qualidade e permitiram que o clube se mantivesse estável até ao ano da sua descida.

Olhemos a uma pequena tabela de classificações do Málaga, desde o principio do desinvestimento até à sua descida.

Temporada Classificação
2012/2013 6º lugar
2013/2014 11º lugar
2014/2015 9º lugar
2015/2016 8º lugar
2016/2017 11º lugar
2017/2018 20º lugar

A equipa voltou a ser de “meio de tabela”, obtendo resultados abaixo do que Al Thani tinha prometido na sua chegada. A qualidade dos treinadores baixou drasticamente. Se Manuel Pellegrini era um nome reputado, com trabalho feito no passado, os seus sucessores nunca atingiram o seu nível. Javi Gracia foi o que resistiu mais tempo, com 84 partidas, mas todos os outros duraram menos de 40. Marcelino Romero foi o que esteve menos tempo no cargo, com 10 jogos realizados. José González foi o técnico que confirmou a queda dos andaluzes ao segundo escalão, numa época começada por Míchel, histórico do Real Madrid CF.

O objetivo naquele momento era a sobrevivência financeira do clube. Todas as épocas ficaram marcadas por boas vendas e um saldo positivo na balança compras/vendas (exceto 2016/17). Os atletas que vinham para marcar uma era no Málaga, a pouco e pouco abandonar o projeto e as pérolas da formação vendidas, inclusivamente a clubes espanhóis, supostos rivais. A verdade é que os bons mercados realizados não eram suficientes para que o clube se reorganizasse, já que Al Thani tinha colocado a instituição afogada em dívidas. Olhemos os principais movimentos de saída:

Época Jogador Clube comprador Valor (€)
2012/2013 Santi Cazorla Arsenal 19M
2012/2013 Nacho Monreal Arsenal 10M
2013/2014 Isco Real Madrid 30M
2014/2015 Caballero Man. City 8M
2014/2015 Antunes D. Kiev 6M
2015/2016 Sergi Darder Lyon 13M
2015/2016 Samu Garcia Villarreal 8M
2015/2016 Samu Castillejo Villarreal 8M
2017/2018 Ignacio Camacho Wolfsburg 14M
2017/2018 Pablo Fornals Villarreal 12M

Embora estas sejam as vendas principais, um grande lote de saídas aconteceu e as contratações não acompanhavam a qualidade de quem saía. Muitos nomes alcançaram o sucesso no mundo futebolístico, porém alguns aficionados se esquecem que se desenvolveram no sul de Espanha. E agora pensemos na ótica do clube comprador. Ao sabermos que o Málaga precisa urgentemente de fazer capital, apresentaremos uma proposta elevada? Ou oferecemos um valor mais modesto e próximo do valor de mercado, aproveitando o desespero financeiro?

Com o último lugar em 2017/18, a queda numa das mais complicadas segundas divisões europeias tornou-se uma realidade. No dia seguinte à descida de divisão, Al Thani exibiu a sua despreocupação/indiferença com o clube:

Esta publicação, a ultrapassar em larga escala a linha do ridículo (devido à circunstância), obteve respostas bastante desagradáveis por parte dos adeptos malaguenhos. Uma atitude natural, tendo em conta todas as dificuldades que se passavam no La Rosaleda. No entanto, havia alguma esperança. Com as vendas de Ignasi Miquel e Youssef En-Nesyri, dando aos cofres 12 milhões de euros, a equipa montada tinha qualidade. Pau Torres, Diego González, Gustavo Blanco, Ricardo Santos ou Federico Ricca traziam o alento de um regresso rápido à La Liga. López Muñiz (técnico em 2009/10 e ex-adjunto de Juande Ramos) começou a época, mas foi Victor Sánchez que a terminou. A eliminação nas meias finais do Play-Off de subida frente ao Real Club Deportivo de La Coruña foi o KO final nas aspirações de um retorno à primeira divisão (até aos dias de hoje). Desde esse fatídico dia passaram 3 épocas e o Málaga jamais voltara aos 10 primeiros classificados. 5 treinadores passaram pelo La Rosaleda (inclusive Natxo González, antigo treinador do CD Tondela), as demissões foram constantes, nos mais diversos cargos. Victor Sánchez foi inclusivamente despedido após ser acusado de estar envolvido num escândalo sexual.

Durante os últimos tempos, a qualidade não abunda pelo La Rosaleda. Olhamos para os treinadores que ocuparam o cargo e apercebemo-nos que não são capazes de atingir objetivos maiores. São simplesmente para tentar cumprir o objetivo proposto. Não podemos abordar a situação sem ter em conta o contexto. A verdade é que o clube não pode pagar um salário avultado ao técnico e à sua equipa. Em termos de jogadores a situação é semelhante. Possivelmente Keide Baré, Mikel Villanueva (por estar no campeonato português) e Dani Martín sejam os nomes que se realcem de todos os plantéis até ao momento. Não houve praticamente jogadores de La Liga ou com capacidade de chegar lá. Um projeto só evolui quando parte do plantel está em crescendo e ambiciona atingir palcos maiores. Neste caso não há capacidade para isto, pois o instinto é de sobrevivência.

A crise financeira também não terminou, durando até hoje. Em 2020, o clube esteve prestes a fechar portas, já que a sua folha salarial (9,9 milhões de euros) estava acima do limite imposto pela Liga. Em Agosto do mesmo ano, foi anunciado um despedimento coletivo que iria afetar o futebol profissional. Mesmo com estas dificuldades, o clube manteve-se à tona da água.

E Al Thani, o que lhe aconteceu? A 20 de Fevereiro de 2020, foi demitido, através de uma ordem judicial, porém ele não desapareceu na totalidade do Málaga. Na verdade, ele é o dono do clube. Ainda assim, as suas recentes aparições públicas ficam marcadas por derrotas em tribunal, dando-se incidência ao mediático Caso BlueBay. Em 2022, após o final da temporada, anunciou que iria regressar ao clube, com Júlio Baptista como treinador. O Jornal As apelidou este anuncio como uma outra “genialidade” de uma pessoa cheia de problemas a nível judicial. É notório que o Sheik já não é levado de uma forma séria no nosso país vizinho.

Apesar de toda a crise que se vive, com um organograma completamente desfeito, sem presidente e sem a possibilidade de lutar por muitos objetivos, a instituição tem sobrevivido. Em 2022/23, apresentou um plantel humilde, ainda que dotado de experiência, com elementos como Rúben Castro, Fran Sol, Estebán Burgos, Alfred N’Diaye Jonas Ramalho ou Jozabed. O elemento mais valioso é Fran Villalba, ainda que pertença aos quadros do Real Sporting Gijón. A grande “falha de mercado” foi Juanjo Narváez, que preferiu rumar a Valladolid, nas últimas horas de mercado. Com um plantel pouco extenso, haverá certamente a oportunidade para que elementos das camadas jovens e do Atlético Malagueño possam somar minutos. O valor de mercado do plantel é de 20,3 milhões de euros, sendo a décima maior da La Liga Smartbank, porém longe dos históricos que ambicionam alcançar a promoção (está mais próximo do penúltimo lugar, do que do quarto). Na verdade, a maioria dos jogadores já atingiram um montante maior, estando em quebra na atualidade. Daí se justifica um número tão elevado, em comparação com a posição que ocupa na tabela dos pontos. Se fosse um projeto em crescendo, alguns dos profissionais estaria ainda a chegar ao seu auge ou perto disso, podendo manter certos representantes da experiência (média de idade de 28,8 anos). Só o FC Cartagena tem uma média de idade maior (29,5 anos)

Pablo Guede (ex-atleta do clube) iniciou a época como técnico, após ter chegado no final da temporada transata. Com experiência em campeonatos latino-americanos, somou duas vitórias em onze jogos no somatório com 2022/23, sendo substituído por Pepe Mel, técnico experiente e com a missão de alcançar a manutenção. Após três épocas no Las Palmas, tem a difícil incumbência de orientar o Málaga para o caminho correto, pelo menos dentro das quatro linhas. Já fora, a incerteza mantem-se.

A Frente Bokerón, claque do Málaga, pede constantemente que certos elementos saiam. Pablo Guede foi a sua mais recente vítima, porém Manolo Gaspar (Diretor Desportivo) sofre apupos todos os jogos, havendo enfâse na vitória contra o Lugo por 3-2 (nem com os três pontos os adeptos ficam satisfeitos, pois sabem que o problema também é estrutural).

Em Portugal, esta equipa da Andaluzia transformou-se num dos protagonistas da “telenovela do mercado”, o caso Ricardo Horta. Portador de 67% do passe do jogador do SC Braga, o mesmo exigia uma indeminização, no caso da rejeição de uma proposta por um valor superior a 5 milhões de euros. Para ser mais específico, os minhotos teriam de adquirir a parte do Málaga. Esta é uma situação que irá seguir para a FIFA. A equipa da segunda divisão necessita urgentemente de fundos e aparenta ter direito a receber capital.

O Málaga é a maior prova no panorama futebolístico, que por vezes a promessa de investimentos, pode ser o maior pesadelo para o próprio clube. Em Portugal, assistimos a quedas semelhantes, embora com muito menos dinheiro envolvido. Equipas como Beira-Mar SC ou o Clube Desportivo das Aves estão bem longe do patamar ao qual chegaram no seu passado, mas existem outros exemplos. O receio de certos adeptos, gerado pela desconfiança acerca da pessoa que assume a liderança do seu clube é válido. Por isso a pesquisa e investigação é tão importante, devendo as direções dos clubes estarem atentos a quem passam o testemunho, ainda que haja pressa para fechar o acordo. Se no caso do Málaga isto tivesse acontecido, decerto que não teriam vendido o clube a uma pessoa viciada no Twitter, com demasiados problemas ao nível judicial e que dispara contra tudo e contra todos…

Visão do Leitor: Ricardo Lopes

VM-Desporto
Author: VM-Desporto

5 Comentários

  • Antonio Clismo
    Posted Outubro 28, 2022 at 7:48 pm

    Se o Qatar era rico, então nem sequer consigo imaginar como ficarão nas próximas décadas agora que a Europa passou de depender do gás natural russo para o gás natural qatari.

  • Diogo Moura
    Posted Outubro 28, 2022 at 7:52 pm

    Boa crónica, sim senhor.
    Deixo só uma nota, desconfio que o Valência de Peter Lim é o que se segue.

    • Ricardo Lopes
      Posted Outubro 28, 2022 at 9:03 pm

      Penso exatamente o mesmo, embora tenham uma massa adepta muito mais forte. Desde as declarações de Marcelino Toral que toda a gente abriu os olhos. O Valência passou de um clube de primeira linha, capaz de lutar por vezes pelo título, para uma equipa de meio de tabela sem um trajeto definido. Estão bem atrás de Real Sociedad ou Bétis, por exemplo. Pode ser que melhorem, mas terá que ser com Lim longe.

  • Neville Longbottom
    Posted Outubro 29, 2022 at 10:12 am

    O Málaga acaba eliminado pelo Dortmund numa eliminatória épica em 2012/2013, aconselho a rever.

    No último parágrafo a palavra “liderança” não é bem colocada, já que a entrada de um investidor significa que uma parte do capital da SAD foi vendida a esse mesmo investidor (daí o nome). Se o clube perder a maioria da SAD, na prática o clube deixa de ser dos adeptos para passar a ser de uma série de gente. Em Inglaterra é bastante comum haver um acionista maioritário, na prática o dono do clube porque faz o que quer e bem lhe apetece. Os adeptos não tem qualquer palavra (não há eleições não há nada, basicamente a administração do clube é designada pelo proprietário).

    É disso que se tem medo em Portugal. Mas em alguns casos houve sucesso, noutros nem tanto.

    • Ricardo Lopes
      Posted Outubro 29, 2022 at 2:40 pm

      Sim, essa é uma eliminatória memorável.

      No entanto, acho que a palavra está bem colocada. O dono da SAD quando a compra, passa a ser o líder. Até pode manter um Presidente diferente, que no caso do Málaga não aconteceu (no caso do Botafogo, Durcesio Mello segue como presidente). Ainda assim é o líder do futebol profissional.Os adeptos perdem a sua importância, principalmente na tomada de decisão. É como tu dizes, não há eleições, não há nada. No entanto, continuam a ter uma voz, daí a realização de manifestações e protestos, como no caso mais recente em Manchester. Se o dono pode ser um mau líder? Claro que sim (o que se teme em Portugal), mas não deixa de ter a liderança.

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