O que é, na sua gene, um clube de futebol? A reposta a esta questão é de uma simplicidade assustadora.
Vejo um clube de futebol como um promotor de espetáculos, e que espectáculo é ver a equipa que nos desperta as emoções mais efusivas ou até mesmo as mais irracionais. Quem não vibra com a sua equipa, com aquele jogo contra o eterno rival, seja no campeonato distrital, em competições amadoras ou profissionais. Esta devia ser a base de tudo, mas não é!
Hoje assistimos ao clube-empresa, onde um simples adepto para perceber aquilo que acontece dentro das 4 linhas tem de tirar alguns cursos e umas quantas pós-graduações. Não quero com isto dizer que questões administrativas, jurídicas e financeiras não devam ser expostas e debatidas. Aquilo que acho é que este não devia ser o foco principal dos intervenientes directos, dos comunicadores e da comunicação social. Tácticas, dinâmicas, 4x3x3, 4x4x2, jogo interior, transições ofensivas, contratações, dispensas, vendas, qualidade de treino, tanto que se devia falar, sobre futebol!!
Se analisarmos friamente o funcionamento da relação entre adeptos e os seus clubes vemos o seguinte: dos muitos adeptos alguns escolheram ser sócios, não só para ter acesso a bilhetes e descontos mas também para ter o direito de escolher os seus representantes na gestão diária do clube para o qual contribuem. Esta “entrega” deveria ser das coisas mais importantes de toda a relação. Pelo meio o acompanhamento em Assembleias Gerias que deveriam funcionar pela razão que existem – validar, expor, perguntar, debater, excluir, integrar. Tudo que possa fugir a entre controlo, por parte dos sócios dos clubes , não deveria ser permitido. A “venda da maioria do capital social” tem de ser um expressão expulsa do vocabulário desportivo!
Vamos ao lado prático, mais de 20% do clubes da Liga Nos preenchem 100% do seu orçamento apenas com a receita proveniente da venda dos seus direitos televisivos – mal negociados, diga-se. Esta rubrica é suficiente para “por a máquina a trabalhar”, em grande parte dos clubes, isto é, ter um plantel minimamente competitivo para encarar a competição. Não falamos de patrocinadores(locais, nacionais ou estrangeiros), bilheteira, quotizações ou venda de passes de jogadores. A isto, em equipas de patamar superior, podemos juntar as receitas provenientes de participações europeias.
Analisando caso a caso a dúvida é sempre a mesma, qual é então a real mais valia de vender, quase sempre ao desbarato, a autonomia de um clube? Quantos clubes, em Portugal, “deram o salto” de uma forma inequívoca através da sua venda?
Não obstante a falta de fundamento jurídico para a correta regularização da relação Clube-SAD o principal problema é que numa venda o clube – diga-se os sócios – ficam de mãos e pés atados. Assim sendo fica quase impossível jogar futebol.
Visão do Leitor: José Pereira


10 Comentários
Amigos e bola
Os projetos dos clubes em Portugal são frágeis porque não são autossustentáveis.
Vivem dos empresários e do agenciamento (Famalicão, Portimonense, Gil Vicente são dos casos mais evidentes) e depois formação nada.
Não duvido que haja mais Diogos Jotas ou Brunos Fernandes que não formados nos 3 grandes.
Depois isto também resulta nalgum divórcio dos clubes com os seus adeptos porque percebem que os seus clubes são jogos de interesse.
Em em resultado disso temos estádios vazios, pouca qualidade, etc. É o que temos.
Antonio Clismo
Se a FPF tivesse políticas de dinamização em termos de formação para os clubes extra-grandes não tenho dúvidas que surgiriam Diogos Jotas e Brunos Fernandes todas as semanas.
A situação é tão cómica que os clubes têm apenas formação para inglês ver, porque são obrigador para terem licenciamento. Mas pouco ou nada aproveitam das suas formações, porque é muito mais fácil ir comprar já um jogador feito á América do Sul por um milhão do que ter tempo e engenho para criar os próprios jogadores.
Depois claro, em termos financeiros, quem vier por último que feche a porta.
Joga_Bonito
Mais um tiro ao lado. Não há jotas todas as semanas. Quando Portugal tinha mais população que hoje, mais jovem, e uma grande base do futebol de rua ninguém via Jotas todas as semanas. Onde é que isso existe? O talento é limitado, ou você acha que o talento se constrói?
E pare lá de criticar as compras de jogadores estrangeiros, porque quando aquele cepo com dois olhos do Thierru foi vendido por 12 milhões ao Valência não o vi a queixar-se que os nossos vão lá tapar o lugar a alguém. Posso contudo imaginar que os seus comentários não tardariam caso o Sporting ou outro clube qualquer comprasse um jogador por 12 milhões que nem um cruzamento consegue fazer.
Honestidade intelectual exige-se…
Joga_Bonito
* do Thierry
Joga_Bonito
Acho a compra de clubes um absurdo total. Os clubes foram criados pêlos adeptos, um tipo chegar aqui e dizer “vou comprar o clube e já agora mudá-lo para outro, porque aí pagam bilhetes de centenas de euros, é esse tipo de consumidor que me interessa, não os adeptos que criaram o clube e só podem pagar até um certo montante.”
Por muitas voltas que se dê, quando chegarmos a isto no futebol é sinal que o futebol morreu.
Ninguém tem o direito de roubar algo aos adeptos que eles criaram. Porque é isso que se trata. aberrações como mudar os clubes de local e cidade, só mostram que não percebe o que é um clube: uma instituição, com símbolos e história. o resto é treta.
Usa-se exemplos como o Bruno de Carvalho ou o Vale e Azevedo para justificar a venda de clubes, pois eu digo. Quando os clubes são clubes, eles podem ser derrotados em eleições. Quando são donos, o clube desaparece, torna-se uma coisa e eles dispõe como querem.
Já temos ditadores e máfias no controlo do futebol. Mas como são donos ninguém os tira. O futebol está a caminho de um abismo moral e só de lá sairá quando voltar às suas raízes Não é romantismo, é realismo de quem observa a realidade com olhos de ver. Um futebol onde se está a tornar cada vez mais impossível seguir o seu clube, com bilhetes ridículos, onde se tem de pagar balúrdios pêlos bilhetes, para ver na tv em sinal fechado, é um futebol sem futuro. Só não vê quem não quer.
Contudo, um movimento muito importante está a surgir no futebol, que são os novos clubes detidos pêlos adeptos, que são clubes renascidos de antigos clubes comprados ou os clubes fénixes como dizem os ingleses. Têm aumentado em número e em adeptos. Eles são o futuro e vão fazer renascer o verdadeiro futebol, não a treta onde se tornou.
Até lá estaremos teremos de levar com monstros como BdC sustentados pêlos milhões de petrodólares, e terá de acontecer alguma tragédia enorme para as pessoas finalmente verem a verdade. Isso dos clubes passarem a ter dono é um absurdo, que vai aumentar numa fase inicial, até ser derrotado num futuro próximo.
Dca
Só uma pergunta. Não são os próprios adeptos que decidem se o clube pode ser vendido? Eu acho que sim. Não é chegar e comprar, os adeptos têm poder de decisão. Acho eu.
Goncalo Silva
Também acho que sim Dca. Creio que isso é discutido em assembleia, portanto não tenho pena nenhuma.
Há muitos clubes que não são vendidos porque os adeptos não querem, e um bom exemplo disso são os 3 grandes portugueses.
Lopes da Silva
Um bom exemplo disso são os 3 grandes? Os 3 grandes têm SAD, se têm SAD quem manda não são os adeptos.
TOPPOGIGGIO
Creio não ser bem assim, desde que a SAD tenha menos de 50% e por conseguinte o clube mais de 50%. Contudo, não tenho a certeza absoluta.
Joga_Bonito
Isso não é assim. O MU foi comprado à revelia dos adeptos. Como a Sad estava cotada em bolsa, bastou comprar as acções e o clube passou a ser do Glazer, que para cúmulo passou a dívida que contraiu para comprar o clube, para o clube. O MU passou do clube mais bem sucedido financeiramente para um clube com um passivo enorme. E muitas compras foram assim. O caso mais vergonhoso foi o do Wimbledon, que até mudaram o nome e local, anulando a identidade do clube.