Assim como a história da humanidade se pauta por fluxos e refluxos, o desporto não fica à margem desse fenómeno. No caso do UFC estamos a assistir a um fenómeno semelhante: o fim do domínio dos grapplers e a consequente ascensão dos strikers.
Há um ano, olhando para os atletas campeões, vaticinou-se um inevitável domínio dos grapplers, o que para os chamados “casuals” do desporto era o fim do entretenimento. A luta mastigada, pausada ou paciente era encarada como um anti-clímax, um estilo de luta desenhado à medida dos scorecards que não empolgava.
Incapazes de encontrar beleza ou brilhantismo num takedown, eficiência e objectivo no ground and pound, inteligência e astúcia no ground control, muitos foram os fãs que desesperaram com o estilo de luta popularizado pelos atletas do leste da Europa, os mesmos que simplesmente destronaram a hegemonia do congénere wrestling americano.
Isto não é uma crítica. Aliás, é compreensível. Não foi um bom takedown que nos fez levantar dos sofás no antológico UFC 300, foi precisamente o momento quando Holloway apontou para o centro do octógono e nos 10 segundos finais, depois de uma troca de golpes com Gaethje, no último segundo, este apagou as luzes. Nem foi o ground and pound que tornou lendário o combate que opôs Forrest Griffin e Stephan Bonnar.
Para esses, para os que procuram adrenalina e dopamina, os dias do domínio do grappling chegou ao fim. Há um ano o UFC vivia sob a hegemonia clara do grappling, com seis campeões cuja base de luta era levar o adversário para o chão e controlar ou finalizar a partir dali. Nos heavyweight, tínhamos Jon Jones; nos middleweight Dricus du Plessis; nos welterweight, Belal Muhammad; nos lightweight, Islam Makhachev; no bantamweight, Merab Dvalishvili; e nos flyweight masculinos, Alexandre Pantoja. A lista era de elite, mas o cenário mudou radicalmente.
Merab perdeu para Petr Yan (striker); Pantoja perdeu para Joshua Van (striker); Dricus (grappler) perdeu para Khamzat (grappler), que depois perdeu para Strickland (striker); Carlos Ulberg (striker) tomou o lugar de Alex Pereira (também striker) no meio-pesado, mantendo a hegemonia do striking; Tom Aspinall (striker) substituiu o Jones (grappler); e a estes, juntamos Ilia Topuria (striker), campeões dos lightweight que irá defrontar Justin Gaethje (striker).
Neste momento, o que podemos dizer é que o único representante dos grapplers na devisão masculina é Islam Makhachev, nos welterweight . Mas o daguestanês que ganhou o cinturão a Jack della Maddalena (striker) por decisão unânime, tem pela frente Ian Machado Garry, Carlos Prates e Michael Morales, todos strikers que ocupam os lugares cimeiros no ranking da divisão.
O que estamos a assistir, para os fãs da emoção, é o regresso do produto de espetáculo e este elemento, associado ao contrato do UFC com a Paramount pode ajudar a catapultar o desporto novamente. Poderemos voltar a viver os tempos em figuras como Chuck Liddell, Anderson Silva, Maurício Rua, Rampage Jackson, Wanderlei Silva e toda a trupe oriunda do Pride traziam consigo o ADN do espectáculo cada vez que entravam dentro do octógono.
Naturalmente que isto não é suficiente, a própria companhia terá que se chegar à frente com valores monetários suficientes para motivar os atletas a aceitarem desafios, a meterem o seu legado na linha. Vai ser necessário que o UFC tenha vontade de contrariar o marasmo deste primeiro semestre. Para já, o que podemos dizer é que estão criadas as condições para highlights regulares.
António Azevedo

